Na TV… os vícios e o excesso de consciência da segunda temporada de “How to Get Away With Murder”

A veterana Cicely Tyson reprisa o papel de Ophelia, mãe de Annalise Keating (Viola Davis), em um dos episódios mais bem resolvidos da problemática segunda temporada de How to Get Away With Murder.
Gostando ou não, a primeira temporada de How to Get Away With Murder abriu muitos precedentes na TV aberta – e não foi apenas como uma importante janela para alguém como Viola Davis, uma profissional um tanto preterida no cinema, ter o espaço que merece, arrasar e fazer história como a primeira atriz negra da história a vencer o Emmy de melhor atriz em série dramática. O programa criado por Peter Nowalk trouxe, de forma muito natural, diversidade ao mundo do seriados, algo até então só tratado em produtos de TV fechada ou on demand como Orange is the New Black. É preciso coragem para propor e bancar a ideia de, por exemplo, ter uma protagonista negra difícil, complexa e de retidão de caráter muito duvidosa. Mas How to Get Away With Murder conseguiu, e foi além: em seu segundo ano, além de temas já abordados como a homossexualidade, colocou juízes latinos e orientais para comandar tribunais e centralizou todo um episódio na questão da transfobia. Ou seja, tudo muito orgânico, representando uma grande vitória para tempos que estranhamente se revelam cada vez mais conservadores.
O que acontece, então, com esse suspense irresistível que simplesmente desaba em qualidade na sua segunda temporada? Ora, acúmulo de vícios e excesso de consciência de seus maiores trunfos. Antes disso, valorizemos o que se destaca: Viola Davis segue maravilhosa em sua composição e tem aqui um dos grandes momentos da sua carreira: a tensa cena do episódio What Did We Do? que revela as razões de uma fatalidade até então escondida em flashforwards. How to Get Away With Murder também segue provocativa quando questiona a índole de sua protagonista, com destaque para os momentos em que ela se utiliza de sérias mentiras sobre o passado de sua agora-não-tão-fiel escudeira Bonnie (Liza Weil, com momentos muito dignos) para livrar sua pele de situações complicadas. Nos primeiro nove episódios, a série se sai muito bem com esses méritos, mantendo o nível interessante de guilty pleasure da primeira temporada – e com o bônus de se aproximar ainda mais de Damages (uma referência assumida dos criadores) ao adotar um único caso jurídico para guiar os principais conflitos da drama.

Fundamental para trazer ainda mais complexidade para o perfil da protagonista, a participação de Famke Janssen, no entanto, é um dos tantos aspectos que se diluem nos vícios da série.
A situação desanda mesmo na segunda parte da temporada, exibida após o recesso de final de ano e finalizada no último dia 17 de março. É triste constatar que How to Get Away With Murder se perca em problemas tão fáceis de evitar. O primeiro deles é o mais óbvio: dar atenção excessiva a um mistério envolvendo Wes Gibbins, personagem desinteressantíssimo interpretado pelo igualmente inexpressivo Alfred Enoch. E o segundo é o mais grave: descambar para a implausibilidade ao querer surpreender a cada resolução. Dessa forma, ao embolar o meio de campo com uma infinidade de situações que não surtem qualquer efeito a não ser o da surpresa momentânea, o programa estrelado por Viola Davis se agarra ao vício tão comum da TV aberta de achar que formar pares românticos aleatoriamente ou fazer um figura se tornar inesperadamente um assassino é o suficiente para segurar o interesse. Só que o efeito aqui é justamente o contrário: quase tudo o que acontece na segunda metade da temporada é inverossímil, fazendo com que se torne um eterno exercício de paciência ter que comprar momentos que claramente não combinam com a índole dos personagens ou com a própria realidade. How to Get Away With Murder agora é adepta do choque pelo choque antes da verossimilhança do roteiro, e isso transforma o seriado em uma completa bagunça.
Indo e voltando no tempo para, no fim, não nos reservar revelações tão instigantes assim, a atração conseguiu diluir até mesmo o impacto de Viola Davis com o objetivo de sempre pegar o espectador de surpresa. Mais do que isso, a segunda temporada de How to Get Away With Murder comete outro pecado que praticamente coloca mais um prego em seu precoce caixão: o de tomar a consciência que sua atriz protagonista é o que existe de mais valioso no programa. Essa tomada de consciência é um tropeço porque os roteiristas, na ânsia de conseguir mais um Emmy para Viola Davis e fazê-la brilhar, não hesitam em pensar nos mais variados tipos de problemas e transformações para colocar em seu texto. Com isso, tem Viola grávida, baleada, acidentada, bêbada, drogada com remédios, sem peruca e até mesmo atacada fisicamente por um sequestrador… Não dá para perdoar que o criador Peter Nowalk e sua equipe não compreendam que a atriz brilha com qualquer material e que um simples diálogo familiar dela com a veterana Cicely Tyson vale mais do que um acidente de carro em que ela está envolvida. Poxa, ela e nós, do lado de cá, merecemos muito mais!
Na TV… a ascensão dramática da segunda temporada de “The Affair”

Seres humanos repletos de falhas, os personagens de The Affair chegam ao segundo ano com suas angústias exploradas com mais complexidade por um roteiro em constante amadurecimento.
Ninguém mais parece se importar com The Affair. O próprio Globo de Ouro que, no ano passado, celebrou o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem com os troféus de melhor série e atriz dramática não deu muita importância para a temporada que estreou este ano, conferindo-lhe apenas uma merecida indicação para Maura Tierney como atriz coadjuvante. O público também já não acompanha mais a trama com fervor e é difícil encontrar quem tenha assistido religiosamente ao segundo ano do relacionamento entre Alison (Ruth Wilson) e Noah (Dominic West). O esquecimento é crime dos grandes porque The Affair consegue, em sua nova temporada, abraçar muito mais a complexidade dos personagens e dos sentimentos ao invés de se focar na engenhosidade dos fatos – e o resultado é uma bela ascensão dramática para um programa que merecia mais atenção por sua maturidade ao falar sobre relacionamentos complicados e seres humanos repletos de falhas.
Nunca escondi os meus receios com os rumos de The Affair (afinal, até onde dura uma série cujo plot se sustenta a partir um caso extraconjugal?) e muito menos com o suspense capenga que os criadores colocaram em flashforwards na trama e ainda estenderam para o segundo ano, mas é bom ver uma maior maturidade na nova temporada, que coloca nos holofotes discussões muito mais adultas acerca de casamentos, traições e relacionamentos. Há muito a ser dito sobre esses temas e a leitura deve parar por aqui para quem não quer pegar spoilers, mesmo que os próximos parágrafos tentem dizer o mínimo possível sobre os acontecimentos da segunda temporada, cujo último episódio foi exibido no dia 20 de dezembro.
Apesar de consistente na criação de seus personagens e no desenvolvimento de seus dramas pessoais, a primeira temporada de The Affair não deixava de ser uma fase introdutória que eventualmente ganhava tons de novela mexicana (impossível esquecer um encontro decisivo na estação de trem ou uma arma apontada para que determinado personagem finalmente tomasse uma decisão). No segundo ano, parece não existir mais tanto tempo para dramas simplistas envolvendo descobertas de traição ou sucessões de mentiras – e, se eles existem aqui, estão todos bem arquitetados e com ótimos propósitos. De brinde, os roteiristas ainda retornaram com uma nova aposta para a estrutura do programa: se antes The Affair se construía a partir da percepção isolada dos protagonistas Noah e Alison, agora a história também ganha o ponto de vista de Helen (Maura Tierney) e Cole (Joshua Jackson), os cônjuges traídos.
Tem quem saia ganhando muito com a multiplicidade mais ampla de olhares, como Helen, a esposa abandonada que, insegura e sempre vivendo à sombra do dinheiro dos pais, tenta reconstruir sua vida como mãe e mulher. Já outros saem perdendo, como Cole, dono do arco dramático menos interessante e que parece viver uma história paralela, já que seu personagem está distante do centro dos acontecimentos (ele vive em outra cidade e inicia um relacionamento previsível com uma estrangeira vivida pela atriz Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar em 2005 por Maria Cheia de Graça). Os quatro pontos de vista organizados de forma aleatória estagnam, em princípio, o andamento de The Affair (principalmente nos episódios iniciais, quando a história demora a engrenar), mas é questão de tempo para que comecem a enriquecer a história como um todo.

Um dos destaques da segunda temporada, Maura Tierney representa The Affair no Globo de Ouro com uma indicação na categoria de melhor atriz coadjuvante.
É particularmente eficiente como os roteiristas lançam diferente olhares para o divórcio entre Noah e Helen, por exemplo. A separação está sendo mais amigável ou mais agressiva? Helen é uma figura magoada ou indiferente? E Noah? Seria ele o pai realmente devotado ou o homem que está interpretando tal papel para ganhar a guarda dos filhos? Se em termos de conflitos o divórcio tem bobeiras dramáticoa quase imperdoáveis (sério mesmo que precisava Helen se descuidar com drogas para a situação começar a se resolver?), em análises The Affair se compensa – e é importante perceber como a percepção muda discretamente de um capítulo para outro até mesmo nos figurinos e na fotografia para cada um dos personagens.
Quando o divórcio finalmente se resolve, The Affair passa a lapidar seus dramas com uma maturidade invejável, lançando questões mais do que pertinentes não apenas para os personagens mas para os próprios espectadores. Afinal, como se configura a confiança em um relacionamento que nasceu justamente a partir da quebra dela em um outro casamento? Como construir uma nova família depois de você ter abandonado a sua? E a mais intrigante: o que acontece quando um caso extraconjugal vira um romance oficial? Afinal, não seria justamente a impossibilidade do amor o afrodisíaco daquela relação? Noah e Alison não imaginavam que o novo caminho que trilhariam juntos seria tão difícil, especialmente quando ambos se dão conta de que, no final das contas, viraram um casal normal como qualquer outro. A traição, na realidade, pode ter sido apenas um intervalo de suas vidas individuais tão cheias de dúvidas – e dúvidas que, vale refletir, não têm necessariamente a ver com a vida compartilhada, e sim com o que cada um quer para o seu próprio destino, independente de relações.
As interpretações sobre a traição em si ganham ainda mais facetas na segunda temporada. Para Alison, pode ser um problema emocional, uma compulsão ou o resultado de uma vida em constante insatisfação. Já Noah chega a questionar que, para um artista como ele (hoje um escritor finalmente famoso e reconhecido pela crítica), pode ser uma forma de conhecer o máximo de pessoas possíveis, viver o maior numero de experiências e apurar cada vez mais os sentidos. O que Noah considera é que o descompromisso com a monogamia talvez seja algo antropológico e não necessariamente desleal ou meramente sexual. Mas ele seria um cretino por querer isso e uma vida estável ao mesmo tempo?

Joshua Jackson tem um bom personagem, mas rivaliza com um roteiro que o coloca longe do centro dos acontecimentos principais da trama.
Sujeito facilmente odiável em um primeiro momento, Noah, na realidade, tem todas suas falhas justificadas ou pelo menos discutidas. Autor celebrado e com o sucesso cada vez mais inflando seu ego, ele parece novamente não saber o que fazer da vida até mesmo com toda a inesperada repercussão de Descent, seu romance secretamente autobiográfico baseado no relacionamento extraconjugal com Alison. Sua nova esposa, por sinal, agora lhe parece quase um estorvo durante a turnê de promoção do livro pelos Estados Unidos. Noah, é verdade, continua uma figura das mais complicadas de se torcer, mas agora está muito mais humano, complexo e defendido com extrema dignidade por Dominic West (que já revelou ter tremendas dificuldades com o papel por justamente odiar o ser humano que seu personagem é).
West, aliás, tem momentos bastante inspirados nesta temporada, muitos deles em um episódio ambientado em uma consulta com sua terapeuta (Cynthia Nixon), e outros na season finale, onde admite que, apesar dos pesares, não se arrepende de ter traído sua ex-exposa com Alison, já que assumir essa relação o livrou de uma vida de comodismos, insatisfações e arrependimentos. Também são belos os momentos que o ator compartilha com Maura Tierney, principalmente aqueles em que ambos já percebem que viraram a página e conseguem falar sobre passado, presente e futuro como duas pessoas que se conhecem há muito tempo e já viveram muitas coisas juntos. A moral da história é que todos os personagens de The Affair são pessoas profundamente falhas e que, cedo ou tarde, e isso é o mais bonito, admitem seus erros com a vontade de repará-los, mesmo que muitos deles sejam eternos.
O calcanhar de aquiles desse apanhado de discussões adultas segue sendo a pífia tentativa de The Affair criar algum suspense com um assassinato e, dessa vez, um julgamento no tribunal. Não funciona porque: a) o clima de suspense já não condiz mais com a trama contemplativa, b) entrega cedo demais revelações que seriam mais impactantes em ordem cronológica, c) a morte em questão envolve um personagem secundário e desinteressantíssimo, e d) como toda novela que inventa de última hora o mistério de um assassinato só para instigar a audiência, cria-se a expectativa e a resolução termina sendo um tanto forçada só para surpreender. Não sei quem colocou na cabeça dos roteiristas que esse mistério deveria durar duas temporadas para ser resolvido e muito menos quem achou essa uma boa jogada para uma história que, neste segundo ano, só cresceu dramaticamente. Dados os acontecimentos do último episódio, tudo indica que, no terceiro ano, as coisas devem ser bem diferentes – e The Affair só tem a ganhar com isso.
Na TV… como a HBO marca época com “The Leftovers”

Justin Theroux e o grande momento de sua carreira no episódio I Live Here Now: submerso em uma atmosfera inspirada em David Lynch, o ator emociona ao cantar Homeward Bound.
A HBO se tornou HBO por respeitar suas ideias e projetos. Não é toda emissora que aposta firme em cada escolha tomada até o fim. Vejam The Leftovers, por exemplo, que adapta o livro homônimo escrito por Tom Perrotta (para quem não lembra, ele é o autor das obras que originaram os filmes Eleição e Pecados Íntimos). A primeira temporada do programa, exibida em 2014, não pontuou bem em audiência (não que isso seja um fator decisivo para emissoras de TV fechada) e recebeu avaliações bastante mistas da crítica. Ainda que o primeiro ano dessa série criada pelo próprio Perrota e por Damon Lindelof (da amada e odiada Lost) adaptasse por completo o livro original, o que seria a desculpa perfeita para que o programa terminasse ali mesmo, a HBO reconheceu, apesar de tantos fatores contra, o potencial do enredo e de sua equipe, renovando The Leftovers para uma segunda temporada. Pois abençoados sejam os executivos da emissora, já que, com a nova aposta, todos nós fomos presenteados com uma dessas temporadas que eventualmente chegam à TV para marcar época.
Assim como a temporada final de Breaking Bad mostrou como faz diferença um seriado ter roteiristas preocupados com a coesão da trajetória dos personagens, The Leftovers segue o padrão do programa criado por Vince Gilligan, com a diferença de tomar uma decisão das mais ousadas: ter o reboot como conceito em seu mais novo ano. Isso mesmo, dessa vez Kevin Garvey (Justin Theroux, no papel mais expressivo da sua carreira) abandonou o trabalho como policial de Mapleton e se mudou para Jarden, no Texas, onde busca um recomeço com sua nova família. Em contramão, a problemática que dá tom ao seriado continua a mesma: o repentino e inexplicado desaparecimento de 2% da população mundial no dia 14 de outubro. Só que Jarden, a nova cidade de nosso herói, ostenta um importante fato: nela, ninguém sofreu perda alguma no fatídico dia em questão, o que trouxe o seu apelido de Miracle (milagre, em português) e até mesmo a maravilhada busca dos turistas por um pouquinho da água que percorre o rio desse lugar supostamente abençoado. Ou seja, tudo é novo na segunda temporada de The Leftovers (até mesmo a abertura!), o que não deixa de ser uma forma de se distanciar do primeiro ano que tanto dividiu opiniões.
Com cenário e personagens novos, a temporada começa com um prólogo ambientado na pré-História, exatamente no local que viria se tornar a milagrosa Jarden. Lindamente filmada, a sequência acompanha o momento trágico em que uma mulher grávida se separa de sua tribo após um grande deslizamento. Sozinha, ela precisa sobreviver na mata e inevitavelmente dar luz ao seu filho em condições nada adequadas. Descobrimos aos poucos que essa é uma bela introdução para a nova fase de The Leftovers porque ela sintetiza exatamente uma das propostas da nova temporada: todos nós sofremos perdas de um jeito ou de outro, e não é porque Jarden não foi atingida pelo inexplicado desaparecimento mundial que ela não vive dramas particulares envolvendo despedidas. Dessa forma, os Garveys podem continuar como protagonistas da série, mas, no epicentro dos novos dramas, está o clã dos Murphy, que, como descobrimos logo em Axis Mundi, o capítulo de estreia, precisarão lidar com um desaparecimento inesperado. Mas, afinal – e aí está o xis da questão -, um desaparecimento de qual natureza? É a partir desse ponto que a série concentra suas discussões nesta que é a análise mais interessante pontuada pela obra de Tom Perrotta: o luto e a dificuldade que temos em seguir em frente.

Vencedora do Emmy 2015 de melhor atriz coadjuvante em minissérie por American Crime, Regina King também está ótima e digna de prêmios como a matriarca da família Murphy em The Leftovers.
A ruptura das convencionalidades estruturais surge logo no primeiro capítulo, quando The Leftovers, ao não mostrar o que de fato aconteceu com os personagens da série após a primeira temporada, prefere simplesmente nos jogar no universo de novas figuras ao longo de um episódio de quase uma hora. Kevin Garvey e cia só dão as caras nos últimos minutos de Axis Mundi, mostrando uma imensa maturidade por parte dos roteiristas, que claramente confiam em seu material e, principalmente, em seu público. Toda a primeira metade dessa temporada divida em 10 episódios é, na realidade, um primor de negação ao lugar-comum. Ao instalar um mistério envolvendo os Murphy, a série se utiliza de dois episódios posteriores para narrar outros pontos de vista daquele mesmo período. Isso significa que, após jogar os espectadores em um conflito repleto de questionamentos, The Leftovers só retoma as discussões do tal mistério no quarto episódio. Assim, em termos cronológicos, a série simplesmente não anda ao longo desses capítulos. Não é qualquer programa que tem peito para assumir uma decisão dessas – e o melhor: a jogada não é para segurar a audiência ou coisa do gênero, e sim outro movimento em direção a uma construção dramática mais completa e transgressora.
Uma das práticas mais inspiradas da primeira temporada da série é retomada aqui: a de produzir episódios-solo para determinados personagens. No ano anterior, tivemos Nora (Carrie Coon) e Matt (Christopher Eccleston) agraciados com essa escolha (episódios assim são um presente para qualquer ator e personagem), e aqui a fórmula se repete com personagens como o próprio Matt e o protagonista Kevin. É um desafio começar narrando uma temporada a partir de diferentes pontos de vista e depois eventualmente estruturá-la com episódios-solo porque a trama como um todo pode se estagnar ou até mesmo atrasar questões importantes. Infelizmente, The Leftovers não está isenta de tropeços assim, conforme fica evidente no penúltimo episódio, dedicado a uma personagem que já não está entre as mais interessantes: Meg, interpretada por Liv Tyler. Nele, parece que resolvem tirar o atraso de muitas explicações de forma apressada e destoante do novo clima, tornando esse o único erro de uma temporada praticamente perfeita. Apesar dele, acompanhar capítulos dedicados exclusivamente a apenas um personagem é sempre uma experiência recompensadora, e o seriado sabe fazê-los como ninguém.
Mesmo com o avanço mais devagar em termos de acontecimentos por causa da constante estrutura diferenciada dos capítulos, The Leftovers nunca deixa de inserir novos e instigantes temperos à mistura, como a crescente loucura de Kevin, que ainda tenta superar (literalmente) importantes fantasmas de seu passado. E o que dizer das simbologias ou até mesmo das ironias que o inteligentíssimo roteiro propõe? Não é curioso que, em uma cidade tão religiosa e milagrosa como Jarden, o reverendo Matt seja justamente a pessoa cuja palavra é mais questionada? E também não chega a ser tocante a forma como o episódio Lens finalmente desvenda o que está por trás da cena em que Erika (Regina King) desenterra um pássaro na floresta? Esta segunda cena, em particular, é um dos pontos altos da temporada, pois, fora a precisa direção de Craig Zobel que torna claustrofóbico o diálogo da personagem com Nora, as duas atrizes dão um show em cena. E, de quebra, a sequência que dá continuidade a esse momento é um dos momentos mais assombrosos da TV em 2015, graças também à sempre marcante e poderosa trilha instrumental de Max Richter.

Carrie Coon, sempre muito crível e humana como a sofrida Nora, é uma das tantas atrizes do elenco feminino que elevam a carga dramática de The Leftovers.
Falando em elenco, são poucos os grupos de atores tão irrepreensíveis como esse, especialmente se nos referirmos às mulheres. Começamos por elas: Regina King, a nova adição da temporada, tem momentos dignos de prêmios (a cena já citada do episódio Lens ou qualquer aparição sua na season finale, com destaque para a sequência na ponte); Carrie Coon segue esbanjado humanidade como a mulher que perdeu toda a família no desaparecimento do dia 14 de outubro e tenta se agarrar a qualquer vislumbre de esperança rumo a uma nova vida; Ann Dowd, como o tormento na vida do protagonista Kevin, transmite com perfeição toda a provocação e o incômodo oriundos de sua personagem; e, por fim, Amy Brenneman, ex-esposa de Kevin que se entregou aos Remanescentes Culpados (grupo, seita, culto ou como você preferir que acha que o mundo acabou após o desaparecimento mundial e que isso nunca deve ser superado), dá sua boa contribuição à verossimilhança dos personagens mesmo em momentos menores.
Na ala masculina, Justin Theroux, como um homem lindíssimo, mas estranhamente inseguro e nada ciente de seu apelo físico, pela primeira vez está plenamente no controle de seu protagonista, surpreendendo nos seus dois episódios-solo e, principalmente, em I Live Here Now, capítulo derradeiro que entrega o grande momento da carreira do ator: aquele em que ele canta Homeward Bound, um dos clássicos da dupla Simon & Garfunkel. Enquanto isso, Christopher Eccleston continua impecável como o reverendo Matt e, assim como um bom padre, faz um magnífico uso das palavras. Fechando o expressivo grupo masculino está Kevin Carroll, debutante na série, que faz uma composição das mais instigantes: seu John Murphy é ao mesmo tempo um sujeito muito humano e perigoso, fazendo com que nossa compaixão por ele sempre seja alternada por uma incômoda insegurança. Se justiça existisse no mundo e prêmios significassem alguma coisa, o elenco de The Leftovers seria celebrado por todos os cantos (o único prêmio que fez justiça na temporada desse ano foi o Critics’ Choice Awards que, além de indicar o programa a melhor série, lembrou dos atores em todas as categorias de atuação).
Sucesso de crítica e elencada por diversas publicações como uma das grandes séries de 2015, a atração, no entanto, pode realmente dividir opiniões quando chega a International Assassin, o oitavo episódio da temporada. Mergulhando em um universo à la David Lynch para ambientar a trama no subconsciente de um personagem e resolver um cliffhanger aparentemente defintivo, o episódio dá uma guinada brusca e momentânea de tom na série. A polêmica vem em função de International Assassin usar justamente de um devaneio para ajustar um conflito crível e pé no chão. É preciso comprar a proposta da viagem para não se decepcionar com as resoluções – mas é garantido: para quem embarcar no espírito, esse é um dos melhores momentos da TV em 2015 (o episódio, inclusive, está indicado ao Writer Guilds of America, o sindicato de roteiristas, na categoria de melhor roteiro de episódio dramático).
Encaro, na realidade, a provocação de International Assassin como outra inovação de um programa em constante evolução e transgressão, o que nunca encontramos tão facilmente por aí. A HBO novamente saiu em defesa do programa que, mesmo com boas críticas, seguiu com a audiência despencando: em 2016, The Leftovers se despede da TV, mas tendo a oportunidade de planejar seu desfecho com uma nova temporada de 10 episódios. Por mais que o segundo ano pudesse perfeitamente encerrar a trama sem qualquer prejuízo (a cena final é de uma simbologia linda e definitiva), é empolgante ver que temos mais pela frente – e com o devido planejamento. Ainda assim, não será fácil se despedir de um programa como esse. A TV sempre merece curtir ideias inovadoras e bem conduzidas pelo máximo de tempo – e qualidade – que puder.
Na TV… o cinema e a censura em “Magnífica 70”

Magnífica 70 e o cinema em tempos de opressão: Marcos Winter é Vicente, censor da ditadura militar que descobre secretamente a paixão por fazer filmes.
É simples dizer que Magnífica 70 é uma série repleta de caricaturas e exageros, seja na construção de seus personagens ou até mesmo na forma como desenvolve e soluciona seus conflitos. Entretanto, essa nova produção da HBO brasileira está longe de ser tão tola assim. Na verdade, a história do atormentado Vicente (Marcos Winter), censor da ditadura militar que se apaixona pelo universo dos filmes da Boca do Lixo, é desenhada a partir de uma metalinguagem interessantíssima. Adotando basicamente os mesmos tons excessivamente acentuados – e por que não quase toscos – em interpretação, direção e texto das pornochanchadas que se consagraram com o público brasileiro na década de 1970, a série conquista pelo tom deliciosamente hiperbólico, mas também por fazer um recorte da ditadura brasileira a partir dos bastidores das produções cinematográficas daquela época. Ou seja, além de sua inteligente jogada narrativa, Magnífica 70 ainda é um retrato criativo desse conturbado período da nossa história exaustivamente explorado no cinema e na TV.
Dirigida em alternância pela dupla Carolina Jabor e Cláudio Torres (ele também é criador, roteirista e produtor), o seriado demanda certo tempo para que o espectador finalmente embarque em sua pegada de excessos. Afinal, não há duvidas de que hoje incomoda o uso carregado de uma trilha que faz questão de sublinhar cada momento da história ou as leituras de antagonistas que não possuem qualquer humanidade. Mais do que isso: a própria estrutura explicativa já é considerada um defeito atualmente, especialmente quando a série utiliza flashbacks a todo momento (inclusive em preto e branco!) para relembrar fatos de episódios anteriores essenciais ao que está sendo discutido, por exemplo. Se não analisássemos a concepção da trama a partir deste viés de homenagem a um cinema que um dia já produzimos, Magnífica 70 seria quase irritante. Reconstituindo com bom humor e dramaticidade as dificuldades de se fazer arte nos tempos de ditadura, o programa se torna gradativamente envolvente, fazendo com que perdoemos escolhas questionáveis em qualquer recorte de tempo, como o tratamento dado ao general vivido por Paulo César Pereio, um homem cuja única missão na história é fazer o mal em todas as formas possíveis.

E o que falar das musas? Simone Spoladore é Dora Dumar, atriz que desponta no cinema da Boca de Lixo ao mesmo tempo em que administra uma conturbada e perigosa relação com seu irmão.
Aceitando que Magnífica 70 é divertida pela reprodução intencional desses cacoetes, encontramos uma excelente atração da HBO latino-americana. Da abertura que traz a irresistível canção Sangue Latino, do Secos e Molhados, aos próprios conflitos super novelescos, a série, que já foi renovada para uma segunda temporada, se sai muito bem ao evoluir seus conflitos a partir dos bastidores de um filme fictício chamado Minha Cunhada é de Morte. Entretanto, o texto também dá conta do recado até mesmo quando precisa colocar o protagonista Vicente no centro de discussões sobre quais aspectos determinavam a censura de obras no cinema ou sobre como se configuravam as relações de poder entre homens e mulheres naquele período. Isso tudo é encenado com fluidez porque Jabor e Torres compreenderam o tino cômico e os elementos dramáticos fundamentais para que tal homenagem aos tempos do cinema da Boca de Lixo funcionasse.
A jornada, claro, não poderia ser bem sucedida se o elenco também não estivesse totalmente em sintonia com a proposta de Magnífica 70. Felizmente, o grupo de atores reunido aqui é especial, começando pelo protagonista Marcos Winter, um ator que nunca chegou perto da quinta grandeza, mas que aqui funciona perfeitamente como um sujeito certinho e perturbado que finalmente encontra uma verdadeira vocação em sua vida – e pouco importa se, para as regras da época, ela apontava para o proibido. Enquanto pequenas participações como a de Stepan Necerssian dão conta do alívio cômico, as mulheres são as responsáveis por roubar a cena. E que mulheres! Simone Spoladore é ótima como a desejada (mas trambiqueira) estrela Dora Dumar, e Maria Luísa Mendonça tem um dos arcos dramáticos mais interessantes da primeira temporada como a esposa reprimida que aos poucos descobre os mais variados tipos de liberdade. São todos rostos certos para uma história bem conduzida em uma série que, fora seu valor histórico, sabe muito bem sobre o que e principalmente como está falando.



