Melhores de 2013 – Filme

Nunca tive qualquer dúvida, quando 2013 chegou ao fim, que Gravidade seria o meu filme favorito do ano – pelas mais diversas razões, que já foram explicadas em diversas ocasiões aqui no blog. O complicado mesmo foi montar este top 10, que certamente sofreria alterações se eu resolvesse revisitá-lo futuramente. Isso porque poucas vezes nos últimos anos tivemos uma média tão boa de lançamentos – o que acarreta muitas ausências, como a de O Som ao Redor, O Que Se Move, Blue Jasmine, Django Livre e Além da Escuridão – Star Trek (que também foram pontos altos do ano que passou). Mas o que consegui reunir abaixo representa fielmente tudo aquilo que mais me tocou em 2013, dos digníssimos dramas franceses ao retorno de grandes diretores, bem como dramas bastante tradicionais mas repletos de acertos. Ilustrando cada um dos longas, trechos dos textos que publicamos sobre eles. Nos vemos em 2015 com mais uma lista de melhores do ano!

2. O MESTRE
“Nunca prejudicado pela sua duração, o novo trabalho de Anderson, em contramão, faz um estudo temático fascinante e ainda tem a seu serviço elenco simplesmente extraordinário. O tempo deve fazer justiça a O Mestre“. +

3. OS SUSPEITOS
“Não é o policial de tiroteios, a investigação de resoluções desnecessariamente mirabolantes ou o drama de respostas fáceis. É melhor e mais envolvente do que isso, mas com a devida dose de sobriedade. Simples e completo, como há muito não víamos no gênero“. +

4. OS MISERÁVEIS
“Os detratores de Tom Hooper que me desculpem, mas não é qualquer um que consegue segurar um filme como esse. E, bem como o último grande musical que vimos (Moulin Rouge!), Os Miseráveis é assim: para se abraçar completamente ou para se renegar com todo o fervor”. +

5. O LUGAR ONDE TUDO TERMINA
“Frequentemente inesperado, O Lugar Onde Tudo Termina foge do convencional e consegue entrar na cabeça do espectador, que não consegue deixar de se sentir envolvido por cada personagem e cada avanço do roteiro“. +

6. AZUL É A COR MAIS QUENTE
“Crescer acontece mais rápido do que a gente imagina, diz Emma (Seydoux) em certo ponto. Adèle (Exarchopoulos) aprenderá isso. E nós, se ainda não chegamos a esse estágio, teremos esse mesmo aprendizado com a sua jornada“. +

7. FERRUGEM E OSSO
“Ferrugem e Osso nunca deixa de demonstrar plena sutileza no roteiro, nas atuações e na direção – o que certamente vai surpreender quem, por tantas razões e pelo lindíssimo trailer britânico, esperava algo mais lacrimoso“. +

8. ANTES DA MEIA-NOITE
“Não existem julgamentos ou respostas certas em Antes da Meia-Noite. O que o filme quer realmente mostrar é muito simples: nada dura para sempre. E não é porque uma história começou cheia de encantamento que ela vai brilhar até o último de seus dias“. +

9. ÁLBUM DE FAMÍLIA
“Alguns estereótipos perfeitamente admissíveis, segredos familiares envolventes, ressentimentos previsíveis mas bem explorados, cenas dramáticas eficientes e até mesmo alívios cômicos divertidos. Inovador? Não, mas como uma (boa) trama novelesca deve ser, com histórias sobre a vida mesmo, facilmente identificáveis por todos nós“. +

10. AS SESSÕES
“Um pequeno filme que coloca todos no mesmo patamar, onde a condição do protagonista é apenas pretexto para que se fale sobre sentimentos, frustrações e esperanças. Especial em sua humildade, As Sessões merece reconhecimento pela forma humana com que lida com questões tão delicadas“. +
Melhores de 2013 – Direção

O que o mexicano Alfonso Cuarón faz em Gravidade é algo sobrenatural. Muito mais do que provar que filmes de orçamentos estratosféricos podem sim alcançar as mais variadas plateias com a devida dose de inteligência e boa realização, o diretor também revolucionou a técnica aplicada neste filme. Difícil lembrar a última vez que o espaço foi tão crível e com uma história tão cheia de fluidez e emoção. Cuarón anos atrás já dava dicas de que sabia lidar com a ficção (Filhos da Esperança, mesmo não sendo um filme propriamente sonhador quanto ao futuro do planeta, subvertia muito neste sentido) e não é surpresa que um trabalho de direção tão inteligente como o de Gravidade venha justamente dele. A perfeita sintonia entre todos os setores do filme (da ótima trilha de Steven Price ao desempenho de Sandra Bullock) é responsável por imergir a plateia em uma viagem que certamente não veremos repetida com a mesma excelência tão cedo. Cuarón definitivamente, depois de tantos trabalhos exemplares, alcançou a indefectibilidade atrás das câmeras.
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OUTROS INDICADOS:

DENIS VILLENEUVE (Os Suspeitos)
Derrubando a tão corriqueira decepção que se instala em diretores estrangeiros que vão filmar nos Estados Unidos, Denis Villeneuve manteve a sua tradicional disciplina e intensidade ao realizar Os Suspeitos. Equilibrando com a devida inteligência uma história tensa e realista, ele surpreende com uma história que nunca subestima a inteligência do espectador ou que tenta parecer mais complexa do que realmente é. Pena que o filme não recebeu a atenção que merecia.

PAUL THOMAS ANDERSON (O Mestre)
Realizando aquele que é possivelmente o filme menos acessível de sua carreira, Paul Thomas Anderson novamente mostra o porquê é um dos realizadores mais interessantes de sua geração. Não existem concessões em O Mestre, e isto é uma grande qualidade que deve ser creditada inteiramente a Anderson. Fora o elenco excepcional, o diretor fala com firme segurança sobre assuntos complicadíssimos sem escancarar críticas ou tornar o filme didático ao fazer alusões à criação da Cientologia.

DEREK CIANFRANCE (O Lugar Onde Tudo Termina)
Não é muito complicado encontrar quem critique as transições e os saltos temporais de O Lugar Onde Tudo Termina, mas acho particularmente corajosa a direção de Derek Ciafrance ao contar uma história tão cheia de mudanças e longe de fáceis definições. Ele já havia provado ser um excelente diretor de elenco em Namorados Para Sempre – talento que se repete aqui – mas aqui ainda administra bem uma ambição narrativa que está totalmente de acordo com sua excelência como realizador.

JACQUES AUDIARD (Ferrugem e Osso)
Jacques Audiard seguiu o caminho contrário ao que muitos diretores escolheriam se tivessem o texto de Ferrugem e Osso em mãos.Nada de choros incontroláveis, melodramas ou uso exagerado de trilha. Ao narrar o relacionamento de um homem bruto que cria sozinho o filho com uma mulher que acaba de perder as pernas em um acidente, o diretor prezou pela sutileza e acertou ao inteligentemente adotar a lógica de que menos é mais.
EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)
Melhores de 2013 – Elenco

O cinema está cheio de filmes com elencos excepcionais mas que não sabem explorar o melhor de seus atores. Tomem como exemplo o recente e pavoroso O Mordomo da Casa Branca, que sequer conseguia dar um momento especial para qualquer um dos grandes profissionais que conseguiu reunir. E é justamente o oposto o que acontece com Álbum de Família. Poucas vezes – pelo menos nos últimos anos -, tivemos a oportunidade de ver tantos atores talentosos em perfeita sintonia e com as devidas chances. Este é o maior trunfo do filme de John Wells: proporcionar ao menos uma cena de destaque para que cada personagem tenha seu brilho e sua contribuição para a construção dramática da história. Ninguém fica de fora neste resultado. Dos celebrados desempenhos de Meryl Streep e Julia Roberts – ambas excepcionais – às breves mas muito sentimentais passagens de Benedict Cumberbatch e até mesmo Sam Shepard, o elenco de Álbum de Família é um modelo a ser seguido.
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OUTROS INDICADOS:

O MESTRE
Os desempenhos mais viscerais de 2013 estão em O Mestre. Se Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman estão explosivos em cena com personagens fortes e memoráveis, também não dá para esquecer Amy Adams, com um papel que pouco a pouco desconstrói a sua já reconhecida fama de mocinha ingênua. O trio impressiona a todo minuto e, sob o comando de Paul Thomas Anderson, dá total conta da história complexa e difícil. Impossível ficar diferente aos desempenhos dos atores, todos entregando um dos melhores momentos de suas respectivas carreiras.

O QUE SE MOVE
Desde o magnífico As Horas, de 2002, um trio de atrizes não comovia tanto como em O Que Se Move. É bem verdade que o filme do capixaba Caetano Gotardo está longe de ser uma experiência acessível, mas para quem compra a ideia desta história de perdas que atinge seu ápice emocional em sequências musicais (com as atrizes cantando ao vivo em estúdio) certamente se emocionará bastante. Andrea Marquee, Cida Moreira e Fernanda Vianna mergulharam de corpo em alma em suas sofridas personagens – todas mães que precisam lidar com algum tipo de perda – e o resultado não é menos que excepcional.

OS SUSPEITOS
Um grande filme que sabe-se lá por quê também foi um dos mais subestimados do ano que passou, Os Suspeitos, muito além de sua contundente história e do seu preciso trabalho de direção, também tem nos atores uma de suas principais forças. Enquanto Hugh Jackman outra vez adiciona um marcante desempenho para seu currículo, Jake Gyllenhaal prova que deveria dar uma atenção maior a papeis consistentes e minuciosos como o que tem neste filme. Ainda no suporte, Maria Bello, Viola Davis, Jeffrey Wright e, principalmente, Melissa Leo completam o time com louvor.

TATUAGEM
É contagiante a alegria e irreverência passada por toda a trupe do grupo Chão de Estrelas em Tatuagem. Mas também é igualmente envolvente os dramas individuais dos personagens. Enquanto Rodrigo García praticamente rouba a cena ao equilibrar magnificamente bem os exageros de sua Paulete, o jovem Jesuíta Barbosa desponta como uma das grandes promessas de sua geração e Irandhir Santos mais uma vez prova estar na lista dos melhores intérpretes atuais do cinema nacional. Outro exemplar trabalho de elenco vindo desta que é a melhor safra cinematográfica do Brasil nos últimos anos.
EM ANOS ANTERIORES: 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby
Melhores de 2013 – Montagem

Fiel colaborador do diretor Paul Greengrass, Christopher Rouse foi indicado ao Oscar por suas principais parcerias com ele – sendo merecidamente celebrado por O Ultimato Bourne, que revolucionou o modo de fazer filmes de ação em termos técnicos e temáticos. Por Capitão Phillips, Rouse foi novamente indicado ao Oscar, e é uma pena que não tenha sido premiado pela segunda vez. Parte da eficiência e funcionalidade dos filmes de Greengrass se devem ao trabalho sempre dinâmico do montador. E é simplista demais dizer que Rouse apenas costura com maestria a câmera na mão do diretor ou o nervosismo de cenas tensas e extremamente reais. Ele traz uma fluência única para Capitão Phillips, um filme que, passado quase inteiramente em ambientes extremamente restritos (um navio ou um mini-barco em alto-mar), poderia se tornar tedioso ou no mínimo repetitivo. Longe de ser o que acontece aqui, com uma montagem que constantemente se reinventa e que dá o devido ritmo para que Capitão Phillips sempre prenda a atenção do espectador.
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OUTROS INDICADOS:
A montagem de A Hora Mais Escura acompanha toda a contemporaneidade e realismo da caçada a Osama Bin Laden / A influência que uma geração tem sobre a outra é devidamente capturada pela montagem de O Lugar Onde Tudo Termina / A fórmula 1 volta a ter sua era de ouro retratada no cinema com Rush – No Limite da Emoção, que, com uma ágil montagem, fisga o espectador na tensão e no drama / Fundamental para o devido desenvolvimento de personagens e revelação de detalhes, a montagem é um dos pontos altos de Os Suspeitos
EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel
Melhores de 2013 – Ator

O ano era fortíssimo para os atores no Oscar 2013, mas não deveria haver nem abertura para discussão: Joaquin Phoenix era, de fato, o dono da grande interpretação entre os cinco concorrentes. Ele está um verdadeiro furacão neste difícil O Mestre. Mas excetuando os aspectos do filme que podem afastar várias plateias, é impossível não reconhecer toda a excelência do desempenho de Phoenix, que mais uma vez mostra sua grande versatilidade (e agora em 2014 ainda surgiu todo introspectivo e sensível em Ela!). Ao lado de Philip Seymour Hoffman, ele impressiona como o problemático Freddie Quell, construindo um personagem não apenas complexo e difícil em seus conflitos interiores, mas também na própria forma como ele se apresenta: percebam como Quell parece um sujeito cujas sequelas também se estenderam ao seu corpo magérrimo e quase corcunda. Com cenas simplesmente espetaculares, uma força irrepreensível e uma sintonia impecável com Hoffman, Phoenix apresenta em O Mestre aquela que é a melhor atuação de sua carreira até o momento.
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OUTROS INDICADOS:

BRADLEY COOPER (O Lado Bom da Vida)
Vivemos tempos em que os galãs cada vez mais quebram paradigmas e provam que, além da beleza, são sim bons atores. Se Leonardo DiCaprio já fez isso há anos e Matthew McCounaghey teve recentemente seu grande momento com Clube de Compras Dallas, não podemos esquecer também de Bradley Cooper. Pode até ser que Jennifer Lawrence tenha levado todas as honrarias, mas é Cooper quem comanda O Lado Bom da Vida – tanto em termos de tempo em tela quanto de talento. Como o bipolar Pat, ele surpreende em um elenco que inclui não só Lawrence, a estrela do momento, mas também Robert De Niro e Jacki Weaver. Cooper convence sem exagerar (o que poderia facilmente acontecer, dada a personalidade do personagem) e acerta em todas as pequenas construções.

DANIEL DAY-LEWIS (Lincoln)
Quando ganhou o Oscar de melhor ator por Lincoln, Daniel Day-Lewis brincou que Meryl Streep era a primeira opção de Spielberg para o filme – e que ele tinha sido originalmente chamado para interpretar Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Se os dois atores ganharam seus terceiros Oscars mais pelo chamariz de papeis biográficos, também venceram porque são monstros da atuação que voltaram a provar que nada é impossível para eles. Day-Lewis dispensa comentários e pode até ser que Lincoln não seja o papel que lhe dê mais chances de criações dramáticas, mas vê-lo em cena é sempre um show que vai além da mera reprodução de sotaques e trejeitos. No filme de Spielberg, claro, não é diferente.

HUGH JACKMAN (Os Miseráveis)
Hugh Jackman nasceu para viver o sofrido Jean Valjean de Os Miseráveis. Seu talento como cantor já havia sido provado anos atrás, quando ele foi apresentador do Oscar, mas poucas vezes Jackman mostrou pleno domínio de um personagem que atravessa anos tentando viver uma vida normal após ter se libertado da prisão. Não é só na voz, na linguagem corporal e nos benefícios que tira de uma maquiagem que o ator impressiona. Isso porque o filme nem completa 15 minutos e Jackman já tem um momento épico, quando seu personagem canta Valjean’s Soliloquy exorcizando todos os demônios pessoais em uma crescente sequência onde vai da sutileza às lágrimas incontroláveis. Certamente um marco para a sua carreira.

JOHN HAWKES (As Sessões)
John Hawkes não é o ator que você vê fora das câmeras e identifica com facilidade. Ele não tem um rosto marcante, o que é um grande ponto a favor de seu inegável talento. É fácil o ator desaparecer em personagens completamente diferentes. Mas resumir seu desempenho em As Sessões somente a essa sua metamorfose é deixar passar outros pontos positivos de sua criação. Como Mark O’Brien, poeta que não mexe uma parte do corpo do pescoço para baixo, ele esbanjou sutileza em uma atuação bastante carinhosa e tocante. É impossível não gostar do personagem e não se envolver com suas crenças e dilemas. Hawkes ainda forma uma bela dupla com a igualmente bem sucedida Helen Hunt, que o acompanha em discrição e afeto. Um pequeno grande desempenho.
EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno) | 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei) | 2010 – Colin Firth (Direito de Amar) | 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade) | 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) | 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
