Cinema e Argumento

52º Festival de Cinema de Gramado #3: “Motel Destino”, de Karim Aïnouz

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Em uma entrevista recente, o diretor Karim Aïnouz falou sobre a contradição de plateias que se chocam mais com o sexo do que a violência. Trata-se de uma constatação verdadeira e que diz bastante especialmente sobre o Brasil, país tomado por um escancarado conservadorismo nos últimos anos. É fato que, ainda em 2024, teremos plateias incomodadas e críticas ao teor erótico de Motel Destino, novo trabalho de Karim exibido em competição no último Festival de Cannes e filme de abertura do 52º Festival de Cinema de Gramado, em caráter hors-concours. Também é bobo dizer que esse é um longa “quente” e que “pega fogo”, como se o sexo, sob o ponto de vista elogioso, fosse um atrativo à parte para angariar espectadores. O diretor não quer nem uma coisa nem outra. Ele não fez Motel Destino para provocar ou causar. Pelo contrário: através da sua lente, a interação entre os corpos nada mais é do que uma ferramenta narrativa para entrelaçar personagens, sentimentos e, claro, o próprio destino de cada um deles.

Um dos grandes méritos de Aïnouz é tratar com inteligência a atmosfera do motel que dá título ao longa. Para os clientes, ele representa refúgio privado de prazeres, muitos deles proibidos e secretos. Já para Heraldo, Elias e Dayana, simboliza um confinamento quase claustrofóbico em diversos sentidos. Se Heraldo chega ao Motel Destino para literalmente fugir de uma vida externa perigosa, Elias vê o espaço como, claro, seu ganha-pão, mas também como um modo de manter as rédeas de sua mulher, funcionária do motel e emocionalmente aprisionada por um relacionamento abusivo. À medida em que o filme se passa praticamente inteiro nesse espaço, a ótima fotografia de Hélène Louvart (A Filha Perdida, Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre) e a meticulosa direção de arte de Marcos Pedroso (Que Horas Ela Volta?, Chega de Saudade, A Máquina) potencializam a sensação de clausura do espectador, que se vê igualmente restrito a um motel sem nenhuma sofisticação e com quartos pequenos, baratos e de cores tão quentes quanto encardidas.

Considerando a parte técnica, vale citar ainda a construção sonora, uma vez que os personagens tecem constantemente os seus diálogos emoldurados pelos sons de gemidos e orgasmos dos clientes ao fundo. Isso causa efeito dos mais variados, primeiro desafiando o espectador a deixar de sentir incomodado e a encarar aquilo com naturalidade. Entretanto, é de se pensar: como Heraldo, Elias e Dayana preservam a sanidade dia após dias com aquela “trilha sonora” repetida à exaustão? E será mesmo que preservam? Mais do que isso, de que forma o barulho do sexo mexe ou não com o próprio tesão desses personagens? Eles também não se sentem, de certa forma, pressionados a  buscarem o prazer uns com os outros? O departamento de som, formado por 12 profissionais, merece reconhecimento pelo trabalho realizado, assim como a eficiente trilha sonora original de Amin Bouhafa e Benedikt Schiefer.

Como um todo, a construção de atmosfera se sobressai à trama, que tem um aspecto interessante — os acasos que unem, tumultuam e separam os personagens mostram que o destino no título do motel não é por acaso —, mas não chega a brilhar em termos de conflitos e resoluções. O roteiro, ao optar pelo tom de romance proibido, termina por simplificar a dinâmica do trio, distanciando-se das complexidades e provocações que poderiam nascer de um intrincado triângulo afetivo e sexual entre os personagens. Falta a Motel Destino um pequeno toque de, por exemplo, Cidade Baixa, longa dirigido em 2005 por Sérgio Machado sobre o violento envolvimento de dois amigos com uma mesma mulher. A minha sensação é a de que esse seria o caminho natural para a história de Heraldo, Elias e Dayana, maravilhosamente interpretados por Iago Xavier, Fábio Assunção e Nataly Rocha, respectivamente. Se isso não se concretiza, vale aquela máxima: não devemos limitar um filme a aquilo que queríamos que ele fosse e sim o aproveitarmos por aquilo que ele é. Com isso em vista, lembrarei de Motel Destino como um longa de exímia atmosfera.

52º Festival de Cinema de Gramado #2: evento começa nesta sexta-feira (9) com exibição hors-concours de “Motel Destino”

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Fachada do Palácio dos Festivais para a 52ª edição do evento. Foto: Edison Vara/Pressphoto

A 52ª edição do Festival de Cinema de Gramado começa hoje (9) com a exibição de Motel Destino e a promessa de uma disputa de alto nível pelo Kikito. Exibido na seleção oficial do último Festival de Cannes, o filme de Karim Aïnouz será exibido em Gramado fora de competição, reforçando a reputação do evento de ser a tela preferida para a estreia de obras aguardadas do cinema brasileiro (Retratos Fantasmas, Bacurau e Aquarius, todos de Kleber Mendonça Filho, por exemplo, fizeram sua primeira grande exibição nacional em Gramado).

Até o próximo dia 17, o Festival destrincha uma competição com predominância feminina, onde quatro dos sete títulos selecionados, são dirigidos por mulheres. Também há a mostra competitiva de curtas brasileiros, e aqui vale um adendo: antes programados para serem exibidos apenas no Canal Brasil, como forma de redimensionar o evento em função das dificuldades logísticas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul após as enchentes históricas deste ano, as obras, por pressão das entidades do cinema gaúcho, serão exibidas, sim, no Palácio dos Festivais, em dois dias consecutivos.

É uma conquista importantíssima porque a decisão inicial de não exibir os curtas no horário nobre de Gramado revela mais uma vez a percepção crônica de que a classe curta-metragista é “menor” ou “dispensável”. Para esses cineastas, ter seus filmes posicionados juntamente aos longas, no mesmo status de relevância de todos os outros, faz uma diferença tremenda, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional, pois, em alguns casos, pode ser a maior chance de um filme garantir carreira no circuito. A lista completa dos curtas concorrentes está ao final desse post, assim como a de longas-metragens documentais, que traz cinco filmes na busca pelo Kikito.

Chegando às homenagens, a atriz Vera Fischer e a diretora executiva do Festival Internacional de Cinema de Berlim entre os anos de 2019 e 2024, Mariëtte Rissenbeek, completam o time já formado pelo ator Matheus Nachtergaele e pelo diretor e roteirista Jorge Furtado. Enquanto Vera recebe o Troféu Cidade de Gramado (honraria entregue desde 2012 e que, ao meu ver, ainda não tem uma definição exata), Mariëtte será reconhecida com o Kikito de Cristal, antes entregue a personalidades do cinema ibero-americano e agora alçado ao status global.

Os caminhos tomados pelo Kikito de Cristal são intrigantes: se Gramado silenciosamente terminou com a mostra latina que estava em curso desde 1992 após vários anos sem conseguir refletir seu brilho de outrora, quando premiava Norma Aleandro, Pedro Almodóvar, Javier Bardem e Marisa Paredes, a melhor escolha seria mesmo alçar voos mais altos? E por que inaugurar esse novo conceito do troféu com a diretora executiva de um outro festival? Soa como uma estratégica mais política do que artística, algo no mínimo estranho para uma distinção já entregue a nomes como Cecilia Roth, Paulina García e Leonardo Sbaraglia.

Mais informações sobre a 52ª edição do Festival de Cinema de Gramado podem ser encontradas no site http://www.festivaldegramado.net.

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Ana Cecília (RS), de Julia Regis
A Casa Amarela (PR), de Adriel Nizer
Castanho (AM), de Adanilo
Fenda (CE), de Lis Paim
Maputo (SP), de Lucas Abrahão
A Menina e o Pote (PE), de Valentina Homem
Movimentos Migratórios (BA), de Rogério Cathalá
Navio (RN), de Alice Carvalho, Larinha R. Dantas e Vitória Real
Pastrana (RS), de Melissa Brogni e Gabriel Motta
Ponto e Vírgula (RJ), de Thiago Kistenmacker
Ressaca (MG), de Pedro Estrada
Via Sacra (DF), de João Campos

LONGAS-METRAGENS DOCUMENTAIS
Clarice Niskier: Teatro dos Pés à Cabeça (RJ), de Renata Paschoal

Mestras (PA), de Roberta Carvalho
Poemaria (SP), de Davi Kinski
Toquinho Maravilhoso (SP), de Alejandro Berger Parrado
Velho Chico: A Alma do Povo Xokó (SE), de Caco Souza

52º Festival de Cinema de Gramado #1: longas brasileiros prometem disputa acirrada pelo Kikito

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Pasárgada é a estreia de Dira Paes na direção de longas-metragens.

Faltando exatamente um mês para a realização de sua 52ª edição, o Festival de Cinema de Gramado revelou quais títulos disputarão os Kikitos — e a expectativa com a lista divulgada é das melhores. Desde 2009, quando comecei a acompanhar o evento de forma ininterrupta, não lembro de ter visto uma seleção de longas brasileiros tão promissora, a começar pela predominância de olhares femininos, com quatro dos sete filmes sendo dirigido por mulheres. Todas elas são ímpares, de Dira Paes, que chega ao Festival com Pasárgada, sua estreia na direção de longas-metragens, a Anna Muylaert, Eliane Caffé e Juliana Rojas, que desembarcam na cidade serrana para apresentar trabalhos ainda inéditos no Brasil.

O time masculino também é instigante: o premiado Aly Muritiba volta a Gramado com Barba Ensopada de Sangue, adaptação do best-seller de Daniel Galera; Marcos Jorge apresenta Estômago 2: O Poderoso Chef, continuação do filme de 2007; e Erico Rassi, diretor de Comeback, o último longa do saudoso Nelson Xavier, entra na disputa com Oeste Outra Vez, representando Goiás. Juntos, todos os concorrentes da mostra brasileira representam seis estados, o que sempre constrói, independentemente do gosto por cada filme, um panorama interessantíssimo dos diferentes tipos de cinema realizados atualmente no nosso país.

Além das mostras competitivas, que também se desdobram em longas e curtas gaúchos, longas documentais e curtas brasileiros (esses dois últimos ainda por serem divulgados), o Festival exibirá, fora de competição, Motel Destino, longa Karim Aïnouz apresentado recentemente em Cannes, e Virgínia e Adelaide, novo filme de Jorge Furtado, dirigido em parceria com Yasmin Thayná. Furtado, aliás, terá sua carreira celebrada com o Troféu Eduardo Abelin, assim como Matheus Nachtergaele, homenageado com o tradicional Troféu Oscarito. A programação já pode ser conferida no site do Festival, onde também o público pode adquirir os ingressos para as sessões.

Confira abaixo os filmes selecionados até agora para competição e suas respectivas mostras:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Barba Ensopada de Sangue
 (SP), de Aly Muritiba

Cidade; Campo (MS/SP), de Juliana Rojas
O Clube das Mulheres de Negócios (SP), de Anna Muylaert
Estômago 2: O Poderoso Chef (PR), de Marcos Jorge
Filhos do Mangue (RN), de Eliane Caffé
Oeste Outra Vez (GO), de Erico Rassi
Pasárgada (RJ), de Dira Paes

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
Até Que a Música Pare (Antônio Prado/Nova Roma do Sul/Nova Bassano/Veranópolis), de Cristiane Oliveira
Um Corpo Só (Porto Alegre), de Cacá Nazário
Infinimundo (Lajeado/Santa Cruz do Sul/Sinimbu), de Bruno Martins e Diego Müller
Memórias de Um Esclerosado (Porto Alegre), de Thais Fernandes e Rafael Corrêa
A Transformação de Canuto (São Miguel das Missões), de Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
A Um Gole da Eternidade (Novo Hamburgo), de Camila de Moraes e Paulo Ricardo de Moraes
Cassino (Rio Grande), de Gianluca Cozza
Chibo (Tiradentes do Sul), de Gabriela Poester e Henrique Lahude
Correnteza (Porto Alegre), de Diego Müller e Pablo Müller
Entrega (Porto Alegre), de Luiz Azambuja e Pedro Presser
Envergo Mas Não Quebro (Porto Alegre), de Tatiana Sager
Está Tudo Bem (Porto Alegre), de Rodrigo Herzog
Flor (Esteio), de Joana Bernardes
Janeiro (Porto Alegre), de Boca Migotto
Não Tem Mar Nessa Cidade (Pelotas), de Manu Zilveti
Natal (Santa Maria), de Alan Orlando
Noz Pecã (Itaqui/Porto Alegre), de Aline Gutierres)
Pastrana (Novo Hamburgo), de Melissa Brogni e Gabriel Motta
Posso Contar nos Dedos (Pelotas), de Victória Kaminski
Viagem Para Salvador (São Leopoldo e Porto Alegre), de João Pedro Fiuza
Zagêro (Bagé/Porto Alegre), de Victor Di Marco e Márcio Picoli

51º Festival de Cinema de Gramado #8: vitória de “Mussum, o Filmis” estreita relação com o público ou destoa do esperado de um festival de cinema?

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Dupla incontestável: Vera Holtz foi a melhor atriz por Tia Virgínia, e Aílton Graça o melhor ator por Mussum, o Filmis.

Festivais de cinema são, de certa forma, uma realidade paralela porque, neles, os filmes não falam por si só. Para que um ou outra longa se consagre vencedor, há uma equação repleta de variáveis, da reação da plateia ao dia da semana em que a projeção acontece. Mussum, o Filmis, de Silvio Guindane, deu a sorte de se sair bem em todas elas. Digo isso porque, isoladamente, não há muita razão para o longa sobre a vida do humorista-título ter levado o tanto de Kikitos que levou no 51º Festival de Cinema de Gramado, incluindo o de melhor filme. Última sessão da mostra competitiva de longas brasileiros e abertamente adorado pelo o público, Mussum certamente pegou o júri oficial desprevenido, que, sim, pode mesmo ter se entusiasmado com o filme, mas que também deve ter sentido certo receio em ignorar a reação calorosa da plateia. Entre uma digressão ou outra sobre o que levou à vitória de Mussum, expresso minha resistência à consagração porque, perto de concorrentes como Tia VirgíniaMais Pesado é o CéuO Barulho da Noite, o filme perde em inventividade, vigor e fuga ao lugar comum.

Não me entendam mal quando digo que também resisto à consagração de Mussum simplesmente por ele ter grande apelo popular. Não é isso. Inclusive porque fui um dos que não crucificou a vitória de Colegas em cima de O Som ao Redor na 40ª edição do evento. Vejo festivais de cinema como eventos de descoberta e experimentação, e não à toa eles são a primeira e, muitas vezes, única tela de determinadas produções. Colegas foi uma descoberta de Gramado. Mussum, o Filmis não exatamente. Diante do imenso apelo que as cinebiografias têm alcançado junto ao público e da figura carismática retratada, seu diálogo com a plateia jamais viria como uma surpresa. Pelo contrário: era mais do que previsível. Na medida em que o longa segue inúmeras cartilhas do gênero, é certo premiá-lo somente por uma popularidade que independe de Gramado?

Ao meu ver, o júri realmente pesou a mão ao dar tantos prêmios para o filme, especialmente quando há até uma menção honrosa para ele enquanto o interessante O Barulho da Noite, único longa dirigido por uma mulher em competição, sai de mãos abanando. O próprio Uma Família Feliz poderia ter sido minimamente reconhecido por bancar a realização de um thriller, gênero pouquíssimo explorado pelo cinema brasileiro. E há também certos cacoetes refletidos nas escolhas, como o de considerar a melhor trilha sonora aquela que apenas traz o melhor compilado de repertórios já existentes e marcados no nosso imaginário cultural. É uma injustiça com trabalhos densos e originais como o de João Victor Barroso para Mais Pesado é o Céu.

Ainda assim, há coisas muito boas na lista de vencedores, começando pelo amplo reconhecimento ao ótimo Tia Virgínia, de Fábio Meira, que rendeu um incontestável Kikito de melhor atriz para Vera Holtz. A atenção dada ao difícil Mais Pesado é o Céu também é outro destaque (somente o diretor Petrus Cariry saiu com três consagrações: melhor direção, fotografia e montagem), assim como determinados prêmios que o próprio Mussum mereceu, sim, levar para casa, como o de melhor ator para a inspirada interpretação de Aílton Graça. Para a próxima edição do evento serrano, fica a pergunta: teria o filme de Silvio Guindane estreitado a relação entre o festival e o grande público ou ele é um estranho no ninho de Gramado?

Confira abaixo a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Mussum, o Filmis
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Tia Virgínia
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Mussum, o Filmis
MELHOR DIREÇÃO: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR ATRIZ: Vera Holtz (Tia Virgínia)
MELHOR ATOR: Aílton Graça (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Neusa Borges (Mussum, o Filmis)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Yuri Marçal (Mussum, o Filmis)
MELHOR ROTEIRO: Fábio Meira (Tia Virgínia)
MELHOR FOTOGRAFIA: Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR MONTAGEM: Firmino Holanda e Petrus Cariry (Mais Pesado é o Céu)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro (Mussum, o Filmis)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Ana Mara Abreu (Tia Virgínia)
MELHOR DESENHO DE SOM: Rubem Valdés (Tia Virgínia)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Ana Luiza Rios (Mais Pesado é o Céu)
MENÇÃO HONROSA: Vera Valdez (Tia Virgínia) e Martin Macias Trujillo (Mussum, o Filmis)

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
MELHOR FILME: Hamlet
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Sobreviventes do Pampa
MELHOR DIREÇÃO: Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR ATRIZ: Carol Martins (O Acidente)
MELHOR ATOR: Fredericco Restori (Hamlet)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Ilha Bordin e Bruno Carboni (O Acidente)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro, Joba Migliorin, Lívia Pasqual e Zeca Brito (Hamlet)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Richard Tavares (O Acidente)
MELHOR MONTAGEM: Jardel Machado Hermes (Hamlet)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz, Ricardo Costa e Cristian Vaz (Céu Aberto)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Rita Zart e Bruno Mad (Céu Aberto)

MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTAL
Anhangabaú

MELHOR FILME UNIVERSITÁRIO
Cabocolino

51º Festival de Cinema de Gramado #7: “Mussum, o Filmis”, de Silvio Guindane

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Se há alguma magia a ser alcançada por qualquer cinebiografia, essa deveria ser a de conseguir emular, em seu próprio espírito, as razões que popularizaram um personagem a ponto de ele ser digno de virar filme. Não são muitas as que conseguem, mas podemos creditar bons exemplos a filmes como Rocketman, que se apropria da imaginação de Elton John para contar sua história por meio de um musical, e até mesmo o documentário Cássia Eller, que, mesmo convencional em formato, consegue capturar a verve da cantora-título ao fazer escolhas certeiras de depoimentos ou recortes específicos. E, por mais que reproduza a cartilha de sempre das cinebiografias, Mussum, o Filmis se junta a esses resultados felizes em que um projeto parece mesmo tomado pela energia de seu personagem.

A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para o dia 3 de novembro, e não será surpresa alguma se o filme de Silvio Guindane conseguir mobilizar plateias com a boa mistura alcançada entre humor, samba e dramas familiares. Mussum, o Filmis é, antes de qualquer coisa, muito brasileiro e habilidoso ao construir uma fácil comunicação com o público, principalmente porque não tenta engrandecer a todo custo a história do protagonista, sempre visto com um homem simples e comum, sem aqueles tradicionais arcos de ascensão, fama e queda que já são de praxe no gênero. O longa acerta em preferir o ser humano ao ícone cômico do início ao fim, o que confere grande dignidade tanto a Mussum (Aílton Graça) quanto a figuras importantes de sua vida.

É nos encontros que ele tem com, por exemplo, Grande Otelo, e na relação estabelecida com a mãe que o personagem ganha nosso afeto. Entretanto, tais conexões não teriam a mesma eficiência se o elenco reunido por Guindane não fosse tão coeso. Os louros dados a Aílton Graça são mais do que justificados, além de serem um presente para esse ator prolífero e que aguardava um momento de destaque como esse, mas todos merecem nota, sejam aqueles em pontas importantes, como o próprio Grande Otelo de Nando Cunha, ou os que estão ali para fazer transições, a exemplo do Mussum mais jovem de Yuri Marçal e das mães vividas por Cacau Protásio e Neusa Borges. Todos eles contam com um excelente trabalho de caracterização que se estende à personificação de outros ícones como Elza Soares e Jorge Ben.

Ao mesmo tempo em que tais acertos tiram a experiência do clima enfadonho que já é característico das tantas cinebiografias produzidas atualmente, eles não nos distraem da falta de ousadia no formato, da escolha por evitar polêmicas (o maior conflito, por assim dizer, é a separação muito discreta dos Trapalhões em função de Didi) e dos discursos literais e edificantes, como aquele em que, próximo ao final da projeção, o protagonista dá a um grupo de crianças carentes. Contudo, na hora de fechar a conta, Mussum, o Filmis pode até não ser um grande longa, mas tem coração de sobra para já ser melhor do que a média das dramatizações que chegam aos cinemas envolvendo figuras da vida real.