O Grande Gatsby
You can’t repeat the past.

Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce, baseado no romance homônimo de F. Scott Fitzgerald
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Isla Fisher, Emily Foreman, Steve BIsley, Richard Carter, Jason Clarke, Charlize Skinner, Stephen James King, Barrie Laws, Tiger Leacey Wyvill
The Great Gatsby, EUA/Austrália, Drama, 142 minutos
Sinopse: Nick Carraway (Tobey Maguire) tinha um grande fascínio por seu vizinho, o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Após ser convidado pelo milionário para uma festa incrível, o relacionamento de ambos torna-se uma forte amizade. Quando Nick descobre que seu amigo tem uma antiga paixão por sua prima Daisy Buchanan (Carey Mulligan), ele resolve reaproximar os dois, esquecendo o fato dela ser casada com seu velho amigo dos tempos de faculdade, o também endinheirado Tom Buchanan (Joel Edgerton). Agora, o conflito está armado e as consequências serão trágicas. (Adoro Cinema)

Baz Luhrmann é um diretor de estilo bem definido e conferir O Grande Gatsby querendo outra coisa é completa insanidade. Por isso, antes de esperar um produto fiel à clássica obra de F. Scott Fitzgerald, o melhor conselho para qualquer espectador é se desarmar e acabar com qualquer vínculo com a literatura: o filme estrelado por Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan é, antes de mais nada, um projeto de Baz Luhrmann. Cercado de expectativas ruins – afinal, o diretor vem de uma forte decepção chamada Austrália – O Grande Gatsby está, em termos de criação, muito mais para Moulin Rouge! – Amor em Vermelho do que para seu longa anterior. E essa comparação é no mínimo polêmica, pois mesmo o musical de 2001, responsável pelo maior índice de aprovação da carreira do diretor, é amado e odiado na mesma proporção. Porém, O Grande Gatsby, se serve de consolo, é um exercício mais “controlado” de Luhrmann, ainda que não livre, claro, de seus maneirismos habituais.
Como já era evidente no próprio trailer, O Grande Gatsby é um filme de cores e extravagâncias estéticas. Talvez não precisasse ser assim, mas o diretor, querendo trazer seu estilo para a obra e – mais importante ainda – os elementos que fizeram de Moulin Rouge! o seu auge como realizador, quer a todo custo encher os olhos do espectador com festas grandiosas e espetaculares para ressaltar a boemia e a farra da juventude estadunidense dos anos 1920. Por isso, prepare-se: ele não poupa inventividades no figurino (repetindo a parceria com a vencedora do Oscar Catherine Martin) e na direção de arte. O resultado transborda perigo, já que O Grande Gatsby está sempre a um passo de se tornar cafona. Uma cena que exemplifica essa sensação é aquela que introduz Daisy Buchanan, a musa da vez vivida por Carey Mulligan. Exagerando no branco e nas cortinas esvoaçantes, a sequência é de encher os olhos (e Mulligan poucas vezes esteve tão bem fotografada), mas parece muito mais um comercial de shampoo ou perfume do que qualquer outra coisa.
Por sorte, fica só no quase mesmo e O Grande Gatsby, no final das contas, tem o visual a seu favor. Tal impressão de que o filme está beirando a cafonice está mais presente no início, quando o resultado como um todo também adota um tom mais frenético para mostrar as grandiosas festas realizadas na casa do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio). Mas logo Baz Luhrmann troca a marcha e desacelera, mostrando que esta é a sua obra que mais se apoia em uma história do que em outros artifícios. E é exatamente por depender mais do roteiro que O Grande Gatsby não se torna uma experiência mais marcante. Não em função da adaptação ser necessariamente problemática, mas porque o resultado leva tempo demais para desenvolver o arco completo de uma história sem grandes mistérios. O tempo que o roteiro leva esmiuçando questões que não são novidades em termos de dramaturgia traz excessos ao filme. O suspense em torno do personagem de DiCaprio, por exemplo, poderia ser facilmente sintetizado: além de economizar cerca de meia hora, só eliminaria outras formalidades desnecessárias. São, portanto, excessos que banalizam o filme e que tentam de certa forma mascarar a falta de engenhosidade do enredo.
Não fosse por esse detalhe – que também deixa o ritmo um tanto arrastado – O Grande Gatsby poderia ser um ótimo espetáculo com o que Baz Luhrmann pode oferecer de melhor. Embalado por uma trilha bastante contemporânea (repleta de nomes musicais de sucesso), por outra instrumental igualmente eficiente (do ótimo Craig Armstrong) e por uma estética que, como já mencionado, cumpre sua missão de deslumbrar, o filme tem, inclusive, passagens que fazem um casamento certeiro entre a história e o estilo do diretor. A visita de Daisy à casa de Gatsby – ao som de Young and Beautiful, da Lana del Rey – é um dos pontos altos do longa. Aqui, além de tudo, temos mais um ótimo momento de DiCaprio, que, mesmo esbanjando beleza (a loirice e os olhos azuis do ator nunca chamaram tanto a atenção desde Titanic), consegue fazer uma composição que nunca se ofusca em função de seus atributos físicos. Carey Mulligan também funciona como musa e tem aqui um dos seus momentos mais interessantes, conseguindo-se libertar mais uma vez da enjoada chorona que vimos em tantos outros filmes.
É certo que O Grande Gatsby tem seus problemas. As motivações de alguns personagens não são devidamente pontuadas e uma vez ou outra Luhrmann escorrega em seus maneirismos. Também talvez lhe falte profundidade ao construir relacionamentos e motivações (a personagem de Carey fica particularmente bagunçada no final com transições bruscas demais), mas nada que afete o filme no geral, que é uma experiência válida e até um pouco surpreendente se formos considerar toda a falta de otimismo em torno dessa obra que parecia fadada ao fracasso. Qualquer exagero em relação à obra, ao meu ver, parece certa implicância. Ainda em tempo, para quem for conferir o filme em 3D, o resultado se torna ligeiramente mais interessante: aqui, novamente, a tecnologia como ferramenta de profundidade acerta aos nos levar para dentro daquele universo colorido, musical, extravagante e… quase desenfreado. E esse quase é o que importa.
FILME: 7.5
Rapidamente

ELENA (idem, 2012, de Petra Costa): Depois de O Som ao Redor e O Que se Move, eis que surge Elena, mais um filme que incrementa a excelente fase do cinema nacional em 2013. Esse documentário dirigido por Petra Costa (em seu primeiro longa-metragem) vem fazendo relativo sucesso – e dá para entender o porquê do público se emocionar com o que é contado pela diretora. Poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma experiência tão pessoal: aqui, Petra Costa não tem qualquer receio de abrir o mundo de sua família para fazer uma homenagem à irmã, figura que muito lhe influenciou. A Elena do título já não vive mais e a proposta do documentário é levar a diretora para Nova York a fim de relembrar tudo o que for possível da personagem-título, que viveu por lá durante anos tentando a carreira de atriz. O formato de homenagem em carta aberta lembra Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, mas Elena tem personalidade própria e consegue se desvincular de comparações que possam tirar seus méritos. Talvez a experiência toque o público de maneiras bem distintas e o tom contemplativo possa cansar alguns (a duração é de 80 minutos, mas parece ter bem mais). Sem falar que a preocupação com a estética às vezes parece se sobrepôr à história. Só que é difícil rivalizar com tudo isso quando alguém abre sua vida de forma tão sincera. Elena ficaria orgulhosa dessa homenagem.
GIOVANNI IMPROTTA (idem, 2013, de José Wilker): Não é qualquer um que tem a coragem (ou seria topete?) de José Wilker. Duramente criticado por seus comentários nas transmissões do Oscar na rede Globo, ele resolveu trocar de posição e se aventurar atrás das câmeras. É uma questão bastante delicada: afinal, até que ponto deve se julgar Giovanni Improtta baseando-se na imagem de “crítico de cinema” que temos de Wilker? De qualquer forma, não há muito a ser dito: o debut do ator-crítico é praticamente um desastre. Ainda que não seja ofensivo, Giovanni Improtta é extremamente irrelevante e mal contado. A ideia de ressuscitar o personagem da novela Senhora do Destino parece ser apenas o pontapé inicial de uma modinha (outras duas novelas vão ganhar spinoff no cinema: Fina Estampa e Cheias de Charme), mas, julgando pelo filme de Wilker, já temos muito a lamentar. No filme estrelado pelo irreverente personagem (que tem sua simpatia nas mãos do ator), nada prende a atenção e a tentativa de construir uma história é um fracasso. Pensando que o filme se sustentaria apenas nos bordões de Giovanni que viraram clássicos em sua respectiva novela, o roteiro se perde em situações avulsas que só existem para explorar as gracinhas do protagonista. No final, chega ainda a ficar monótono ao tentar se levar a sério demais. Wilker poderia ter passado sem essa.
PARA MAIORES (Movie 43, 2013, de Bon Odenkirk, Steven Brill, Steven Carr, Rusty Condieff, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Rattner e Jonathan Van Tulleken): Tenho certeza que, um dia, a vida conseguirá me curar desse trauma chamado Para Maiores. O curioso é que o mais triste não é ver um filme sem qualquer aspecto elogiável, mas saber que tantos atores talentosos estão envolvidos nessa desgraça descomunal. Comédia já não é o gênero mais fácil, mas esse consegue se superar em piadas que sabe-se lá porque conseguiram financiamento. Kate Winslet, Naomi Watts, Hugh Jackman e Emma Stone, por exemplo, deviam estar endividados até o pescoço quando aceitaram fazer parte de Para Maiores. Afinal, não dá para acreditar que eles de fato se interessaram por esse conjunto de sitcoms lastimáveis. O filme é exatamente assim: uma produção de mau gosto, repleta de momentos constrangedores e que não arranca um sorriso amarelo do espectador. A história? Vários curtas duvidosos envolvendo piadas sobre sexo. E nenhum deles tem o mínimo de graça. Um verdadeiro festival vergonha alheia que sequer se dá ao trabalho de tentar aproveitar o mínimo que seja dos bons atores que tem no elenco. Para se evitar sem qualquer hesitação.
TERAPIA DE RISCO (Side Effects, 2013, de Steven Soderbergh): Não dá para ir muito atrás de Steven Soderbergh dizendo que Terapia de Risco é o seu último filme para o cinema. Esse papo já existe desde Confissões de Uma Garota de Programa, de 2009. E, desde lá, ele já realizou nada menos que oito filmes. De qualquer forma, se essa for mesmo a despedida de Sodebergh, ele dá adeus ao cinema com um filme que fica no meio termo. O diretor sempre realizou produções dos mais variados gêneros e Terapia de Risco, de certa forma, transita entre vários deles. Começa como um drama sobre uma mulher que precisa lidar com a volta do marido que estava preso, depois se torna uma espécie de estudo sobre psiquiatria e a indústria de antidepresisvos e, quando se encaminha para o final, aposta no velho jogo de quem fala a verdade em uma história que tem fatos supostamente muito claros. Soderbergh consegue equilibrar bem essa diversidade até mais ou menos a metade. Quando dá uma reviravolta para mostrar Jon (Jude Law) tentando provar inocência frente a um processo que o coloca como culpado de um caso em que uma garota comete um assassinato em função dos remédios que ele prescreveu, o filme começa a perder o fôlego. Esse conflito é apresentado cedo demais e as resoluções tentam, sem efeitos positivos, surpreender a todo custo. Infelizmente, a vontade de Soderbergh em querer se mostrar esperto não combinou com o resto do filme.
Phil Spector

Direção: David Mamet
Roteiro: David Mamet
Elenco: Helen Mirren, Al Pacino, Chiwetel Ejiofor, Jeffrey Tambor, Rebecca Pidgeon, John Pirruccello, James Tolkan, David Aaron Baker, Matt Malloy, Dominic Hoffman, Philip Martin, Jack Wallace
EUA, 2013, Drama, 92 minutos
Sinopse: Drama que foca na relação entre Phil Spector (Al Pacino) e sua advogada de defesa, Linda Kenney Baden (Helen Mirren), enquanto o lendário produtor é julgado pelo assassinato de Lana Clarkson.

A música que abre Phil Spector é inconfundível: Unchained Melody, do Righteous Brothers, que ganhou o mundo ao ser escolhida como a música-tema de Ghost – Do Outro Lado da Vida. A canção deve muito de seu sucesso a Harvey Philip Spector – ou, simplesmente, Phil Spector – produtor musical que trabalhou com verdadeiras lendas da música, alavancando carreiras e colocando muitos nomes até então desconhecidos no mapa. Ao longo dos anos, ele produziu artistas como Tina Turner, Beatles, Ramones, Cher, Céline Dion e os próprios Righteous Brothers. O problema, no entanto, é que a Unchained Melody que abre Phil Spector é o único indício musical marcante que encontramos no filme.
Fora as gratuitas menções a astros em diálogos e raros momentos embalados por outras trilhas, o longa escrito e dirigido por David Mamet está focado no evento que selou de vez o fim da carreira do personagem-título: o tumultuado julgamento que definiria se ele era culpado ou não pela morte da jovem atriz Lana Clarkson em seu apartamento. A decisão de ter esse enfoque não é lá muito sábia, já que, com ela, Phil Spector, em breves 90 minutos, torna-se meramente filme sobre os bastidores de um julgamento, esquecendo a importância artística da icônica figura que tem como protagonista.
Exibido em março pela HBO, Phil Spector é um filme curto e sem muito tempo para firulas. E, mesmo com dois gigantes frente ao elenco (Helen Mirren e Al Pacino), esse parece um projeto menor da emissora – como se tivesse sido feito apenas para cumprir contratos e cotas. É exatamente em função disso que Phil Spector se torna tão decepcionante. Aqui não existie a ambição e o requinte que estamos acostumados a ver em produções que carregam o selo HBO (em telefilmes, o excelente Virada no Jogo, por exemplo, foi o exemplar mais admirável da emissora nos últimos anos).
O filme de Mamet soa como uma formalidade mesmo, apostando em um formato repetido e que não demonstra um fiapo de originalidade. Os próprios atores não têm muito o que fazer com o material. Helen Mirren, a verdadeira protagonista como a advogada que, relutante, aceita defender Spector, uma vez ou outra dá indícios de sua habitual elegância e sutileza, mas o texto é completamente raso. Já Al Pacino repete maneirismos (You Don’t Know Jack?), muito acomodado nos figurinos e perucas do personagem, tornando-se uma figura quase chata em seus discursos prolongados.
Na realidade, não dá para culpar Pacino e Mirren, já que toda a decepção de Phil Spector vem toda do trabalho de direção e roteiro de David Mamet, onde o seu maior mérito é construir todo o filme sem tomar partido: afinal, Spector matou ou não a garota? Até hoje ainda há divergências quanto a esse assunto, mas Mamet nunca se mostra tendencioso – o que é, no mínimo, algo coerente. Só que, de resto, nada instiga: o roteiro escrito por ele não poderia ser mais previsível para o tipo de enredo que desenvolve, contando o caso do protagonista de forma muito linear e didática.
Mamet está mais preocupado em mostrar as minúcias da construção da defesa do protagonista (entrevistas, ensaios, testes) do que a dinâmica entre a advogada e o réu. A relação entre os dois poderia – e deveria – ser o ponto alto do filme. Não só porque traria momentos preciosos para os dois atores, mas também porque a história só teria a ganhar com os entraves entre essas duas figuras tão distintas. Por não apostar nesse acerto tão óbvio, Phil Spector perde muitas chances. É realmente uma pena que seja assim, já que não é todo dia – seja na TV ou no cinema – que vemos dois grandes nomes como Al Pacino e Helen Mirren dividindo um filme.
FILME: 6.0
Somos Tão Jovens

Direção: Antonio Carlos da Fontoura
Roteiro: Marcos Bernstein
Elenco: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres, Bianca Comparato, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Daniel Passi, Conrado Godoy, Olivia Torres, Kotoe Karasawa, René Machado, Leonardo Villas Braga
Brasil, 2013, Drama, 104 minutos
Sinopse: Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana. (Adoro Cinema)

Somos Tão Jovens não quer ser um retrato completo de Renato Russo assim como Cazuza – O Tempo Não Para narrou praticamente todas as fases da vida pessoal e profissional de seu cantor-título. O filme sobre o vocalista do Legião Urbana é uma espécie de Coco Antes de Chanel, sendo a reprodução da vida de Renato Russo antes de ele se tornar o ícone de toda uma geração. E, mesmo com essa proposta diferenciada (que nunca é vendida apropriadamente pela divulgação), Somos Tão Jovens não empolga e falha em praticamente todos os sentidos, seja como o retrato de um tempo completamente influenciado pela música ou de um jovem que já começava a dar indícios de que um dia seria uma das maiores referências da música brasileira.
Para ser bem sincero, o Renato Russo que vemos em Somos Tão Jovens é um chato. Mimado, inconstante e estranho, o jovem, cinematograficamente falando, poderia sim ter essas características que dariam maior amplitude ao personagem que só conhecemos no palco frente ao Legião Urbana. Porém, a forma como o roteiro de Marcos Bernstein desenvolve Renato é extremamente rasa, o que faz com que todos esses detalhes se tornem um verdadeiro empecilho. É difícil se envolver com o protagonista, que muitas vezes tem atitudes aleatórias e é constantemente tratado como um piadista. Atenção especial para os momentos envolvendo a morte de John Lennon, desnecessariamente prolongados e que servem apenas como alívio cômico.
Por falar em referências musicais, eis aí outro detalhe incômodo do filme. Marcos Bernstein acha que, para fazer um panorama do cenário musical de uma época, basta colocar nomes de bandas na boca dos personagens. Por isso, chegam a soar superficiais as conversas dos personagens sobre Sex Pistols ou Led Zeppelin, por exemplo. Ainda além: a irritante obsessão de Renato de que todo mundo tenha que ouvir sua fita cassete de rock é outra investida que não dá a dimensão esperada. Ser um jovem rebelde em tempos de ditadura e fazer música com bandas de garagem é um estereótipo que não precisava simplificar Somos Tão Jovens. Pode até soar como uma escolha de querer mostrar o lado “normal” do protagonista, mas simplesmente não dá certo quando um filme se utiliza de todas obviedades possíveis dessa abordagem.
É por isso que o longa de Antonio Carlos da Fontoura nunca parece um relato sobre Renato Russo. O pior não é nem a produção não estar à altura do ícone que deseja mostrar, mas nunca dar indícios, por meio do roteiro, de que ele, em algum lugar daquele adolescente chato, está ali. Assim, Somos Tão Jovens é um amontoado de situações praticamente desconexas onde jovens cantam, bebem, conversam, etc. O próprio processo criativo de Renato Russo é inexistente: as canções simplesmente surgem sem qualquer circunstância ou inspiração aparente/convincente. Mais grave ainda: canções clássicas como Faroeste Caboclo, Que País é Esse? e Eduardo e Mônica são prejudicadas por essa superficialidade e não têm sequer um impacto interessante como trilha sonora ou memória afetiva.
É inevitável não fazer comparações com Cazuza – O Tempo Não Para, que saiu tão bem na parte musical, dando destaque a vários sucessos musicais das mais variadas formas, e na própria abordagem da vida pessoal do cantor. Em Somos Tão Jovens tudo é o oposto, o que se reflete também no que Renato Russo vivia afetivamente. Se os pais dele aparecem como meros estereótipos de figuras engessadas da época, questões delicadas como a homossexualidade de Renato nunca recebem a atenção que mereciam. O fato do cantor se assumir não traz conflito algum (e não vemos o efeito que isso causou em seus pais) e os flertes do jovem se resumem apenas a olhadas de canto – o que nunca deixa claro para o espectador leigo quando foi de fato a primeira vez que ele ficou com um homem. Por falar em leigo, quem confere Somos Tão Jovens sem conhecimento do líder do Legião Urbana sai da sala de cinema com a sensação de que nada aprendeu sobre ele. Não dá para ignorar esse resultado tão raso e convencional de um ícone que marcou gerações.
O filme de Antonio Carlos da Fontoura também tem um forte problema de elenco: ao passo que Thiago Mendonça deixa evidente que não está incorporando Renato de forma natural (percebam como os tiques são excessivamente repetitivos, como a ajeitada no óculos a cada dez minutos), o elenco de suporte ainda é pífio, com atores subutilizados e ineficientes (a exceção talvez seja Laila Zaid, com uma interpretação bastante, digamos, afetiva). Ainda em comparações com Cazuza – O Tempo Não Para, falta em Somos Tão Jovens a total imersão de um Daniel de Oliveira ou a inestimável afetividade de Marieta Severo como a figura materna. É isso mesmo: enquanto o filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho fez um retrato emocionante de um cantor importantíssimo para a música brasileira, Somos Tão Jovens perdeu a chance de fazer o mesmo. E o máximo de emoção está presente, justamente, na cena final, que é um registro de arquivo da primeira apresentação do Legião Urbana no Circo Voador. Ou seja, a vida real precisou literalmente invadir o filme para que ele tivesse pelo menos um grande momento.
FILME: 5.0
Amor Profundo
Beware of passion, Hester. It always leads to something ugly.

Direção: Terence Davies
Roteiro: Terence Davies, baseado na peça homônima de Terence Rattigan
Elenco: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Ann Mitchell, Simon Russell Beale, Karl Johnson, Jolyon Coy, Harry-Hadden Paton, Sarah Kants, Oliver Ford Davies, Barbara Jefford, Mark Tandy, Nicolas Amer
The Deep Blue Sea, EUA/Inglaterra, Drama, 98 minutos
Sinopse: Na década de 1950, Hester Collyer (Rachel Weisz) é a jovem esposa de um importante juiz do Estado, Sir William Collyer (Simon Russell Beale). Envolvida em um casamento afetuoso, mas sem contato sexual, Hester inicia uma relação fulgurosa com um piloto aéreo (Tom Hiddleston) perturbado por suas experiências durante a guerra. Quando a relação entre os dois é descoberta, Hester decide cometer suicídio. Mas quando os planos falham, ela começa a questionar as escolhas que fez em sua vida. (Adoro Cinema)

Há quem questione o fato de Rachel Weisz ter vencido praticamente todos os prêmios possíveis por interpretar Tessa Quayle em O Jardineiro Fiel. Ela tinha uma concorrente de peso e tão boa quanto (Michelle Williams, por O Segredo de Brokeback Mountain), mas é meio injusto dizer que Weisz não merecia celebrações pelo filme de Fernando Meirelles. Isso porque poucas vezes ela foi devidamente aproveitada como naquele filme. Depois de O Jardineiro Fiel, no entanto, a carreira dela não mudou muito e foram raríssimas as suas chances de destaque (lembro com carinho apenas de sua pequena participação em Um Beijo Roubado), mas agora ela tem mais uma grande oportunidade de colocar seu talento à mostra em Amor Proundo, um longa que dá várias circunstâncias para Weisz brilhar frente às câmeras. O resultado é não apenas um dos momentos mais interessantes da carreira da atriz. Ela própria consegue ser muito maior que o próprio filme.
Baseado na peça homônima de Terence Rattigan, Amor Profundo quer ser um mini-clássico dos filmes de romance com protagonistas complicadas que não conseguem ter sucesso em qualquer investida amorosa. Tudo colabora para isso: Londres, década de 1950, cenários tomados por fumaça de cigarro, vocabulário elegante, frases prontas, figurinos bem desenhados, fotografia nebulosa, e por aí vai. É um trabalho que emula bastante a técnica britânica de fazer histórias nesse formato. Ponto positivo, portanto, para o filme, que consegue ser eficiente quando leva o espectador para o universo da personagem, tornando aquele determinado pedaço de tempo e espaço completamente críveis. Na técnica, o trabalho de Terence Rattigan é certeiro ao fazer a devida ambientação e tem o mérito de transpor o espetáculo original para as telas de cinema sem qualquer confusão entre as linguagens.
A situação já é outra quando o assunto é dramaticidade, pois o maior problema de Amor Profundo é o fato do roteiro não conseguir dar conta da protagonista. A Hester Collyer de Rachel Weisz parece não caber no filme. Mesmo com um ritmo arrastado, o texto tem dificuldade em processar e transmitir tudo o que se passa com a protagonista. Saindo de um casamento infeliz e arriscando seu destino com uma paixão que pode não lhe dar o mais seguro dos futuros, ela vai da paixão à tentativa de suicídio sem que o filme acompanhe essa turbulência de emoções. Se muito parece acontecer dentro dela, o mesmo já não se pode dizer de Amor Profundo, que está sempre carente de maiores intensidades. Por isso mesmo, é completamente normal sentir que que algo está sempre faltando ou que as motivações de Hester nunca ficam muito claras ou até mesmo convincentes.
É por não estar em sintonia com o intenso emocional de sua protagonista que Amor Profundo termina como apenas uma experiência mediana. Em suma, cobertura demais para pouco recheio. O ponto alto, claro, é Rachel Weisz, que chegou a ser eleita a atriz do ano pela associação de críticos de Nova York e figurar entre as cinco finalistas de melhor atriz dramática no Globo de Ouro. Ela é a principal responsável por Amor Profundo ter certa força dramática. Uma vez ou outra, o filme lhe dá oportunidades para desfrutar de bons momentos com Simon Russell Beale, um coadjuvante que consegue elevar o filme a um outro patamar: toda vez que a Hester de Weisz contracena com o marido traído e ainda apaixonado de Beale, o filme de Terrence Davies ganha uma força extra. Perto do todo, no entanto, é pouco para tornar a experiência empolgante ou emocionante.
FILME: 6.5


