Gravidade
Beautiful, don’t you think?

Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris (voz), Orto Ignatiussen (voz), Phaldut Sharma (voz), Amy Warren (voz), Basher Savage (voz)
Gravity, EUA, 2013, Ficção, 91 minutos
Sinopse: Matt Kowalski (George Clooney) é um astronauta experiente que está em missão de conserto ao telescópio Hubble juntamente com a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock). Ambos são surpreendidos por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, que faz com que sejam jogados no espaço sideral. Sem qualquer apoio da base terrestre da NASA, eles precisam encontrar um meio de sobreviver em meio a um ambiente completamente inóspito para a vida humana. (Adoro Cinema)

Gravidade começa falando sobre a impossibilidade da vida humana como conhecemos no espaço. As condições de temperatura e oxigênio não deixam qualquer um de nós sobreviver por lá sem equipamentos e condições adequadas. Essa explicação poderia ser normalmente encarada como algo didático para uma mera ambientação, mas, no caso de Gravidade, é uma dica do que está por vir ao longo dos breves 90 minutos do filme: uma história passada em uma circunstância completamente inimaginável. Eis aí a raiz de toda a angústia causada por esse novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón: não é a “vida real”. Nós não saberíamos como agir caso estivéssemos na mesma situação dos protagonistas Ryan (Sandra Bullock) e Matt (George Clooney). Se, em tantos filmes, palpitamos facilmente sobre quais atitudes os personagens deveriam tomar frente a uma situação de desespero, aqui não temos esse estofo. É a natureza que dita as regras para o homem, e não o contrário. E, por estar ciente de todo o poder desse universo imprevisível, Gravidade se estabelece – com folga – como a melhor ficção científica dos últimos anos.
Se o ótimo Lunar era um drama passado no espaço mas não necessariamente um filme sobre o espaço, podemos dizer que a última vez que tal ambiente foi explorado com a devida dose de genialidade pelo cinema foi em 2008, com WALL-E. Não por acaso, Gravidade chega a fazer uma referência ao longa de Andrew Stanton, quando coloca Sandra Bullock orbitando rumo a um destino com a ajuda dos jatos de um extintor de incêndio. Muito me agrada essa conexão entre os dois filmes, pois, cada um ao seu modo, traz o que existe de melhor em relação ao espaço. Mais especificamente sobre o longa de Cuarón, não hesito em dizer que esse cenário nunca ganhou uma representação técnica tão fiel e impressionante no cinema como aqui. A tecnologia, claro, avançou infinitamente com o passar dos anos, mas foram poucos os diretores que souberam utilizá-la com uma devida lógica audiovisual. Cuarón é um deles. E se, em um primeiro momento, pode parecer estranho que o formato grandioso dos blockbusters tão dominado por estadunidenses ganhe um de seus ápices nas mãos de um cineasta mexicano, logo a teoria vai por água abaixo quando o nome do diretor vem à tona: Cuarón é simplesmente um dos realizadores mais versáteis da atualidade, passando por dramas hormonais (E Sua Mãe Também), adaptações literárias (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e subestimadas obras-primas (Filhos da Esperança).
Não dava para imaginar, entretanto, que ele viria com um espetáculo de imersão tão poderoso como Gravidade. Talento não lhe falta, mas seu novo filme supera qualquer expectativa antes depositada em seu nome. Isso mesmo: o filme é uma verdadeira imersão (e que merece ser visto na melhor sala de cinema possível), capaz de mexer com todos os sentidos da plateia. Resultado de uma direção que sabe orquestrar de forma impecável todas as possibilidades do audiovisual: não deixe de reparar o detalhista trabalho de som, a impressiva fotografia, a bem explorada direção de arte e a discreta mas eficiente trilha sonora de Steven Price. Tudo para dar o máximo de realismo a um filme que é fiel a fatos completamente ignorados por consagradas histórias do cinema – como Star Wars, que tomava várias liberdades para mostrar infinitos barulhos e explosões em pleno espaço (o que, como comprova a ciência, simplesmente não é possível). São imagens encantadoras (a aurora boreal e a total escuridão são pontos altos para os olhos), cujos resultados se ampliam com a perfeição dos efeitos e o total envolvimento causado pelo, vale repetir, cuidadoso trabalho de som.
A história é muito simples: dois astronautas, surpreendidos por uma chuva de destroços, são jogados à deriva em pleno espaço. Uma busca pela sobrevivência, enfim. Há quem procure metáforas e filosofias no que é mostrado em Gravidade, mas fico no time dos que acreditam que o resultado não passa de um blockbuster de quinta grandeza. Sinceramente, não creio que Alfonso Cuarón tenha tido a vontade de criar simbolismos ali, especialmente porque o roteiro escrito por ele, em parceria com o filho Jonás, tem, inclusive, várias bobeiras e até mesmo clichês bem evidentes. Os maiores são: a necessidade de ter um alívio cômico para não sufocar o espectador por completo (representado pela figura de George Clooney, que, por isso mesmo, não tem muito o que fazer com o material) e um desenvolvimento muito esquemático, que segue basicamente a lógica de colocar um obstáculo no caminho da protagonista para ela superá-lo e, depois, ter que enfrentar… um novo obstáculo. É basicamente isso, sem grandes variações – de vez em quando com algumas pitadas dramáticas que, por mais que não sejam das mais geniais, funcionam porque estamos tão envolvidos na mesma situação que os protagonistas que não conseguimos ficar indiferentes a elas.
Porém, se ater aos (pequenos) defeitos de Gravidade é apenas procurar motivos para não entrar por completo no filme de Cuarón. Desde já favoritíssimo para concorrer ao Oscar 2014 (e merece levar todos os prêmios do universo – com o perdão do trocadilho – por sua irrepreensível parte técnica), é uma produção que veio para marcar época. Sem exageros, é um verdadeiro divisor de águas para o gênero e, acima de tudo, uma grande aula de direção. Destaque ainda para uma inspirada Sandra Bullock, que, por mais que não esteja em um filme dedicado a atuações, comprova que seu Oscar por Um Sonho Possível foi totalmente prematuro (recentemente também estava ótima em Tão Forte e Tão Perto). Ela supera os efeitos visuais e consegue dar uma boa dose de humanidade a sua personagem, que tem 100% da nossa torcida. Com todos esses acertos, Gravidade é o filme do momento, conseguindo ser aquele exemplar que chega ao conhecimento de todos: para você estar por dentro do que rola no cinema, você precisa ter visto o longa. E é uma grande alegria finalmente ver um filme que realmente merece chegar a esse status de popularidade pelas razões certas. Estávamos carentes de sucessos desse tipo.
FILME: 9.0
Invocação do Mal
The devil exists. God exists. And for us, as people, our very destiny hinges on which we decide to follow.

Direção: James Wan
Roteiro: Chad Hayes e Carey Hayes
Elenco: Vera Farmiga, Lili Taylor, Patrick Wilson, Ron Livingston, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver, Shannon Kook, John Brotherton, Sterling Jerins, Marion Guyot
The Conjuring, EUA, 2013, Suspense/Terror, 112 minutos
Sinopse: Harrisville, Estados Unidos. Um casal (Ron Livinston e Lili Taylor) muda para uma casa nova ao lado de suas cinco filhas. Inexplicavelmente, estranhos acontecimentos começam a assustar as crianças, o pai e, principalmente, a mãe. Preocupada com algumas manchas que aparecem em seu corpo e com uma sequência de sustos que levou, ela decide procurar um famoso casal de investigadores paranormais (Patrick Wilson e Vera Farmiga), mas eles não aceitam o convite, acreditando ser somente mais um engano de pessoas apavoradas com canos que fazem barulhos durante a noite ou coisas do gênero. Porém, quando eles aceitam fazer uma visita ao local, descobrem que algo muito poderoso e do mal reside ali. Agora, eles precisam descobrir o que é e o porquê daquilo tudo acontecendo com os membros daquela família. É quando o passado começa a revelar uma entidade demoníaca querendo continuar sua trajetória de maldades. (Adoro Cinema)

Nunca é demais lembrar que os gêneros mais cansados do cinema atualmente são o suspense e o terror. Tanto que basta um filme ser acima da média para que o consideremos até mesmo um sopro de originalidade em um universo que raramente cria histórias verdadeiramente tensas ou assustadoras. Se recentemente Mama reforçou essa sensação de desgaste, logo também veio a refilmagem de A Morte do Demônio, filme que, para o escriba que vos fala, acertou em cheio ao apresentar uma estética atrativa e uma trama cheia de agonia. Agora, Invovação do Mal também chega para restaurar nosso entusiasmo com o suspense e o terror. Aqui, nada do angustiante gore ou dos divertidos exageros de A Morte do Demônio, e sim um filme que sabe tirar o melhor proveito de ferramentas essencialmente óbvias. E isso não é fácil: causar tensão genuína com truques batidos é para poucos. Por isso, Invovação do Mal pode, sem sombra de dúvida, ser considerado mais um notável momento da carreira do James Wan, cineasta nascido na Malásia que, anos atrás, ganhou o mundo com o excelente primeiro capítulo de Jogos Mortais.
Contando uma história baseada em fatos reais, o longa-metragem já ganha pontos ao optar pela lógica mais certeira de todas: a de que a nossa imaginação causa muito mais medo do que aquilo que os nossos olhos podem ver. Quando Mama, por exemplo, colocou o peso de seu suspense em uma criatura computadorizada que era mais cômica do que assustadora, tudo foi por água abaixo. E é exatamente o oposto que acontece em Invocação do Mal: uma vez ou outra, Wan pode até dar explicações demais (e é aí que a história diminui a marcha), mas, ao deixar todo o medo de seu filme reservado para o imaginário do espectador, alcança momentos realmente admiráveis. Também já escapa à memória a última vez que vimos um suspense de dimensão mais popular dar tantos sustos de forma óbvia sem parecer… Óbvio! Isso mesmo: você sabe que, quando Invocação do Mal faz um personagem andar pela casa em pleno silêncio, o susto logo está por vir. Mas, claro, o ápice dessa tensão é inevitável e você vai se assustar. Por isso, prepare os nervos: difícil não se angustiar e pular da cadeira várias vezes durante o desenrolar da história.
Ao longo de quase duas horas de duração, o diretor nos conduz por uma trama bastante simples (casa mal assombrada, possessão, exorcismo) e que faz questão de passar por todas as etapas das apresentações formais: a família feliz que se muda para uma casa, os dias descobrindo aquele lugar, a primeira noite cheia de sinais estranhos que vão destrinchar eventos cada vez mais drásticos, etc. Tudo isso com uma trilha sempre presente (e sem grandes inventividades), sustos barulhentos (a porta que se bate! O pássaro que sai voando! O copo que se quebra!) e, no clímax, gritos, violência e possessão. São fatores que normalmente irritariam, colocando o resultado em uma vala comum, mas que aqui ganham um tratamento surpreendentemente eficiente. Não existe uma resposta necessariamente certa para o porquê de James Wan ter acertado nesses mesmos elementos que tantos diretores falharam. Até porque o suspense/terror não se baseia na razão: ele é uma experiência muito mais sensorial. Se você sentiu, é o que importa. E Invocação do Mal é certeiro nesse sentido.
Estrelado por uma atriz em ascensão (Vera Farmiga, que, depois da indicação ao Oscar por Amor Sem Escalas, ganhou seu espaço na TV com a série Bates Motel e agora as bilheterias com Invocação do Mal), esse novo acerto de Wan não chega a ser uma revolução para o gênero, mas faz jus a todo barulho que causou entre público e crítica. Muito bem ambientado (a direção de arte é boa, a casa onde a trama se passa é bem explorada pelas câmeras, os atores se saem bem), é um suspense que merece apreço por conseguir o que tantos não conseguem quando resolvem repetir elementos óbvios de uma história de tensão. Existem aqueles que podem contra-atacar alegando justamente isso: que Invocação do Mal não tem inventividades e que, apesar dos sustos, é carente de qualquer aspecto mirabolante. Mas aí voltamos a uma questão que me parece essencial: claro que um suspense/terror bem arquitetado e engenhoso é sempre mais interessante, mas gosto de acreditar que o gênero deve ser analisados de forma mais sensorial. E, se Wan conseguiu causar tantos sustos e prender a atenção durante quase duas horas com uma agonia quase sempre presente, é porque o filme tem sim seus méritos. Não reconhecer essa habilidade é colocar mais um prego no caixão desse gênero tão sedento por novidades dignas, como essa chamada Invocação do Mal.
FILME: 8.0
Pelos Olhos de Maisie
You know who your mother is, right?

Direção: Scott McGehee e David Siegel
Roteiro: Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance “What Maisie Knew”, de Henry James
Elenco: Julianne Moore, Alexander Skarsgård, Steve Coogan, Joanna Vanderham, Onata Aprile, Sadie Rae, Jesse Stone Spadaccini, Diana García, Amelia Campbell, Maddie Corman, Paddy Croft, Trevor Long
What Maisie Knew, EUA, 2012, Drama, 99 minutos
Sinopse: Em meio ao conturbado divórcio dos pais, Maisie (Onata Aprile), uma garotinha de sete anos, tenta entender o que se passa. De um lado a mãe, Susanna (Julianne Moore), uma estrela do rock. Do outro o pai, Beale (Steve Coogan), um influente galerista. Unindo os dois, a menina, que logo descobre um novo significado para a palavra “família”. (Adoro Cinema)

Já está na hora de Maisie (Onata Aprile) dormir, mas, antes ela quer ouvir uma canção para pegar no sono. Sua mãe, Susanna (Julianne Moore), pergunta o que a pequena quer ouvir, e a menina logo responde que uma das canções da própria Susanna, que é uma estrela do rock. A mãe diz que suas músicas não são feitas para momentos como esse, mas Maisie insiste e Susanna, sem parecer muito contrariada, logo pega um violão e começa a cantar um de seus sucessos. Mais tarde, vamos descobrir que essa cena é uma bela metáfora para as relações familiares estabelecidas ao longo de Pelos Olhos de Maisie. Para Susanna e o marido, suas vidas e egos são mais importantes que a própria filha. Ela e Beale, na verdade, não nasceram para ter filhos. São pessoas que só sabem olhar para o próprio umbigo, nunca conseguindo colocar a pequena Maisie frente a suas próprias necessidades. “Você não merece a filha que tem”, diz uma personagem à Susanna, em determinado ponto do filme, reforçando bem essa importante temática de Pelos Olhos de Maisie: a da incapacidade de certos indivíduos de saber criar um filho e a de que, sim, adultos esquecem fácil, mas as crianças não. São marcas para a vida inteira.
Só que o filme da dupla Scott McGehee e David Siegel (do bom Até o Fim, que traz um dos melhores desempenhos de Tilda Swinton) se diferencia por não apresentar uma narrativa convencional focada no dia-a-dia dos dois pais ou em suas discussões e batalhas judiciais pela guarda da filha. A história tem foco, como o próprio título brasileiro indica, nas percepções da pequena Maisie sobre tudo o que está acontecendo em sua volta. E a jogada dos diretores e do roteiro escrito por Nancy Doyne e Carroll Cartwright, baseado no romance What Maisie Knew, de Henry James, é ótima. Uma discussão corriqueira entre os pais logo se torna mais impactante quando a câmera acompanha Maise chegando em casa da escola com, aos fundos, os pais se ofendendo aos berros. A câmera permanece com ela por mais alguns segundos, a menina se afasta daquilo tudo sem compreender muito do que está sendo dito e o som se abafa, fazendo com que ela volte para o seu mundo. É uma jogada muito interessante, pois traz um novo ângulo para essa história que poderia ser perfeitamente clichê caso contada apenas do ponto de vista dos pais.
Também existe ao favor de Pelos Olhos de Maisie o fato da menina Onata Aprile ter uma desenvoltura absurda. Adorável em cada segundo de projeção, ela ganha o coração do espectador que, no final das contas, não torce nem pelo pai nem pela mãe, mas sim pela felicidade da garota, independente de com quem ela fique. Além do divórcio dos pais, Maisie ainda precisa lidar com uma constante reposição de figuras na sua vida: a sua babá passa a ser a madrasta e a mãe logo se envolve com um sujeito muito mais novo. E a adaptação lida bem com essa troca de elenco na vida da garota, mesmo que de vez em quando banalize demais a ferramenta de colocar tudo pelos olhos da pequena (várias sequências são repetitivas, mostrando a garotinha na escola apenas brincando ou procurando algo para fazer). Pelos Olhos de Maisie também perde um pouco de sua força nos momentos finais, quando coloca a personagem de Julianne Moore de escanteio (ela faz uma grande falta) e resolve bagunçar um pouco demais a vida de Maisie com troca-trocas e desenvolvimentos excessivos das figuras adultas. Mas o que fica é que todos se saem bem (vale mencionar, claro, a sempre ótima Moore) nesse filme cuja mensagem atemporal é sublinhada com uma sensibilidade que disfarça suas pequenas falhas.
FILME: 8.0
O Tempo e o Vento

Direção: Jayme Monjardim
Roteiro: Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas, baseado no livro “O Continente”, da trilogia “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo
Elenco: Thiago Lacerda, Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Marjorie Estiano, Paulo Goulart, José de Abreu, César Troncoso, Leonardo Medeiros, Luiz Carlos Vasconcelos, Marat Descartes, Janaína Kremer, Leonardo Machado
Brasil, 2013, Drama, 127 minutos
Sinopse: Rio Grande do Sul, final do século XIX. As família Amaral e Terra-Cambará são inimigas históricas na cidade de Santa Fé. Quando o sobrado dos Terra-Cambará é cercado pelos Amaral, todos os integrantes da família são obrigados a defender o local com as armas que têm à disposição. Esta vigília dura vários dias, o que faz com que logo a comida escasseie. Entre eles está Bibiana (Fernanda Montenegro), matriarca da família que recebe a visita de seu falecido esposo, o capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). Juntos eles relembram a história não apenas de seu amor, mas de como nasceu a própria família Terra-Cambará. (Adoro Cinema)

O povo gaúcho deve ser o mais bairrista do Brasil. Excetuando certos exageros nessa paixão por vezes descabida, não dá para negar que a literatura do Estado é realmente digna de orgulho. O que dizer, então, da obra de Erico Verissimo – e, mais especificamente, da trilogia O Tempo e o Vento? Lançada pela primeira vez em 1949, a primeira parte, intitulada O Continente, foi a merecidamente que ganhou o Brasil, até mesmo com uma minissérie produzida pela Globo na década de 1980 (muito digna, por sinal). É neste tomo que estão os personagens mais marcantes da obra de Verissimo e, sem dúvida, os melhores acontecimentos de toda a série literária escrita pelo autor gaúcho. Apesar do título ser O Tempo e o Vento, todas as produções relevantes sobre a obra se focam em O Continente, e não nas outras partes (O Retrato e O Arquipélago).
Foi assim com a minissérie dirigida por Paulo José e é agora com o filme de Jayme Monjardim, que chega aos cinemas de todo Brasil após estreia antecipada no circuito comercial do Rio Grande do Sul. Só que se, por ser televisiva, a minissérie dirigida por Paulo José teve o tempo necessário para desenvolver os dois séculos de história retratados na obra original, o longa de Monjardim sofre por não conseguir dar a devida intensidade aos fatos em meras duas horas de duração. Ainda que não seja a tragédia e o oportunismo que poderia se esperar, O Tempo e o Vento é corrido e abarrotado de personagens e situações – o que quase castra a emoção da história singular criada por Erico Verissimo. Afastado do cinema desde que dirigiu Olga (filme que não é o desastre que tantos apontam), Jayme Monjardim agora volta a se envolver com a adaptação de uma obra forte e emblemática. Palmas pela coragem, mas também críticas pelas intenções comerciais: mesmo ganhando as telas de cinema, O Tempo e o Vento já está programado para ser exibido na TV em formato de minissérie. Ou seja, são no mínimo duvidosas as intenções “artísticas” do diretor com esse trabalho.
De qualquer forma, é uma produção em alta escala (13 milhões bem empregados), destinada ao grande público e que deve fazer sucesso de bilheteria. Dá gosto de ver a história de Erico com todo esse requinte técnico, especialmente com o mestre Affonso Beato como diretor de fotografia e a Orquestra Sinfônica de Budapeste interpretando a trilha sonora. Mas, em termos narrativos e dramáticos, esta nova adaptação nada acrescenta para quem conferiu a minissérie dos anos 1980 ou é familiarizado com a obra homônima. Isso porque falta unidade ao longa, em uma narrativa que não se sente a cronologia: pouco aprendemos historicamente, não conseguimos nos envolver com todos os núcleos e os dois séculos retratados passam sem qualquer costura mais firme. Por sinal, percebam como O Tempo e o Vento deve ser o filme com o maior número de fade outs da história. Perde-se a conta de quantas vezes a tela escurece para marcar a transição entre épocas e situações.
Estruturado basicamente com dois grandes protagonistas (Ana Terra e Capitão Rodrigo), o filme de Jayme Monjardim tem um elenco que merece atenção à parte. Nele, podem ser encontrados muitos atores globais e outros já conhecidos do grande público. Mas o filme é praticamente todo de um trio que dá todo o subsídio – direta ou indiretamente – para que a história se sustente. Quem primeiro surge em cena com essa missão é a inigualável Fernanda Montenegro, que tem a missão de ser a narradora da história. E se, com outra atriz, o papel óbvio poderia aborrecer o longa, com Montenegro acontece justamente o oposto: sua maestria com as palavras e seu talento arrebatador com a voz transformam em quase poesia até mesmo as frases mais capengas e didáticas. Ela é o coração do filme e ninguém poderia fazer melhor.
Logo, é a vez de conhecermos a Ana Terra de Cléo Pires, em um papel que foi de sua mãe, Glória, na minissérie da Globo. E a sucessora bem que se esforça, mas o seu capítulo é o mais bagunçado de O Tempo e o Vento. Não dá para sentir nada do que acontece com sua personagem e muito menos se envolver com as transformações emocionais e as dinâmicas estabelecidas por ela com outros personagens. Por fim, aparece o Capitão Rodrigo de Thiago Lacerda. E é exatamente com ele que a história começa realmente a valer a pena. Não só porque a trama dá uma guinada em carisma e ritmo mas porque Lacerda está um arraso, dominando como ninguém o sotaque, a postura e a simpatia de um personagem que ganha, nas suas mãos, a melhor representação já vista de Capitão Rodrigo em uma adaptação.
Com momentos divertidos aqui e outros emocionantes ali, O Tempo e o Vento fica em um meio-termo para os que já tiveram algum tipo de contato com o material de Verissimo ou com outras adaptações. Enquanto o trailer do filme acusava que o resultado seria digno de ser guardado como sonífero para noites de insônia, não demora muito para que essa sensação desapareça até mesmo com um certo suspiro de alívio. Não, O Tempo e o Vento não foi vulgarizado ou “globalizado”. O grande empecilho da direção de Monjardim e do roteiro adaptado por Letícia Wierzchowski, Marcelo Ruas e Tabajara Ruas é justamente a proporção entre a obra original e o filme proposto. A saga das famílias Terra e Cambará são épicas demais para caber em um longa de 120 minutos, e tal afirmação fica ainda mais evidente nos minutos finais, quando os acontecimentos da parte intitulada “O Sobrado” no livro ganha foco com acontecimentos ainda mais corridos e displicentes.
Tecnicamente, o espírito da saga familiar gaúcha foi respeitosamente absorvido (as paisagens não poderiam ser mais encantadoras e os figurinos e cenários não parecem novelescos), mas das duas uma: ou Jayme Monjardim se arriscava a fazer um verdadeiro épico de maior duração para abraçar com a devida intensidade todas as riquíssimas histórias (o que afastaria o grande público) ou então nem se preocupava com o lançamento cinematográfico, produzindo uma caprichada minissérie diretamente para a TV – formato que, sejamos sinceros, faz cada vez mais falta na rede Globo. Por fim, O Tempo e o Vento não chega perto de ser um desastre, mas tampouco flerta certeiramente com toda a emoção da saga de Erico Verissimo.
FILME: 7.0
As canções de Terence Stamp e Vanessa Redgrave

A coincidência é pra lá de curiosa: O Quarteto e Song for Marion não podem ter se copiado, já que foram exibidos pela primeira vez praticamente na mesma época e produzidos quase que simultaneamente. Mas suas essências são idênticas: os dois longas falam sobre idosos que encontram na música um novo sentido para viver, especialmente em uma fase onde as lembranças são mais importantes que os sonhos. E ambos prezam por leveza, simplicidade e, acima de tudo, sensibilidade. Em Song for Marion, de Paul Andrew Williams, porém, a história chega a ser ainda mais comovente, visto que a música é o alento na vida de uma senhora aposentada e… com câncer, interpretada pela grande Vanessa Redgrave. Poucos minutos são suficientes, no entanto, para percebermos que esse não é um filme sobre ela, e sim sobre seu rabugento marido, vivido por Terence Stamp, que deseja preservar a esposa a todo custo e é contra sua participação no tal coral.
Soube da existência desse filme por meio do crítico Rubens Ewald Filho, que, quando participou da seção Três atores, três filmes, aqui do blog, foi só elogios para a dupla protagonista e também para o filme em si. Com isso, minhas expectativas não eram poucas, e confesso que, como o próprio Rubens admitiu, deve ter tido sim alguma emoção extra por parte dele em função da idade para justificar tanta comoção. Isso porque Song for Marion – ainda sem título no Brasil e, segundo o IMDb, previsto para ser lançado diretamente em homevideo no mês de novembro – é completamente convencional e previsível – até mesmo para padrões mais corriqueiros de filmes com essa temática.
Com pouco tempo de história, já é possível adivinhar todas as etapas do arco dramático. Não é preciso ser nenhum gênio para deduzir que a degradação da esposa em função do câncer vai tocar o personagem de Stamp de maneira com que ele aceite e até mesmo se engaje no mundo musical. Contudo, não é só o roteiro – escrito pelo próprio diretor – que não faz questão de esconder um certo comodismo ao desenvolver a trama. O próprio conjunto não é lá muito inspirado, uma vez que, por exemplo, a trilha faz questão de sublinhar a comédia e o drama e os detalhes ressaltados pela câmera entregam tudo o que está por vir.
Mas, então, o que faz Song for Marion valer a pena? Ora, não tenham dúvidas: a dupla Vanessa Redgrave e Terence Stamp. Ela tem uma participação menor (até porque o filme é sobre ele), mas seu papel, apesar da obviedade do filme, é tratado com sobriedade e sem apelações. E Redgrave só acentua isso: é uma das atrizes mais humanas ainda em atividade, e seu poder de expressões e palavras está todo aqui. Mas o espetáculo é mesmo de Stamp. Quase minado pelo papel previsível, o ator supera esse obstáculo com a lógica de que menos é mais. Humano como Redgrave, mas com chances diferenciadas (quando solta a voz, chega a surpreender). A dupla não chega a engrandecer o filme, mas nos lembra, mais uma vez, com todo o respeito, que os velhos serão sempre os melhores!
FILME: 6.5


