Cinema e Argumento

“The Great Lillian Hall”: Jessica Lange tem muito a dizer, o filme nem tanto

Life’s gone on as if I had never lived at all.

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Direção: Michael Cristofer

Roteiro: Elisabeth Seldes Annacone

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Lily Rabe, Pierce Brosnan,  Jesse Williams, Michael Rose, Cindy Hogan, Keith Arthur Bolden, Jonathan Horne, Clayton Landey, Allison Mackie

EUA, 2024, Drama, 110 minutos

Sinopse: À medida que dedica seu coração, alma e tempo na preparação para seu próximo grande papel, a querida estrela da Broadway Lillian Hall (Jessica Lange) se vê surpreendida pela confusão e pelo esquecimento. Lutando contra todas as adversidades para chegar à noite de estreia, enquanto tenta manter suas memórias e identidade que estão desaparecendo, ela enfrenta uma tumultuosa jornada emocional: equilibrar seu desejo pelos holofotes com a dura realidade de sua doença recém-diagnosticada.

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Como fazer um filme sobre demência depois de Meu Pai? Vez ou outra, acontece isso: uma obra eleva tanto a régua para certos temas que as expectativas títulos subsequentes se tornam quase ingratas. The Great Lillian Hall, telefilme que a HBO estreou no último 31 de maio, não deixa de padecer dessa comparação. Enquanto Meu Pai rompia formalidades narrativas e inovava no modo com que colocava o espectador no lugar de seu protagonista, o recente lançamento da HBO cai na vala comum de filmes sobre demência, tanto em forma quanto em discurso.

No centro da história está Lillian Hall (Jessica Lange), consagrada atriz da Broadway que, prestes a estrear um novo espetáculo, começa a vivenciar esquecimentos e alucinações. Em pouco tempo, descobre ter uma doença análoga à demência que lhe tirará a memória e as palavras, pontos cruciais para o exercício da arte de interpretar. O lugar-comum começa por aí: filmes sobre a perda da memória sempre buscam protagonistas cujas profissões dependem da palavra, a exemplo da escritora Iris Murdoch vivida por Judi Dench em Iris e da professora interpretada por Julianne Moore em Para Sempre Alice, papel que lhe valeu o Oscar de melhor atriz.

Os conflitos imaginados pela roteirista Elisabeth Seldes Annacone, em seu primeiro roteiro de longa-metragem são muito protocolares. Da filha ressentida pela ausência de uma mãe ocupada com o trabalho estelar aos esquecimentos que a atriz tenta a esconder a todo custo para provar que pode, sim, seguir como protagonista de seu mais novo espetáculo, The Great Lillian Hall pouco avança na construção da angústia que é ver uma pessoa percebendo seu próprio desaparecimento. A saída encontrada pela roteirista é colocar os esquecimentos convenientemente em momentos cruciais para dosar a urgência da situação — ainda que o fato de Lilian estar com frequência nos palcos seja um bom elemento de tensão, pois, neles, ela se vê socialmente exposta e vulnerável.

Contrastando com o filme em si, Jessica Lange, em papel que quase foi de Meryl Streep, tem muito a dizer no papel da protagonista. A escalação vem em boa hora, uma vez que Lange, a um passo de se tornar EGOT (falta apenas o Grammy), tem tido oportunidades muito melhores em séries e minisséries nos últimos anos (American Horror Story, Feud: Bette and Joan) do que em longas-metragens. A última vez que ela protagonizou um filme foi, salvo engano, em Grey Gardens, curiosamente outro telefilme da HBO, ao lado de Drew Barrymore. Quinze anos sem uma oportunidade dessa dimensão é muito para uma atriz como Lange. Ela reconhece a oportunidade e imprime toda emoção e a dimensão à personagem principal.

A atriz dribla obstáculos que poderiam dificultar o trabalho de intérpretes menos talentosas. Um deles é, além dos já citados, a falta de elementos suficientes para sentirmos que Lillian é, de fato, uma lenda da Broadway, seja por seu background ou pelas próprias referências a seu nome,. Aliás, o próprio showbusiness ganha traços rasteiros, com citações a quotes óbvias (Uma Rua Chamada Pecado, A Malvada, etc.) e até algumas situações que exigem suspensão de crença, como o fato da produtora do espetáculo ter tantas opiniões sobre o estado debilitado de Lillian, mas nunca realmente tomar uma atitude drástica sobre isso. Pois Lange tira de letra e expõe, com emoção e humanidade, todo o talento que o filme diz que sua protagonista tem, assim como suas fragilidades, dúvidas e angústias diante de um inevitável deterioramento. É a interpretação que faz poderia muito bem adaptar o título para The Great Jessica Lange.

Rapidamente: “20 Dias em Mariupol”, “O Clube dos Milagres”, “Clube Zero” e “O Sabor da Vida”

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O Sabor da Vida é muito mais do que as polêmicas envolvendo a sua escolha para representar a França na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional.

20 DIAS EM MARIUPOL (20 Days in Mariupol, 2023, de Mstyslav Chernov): Vencedor do Oscar 2024 de melhor documentário, esse filme do diretor ucraniano Mstyslav Chernov captura, com bastante crueza, a recente invasão russa na cidade de Mariupol e registra todos os horrores inerentes a qualquer guerra. Da tensão reverberada pela chegada dos primeiros tanques até imagens de devastações da cidade-título, 20 Dias em Mariupol traz imagens pesadas de se ver, com o intuito, claro, de ser uma grande denúncia do que está acontecendo em território ucraniano, mas também de dar uma outra dimensão ao espectador que pensa conhecer o verdadeiro horror de uma guerra só por acompanhar as notícias em telejornais e sites da internet. Essa acaba sendo a grande força do documentário, pois o resultado se aproxima mais de uma grande reportagem do que de uma produção com DNA cinematográfico. O tom jornalístico, corriqueiro no gênero, não chega a ser uma surpresa porque se trata da vocação do próprio Mstyslav, correspondente de guerra já reconhecido pelo Prêmio Pulitzer de Serviço Público por seu trabalho na profissão. 20 Dias em Mariupol é, aliás, composto por imagens originalmente enviadas pelo jornalista para veiculação em noticiários durante os dias em que ficou encurralado com outros colegas durante a invasão russa na cidade ucraniana. Soma-se ao caldo a inserção de dilemas clássicos da profissão e verbalizados pelo diretor-narrador, como quando o repórter se vê dividido entre ajudar uma pessoa necessitada ou apenas fazer o registro do momento. Diminui a força e a urgência do relato? De maneira alguma. Apena se torna um daqueles casos em que o tema se sobrepõe à forma, com todos os prós e contras.

O CLUBE DOS MILAGRES (The Miracle Club, 2023, de Thaddeus O’Sullivan): Sempre serei grato a filmes como O Clube dos Milagres por eles reunirem grandes atrizes que já não recebem o devido protagonismo — no caso, temos aqui Maggie Smith, Kathy Bates e Laura Linney. E também sempre reclamarei de filmes como O Clube dos Milagres porque normalmente eles são incapazes de criar histórias inspiradas para que essas atrizes brilhem além dos talentos inerentes a elas. Oriundo da TV, o diretor Thaddeus O’Sullivan dá vida ao roteiro de Jimmy Smallhorne, Joshua D. Maurer e Timothy Prager como um açucarado telefilme familiar dos anos 1990, mas sem qualquer tom de nostalgia que possa tirar o pó em torno do material. Também não ajuda O Clube dos Milagres ter uma história das mais frágeis, em que as protagonistas vividas por Maggie e Kathy sonham visitar a cidade de Lourdes, esperando viver um milagre. Antes de embarcar, elas se deparam com o retorno de Chrissie (Laura Linney), figura ausente em suas vidas há muitos anos e que traz consigo uma série de mágoas e mal entendidos de um passado distante. Falta graça ao longa, que acaba dependente das atrizes, todas boas como de praxe, mas sem ter muito o que fazer com o texto morno. Há ainda pitadas de humor pouco eficientes entre os coadjuvantes, além de uma certa tentativa de emular, sem sucesso, o charme de uma comédia britânica. Não por acaso, O Clube dos Milagres passou despercebido mundo afora e, aqui no Brasil, foi, sem alarde, para o streaming. Destino compreensível para um longa que, mesmo inofensivo, não deveria ter se permitido chegar a um nível tão grande de inexpressividade com as atrizes reunidas em cena.

CLUBE ZERO (Club Zero, 2023, de Jessica Hausner): Prova de que todas as premiações e festivais são suscetíveis a erros (e dos grandes!) é Clube Zero ter disputado a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2023. Dirigido pela austríaca Jessica Hausner, o filme se revela uma sucessão de coisas que não dão certo, algo no mínimo surpreendente para uma cineasta em seu oitavo longa-metragem. Nessa equação de erros, talvez não exista problema maior do que a forma torta com que Clube Zero aborda uma série de temas delicados. Na trama, Mia Wasikowska interpreta uma professora que estabelece um vínculo muito próximo com um grupo de alunos quando introduz em aula o tema da alimentação consciente e como os seres humanos se relacionam com ela. Tal proximidade começa a tomar rumos perigosos, uma vez que os estudantes — alguns bulímicos, outros diabéticos ou apenas displicentes com hábitos alimentares — ficam gradativamente obcecados com o assunto, entrando em uma espiral de fanatismo que pode inclusive colocar suas vidas em risco. Mas, afinal, o que é Clube Zero? Uma sátira? Um drama? Um thriller? Um filme-denúncia? Sem nunca se fazer entender, a diretora Jessica Hausner, autora do roteiro em parceria com Géraldine Bajard, peca na abordagem temática e na construção da narrativa. A falta de foco prejudica a conexão com os personagens, afinal, fica complicado compreender o que devemos sentir por eles e, principalmente, qual o objetivo do filme com as discussões levantadas. Diante desse vazio, Clube Zero se arrasta e se distancia, acreditando ter algo a dizer quando, na verdade, é até mesmo problemático na irresponsabilidade de suas tentativas de abordagem.

O SABOR DA VIDA (La Passion de Dodin Bouffant, 2023, de Anh Hung Tran): Foi o filme enviado pela França para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme internacional do Oscar 2024, o que causou uma série de polêmicas diante da trajetória vitoriosa de Anatomia de Uma Queda, começando pela Palma de Ouro em Cannes até o próprio Oscar de melhor de roteiro original. Estrategicamente, a decisão se mostrou mais do que equivocada, mas, do ponto de vista artístico, não dá para reclamar, pois O Sabor da Vida é especial em muitos aspectos. Nele, a gastronomia é vista como um ritual não apenas da cozinha, mas também da nossa própria existência. A primeira meia hora, centrada na produção e na degustação de um elaborado banquete, já nos mostra como os personagens se compreendem através do ato de cozinhar e como se comunicam através dele. Avesso aos clichês edificantes e de redenção que permeiam os filmes sobre gastronomia, o roteiro escrito pelo próprio diretor vietnamita Anh Hung Tran se utiliza de longos preparos na cozinha e da reação dos personagens ao que vai aos pratos para destrinchara profunda cumplicidade entre Eugénie (Juliette Binoche) e Dodin (Benoît Magimel), parceiros de trabalho há 20 anos. Ao mesmo tempo em que dá para sentir o aroma dos pratos ao longo de todo o filme, também é possível compreender porque Eugénie e Dodin formam uma excelente dupla. Tudo acontece sem pressa alguma, com total economia nas palavras e uma sinestesia que pode até não ser para todos os paladares, mas que, por si só, já é o suficiente para que O Sabor da Vida mereça ser descoberto como essa preciosa forma encontrada pelo cinema para retratar mais uma vez a gastronomia.

“A Paixão Segundo G.H.” é difícil transposição do romance de Clarice Lispector para o cinema

Nada me fazia supor que eu estava a um passo de um império.

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Direção: Luiz Fernando Carvalho

Roteiro: Luiz Fernando Carvalho e Melina Dalboni

Elenco: Maria Fernanda Cândido e Samira Nancassa

Brasil, 2023, Drama, 124 minutos

Sinopse: Rio de Janeiro, 1964. Após o fim de uma paixão, G.H. (Maria Fernanda Cândido), escultora da elite de Copacabana, decide arrumar seu apartamento, começando pelo quarto de serviço. No dia anterior, a empregada (Samira Nancassa) pediu demissão. No quarto, G.H. se depara com uma enorme barata que revela seu próprio horror diante do mundo, reflexo de uma sociedade repleta de preconceitos contra os seres que elege como subalternos. Diante do inseto, G.H. vive sua via-crúcis existencial. A experiência narra a perda de sua identidade e a faz questionar todas as convenções sociais que aprisionam o feminino até hoje. Baseado no romance de Clarice Lispector.

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Por definição, obras da literatura consideradas “inadaptáveis” sempre dividirão opiniões quando transpostas para o cinema. Lembro particularmente de Ensaio Sobre a Cegueira, que foi levado às telas por Fernando Meirelles com a bênção do próprio autor José Saramago. Ao fim de uma sessão à época de lançamento do filme, Saramago disse, emocionado, que sua alegria em ter visto o resultado era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro nos anos 1990. Se uma lenda da estatura do escritor aprovou o resultado, quem haveria de contestá-lo? Pois o público não foi lá muito simpático com o longa de Meirelles, provando que romances amplamente consagrados e reconhecidos por suas naturezas inadaptáveis dificilmente alcançarão algum tipo de unanimidade.

Arrisco dizer que A Paixão Segundo G.H. não foge à regra. Tomando como base o romance homônimo lançado pela escritora Clarice Lispector em 1964, a versão cinematográfica marca o retorno do cineasta Luiz Fernando Carvalho à direção de longas-metragens. Seu último trabalho para o cinema foi em 2001, quando lançou o belo Lavoura Arcaica, adaptação do livro de Raduan Nassar. Mais uma vez se lançado em um desafio fílmico-literário, agora acompanhado de Melina Dalboni na confecção do roteiro, o diretor preserva, em A Paixão Segundo G.H., o domínio estético e a sensorialidade muito própria do seu cinema, ao mesmo tempo em que adota um formato demasiadamente hermético para narrar uma história que precisava de mais ar para ganhar vida.

Quem dá vida à protagonista G.H. do título é Maria Fernanda Cândido, em uma interpretação que, com certeza, ficará entre as mais citadas de sua carreira. Para além de sua beleza clássica, que é explorada pelo diretor com inúmeros closes, belos figurinos e monólogos em que olha diretamente para a câmera, Cândido dá conta da imensidão de sentimentos e reflexões que se desenham em cena, o que é um desafio dos mais difíceis. Cabe a ela, em grande parte, garantir a conexão com o espectador, também porque A Paixão Segundo G.H. é um filme-solo e ambientado em um único local (o apartamento da protagonista), com uso de quase nenhum outro personagem, exceto a empregada vivida Samira Nancassa, em participação mínima. E Cândido se sai muitíssimo bem, seja como musa ou nas múltiplas facetas dessa escultora que decide reorganizar a própria casa.

Acontece que A Paixão Segundo G.H. pesa a mão na verborragia, sem deixar tempo para o espectador respirar. Talvez reverente demais com o texto de Clarice Lispector, o roteiro transmite as palavras da escritora de duas formas: em narração ou por meio de monólogos. Até mais ou menos a metade da projeção, o formato é eficiente, pois casa muito bem com o excelente trabalho de fotografia, direção de arte e trilha sonora. Entretanto, quando G.H. encontra a barata que será a razão de todas as suas reflexões, o filme perde seu impacto. Isso porque, conforme avança nos questionamentos da protagonista, o roteiro passa a amontoar, de maneira incessante, as belas, porém densas e complexas, meditações de Lispector, preservadas aqui vírgula a vírgula, sem um ajuste sequer. Se, em um livro, é possível fazer uma pausa para absorver pensamentos ou digerir divagações, na versão cinematográfica é impossível, pois não há espaço para isso.

A Paixão Segundo G.H. termina por se desviar para o intelectualmente exaustivo por conta dessa forma que alterna entre narrações e monólogos. Não lembro de já ter visto tanto texto em off no cinema — e, uma vez que o texto de Lispector foi intocado, a sensação é que, por vezes, o filme se aproxima de um audiobook —, assim como as declamações de G.H., em certa altura, parecem estar acontecendo em um teatro devido à união do tom literário, ao espaço limitado em que se passa (o quarto da empregada) e à própria dramatização de Cândido. Para o meu gosto pessoal, essa combinação acelerada deixa escapar o impacto. Afinal, quando estamos pescando a profundidade de uma passagem, ela logo termina para dar lugar a outra tão profunda quanto.

Navegando no que define como uma reação criativa à obra de Lispector e não exatamente como uma adaptação, o diretor Luiz Fernando Carvalho abarca, conforme ele próprio evocou na exibição do filme durante a última edição do Festival do Rio, a potência feminina que vai além da cosmo-política do homem ocidental. Os temas complexos são, claro, oriundos do livro original e também preservados à risca, inclusive na longa exploração da barata, observada aqui quase microscopicamente como a própria protagonista. Se A Paixão Segundo G.H. é considerado uma das obras mais densas de Clarice Lispector, é correto afirmar que, à parte questões de apreço ou não pelo resultado visto na tela, a recriação de Luiz Fernando Carvalho ganha pontos, ao menos, por bancar a realização de um longa muito próprio e específico, algo cada vez mais em falta nas salas de cinema. Não é para opiniões mornas.

Independent Spirit Awards 2024: “Todos Nós Desconhecidos”, de Andrew Haigh

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Fantasmas podem ser assustadores, principalmente aqueles que carregamos conosco. Não falo aqui sobre questões sobrenaturais, mas sim íntimas. Afinal, como não encarar como fantasmas as coisas mal resolvidas de um passado, os afetos nunca recebidos daqueles que deveriam concedê-los, ou as relações repletas de confissões não feitas e sentimentos reprimidos? É o tipo de história que me interessa demais, e que Todos Nós Desconhecidos destrincha com louvor.

Andrew Haigh talvez tenha realizado aqui o seu filme mais pessoal, o que não é pouca coisa se levarmos em consideração que ele já assinou pérolas como 45 Anos. Aqui, ele retorna ao universo gay sem mimetizar Weekend, seu ótimo trabalho de estreia na direção de longas-metragens. Pelo contrário: é nítido como Haigh se mostra versátil em estilo e discussões, dessa vez centrado em um protagonista “assombrado” pelas bases afetivas mal resolvidas de sua vida.

Como acontece com cada um de nós, Adam (Andrew Scott) é, em todos os sentidos e para o bem ou para o mal, fruto da criação que recebeu dos pais. Ambos ainda estão muito vivos em sua memória, a ponto de reaparecerem para ele como fantasmas, mas com uma diferença crucial: o casal parece ter parado no tempo, há exatos 30 anos, quando Adam ainda era uma criança a caminho da adolescência — período delicadíssimo para quem se descobre gay.

Ao reencontrar os pais, ele revisita uma série de silêncios que Todos Nós Desconhecidos trata magistralmente como atemporais. O silêncio de Adam é um deles: quando pequeno, chorava sozinho no quarto por ter a sua sexualidade zombada. Por outro lado, o silêncio vivido em casa machucava em dobro, uma vez que o pai (Jamie Bell) sabia que algo estava  errado com o filho ao ouvi-lo chorar, mas era incapaz, à época, de abrir a porta e oferecer-lhe um abraço ou uma palavra de conforto. A cena em que ambos conversam sobre essa cicatriz, com certa perspectiva, é de partir o coração.

O adulto que desaba chorando ao conversar com o pai sobre a importância de um abraço  é o mesmo que precisa ser firme e quase didático com uma mãe que, embora cuidadosa com as palavras e os gestos, veladamente associa a homossexualidade à epidemia da AIDS, por exemplo. Também autor do roteiro baseado no romance Strangers, de Taichi Yamada, Haigh navega por essas questões com maturidade, levando-as para o plano emocional, sem parecer que está colocando o protagonista em um acerto de contas com o passado.

A dor de Adam está em compreender o quanto certas coisas tão triviais para garotos heterossexuais lhe foram negadas enquanto descobria sua homossexualidade — e, principalmente, em entender que essas marcas são profundas e ecoam por toda a vida. É aí que a presença de Harry (Paul Mescal), um vizinho aparentemente tão solitário quanto Adam, chega para fazer essa ponte entre passado e presente. Por meio da relação entre os dois, Todos Nós Desconhecidos explora, então, os efeitos do passado na forma como Adam se relaciona, desde a hesitação em começar uma simples conversa com um estranho até a entrega, que parece ter sabor extra exatamente por ser tão difícil.

Os dilemas do longa são ancorados em uma performance formidável de Adam Scott, a melhor de sua carreira até o momento. É impecável a habilidade com que ele explora tanto a maturidade de um homem marcado pelo passado quanto a fragilidade de alguém que, lá no fundo, talvez ainda seja um garoto precisando de carinho. Complementando o desempenho de Scott, todos os coadjuvantes têm momentos de brilho, como os pais vividos por Claire Foy e Jamie Bell, e o próprio Paul Mescal na pele do vizinho que se torna um importante interesse romântico.

Sendo, portanto, um filme sobre fantasmas internos, Todos Nós Desconhecidos sublinha o nome de Andrew Haigh como um dos mais interessantes da sua geração. Aqui, inclusive, Haigh se permite explorar mais a questão estética, com resultados frequentemente melancólicos ou visualmente impressionantes. A sequência passada em uma festa captura, através das imagens, a importância daquele momento para Adam, assim como a cena final ao som de The Power of Love garante a emoção necessária para o desfecho. Mais uma vez, fico na expectativa para o que ele nos reserva em seu próximo trabalho.

INDICAÇÕES AO INDEPENDENT SPIRIT AWARDS 2024:
– Melhor filme
– Melhor direção
– Melhor performance protagonista (Andrew Scott)

Independent Spirit Awards 2024: “Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer

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Rudolf (Christian Friedel) e Hedwig (Sandra Hüller) finalmente estão vivendo a vida que sempre sonharam. Desde os filhos bem-educados à mansão imponente com piscina, jardins e estufa, o casal sente ter realizado tudo aquilo que imaginavam desde que iniciaram seu relacionamento, aos 17 anos de idade. Para eles, trata-se de um inquestionável paraíso. No entanto, para nós, espectadores, o que se desenrola na tela é um verdadeiro inferno. E a razão para isso é tão simples quanto aterradora: Rudolf e Hedwig moram ao lado do campo de concentração de Auschwitz. Apenas um muro os separa do local onde mais de um milhão de pessoas foram mortas durante o Holocausto.

Ao longo da história e da evolução, o ser humano aprendeu a se adaptar a todo tipo de circunstância; há, no entanto, algo de muito terrível quando perdemos a capacidade de nos horrorizar com a barbárie. Quando isso ocorre, falhamos como humanidade. Essa é uma temática que interessa ao diretor Jonathan Glazer, e que acaba conduzindo todo o mal-estar que permeia Zona de Interesse — seu primeiro longa-metragem em uma década, desde Sob a Pele, de 2013. E, para ampliar o contraste perturbador entre o descaso da família Höss e o genocídio diário ocorrido em Auschwitz, Glazer se vale de uma estratégia perspicaz: a de não encenar uma cena explícita sequer de violência, elevando o longa a uma experiência sensorial.

Tudo o que percebemos são fumaças ao fundo, o som de tiros, alguns gritos e ruídos por vezes indecifráveis. Sabemos, no entanto, que tudo isso significa morte e tortura. Os crimes cometidos em Auschwitz serão eternamente repugnantes, a ponto de um filme como Zona de Interesse causar grande incômodo apenas ao cutucar o imaginário do espectador, sem precisar recorrer a um horror explícito. Mesmo quando o indizível se traduz em passagens, digamos, mais diretas ao assunto, Glazer preserva o impacto — como quando Hedwig e Rudolf se divertem na cama com o perfume francês que pertencia a um dos mortos no campo de concentração.

Zona de Interesse captura o cotidiano da família Höss ao estilo de um reality show. Em certo ponto, mais de trinta microfones e dez câmeras trabalhavam simultaneamente em diferentes pontos da casa, possibilitando que os atores circulassem em cena com o mínimo de interferência. Foram 800 horas de material bruto condensadas em cerca de 105 minutos, com planos estáticos que, entre um corte e outro, colocam o espectador na posição de observador. É um convite para que, do lado de cá da tela, exercitemos nossa capacidade de encontrar significado nas ações mais banais, desde o filho que brinca no quarto com bonequinhos empunhando rifles, até o casaco de pele provado em frente ao espelho.

A inspiração para Zona de Interesse vem do romance homônimo de Martin Amis, também autor do roteiro ao lado de Jonathan Glazer; mas muita atenção para a palavra inspiração, pois a versão cinematográfica é diferente em uma série de aspectos, começando pela decisão de nomear a família Höss, ao invés de criar personagens ficcionais como no livro. Os Höss de fato existiram, e é importante identificá-los, tamanho o papel exercido por eles em uma das maiores atrocidades da História. Se há alguém na realidade encenada por Zona de Interesse que merece alguma compreensão, talvez seja apenas o cachorro — a única alma verdadeiramente viva que parece inquieta, agitada e incomodada com a atmosfera daquele ambiente.

E pensar que, em um passado recente,  dadas as devidas proporções, essa história se repetiu aqui no Brasil – quando centenas de milhares de vidas foram ceifadas pela Covid-19, enquanto autoridades eleitas pelo povo testemunhavam impassíveis a desgraça de toda uma população, banalizando o valor da existência do próximo. É impossível  não constatar que, infelizmente, como seres humanos, ainda temos muito a evoluir.

INDICAÇÃO AO INDEPENDENT SPIRIT AWARDS 2024:
– Melhor filme internacional