Logan
So this is what it feels like…

Direção: James Mangold
Roteiro: James Mangold, Michael Green e Scott Frank, baseado em história de James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal, Quincy Fouse, Reynaldo Gallegos
EUA, 2017, Ação/Drama, 137 minutos
Sinopse: Em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina. (Adoro Cinema)

Quando o diretor James Mangold recebeu carta branca para fazer Logan com classificação indicativa máxima, a conquista foi motivo de celebração, já que, muito além de poder realizar um filme com violência infinitamente mais gráfica, ele poderia contar uma história sem ter a obrigação de agradar a todo tipo de plateia. Com isso, foram escanteados a significativa quantidade de alívios cômicos tão inerentes aos blockbusters, a predileção pelo CGI em cenas de ação grandiosas e principalmente os arcos dramáticos perfeitamente previsíveis. Tudo isso já poderia por si só diferenciar o último longa-metragem de Wolverine estrelado por Hugh Jackman, mas o conceito foi muito além: melancólico e com tom de urgência, Logan é uma produção que surpreende por sua abordagem profundamente triste ao acompanhar os dias de um herói que, com um rosto envelhecido e cansado, precisa enfrentar, literal e metaforicamente, a maior batalha que todos nós também estamos fadados a enfrentar: aquela contra nós mesmos.
Décimo filme da franquia X-Men e o terceiro protagonizado por Wolverine, Logan varre para baixo do tapete todos os longas anteriores de seu universo ao demonstrar que não só aprendeu como atualizar um personagem que surgiu pela primeira vez nas telas há 17 anos como também observou atentamente as possibilidades pioneiras da trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan de unir entretenimento com sofisticação narrativa. James Mangold, um diretor que faz tudo que é tipo de filme mantendo uma boa média de qualidade (Johnny & June, Identidade, Garota, Interrompida), dá um notável salto artístico em seu trabalho atrás das câmeras: entre Wolverine: Imortal e Logan existe uma clara vontade de proporcionar uma experiência diferente, algo que ele mesmo confessa quando fala sobre o roteiro, que traz inspirações assumidas de longas célebres (Os Brutos Também Amam, no sentido de realizar um quase faroeste para um protagonista que procura uma mudança de vida rumo a dias mais isolados e pacíficos) e outros contemporâneos (Pequena Miss Sunshine, evocado aqui na abordagem de um road movie que oscila entre a melancolia e o humor com uma criança e um senhor no banco traseiro).
Sem qualquer vilão querendo dominar o mundo ou tramas repletas de engenhosidades descartáveis (o que não deixava de sabotar Christopher Nolan em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo), Logan é comandado com uma crueza embasbacante. Se antes Wolverine usava suas garras para aniquilar inimigos quase sem derrubar uma gota sequer de sangue em cenas de lutas mirabolantes, aqui Mangold abraça o realismo ao pesar a mão na medida certa em sequências que realmente encenam a gravidade do combate físico e cujas acrobacias foram de fato performadas pelos atores ou por seus dublês. É um ganho tremendo para um filme com clima de despedida como esse, já que o protagonista, ao atravessar cenários áridos e inóspitos, surge abatido pela idade (ele usa até óculos para ler!) e por seu duro passado. Em Logan, os heróis são falíveis, o que de certa forma não deixa, no sentido positivo, de desclassificar o filme de James Mangold como um filme herói. Antes de mais nada, a história é sobre seres humanos, onde os pés estão bem firmados no chão.
Encenado em 2029, mas renegando futurismos idealizados (pelo contrário: é seguida a lógica de que, talvez, a humanidade realmente não melhore com o passar das décadas), Logan cumpre com louvor a missão de fazer uma despedida ao mesmo tempo em que introduz, com muita organicidade, possibilidades para que o universo tenha sobrevidas a partir de novos personagens e situações. É meticuloso esse roteiro que, em termos de ação, se sustenta a partir de uma única perseguição para falar sobre o quanto certas jornadas podem realmente nos transformar. Afinal, é meio ilusório acreditar que até mesmo o mais poderoso dos super heróis passe por tantas mortes, despedidas e traumas sem carregar pelo menos algumas cicatrizes internas. Pois Logan/Wolverine se abala sim: desesperançoso ao ponto de descontar a raiva com a vida no próprio carro, o personagem, por trás de uma barba mal feita, das rugas que o tempo trouxe e das garras que não saem de suas mãos com a naturalidade de antes, já nem mesmo compreende mais o que é se conectar com o próximo – e, por isso, não é à toa que se torna poderoso, tanto para ele quanto para nós, um carinho aparentemente cotidiano, mas tão negado a nosso protagonista, ao final da trama.
Hugh Jackman, que segura o personagem como poucos atores que estrelam filmes baseados em quadrinhos, alcança, em Logan, o seu auge como Wolverine. É injusto, no entanto, reduzi-lo a apenas a essa comparação: depois de ter apresentado performances grandiosas nos últimos anos em filmes como Os Miseráveis e Os Suspeitos, Jackman entrega uma atuação digna de ser reconhecida independente de gênero cinematográfico. O trabalho, que desde já está destinado a ser lembrado como um dos seus pontos altos como intérprete, ainda é complementado por outro ator em momento digno de aplausos: Patrick Stewart, que finalmente recebe a chance que tanto lhe era negada nos filmes anteriores da franquia, abraçando por completo a proposta de ser um homem tão abalado e fadigado quanto o protagonista. Com ação visceral e discussões comoventes, Logan marca uma revolução no cinema derivado de adaptação de quadrinhos, mas sem nunca negar sua origem ao brincar com referências, falar novamente sobre a caça aos mutantes e apresentar personagens com novos poderes. As decisões artísticas funcionaram porque, somente nos Estados Unidos, Logan foi a maior estreia de um filme com classificação indicativa máxima, ocupando mais de 4 mil salas de cinema. Em termos de crítica e público, o filme é um sucesso. E com toda razão.
Rapidamente: “É Apenas o Fim do Mundo”, “Até o Último Homem”, “Kubo e as Cordas Mágicas”, “A Qualquer Custo” e “A Tartaruga Vermelha”

Dez anos depois de Apocalypto, Mel Gibson volta à direção de longas com Até o Último Homem, filme de guerra que constrói uma história curiosa a partir de uma narrativa clássica.
É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste La Fin du Monde, 2016, de Xavier Dolan): Quando exibiu É Apenas o Fim do Mundo no Festival de Cannes de 2016, o diretor Xavier Dolan assumiu que seus filmes são mesmo histéricos – e quem não gosta que vá procurar outra coisa para assistir. A lógica não deixa de estar certa, mas Dolan precisa urgentemente tratar seus problemas em casa, já que, para corroborar essa sua afirmação, precisou menosprezar publicamente um crítico que odiou o seu filme, mas aprovou Creed: Nascido Para Lutar, como se a opinião dele não valesse nada por conta disso. O elenco europeu de alto nível que o jovem cineasta reúne em seu mais recente longa (Gaspard Ulliel! Léa Seydoux! Vincent Cassel! Marion Cotillard!) comprova a reputação conquistada nos últimos anos. Contudo, a histeria que ele acertadamente assume atrapalha demais a experiência. E o problema de É Apenas o Fim do Mundo não é nem necessariamente as incansáveis discussões dos personagens, e sim as razões (ou melhor, a falta delas) que despertam tais desavenças. Tanto barraco mal construído, gratuito e sem profundidade nos impede de ter alguma compreensão dos personagens. A partir disso, interpretações de tom muito menor como a de Ulliel e Cotillard se perdem porque os dois parecem apenas duas figuras inertes que vagam cabisbaixos o filme inteiro. Por outro lado, figuras explosivas como as de Cassel e Seydoux testam a nossa paciência ao despertar discussões com as situações mais avulsas possíveis, como quando a matriarca coloca no rádio uma música que, sem saber, um dos filhos detesta. É Apenas o Fim do Mundo merecia ser um impactante drama familiar e não, como bem Dolan reconhece, uma simples histeria. Vou mesmo seguir o conselho do diretor e procurar outra coisa para assistir a partir de agora.
ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, de Mel Gibson): Expressivo retorno de Mel Gibson na cadeira de direção após o mediano Apocalypto, de 2006, Até o Último Homem vem colhendo uma série de críticas que, de certa forma, sempre foram associadas ao diretor: melodrama, pregação religiosa, sadismo e por aí vai… Há casos em que é possível concordar com uma coisa ou outra (A Paixão de Cristo é o maior exemplo nesse sentido), mas não me parece ser o caso desse ótimo filme de guerra dirigido por ele. Em Até o Último Homem, detratores enxergam melodrama ao invés da narrativa clássica, formato que sempre foi uma marca de Mel Gibson. Já a chamada pregação religiosa em momento algum se estende ao filme, restringindo-se unica e exclusivamente à construção dramática do protagonista, um católico fervoroso que leva os mandamentos de Deus ao pé da letra (e isso está muito bem enraizado em sua personalidade surpreendentemente bem defendida por Andrew Garfield). Por fim, é de se questionar até as críticas em relação ao sadismo, já que estamos falando de um filme de guerra, e nem assim a violência se revela exagerada ou muito menos grotesca. Ganhando muitos pontos com a história curiosíssima (o jovem que se alista no exército para salvar vidas como médico, recusando-se a sequer ter a posse de qualquer arma), Até o Último Homem é impressionante na grandiosidade, na eficiência e na condução de suas cenas de batalha, além de ser o raro caso de uma obra do gênero que, mesmo um tanto mal contextualizada historicamente e rasa nas discussões familiares, deve envolver inclusive quem tem um pouco de preguiça com relatos de guerra. Assim é bom ter Mel Gibson de volta.
KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings, 2016, de Travis Knight): Com graça e originalidade, Kubo e as Cordas Mágicas talvez seja a animação mais completa a competir na temporada de premiações deste ano. Mesmo perdendo basicamente todos os prêmios para Zootopia – Essa Cidade é o Bicho, o longa dirigido por Travis Knight abrange o público adulto e infantil preservando um aspecto muito importante: o de ser produzido nos Estados Unidos e ainda assim captar todo o espírito do mundo oriental onde a trama é encenada. Maior animação em termos de metragem já feita no formato stop-motion, Kubo e as Cordas Mágicas flerta com o pessoal, a imaginação e até mesmo o místico para contar a criativa história de um garotinho que precisa derrotar um espírito de seu passado. O filme funciona com grande fluidez e empatia porque os personagens são adoráveis, a história é instigante na construção de seus conflitos e o visual é frequentemente arrebatador (os destaques ficam com com o personagem dublado por Ralph Fiennes e com a dupla sombria de mulheres que persegue o protagonista). Tão impressionante é o trabalho técnico de Kubo e as Cordas que a animação conseguiu um feito raro no Oscar: faturar uma indicação na categoria de efeitos visuais, algo que não acontecia desde 1993 com O Estranho Mundo de Jack. E o melhor: por mais que seja impactante do ponto de vista técnico, a obra jamais deixa de ser um relato bastante particular de seu protagonista. Para um diretor que acaba de estrear na direção de longas, Travis Knight está realmente de parabéns.
A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016, de David Mackenzie): Uma das boas surpresas do Oscar 2017, A Qualquer Custo é extremamente eficiente mesmo trabalhando com lógicas fáceis envolvendo filmes sobre assaltantes. Aliás, tematicamente, o longa assinado por David Mackenzie não deixa de ser torto na forma como quer tornar quase heroico, por exemplo, o sujeito branco e norte-americano que assalta bancos porque, vejam só, quer dar um futuro melhor ao filho e quitar todas as dívidas que tem com a ex-mulher. Se A Qualquer Custo procurasse acompanhar e construir com complexidade o ponto de virada em que o tal homem decide se entregar à ilegalidade, talvez a situação fosse também marcante no conteúdo. Como não o é, fica lembrado como um filme que conduz com destreza sua ação, atualizando a paisagem do western (os personagens usam até iPhone!) e se destacando em pontos técnicos dignos de nota, como a fotografia de Giles Nuttgens e a trilha sonora da dupla Nick Cave e Warren Ellis (lembram do trabalho magnífico deles para O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford?). Quanto ao elenco, Jeff Bridges continua repetindo o papel de Coração Louco e a situação ficaria muito mais curiosa se os papeis de Ben Foster e Chris Pine fossem invertidos, principalmente porque é fácil demais para o primeiro fazer o tipo tempestuoso enquanto o segundo é uma escolha óbvia para o irmão bonito e virtuoso. Entretanto, apesar das ressalvas, A Qualquer Custo prende o espectador com uma facilidade empolgante, o que é resultado de uma inspirada direção.
A TARTARUGA VERMELHA (La Tortue Rouge, 2016, de Michael Dudok de Wit): Animação francesa desprovida de diálogos, A Tartaruga Vermelha é uma experiência exclusivamente dedicada aos adultos por uma série de razões. Com estética simples, mas narrativa contemplativa e uma série de metáforas, o filme de Michael Dudok de Wit talvez funcionasse melhor como curta-metragem, visto que a história frequentemente cai na repetição ou até mesmo na necessidade de estacionar determinados assuntos visto o formato longo. Mesmo assim, é impossível ficar indiferente primeiro à curiosidade que a história desperta como o relato de sobrevivência de um homem que acorda em uma ilha após um acidente marítimo e depois como uma bonita homenagem ao poder que as relações humanas têm de transformar as nossas vidas. É a primeira animação não-japonesa do estúdio Ghibli, responsável por clássicos filmes orientais do gênero, como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro. O desvio de percurso no portfólio se deu a partir da admiração dos executivos do estúdio pelo trabalho do diretor Michael Dudok de Wit, que faz carreira como animador na Holanda e havia dirigido quatro curtas-metragens antes de realizar A Tartaruga Vermelha. O convite foi uma completa surpresa para Dudok, que não acreditava que pudesse receber um voto de confiança dessa magnitude. E ele pode respirar aliviado: ambiciosa em reflexões, a animação é um acerto delicado em termos de narrativa.
Um Limite Entre Nós
Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in.

Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson, baseado na peça de teatro homônima e de autoria própria
Elenco: Denzel Washtington, Viola Davis, Stephen Henderson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Mykelti Williamson, Saniyya Sidney, Christopher Mele, Lesley Boone, Jason Silvis
Fences, EUA, 2016, Drama, 138 minutos
Sinopse: Baseado na aclamada e premiada peça teatral homônima. Um homem, que sonhava em se tornar um grande jogador de beisebol durante sua infância, acaba frustrado na vida como um catador de lixo. (Adoro Cinema)

De acordo com Denzel Washington, ele e Viola Davis se apresentaram 114 vezes nos palcos dos Estados Unidos com Um Limite Entre Nós. Revival da celebrada peça homônima de 1987 que chegou a vencer prêmios emblemáticos como o Tony e o Pullitzer, a nova versão estrelada pela dupla preservou o texto de August Wilson sem mexer uma vírgula sequer. O autor, falecido em 2005, era rígido quanto ao seu texto: antes de morrer, escrevia ele próprio uma adaptação cinematográfica, exigindo que, caso fosse de fato levada às telas, deveria ser assinada somente por um diretor afro-americano. Nada mais lógico, portanto, que Denzel Washington, profundo conhecedor do texto de Wilson, resolvesse comandar a primeira adaptação do espetáculo. As 114 apresentações contabilizadas por ele fizeram toda a diferença, pois, segundo Denzel, filmar Um Limite Entre Nós, depois de tantas experiências com a história nos palcos, foi mera questão de reajuste. Porém, se esse reajuste foi um facilitador para as questões de bastidores, o que recebemos do lado de cá da tela não deixa de ser frustrante, uma vez que o filme cai na clássica armadilha de se contentar em ser apenas um teatro filmado ao invés de construir uma identidade cinematográfica. Tanta proximidade simplesmente não fez bem ao projeto.
Considerando exemplos mais recentes, os dramas Dúvida e Álbum de Família também podem ser acusados do mesmo problema, mas de forma infinitamente menos prejudicial. Afinal, enquanto o primeiro transita por diversos pontos de uma grande escola católica para capturar o dia a a dia de professores, alunos, padres e freiras, o segundo, apesar de encenado exclusivamente em uma casa, conta com uma infinidade de personagens cujas relações se entrelaçam das formas mais diferentes possíveis. Já Um Limite Entre Nós não tem a configuração de nenhum dos dois, assemelhando-se mais ao que Roman Polanski fez em Deus da Carnificina (uma comparação bastante depreciativa, diga-se de passagem). Ou seja, na adaptação dirigida e estrelada por Denzel Washington, tudo se resume a um único ambiente com a ação concentrada em pouquíssimos personagens, sendo muitos deles figuras que estão apenas de passagem. A partir disso e com a ideia de manter tal e qual o texto escrito por August Wilson para o cinema, abre-se margem para cenas longuíssimas, diálogos verborrágicos, ritmo maçante e interpretações que, mesmo impactantes, estão muito mais para um palco de teatro do que para uma tela de cinema.
A proximidade de Denzel com o material surge como empecilho porque sua carreira como diretor não é lá muito expressiva (foram dois trabalhos antes desse: os medianos Voltando a Viver e O Grande Debate), o que amplia a ideia de que, tratando-se de Um Limite Entre Nós, atuar é uma coisa e dirigir é outra. No entanto, o que falta nessa transição é mesmo estofo na direção para que a história ganhe contornos cinematográficos. Denzel não é lá muito criativo atrás das câmeras, aproveitando pouquíssimo do poder da tão fundamental mise-en-scène em adaptações teatrais e do próprio fluxo entre as cenas (é seca demais, por exemplo, a revelação de um segredo para a plateia e depois para o personagem que será abalada por ele). Isso faz com que Um Limite Entre Nós dependa ainda mais de seu texto, e é quase sempre nele que a maioria das adaptações cinematográficas de obras teatrais consegue ter alguma força. Não é diferente aqui, onde o autor August Wilson, ambientando muito bem a questão de ser um negro de origens humildes na racista sociedade estadunidense dos anos 1950, centraliza seus drama na influência da figura patriarcal e como ela reverbera por toda uma vida. E não qualquer patriarca: Troy Ryan, que acredita não ter obrigações de afeto com qualquer pessoa (nem mesmo com o filho) e que impõe sua autoridade como homem e pai até mesmo quando não é necessário.
Felizmente, a exemplo de Steve Jobs, Um Limite Entre Nós acerta ao ter um protagonista de difícil temperamento cercado por pessoas que clamam por sua humanidade. Isso é importante porque, se já é complicado acompanhar um teatro filmado (e de quase duas horas e meia!), a situação só piora com um protagonista difícil de gostar. São os demais personagens que tornam o retrato de Ryan complexo e interessante, afinal, essa é uma história sobre como sua presença forte e suas atitudes duras atingem os que estão a sua volta (não à toa, ele faria um ótimo par com a Violet Weston de Meryl Streep em Álbum de Família). É aí que Viola Davis, protagonista em tempo de cena, mas coadjuvante em função narrativa, emerge como o detalhe perfeito para balancear o clima quase sufocante que Troy constrói dentro de casa: emotiva e compreensiva, sua Rose não deixa de ser questionadora e combativa quando o marido ultrapassa certas barreiras. Viola, que a interpreta com a sua força habitual e natural, é grande junto a Denzel Washington, que, aí sim, mostra que a sua longa vivência com o projeto só incrementa uma excelência em atuação que ele já não precisa mais provar. Como filme de dupla, Um Limite Entre Nós é mesmo um show. Como obra de cinema em sua totalidade, desperdiça potenciais que muito provavelmente só seriam maximizados por um diretor que tivesse certa distância do projeto.
Rapidamente: “Festa da Salsicha”, “Perfeita é a Mãe!”, “Pets” e “O Que Está Por Vir”

Tinha tudo para ser uma diversão perfeitamente esquecível, mas Perfeita é a Mãe! tem um elenco em plena sintonia e sabe ser divertidíssimo mesmo com as situações mais simples.
FESTA DA SALSICHA (Sausage Party, 2016, de Conrad Vernon e Greg Tiernan): Festa da Salsicha nasceu para causar controvérsias, e isso é excelente. Com uma proposta onde é fácil agradar um público ao mesmo tempo em que ofende outro, o filme não tem a intenção de ser democrático, o que lhe restringe a uma plateia muito específica. Sim, a comédia de Festa da Salsicha é cheia de palavrões e piadas sobre sexo. Cabe a você decidir se isso é bacana. Até porque estamos falando de uma animação. Particularmente, a piada me convenceu, e, dada a circunstância, me diverti horrores com o que a dupla Conrad Vernon e Greg Tiernan subverte com essa trama protagonizada por uma salsicha que, dentro de um supermercado, descobre a terrível verdade que todos os alimentos saem de lá para serem devorados, o que imediatamente causa pânico geral. Não é preciso dizer que os menores devem ficar longe de Festa da Salsicha, mas também é bom poupar os mais sensíveis da sessão, pois o filme não poupa na subversão quando encena decapitações e até mesmo uma morte a partir da mistura de Coca-Cola e Mentos! Visualmente criativo, o filme, apesar do aparente fiapo de história, consegue se sustentar muito bem a partir de uma infinidade de personagens curiosos. Das duas uma: ou o espectador despreza o que esta na tela ou se diverte à beça. E não tenho pruridos em dizer que me desarmei para viver a segunda experiência. Até porque Festa da Salsicha dá boas razões para isso.
PERFEITA É A MÃE! (Bad Moms, 2016, de Jon Lucas e Scott Moore): Render ótima diversão com um material simples é trabalho raro, e é por isso que Perfeita é a Mãe! se revela uma grata surpresa. Espécie de Meninas Malvadas versão maternal, a comédia dirigida pela dupla Jon Lucas e Scott Moore pegas temas cotidianos e exclusivamente femininos para, em meio a saídas fáceis, mas eficientes no humor, questionar, entre outros tópicos, o papel da mulher na sociedade. Toda mãe precisa ser perfeita? Mas, afinal, o que é ser perfeita? É abdicar qualquer respiro na rotina para atender todas as vontades dos filhos? Ou ser uma executiva exemplar e conseguir chegar em casa a tempo para fazer a janta e colocar as crianças na cama? Perfeita é a Mãe! brinca (muitas vezes de forma séria, como toda boa comédia) com essas questões que cada vez mais batem na porta de uma sociedade inegavelmente machista. O filme tem trilha pop, ritmo ágil, situações divertidas e principalmente um elenco que não veio para uma brincadeira qualquer: Mila Kunis está em um de seus desempenhos mais espontâneos, a sempre ótima Kathryn Hahn se esbalda com muito talento no papel papel mais chamativo da história, Kristen Bell acerta o ponto de uma personagem que vai da ingenuidade à libertação e Christina Applegate bem que poderia ser a mãe de Rachel McAdams no já citado Meninas Malvadas tamanho o veneno disfarçado por dinheiro, maquiagem e bons saltos altos. Vá sem medo porque a diversão é garantida.
PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS (Pets, 2016, de Chris Renaud e Yarrow Cheney): Não tenho receio algum em dizer que é o tipo de animação que evito sem pensar duas vezes: aquelas que os estúdios produzem apenas para divertir as crianças. Basicamente o Toy Story dos animais de estimação (na verdade, não apenas deles, já que aparecem até jacarés e cascavéis nas ruas de Nova York!), Pets: A Vida Secreta dos bichos é exclusivamente dos pequenos no sentido de fazer de tudo para conquistá-los visualmente. No filme assinado pela dupla Chris Renaud e Yarrow Cheney, importa mais o coelho fofinho se revelar maquiavélico com mil caras e bocas do que propriamente desenvolver alguma história sobre ele. Tudo é pretexto para que gatos, cachorros, passarinhos e hamsters saiam pelas ruas se metendo em todo tipo de enrascada, mesmo que muitas delas sejam bastante exageradas, como os inúmeros acidentes de trânsito que os bichinhos causam quando estão na direção de caminhões (!!!). É sempre um mau sinal em termos criativos: enquanto as crianças certamente se divertem com a infinidade de animais, não é muito difícil que os adultos se sintam entediados com uma trama esquecível, onde o apelo visual se sobrepõe ao conteúdo já bastante frágil. A boa ideia – muitos filme infantis já foram irresistíveis ao falar sobre a relação dos animais com os seres humanos, a exemplo de Aristogatas, o meu clássico particular nesse sentido – é desperdiçada por esse projeto carente de uma verdadeira história.
O QUE ESTÁ POR VIR (L’avenir, 2016, de Mia Hansen-Løve): Como é de praxe na carreira da francesa Isabelle Huppert, 2016 foi mais um ano prolífero para atriz. Além de chegar aos cinemas brasileiros com Mais Forte Que Bombas, Fique Comigo, O Vale do Amor e, claro, Elle, a atriz também teve boa repercussão no circuito alternativo com O Que Está Por Vir, assinado por Mia Hansen-Løve, outra profissional francesa. Provando novamente ser uma das grandes intérpretes do cinema mundial por transitar em qualquer tipo de papel, Huppert aqui é uma professora de filosofia que, após ser abandonada pelo marido que sai de casa para viver com outra mulher, precisa reconstruir toda uma vida dada como certa até então. Sem nunca se repetir (seria fácil qualquer tipo de comparação, já que sua Michèle LeBlanc, de Elle, até hoje está muito presente em nosso imaginário), Huppert registra as transformações dessa protagonista madura de forma muito sutil mesmo quando verte lágrimas ao sentar no ônibus e ver o ex-marido com a nova mulher. Os louros também devem ser dados – e de forma muito merecida – para a diretora, que jamais procura fazer da vida da personagem um dramalhão. O maior exemplo disso é a cena em que o marido anuncia a traição e o desejo de divórcio. Ali, não há escândalos, discussões, choros irrefreáveis ou vasos sendo quebrados. Ao mesmo tempo, sapos não são engolidos, provando que, mesmo não seja necessariamente marcante, O Que Está Por Vir é um filme de gente grande e que sabe encontrar um equilíbrio invejável entre o menos e o mais.

