Cinema e Argumento

Na coleção… Crash – No Limite

De todos os filmes da última década, Crash – No Limite deve ser aquele que mais desperta o amor e ódio dos cinéfilos. Cheio de defensores e detratores, o filme de Paul Haggis ficou conhecido como uma das maiores surpresas da história do Oscar. Antes do prêmio, pouco era comentado. Depois, passou a ser debatido em todos os cantos do planeta. Mas, afinal, será mesmo que esse filme merecia tanta polêmica por ter tirado o Oscar das mãos de O Segredo de Brokeback Mountain?

Tal questão já foi discutida exaustivamente e, recentemente, quando revi Crash – No Limite reafirmei o meu posicionamento de que o filme está longe de representar esse endeusamento dos admiradores, assim como também está muito distante de ser o horror apontado por quem o odeia. Crash – No Limite, pelo menos para mim, é um filme satisfatório e com algumas virtudes – mas, claro, não isento de falhas.

O exagero está presente (a trilha de Mark Isham, por exemplo, é bastante manipuladora, mesmo que efetiva), mas nada que apague os surpreendentes efeitos causados por um roteiro repleto de cenas tensas e marcantes. Existem pelo menos dois momentos fenomenais – e não vou nem descrevê-los para não estragar a surpresa de quem ainda não conferiu o longa. Em tantas cenas explosivas, quem mais se destaca é Thandie Newton, que chegou a vencer o BAFTA por seu ótimo desempenho.

Celebrado por ser um excelente retrato da violência em Los Angeles, hoje Crash – No Limite deve parecer batido. Contudo, devemos nos lembrar que essa onda de filmes com histórias interligadas surgiu após o trabalho de Paul Haggis. Crash é o original. E, no que se propõe, consegue ser muito acima da média. As ressalvas não comprometem o ritmo efetivo e contundente dessa obra controversa e que será questionada até o fim dos tempos. Não amo nem odeio. Só defendo um filme injustamente massacrado por causa de um Oscar.

FILME: 8.0


Na coleção… A Malvada

Se você ainda dá credibilidade para o Oscar, deve saber que A Malvada é o primeiro de dois filmes que conseguiram o recorde de 14 indicações ao prêmio. Dá para entender facilmente o porquê de Titanic estar ao lado do filme estrelado por Bette Davis. Mas também dá para entender, na mesma proporção, o porquê desse trabalho de Joseph L. Mankiewicz ter recebido tanta celebração. A Malvada nada mais é que um filme que tem todas as suas engrenagens funcionando em pura sintonia.

Bette Davis, mais elegante e diva do que nunca, interpreta a estrela de teatro Margo Channing. Famosa por suas peças, ela recebe a visita de uma ingênua menina que diz ser a sua maior fã. No entanto, Eve Harrington (Anne Baxter) está longe de ser esse poço de pureza. Ela quer reproduzir a técnica de Margo e também alcançar o sucesso que sua ídola conquistou através dos anos. Ou seja, a malvada do título enganador não é Bette Davis e sim Anne Baxter.

Talvez o maior mérito de A Malvada seja a habilidade do diretor Makiewicz em falar sobre teatro sem realizar um filme somente calcado nesse tipo de arte. A produção está longe de parecer um teatro filmado. É cinema mesmo. Claro que as interpretações possuem esse estilo (até porque esse era o estilo vigente naquela época), mas nada que deixe A Malvada com cara de uma peça teatral. A direção de arte explorada com precisão, bem como os impecáveis figurinos ajudam a construir o clima mais cinematográfico do filme.

Em relação às atuações, elas são um show a parte. Ao passo que Bette Davis aparece na atuação mais emblemática de sua carreira, Anne Baxter também não fica muito atrás ao mesclar diversos tipos de abordagens para sua personagem. Reparem também numa ligeira aparição de Marilyn Monroe. Atuações clássicas, direção segura e roteiro marcante (existem várias frases memoráveis citadas até os dias de hoje) transformam A Malvada em um clássico obrigatório!

FILME: 9.0

Na coleção… As Confissões de Schmidt

Não é fácil falar do nosso filme favorito, não é mesmo? Pelo menos pra mim, essa é uma missão que envolve uma avaliação meio “cega”. Difícil questionar algum aspecto ou falar mal de algum momento do filme que conquistou o nosso coração por completo. Às vezes, ele nem é considerado por muitos como um grande filme, mas, por alguma razão, conseguiu um lugar especial na formação cinéfila de um indivíduo. Pois é exatamente assim a minha relação com As Confissões de Schmidt, uma produção pouco valorizada, mas que me desperta um carinho todo especial.

Warren Schmidt (Jack Nicholson) é um homem recém aposentado. Ele trabalhava como estatístico e agora está preso numa rotina. Quando a súbita morte de sua mulher o pega de surpresa, Schmidt percebe que está sozinho, já que a filha (Hope Davis) mora em outra cidade e está prestes a se casar com um sujeito medíocre. Tentando dar algum sentido para sua vida, o protagonista decide apadrinhar um menino pobre da África chamado Ndugu. Schmidt, portanto, fica encarregado de sempre mandar uma contribuição financeira e uma carta para o garoto. Assim, ele passa a compartilhar com o jovem Ndugu pensamentos que nunca havia dividido nem mesmo para a falecida esposa. Nesse meio tempo, parte em uma viagem para o casamento da filha.

Tinha uns 13 anos quando assisti As Confissões de Schmidt pela primeira vez. Ou seja, ainda não cultivava de forma tão intensa a minha vida de cinéfilo. Mas, mesmo com a minha falta de interação com o mundo de cinema, fiquei extremamente comovido quando assisti a esse filme de Alexander Payne. Jack Nicholson me conquistou logo de cara, a mistura entre drama e comédia foi certeira para o meu gosto pessoal e, nos créditos finais, fiquei surpreso por estar derramando lágrimas com a belíssima cena do desfecho. Não sei se é porque me identifico com o personagem, mas algo nesse longa-metragem me fisgou em todos os aspectos.

Com uma ótima trilha sonora de Rolfe Kent, As Confissões de Schmidt tem como principal engrenagem uma extraordinária performance de Jack Nicholson (a minha favorita de toda a carreira do ator). Longe de qualquer caricatura habitual (e isso não é um menosprezo quando se fala em Nicholson), o ator encontrou a harmonia perfeita entre drama e comédia. Vencedor do Globo de Ouro por esse filme, ele merecia, inclusive, ter vencido o Oscar por um desempenho tão surpreendente como esse. Aliam-se a ele as ótimas Kathy Bates e Hope Davis, bem como um roteiro cheio de narrações em off sublimes e cenas muito reflexivas.

As Confissões de Schmidt foi o filme que marcou o início da minha verdadeira paixão pelo cinema. Talvez nem seja considerado pelo público cinéfilo uma obra-prima. Mas é com essa definição que o longa de Alexander Payne reside na minha mente. Marcante para mim desde o momento em que eu o vi pela primeira vez até quando recebi o dvd de presente, As Confissões de Schmidt me emociona até hoje, nunca perdendo todo o brilho que enxerguei pela primeira vez anos atrás. Tem mais do que mero valor cinematográfico para mim. Tem valor humano. Ainda sofro com o personagem, choro com a cena final e reverencio esse filme por ter me mostrado como o cinema pode ser muito mais que uma mera diversão. Em certos casos, ele pode mudar uma vida. Foi o que aconteceu comigo. Será mesmo que eu seria esse apaixonado pela sétima arte se não fosse o dia em que conferi As Confissões de Schmidt?

FILME: 10.0


Na coleção… O Código Da Vinci

Sinceramente, não entendo o porquê de terem metralhado tanto O Código Da Vinci. Na realidade, consigo enxergar várias razões para o filme ter desapontado o público – e confesso que, quando vi pela primeira vez também fiquei decepcionado – mas acho que elas são poucas para justificar a tamanha aversão que as audiências mundo afora tiveram com esse trabalho de Ron Howard. Baseado no estrondoso best-seller de Dan Brown, O Código Da Vinci abriu o festival de Cannes, onde começou a sua jornada de vaias e críticas negativas.

É certo que a acadêmica direção de Howard prejudicou esse filme. Enquanto o livro era extremamente dinâmico e movimentado, a versão cinematográfica se apoiou demais no didático para desenvolver a trama. Com medo de ser polêmico, o filme resolveu apaziguar algumas críticas (no final, tem um discurso enfadonho do protagonista sobre a validade de todas as opiniões, incluindo as científicas e religiosas) e foi para o caminho inverso do livro. Enquanto Dan Brown criticava de forma ferrenha a igreja, o longa de Howard resolveu apresentar os dois lados da moeda para que o espectador tire suas próprias conclusões.

O didático também não ficou apenas nesse aspecto, mas também no que se refere ao modo de contar a história. A duração é excessiva (a versão estendida tem quase três horas de duração!), o formato ação-repetina-com-diálogos-explicativos é a principal engrenagem e a divisão dos focos narrativos conferem a O Código Da Vinci um clima todo formulaico. No entanto, reclamações a parte, é um filme bem produzido – a fotografia é ideal e a trilha sonora de Hans Zimmer tem momentos excepcionais (a composição Chevaliers de Sangreal é uma das mais belas da última década).

Longe de ser um filme de aspectos grandiosos, O Código Da Vinci se sai bem dentro das limitações impostas pelo estilo quadrado do diretor Ron Howard. Entrega tudo bem mastigado, com situações bem delineadas e discussões interessantes. Claro que se formos comparar com a obra original ou com o que essa produção poderia ter realizado, o resultado é decepcionante. Contudo, O Código Da Vinci, apesar de suas limitações, tem sim um bom resultado. Com ressalvas, é claro. Mas sei que sou um estranho no ninho, já que não consigo ver esse filme todo errado que a maioria vê.

FILME: 8.0


Na coleção… Closer – Perto Demais

Closer – Perto Demais é um verdadeiro tapa na cara. Os diálogos dilacerantes e as situações que explicitam o ser humano sendo guiado por dúvidas, desejos e incertezas conferem ao filme de Mike Nichols uma contundência notável. Baseado em uma peça de teatro (nos palcos, Clive Owen fazia o papel que, no filme, ficou com Jude Law), é perceptível que a força do longa-metragem está inteiramente no texto e nas atuações. No entanto, Nichols foi competentente o suficiente – como se isso fosse novidade – para não conferir a Closer um tom teatral. É uma história que tem cara de filme mesmo.

O enredo nada mais é do que uma ciranda de amores e traições entre quatro pessoas (Clive Owen, Julia Roberts, Natalie Portman e Jude Law). Quando assisti pela primeira vez, logo no ano de seu lançamento, não apreciei tanto. Com o passar dos anos, comecei a perceber que Closer é aquele tipo de filme que cresce com o espectador e que, com o passar dos anos, a cada revisão, passamos a compreender melhor o dilema dos personagens. É uma história que exige um espectador que reconheça os conflitos da tela ou que, ao menos, se identifique com alguma situação que está sendo representada.

O quarteto de atores está impecável, onde todos interpretam com exatidão seus respectivos personagens. Se Jude Law sofre com seu personagem vitimizado (talvez por ser o único da história que acredite que tudo deve ser feito em nome do amor, não importando o quanto machuque os outros), as outras figuras rivalizam com suas personalidades geniosas e que, inclusive, podem afastar o espectador. O comportamento repentinamente inconstante de Alice (Portman) incomoda, Larry (Owen) chega a intimidar com seu jeito de “homem das cavernas” (como ele mesmo se define) e Anna (Roberts) nos afasta com suas atitudes sentimentais disfarçadas por expressões e gestos  gélidos.

Contudo, tudo isso não é problema para o elenco, que está em plena  sintonia e com momentos maravilhosos. Todos elogiam Portman e Owen, mas gostaria de deixar meus elogios para Julia Roberts, muito subestimada por esse filme – que tem uma das melhores atuações da atriz nos últimos anos. No mais, Closer assusta um pouco por ser tão seco, mas faz o casamento perfeito entre diálogos sensacionais e ótimas atuações. Existem algumas escolhas na história e na forma como ela é contada que não me agradam, como os repentinos pulos no tempo, mas, por mais que eu não considere esse filme uma obra-prima, reconheço suas indiscutíveis qualidades. E ele está repleto delas.

FILME: 8.5