Cinema e Argumento

Na coleção… Batman – O Cavaleiro das Trevas

Logo quando entrou em cartaz, Batman – O Cavaleiro das Trevas causou enorme burburinho em torno da performance de Heath Ledger como Coringa. O ator, que faleceu antes mesmo da estreia do filme, despertou a curiosidade de todos. Ledger, de fato, está fenomenal nessa ótima produção de Christopher Nolan. No entanto, O Cavaleiro das Trevas está muito longe de ser apenas sobre a presença do ator. Nolan realizou um filme cheio de méritos – e que, também, mereciam ser igualmente reconhecidos pelo público.

Talvez, o maior destaque dessa adaptação de quadrinhos seja o tom extremamente sério que ficou no ar. Mesmo que existam super heróis e vilões “clássicos” desse estilo de produção, O Cavaleiro das Trevas consegue ser realista – principalmente porque as cenas foram filmadas em cenários reais. Gotham City foi representada como uma cidade qualquer e, nesse aspecto, o filme se aproximou mais da verossimilhança. Os efeitos especiais são no tom certo para a ação e o setor sonoro apresentam ótimo resultado.

Do ponto de vista técnico, o longa impressiona. Igualmente interessantes são as interpretações do elenco. Ainda tenho dificuldades em ver Bale como protagonista, mas os coadjuvantes compensam. Ledger, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman e Michael Caine estão ótimos em cena. Pena que a mocinha da história, dessa vez interpretada por Maggie Gyllenhaal, não seja lá muito interessante. Portanto, temos aqui um feito possivelmente inédito: um filme de ação e quadrinhos onde o elenco é um dos principais atrativos.

O resultado não está isento de falhas. Acredito que uma a ser ressaltada é o roteiro. A história é bem arquitetada, mas longa e, em algumas partes, cansativa e complexa. Não sei se o grande público terá facilidade em compreender algumas passagens do filme. É preciso prestar atenção em  detalhes de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Tenho minhas dúvidas se essa produção é realmente extraordinária como muitos apontaram. Mas, não ouso questionar a qualidade notável apresentada aqui.

FILME: 8.5


Na coleção… Babel

Na época em que foi lançado, Babel sofreu inúmeras comparações com Crash – No Limite. Os paralelos feitos entre a obra de Alejandro González Iñárritu e o celebrado longa-metragem de Paul Haggis são válidos. No entanto, os dois filmes são bem distintos em suas essências. O formato pode ser parecido, mas a linguagem utilizada no conteúdo é diferente. Enquanto Crash – No Limite limitava-se a falar sobre o preconceito da sociedade norte-americana, Babel versa sobre a comunicação por meio de um caráter global.

Iñárritu considera Babel o terceiro volume de uma trilogia – que começou a ser construída com o ótimo Amores Brutos e que recebeu continuidade, depois, no denso 21 Gramas. Das três produções, Babel pode ser considerada a que menos alcança resultados notáveis. Contudo, de maneira alguma, deve ser desprezada por isso, já que é o longa-metragem mais acessível da tal trilogia. Sem falar, claro, que possui aspectos extremamente interessantes – e também intensos.

A forte direção de Iñárritu consegue ir além da mera costura de várias histórias. Ele coloca, na trama, traços dramáticos complexos e ainda se permite trabalhar a identidade cultural de cada país retratado em cena. Indicado ao Oscar, ele perdeu a estatueta na categoria de direção para Martin Scorsese. Por mais que eu considere Os Infiltrados um dos filmes mais bem realizados da carreira de Scorsese, o grande trabalho daquele ano, para mim, era o de Iñárritu.

Logo em seguida, claro, aparecem as performances. Todos os atores possuem algum momento especial. No entanto, ao meu ver, o destaque fica com Rinko Kikuchi e Adriana Barraza. Ambas estão ótimas em seus respectivos papéis e são elas que carregam a maior parte da força emocional do filme. Enquanto Kikuchi é a figura mais complexa, Barraza é a mais sentiemental. Não desmereço Brad Pitt e Cate Blanchett, mas os dois ficaram atrás das duas atrizes “desconhecidas”.

No geral, Babel tem seus méritos, mas também não deixa de ter falhas. A maior delas é ser um longa-metragem cansativo, já que a duração é um pouco excessiva. Também fica aquela sensação de que “já vimos isso antes”. Porém, são defeitos que não diminuem a excelência do filme. Na avaliação geral, eles só fazem com que Babel não seja o longa memorável que poderia ser, eles só não deixam o filme ir muito além do ótimo resultado.

FILME: 8.0

Na coleção… Angels in America

Arrisco a dizer que Angels in America foi a minissérie mais bem sucedida de toda a história da TV norte-americana. Não só porque, realmente, foi um excelente trabalho, mas porque também levou todos os prêmios por onde passou. Meryl Streep, Al Pacino, Mary-Louise Parker e Jeffrey Wright foram consagrados no Emmy e em outras premiações por seus desempenhos e ainda a minissérie abocanhou todas as importantes categorias. Gostanto ou não, você não pode dizer que Angels in America é algo banal realizado na TV. A produção é impecável e a estética tem até jeito de longa-metragem.

Se não bastasse o quarteto vencedor do Emmy, ainda temos na equipe outros nomes conhecidos como Emma Thompson, Patrick Wilson, James Cromwell e Michael Gambon. A direção ficou a cargo do sempre ótimo Mike Nichols. Angels in America é produto de arte – ou seja, não vai ser qualquer pessoa que conseguirá entrar nas viagens do roteiro ou nas imaginações dos personagens. É um roteiro muito figurativo e que, a cada revisão, torna-se mais compreensível e admirável. Mas, mesmo sendo tão alegórico, o texto dialoga com naturalidade.

Acompanhamos aqui a vida de várias pessoas que, de um jeito ou de outro, precisam conviver com a homossexualidade (seja a própria ou a de algum parente ou amigo) e, mais especificamente, com a AIDS. Possivelmente, o maior feito de Angels in America é não cair no melodrama. Aliás, passa longe disso. A temática da minissérie é apenas uma deixa para uma boa análise de relacionamentos, preconceitos e sociedade. Não chega a ser emocionante ou sequer mais empolgante. No entanto, é fácil reconhecer o ótimo resultado alcançado.

Em uma análise final, fica a certeza de que Angels in America é uma sucessão de acertos. Na útima cena, não é só a belíssima trilha de Thomas Newman (o melhor trabalho da carreira do compositor) que fica com o espectador, a minissérie também fica. Pode até não ter sido aquele projeto emocionante ou aquela produção impecável. Mas, sem dúvida, é um produto de maior grandeza. Uma aula de como se produzir uma minissérie dramática para a TV sem apelar para artifícios desnecessários. Vale a pena conhecer Angels in America.

FILME: 8.5


Na coleção… Um Amor Verdadeiro

Tenho um grande fraco por filmes que retratam histórias de câncer. Mas, também, não pode ser qualquer filme. Considero inadmissíveis essas produções insuportavelmente clichês e que nem atores bons possuem para trazer algum tipo de emoção. Lembro, diretamente, daquele péssimo filme com o casal Amanda Peet e Dermot Mulroney, O Amor Pode Dar Certo. Agora, quando só uma atuação acerta de forma contundente, já é o suficiente para me emocionar. E, convenhamos, a maioria dos bons filmes com essa temática são assim: não passam de um ótimo trabalho de elenco.

Um Amor Verdadeiro não se difere dos seus irmãos nessa temática. Entretanto, o que faz o diferencial aqui é que todos os atores estão em ótimos momentos. A beneficiada poderia ser apenas Meryl Streep, já que ela é a vítima da doença. Não é o que acontece. Renée Zellweger, William Hurt e Tom Everett Scott também estão impecáveis como a família que, de repente, tem que aprendar a lidar com o câncer da matriarca. A sinopse é exatamente essa e não existe muito o que se dizer: Um Amor Verdadeiro trata sobre as feridas sentimentais que ficam expostas quando as estruturas de uma família ficam fargilizadas após a doença de alguém. O que existe aqui é uma grande sinceridade – que é transmitida com muita competência pelos atores.

Meryl Streep (em uma duvidosa indicação ao Oscar de melhor atriz, já que, claramente, não é a protagonista) dá um nó em nossos corações com cenas totalmente avassaladoras – especialmente naquelas em que está aniquilada pela doença. Renée Zellweger, em ótimo momento (possivelmente, o meu favorito da atriz), representa a força da família – uma vez que é a filha que voltou para casa apenas para cuidar da mãe, já que os o pai e o outro filho não conseguem lidar direito com isso. William Hurt, como o patriarca que, a princípio, parece relapso e sem coração, entrega outro excelente desempenho ao passo que Tom Everett Scott se sai muito bem em suas poucas cenas.

Um Amor Verdadeiro é longo em demasia (chega a ultrapassar duas horas de duração para narrar uma história que poderia ser contada de forma mais objetiva) e tem vários clichês – o Natal não poderia faltar, claro. Contudo, é um desses filmes de câncer que dá muito certo. Entramos de corpo e alma na história e conseguimos sofrer junto com aquela família. E, também, notamos que não é mérito apenas de uma dedicada Meryl Streep que sofre o tempo inteiro. É mérito de uma equipe de atores e de um roteiro que sabem que existe uma linha muito tênue entre o emocionante e o forçado. Um Amor Verdadeiro pode até apelar para as formas mais convencionais, mas nunca soa forçado ou sequer incômodo por ser formulaico. E, por isso mesmo, é um ótimo longa.

FILME: 8.5


Na coleção: Alguém Tem Que Ceder

A química entre Jack Nicholson e Diane Keaton em Alguém Tem Que Ceder é, provavelmente, a melhor que já vi em qualquer comédia romântica do cinema. Digo isso com tanta segurança porque são eles que salvam o filme de Nancy Meyers. Aliás, elevam o filme a um patamar que a diretora poderia não ter alcançado sem eles. Toda a graça, o charme e o carisma de Alguém Tem Que Ceder vem de uma dupla simplesmente perfeita.

Harry Sanborn (Jack Nicholson) é o típico senhor de idade que é cheio do dinheiro, cercado por belas mulheres mais jovens e muito satisfeito com a vida. Até o momento em que ele conhece a dramaturga Erica Barry (Diane Keaton, vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar por seu desempenho aqui). Na realidade, Harry está namorando a filha de Erica mas, de repente, começa a ter sentimentos pela mãe – que é uma mulher mais velha. Ou seja, não é o tipo dele.

Então, premissa simples – para não dizer batida. E claro que, nas mãos de Nancy Meyers, isso poderia resultar em mais uma bobagem aborrecida. Mas, por incrível que pareça, parece que até ela foi inspirada pela química de Nicholson e Keaton. Existem momentos iluminados, como aquela cena em que Keaton chora desesperadamente após uma desilusão amorosa. Mas, não dá pra se enganar muito, já que existem outras cenas completamente descartáveis e um desfecho infinitamente prolongado.

Contudo, é admirável como nos esquecemos desses erros para entrar na ótima história dos protagonistas. Esse sim, o primeiro filme dirigido a um público diferenciado e que conseguiu cumprir com muito louvor a premissa de falar sobre pessoas mais velhas. Meyers, posteriormente, tentaria repetir o sucesso com o irregular Simplesmente Complicado. Alguém Tem Que Ceder, portanto, está longe de ser um grande filme. Mas é delicioso de se ver… nem que seja por Nicholson e Keaton, brilhantes juntos. Eles compensam tudo.

FILME: 8.5