50ª Mostra de Cinema de São Paulo #6: “Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy

Entre os 21 longas-metragens que disputavam o Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano, somente Mulher Desconhecida contava com direção feminina, estatística escandalosa para um evento cinematográfico tão longevo e conceituado. O júri presidido pela atriz e cineasta Maggie Gyllenhaal não deixou por menos, atribuindo ao filme de May el-Touhky o prêmio mais cobiçado do festival europeu, além de uma vitória na categoria na categoria de melhor atriz. Em uma reação para lá de previsível, a imprensa não hesitou em perguntar se o Leão de Ouro foi atribuído ao longa justamente por ele ser dirigido por uma mulher, como se a consagração fosse apenas um posicionamento político, livre de avaliações cinematográficas.

Gyllenhaal brincou que já, sim, havia escolhido Mulher Desconhecida como vencedor antes mesmo de ver todos os filmes, pois que se tratava do único título com assinatura feminina em competição. Após a brincadeira, afirmou que, assim como qualquer outra pessoa, mulheres dirigem obras boas e ruins, e que o longa de May el-Touhky definitivamente se encaixava no segundo caso. O contexto de ele estar inserido em uma seleção com outros 20 trabalhos de direção masculina diz muito, claro, sobre o desigual estado do cinema mundial, mas Gyllenhaal foi enfática ao celebrar as qualidades do vencedor do Leão de Ouro. E eu faço coro a ela.

Ambientado no período Pós-Segunda Guerra Mundial, Mulher Desconhecida traz a empregada doméstica Marie (Mathilde Arcel) em uma Dinamarca tensa e desconfiada após a libertação da ocupação nazista. Milícias da resistência tomam conta do país sob o pretexto de prender e interrogar cidadãos suspeitos de terem colaborado com os alemães. Mulheres, por exemplo, eram humilhadas e torturadas em praça pública diante de qualquer suspeita de relação sexual ou afetiva com os soldados, sendo taxadas de traidoras da pátria. Em suma, a descoberta do mínimo de envolvimento com os alemães era condenatória, física ou moralmente.

Marie tem uma situação mais complicada, visto que está prestes a se casar com um rico empresário que não sabe sobre o seu passado. Ela, além de ter engravidado e perdido o filho de um falecido soldado alemão, agora recebe a visita de um antigo conhecido que, também tendo a desejado no passado, quer fazer parte da sua vida atual. Acuada e temerosa, a protagonista passa a viver em estado de alerta, fazendo de tudo para que a verdade sobre suas vivências pregressas não destrua a possibilidade de recomeço que está prestes a se materializar.

É muito elegante o exercício de tensão que el-Touhky desenha em Mulher Desconhecida, conjugando o contexto político da época com as tensões cotidianas de uma personagem que, como mulher, já é refém de uma série de regras e imposições sociais. Seu papel de empregada doméstica parece não se desfazer: com ou sem avental, ela precisa cuidar do cardápio das refeições, garantir que os talheres estejam posicionados a um número determinado de centímetros de distância dos copos e pentear os cabelos da pequena enteada que seu futuro mal vê ao longo do dia.

No papel de esposa, Marie inexiste como ser humano, e um exemplo disso está em como Christian (Carsten Bjørnlund) se encarrega até mesmo do vestido que ela deverá usar no casamento. E não se trata de qualquer vestido, mas sim o mesmo que sua falecida esposa usou. Ou seja, Marie está ali apenas como substituta para um homem que deve se apresentar como perfeito para o meio em que vive e trabalha. Ainda que provedor e longe de ser uma figura abusiva, Christian representa esse patriarcado insensível e alheio às mulheres como pessoas de verdade.

Outra figura interessante é a da vizinha Berg (Sofia Nolsøe), mãe solteira que, obviamente, é julgada por todos e que, em certo ponto, desempenhará papel importante nos conflitos, inclusive morais, enfrentado por Marie, que também tem suas nuances e não está reduzida ao sofrimento. Em meio a tantas angústias silenciosas, Mulher Desconhecida encontra, invariavelmente, conexão direta com o presente. Afinal, parte do desconforto causado pelo filme de el-Touhky está nessa sensação estranhamente familiar que paira ao longo da trama.

Uma grande carga do efeito que o longa causa no espectador vem da performance de Mathilde Arcel, jovem atriz de dinamarquesa que, aos 30 anos de idade, recém participa de seu quarto longa-metragem. Mas talento é talento: ela é incrivelmente expressiva no silêncio exigido de uma personagem que não compartilha seu passado com absolutamente ninguém, passando por uma gama de emoções sem muitas vezes poder externalizá-las. Marcel tem domínio absoluto em cena, entregando uma performance reveladora.

Da perspectiva histórica, Mulher Desconhecida ainda traz reflexões pertinentes sobre os significados em torno de uma guerra, mostrando que suas intenções e seus interesses mudam muito pouco com o passar dos anos. Há aqueles que lucram com ela, como o próprio marido da protagonista. Há outros que, simplesmente por habitarem um país, são discriminados e violentados sem que sequer tenham se envolvido com a guerra. E, por fim, quando realmente acaba um conflito dessa magnitude? Até quando vale uma retribuição? Maggie Gyllenhaal estava certa: Mulher Desconhecida era, sim, o único filme dirigido por uma mulher na disputa pelo Leão de Ouro, mas, antes de tudo, é uma obra repleta de qualidades.

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