50ª Mostra de Cinema de São Paulo #7: “Primetime”, de Lance Oppenheim

Entre episódios e especiais, foram necessárias apenas 20 exibições para que To Catch a Predator, da NBC, ficasse marcado no cenário televisivo estadunidense. O segmento de jornalismo investigativo do programa Dateline chegou a registrar 11 milhões de espectadores em uma única noite, número altamente expressivo para uma atração do gênero à época. Chris Hansen era o responsável por conduzir em cena a exposição e consequente prisão em flagrante de homens que, a partir de conversas na internet, marcavam encontros sexuais com menores de idade. Para tanto, a produção do programa, em parceria com uma organização de vigilância da internet chamada Perverted-Justice, criava perfis falsos em salas de bate-papo e contratava atores para interpretar as vítimas nos respectivos encontros.

Primetime, de Lance Oppenheim, reimagina os bastidores de To Catch a Predator a partir do momento em que a NBC, atenta ao sucesso da atração, decide investir ainda mais nela, levando-a ao horário nobre da emissora. Para Hansen, era a oportunidade de sua vida, e Robert Pattinson, que recentemente também esteve muito bem em O Drama, dá vida ao personagem com uma mistura de ambição e mediocridade, algo pertinente a esse homem que, na vida pessoal, tenta mascarar suas hipocrisias e está em vias de enfrentar um divórcio. Trata-se de um recorte interessante, pois, deixando claro que ajusta fatos e personagens para fins dramáticos, Primetime encontra nessa curva as maiores possibilidades dramáticas da história, ao mesmo tempo em que recusa fórmulas para explicar a vida pregressa do protagonista e toda a gênese de To Catch a Predator.

Duas outras figuras recebem atenção especial do roteiro e, inclusive, me interessaram mais do que o próprio protagonista. A primeira é Andie Bender, produtora da atração vivida por Merritt Wever. Sempre mascando chiclete — tique ou ansiedade? — Andie, na verdade, é uma junção de várias pessoas que trabalharam nos bastidores junto a Hansen, o que permite que Primetime desenhe, aqui e ali, os altos e baixos da atração a partir dos olhos de quem de fato a coloca em pé. Isso sem falar que Wever é sempre ótima atriz. E também há Dan Plum (Skyler Gisondo), jovem aspirante a ator que enfim encontra a chance de ter algum tipo de visibilidade. Dan surge como o mais humano dos personagens porque é aquele que mais se enreda em dúvidas e inseguranças quanto à natureza moral e ética do que vê a sua volta. Gisondo rouba a cena em diversos momentos, tanto pela construção do personagem quanto por sua ótima interpretação.

Com muito a oferecer no que tange ao entretenimento e à estética tão característica do início dos anos 2000, Primetime, porém, não chega a apostar em grandes complexidades. Se são muitos os momentos cômicos do filme — muito em função do constrangimento causado pela captura de homens medíocres achando que podem fazer o que bem entendem com seus ímpetos sexuais —, não são lá tão contundentes as observações que o roteiro de estreia da dupla Ajon Singh e Luke Dittrich tem a fazer sobre um universo tão particular. É provável que sua intenção nem seja essa, mas, tratando-se de um contexto tão sério, do abuso de menores aos bastidores do sensacionalismo televisivo, seria natural esperar leituras um pouco mais profundas. E volto ao Dan Plum de Gisondo por ele ser o único a ter um arco redondo nesse sentido: entre o drama e a comédia, é com ele que compreendemos a tentação, a (ir)responsabilidade e a culpa envolvendo seu entorno. Não acho que seja por acaso Primetime terminar justamente tão próximo ao seu rosto.

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