
É impressionante como, em apenas uma década, Kleber Mendonça Filho se tornou uma das principais vozes do cinema brasileiro e, sem dúvida, um de nossos cineastas mais respeitados no exterior. Mais do que a grife acoplada a seu nome, Kleber tem uma identidade muito própria como realizador. Identidade que vem sendo lapidada com O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau e, agora, Retratos Fantasmas, que fez sua estreia nacional no 51º Festival de Gramado fora de competição. O documentário é diferente de tudo o que ele realizou até agora, o que é sempre um bom sinal ao mesmo tempo em que também pode frustrar o público não tão sintonizado com o tema em questão.
A sinopse indica que Retratos Fantasmas é o relato do centro de Recife no século XX a partir das salas de cinema que movimentavam a população e ditavam comportamentos. No entanto, o filme rompe as fronteiras da simples homenagem ao cinema e parte para uma série de outros assuntos e reflexões — talvez até em excesso, principalmente quando falamos de um documentário inteiramente narrado por uma única voz (no caso, a de Kleber) e construído basicamente em cima de imagens de acervo. Entre as tantas coisas abarcadas, estão ali, por exemplo, várias memórias pessoais do diretor, registros históricos da cultura recifense, o cinema visto como lar e um tom memorialístico que se equilibra entre tudo o que já se foi e o que não está mais aqui.
O primeiro capítulo dos três apresentados pelo longa é, de longe, o meu favorito. Isso porque Kleber decide partir de seu íntimo para depois chegar ao centro cultural da cidade, permitindo que Retratos Fantasmas não seja “apenas” um filme sobre cinemas de rua. Do micro ao macro, o documentário explora, neste primeiro segmento, a relação do cineasta com a importante figura de sua mãe e, principalmente, a importância que o apartamento comprado por ela teve em sua formação como realizador, a ponto de ser um dos principais cenários de O Som ao Redor, seu longa-metragem de estreia. Revisitando a sua própria filmografia, Kleber não se preocupa em fazer desse um exercício de ego, e sim de perspicazes observações sobre como aquele espaço é a síntese perfeita de inúmeras transformações vividas por ele, pela cidade e pelo cinema em si.
Já os outros capítulos não me entusiasmam tanto, ainda que sigam apresentando um texto muito sagaz escrito pelo diretor. Por termos apenas a perspectiva de Kleber em uma narração praticamente ininterrupta, Retratos Fantasmas acaba se tornando um tanto exaustivo, especialmente para aqueles que, leigos no assunto, propuseram-se a embarcar em um documentário tão específico, seja sobre salas de cinema ou sobre o cenário cultural de Recife. Não que a especificidade seja um problema — ela não é, inclusive porque o roteiro dá conta de fazer as devidas contextualizações —, mas, em certos casos, ela será a régua pela qual mediremos nossa sintonia com o resultado, e esse é um ponto importante a ser considerado sobre Retratos Fantasmas.
De um ponto de vista formal, o documentário lida muitíssimo bem com o rico material de acervo que é estruturado com esmero. Mesmo o material estático, como fotos e recortes de jornais, ganha certa interação quando Kleber se move ou se aproxima para apontar ao espectador detalhes e informações que poderiam passar despercebidas. Também é eficiente a transição de Retratos Fantasmas entre o cinema norte-americano estampado com, por exemplo, marquises e cartazes de Batman e A Escolha de Sofia, e a defesa que o longa se propõe a fazer de um cinema que é nosso e que cujas salas acabam, infelizmente, reduzidas a pó para darem lugares a igrejas ou a prédios gigantes que descaracterizam toda uma cidade. E não deixem ainda de prestar atenção na trilha sonora escolhida sob medida, de Sidney Magal com O Meu Sangue Por Você até Herb Alpert com Rise.
Cinema é uma arte curiosa porque sempre me fascino com o quanto podemos admirar um filme, mas não exatamente se afeiçoar a ele. Já havia experimentado isso com o cinema de Kleber Mendonça Filho em O Som ao Redor, o que não se repetiu em Aquarius e Bacurau (produções com as quais tenho fortes conexões, em especial com o primeiro), mas agora volta a acontecer com Retratos Fantasmas. Tal sensação me traz de volta aos elogios para a filmografia construída pelo cineasta desde a sua estreia em longas-metragens no ano de 2012. E por quê? Pelo simples fato de que, mesmo nas vezes em que não fui fisgado por seus filmes, saí de todos com vários elogios a serem tecidos. Não é qualquer realizador, brasileiro ou mundial, que alcança tamanha solidez — muito menos em um espaço tão curto de tempo.