“O Menino Que Matou Meus Pais” e “A Menina Que Matou os Pais”: um crime marcante, dois filmes com pouco a dizer

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Direção: Maurício Eça

Roteiro: Ilana Casoy e Raphael Montes, baseado nos autos do processo do caso Richthofen

Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Kauan Ceglio, Vera Zimmermann, Leonardo Medeiros, Allan Souza Lima, Débora Duboc, Augusto Madeira, Gabi Lopes

Brasil, 2021, Drama, 85 minutos (A Menina Que Matou os Pais) e 87 minutos (O Menino Que Matou Meus Pais)

Sinopse: Em 2002, Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos chocaram o Brasil por serem os responsáveis pelo brutal assassinato dos pais de Richthofen. Acompanhando o julgamento dos dois, o famoso caso é recontado, buscando respostas sobre o que levou os jovens a cometerem esse crime.

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Até mesmo quem não tinha idade para acompanhar o caso Richthofen em 2002 deve ter o episódio gravado no imaginário tamanha a repercussão trazida nacionalmente por ele não só naquele ano, mas em todos os subsequentes até o resultado do julgamento em 2006. A reação escandalizada de todo o Brasil não foi por menos: adolescente de família rica, Suzane Von Richthofen arquitetou o assassinato dos próprios pais, mortos após diversos golpes com barras de ferro empunhadas por seu namorado Daniel e pelo cunhado Cristian, os chamados irmãos Cravinhos. A encenação de inocência durou pouco, e os três logo confessaram o crime. O nó da questão, entretanto, está no fato de que tanto Suzane quanto Daniel, apesar de assumirem o crime motivado pelo fato de ambos não poderem viver o romance devido à aversão dos pais da garota pelo relacionamento, decidiram acusar um ou ao outro quanto à ideia do assassinato. E é partindo dessas visões distintas do caso que, quase 20 anos depois, O Menino Que Matou Meus Pais e A Menina Que Matou os Pais tenta reconstruir duas possíveis versões para uma mesma tragédia.

Dirigidos por Maurício Eça e originalmente idealizados para serem lançados no cinema de forma simultânea e em sessões individuais, os dois filmes acabaram estreando no Prime Video em função da pandemia, o que se revela uma decisão das mais acertadas. A razão? Dificilmente o público compareceria para assistir aos dois longas, favorecendo, claro, a versão que incrimina Suzane Von Richthofen. Em streaming, a sessão dupla é mais possível e palatável, ainda que carregue uma imensa frustração que independe da plataforma de exibição: a de ser apenas uma reprodução ilustrada dos fatos narrados pelos réus no julgamento. Basta ter acompanhado o caso à época ou ter lido duas ou três matérias robustas na internet para qualquer espectador começar e terminar os dois filmes tendo o mesmo nível de conhecimento sobre o caso. Os argumentos, em suma, saem dos próprios personagens que se acusam, como se tudo fosse preto no branco, sem nuances ou maiores complexidades. Não há um exercício cinematográfico em cima de uma história repleta de possibilidades

Para além de um roteiro construído com acontecimentos pontuais e não com leituras em potencial, O Menino Que Matou Meus Pais e A Menina Que Matou os Pais carecem de identidade. É uma oportunidade perdida já que a proposta de contemplar duas visões poderia explorar camadas escondidas nos recortes escolhidos. Na TV e no cinema, há provas que o formato pode ser instigante e inteligente. Somente nos anos recentes, o seriado The Affair, da Showtime, capturou, em especial nas duas primeiras temporadas, as perspectivas comuns e conflitantes de dois personagens sobre um mesmo caso extraconjugal. No plano cinematográfico, o sul-coreano Certo Agora, Errado Antes, de Hong Sang-Soo navegou nas diferentes possibilidades do encontro fortuito entre um cineasta e uma pintora. Dadas as devidas proporções, ambos os títulos têm em comum a capacidade de explorar os sentimentos e as percepções que variam de um detalhe para o outro, como a cor de uma roupa, o estilo de um penteado, a entonação de uma palavra, o timing dos desdobramentos, a reação a um acontecimento… É esse jogo de combinações e contrastes que valida o formato.

Sem construir universos distintos a partir de elementos como os já citados, os dois longas se limitam a reconstruir a acusação de ambas as partes, sem também fazer qualquer reflexão sobre o caso. Dramaticamente, é uma experiência incompleta e, por vezes, de escolhas um tanto incompreensíveis. Qual a necessidade, por exemplo, de mostrar Suzane e Daniel no tribunal se os filmes sequer se debruçam no pós-crime, explicando nos créditos finais apenas o tempo de prisão a qual cada um foi sentenciado? Mais uma vez, há outras oportunidades perdidas, como a de explorar a reação do irmão de Suzane ao episódio. Personagem bastante presente na trama, Andreas seria uma figura-chave para enriquecer a repercussão do crime para os principais “sobreviventes” dessa tragédia. Por serem tão pragmáticas no tratamento dos fatos, as versões acabam se tornando simplistas e até problemáticas. Isso porque é muito complicado ver um projeto batendo na tecla de que tudo mudou na vida de Suzane e que ela fez tudo o que fez porque, em determinado momento, começou a fumar maconha e não porque já tinha uma pré-disposição psicológica ou comportamental. Trata-se de um posicionamento de traços moralistas que os filmes escolhem adotar.

O que traz certa liga é o trabalho digno da protagonista Carla Dias, que acaba dando conta do recado mesmo lidando com as limitadas variações impostas à personagem: de um lado, temos a menina inocente, manipulada e corrompida pelo namorado; de outro, a jovem revoltada, de fácil desequilíbrio e em constante atrito com os pais meramente preconceituosos e hipercontroladores — aliás, eis outro ponto frágil do projeto: ele nunca trata Manfred e Marísia com qualquer empatia ou dimensão. A performance de Carla obedece os parâmetros das versões extremas que levantam a tese de que há um grande culpado, quando, na verdade, independentemente de quem mandou ordenar o assassinato, todos foram, em menor ou maior grau, peças centrais do crime. Encorpando a onda recente de projetos brasileiros sobre crimes da vida real (O Caso EvandroElize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime), o diretor Maurício Eça e os roteiristas Ilana Casoy e Raphael Montes jogam para o espectador a missão de decidir qual das duas perspectivas é mais verdadeira, como se o caso por si só já não tivesse proposto esse questionamento em 2002. Era de se esperar que, depois de tanto tempo, houvesse algo de novo a ser dito, e não que O Menino A Menina fossem a simples encenação de um vale a pena ver de novo.

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