48º Festival de Cinema de Gramado #4: refletindo a competição irregular, cerimônia de premiação tem resultado fragmentado entre os longas brasileiros

King Kong en Asunción foi escolhido o melhor longa-metragem brasileiro em competição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Após uma programação que se deu em formato multiplataforma, com transmissões na tela do Canal Brasil, nas redes sociais e em streaming, o Festival de Cinema de Gramado encerrou sua 48ª edição neste sábado (26) com uma cerimônia de premiação novamente sem público presencial e com os indicados acompanhando o anúncio por videochamada, exatamente como já havia acontecido na Mostra Gaúcha de Curtas. Rápida e direta ao ponto, a noite de encerramento acertou pela sobriedade ao conduzir o anúncio dos vencedores sem muitas distrações e priorizando os resultados dos júris. Com uma imagem melancólica dos Kikitos enfileirados ao fundo do palco, o Festival de Cinema de Gramado consagrou, então, King Kong en Asunción como o melhor longa-metragem brasileiro de sua 48ª edição. O título dirigido por Camilo Cavalcante conquistou ainda os prêmios de melhor ator para Andrade Júnior, trilha musical e melhor filme pelo júri popular.

Como um todo, o júri oficial formado por Sabrina Fidalgo, Jeferson De, Karine Teles, Caco Ciocler e Kiko Ferraz fez as suas escolhas de maneira bastante pulverizada, refletindo a impressão de que realmente não houve um franco favorito nesta que foi, muito provavelmente, a seleção mais desinteressante de Gramado nos últimos dez anos (e somente o tempo poderá dizer se isso é consequência dos tempos de exceções que vivemos ou uma identidade da nova curadoria assinada por Marcos Santuario, Pedro Bial e Soledad Villamil). O resultado foi tão fragmentado que quatro vencedores diferentes se destacaram em prêmios centrais como melhor filme (King Kong en Asunción), direção (Ruy Guerra com Aos Pedaços), roteiro (Felipe Bragança com Um Animal Amarelo) e montagem (Eduardo Gripa por Me Chama Que Eu Vou). Ainda houve espaço para que Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, faturasse três estatuetas: atriz coadjuvante (Alaíde Costa), ator coadjuvante (Thomás Aquino) e trilha musical para Salloma Salomão.

Justamente por ser um ano tão irregular, não houve surpresas desagradáveis entre os vencedores de longas brasileiros. Ainda que certos prêmios sejam questionáveis (Elisa Lucinda é praticamente uma figurante sem desenvolvimento em Por Que Você Não Chora?, o que não justifica o prêmio especial do júri concedido a ela) e outros partam do gosto pessoal de cada um, o júri fez um trabalho coerente na distribuição dos Kikitos. Particularmente, ainda reflito sobre a vitória de King Kong en Assunción, cuja presença no Festival talvez fizesse mais sentido na mostra estrangeira. É certo que o filme tem direção pernambucana e, em termos proporcionais, seja majoritariamente produzido pelo Brasil, mas não deixa de ser estranho um longa inteiramente falando em espanhol, narrado em Guaraní, ambientado na Bolívia e no Paraguai, com título estrangeiro e coproduzido por outros países da América Latina vencer a mostra de longas brasileiros. 

No que se refere ao segmento estrangeiro, é justa a vitória de La Frontera, da Colômbia, como melhor filme, especialmente quando o júri também optou por premiar Daylin Vega Moreno e Sheila Monterola como as melhores atrizes em competição. Já o prêmio de direção ficou com Mariana Viñoles por aquele que considero o melhor título dirigido exibido por nossos hermanos: El Gran Viaje al País Pequeño, documentário bastante crítico e observador que acompanha o processo de adaptação de duas famílias sírias que, tendo deixado suas terras e tradições para trás, começam uma nova vida no Uruguai. Coerente ao não premiar o fraquíssimo drama mexicano Días de Invierno, o júri composto por Bruno Polidoro, Fabio Meira, Lucia Caus, Beatriz Seigner e Armando Babaioff só pecou ao deixar passar em branco o delicado drama chileno Los Fuertes.

Por fim, a mostra em que mais discordei dos vencedores foi a de curtas-metragens brasileiros, onde O Barco e o Rio saiu vitorioso em melhor filme pelo júri oficial e popular, direção, fotografia e direção de arte. Também não sou o maior fã de Você Tem Olhos Tristes e acho que Inabitável, de Enock Carvalho e Matheus Farias, deveria ter ido além dos merecidos prêmios de melhor roteiro e atriz. Lembro, no entanto, que atividades de júri são complexas e muito relativas: este ano, inclusive, integrei o Júri da Crítica do Festival, onde escolhemos nossos filmes com muita convicção (longa brasileiro para Um Animal Amarelo, longa estrangeiro para El Gran Viaje al País Pequeño e curta brasileiro para Inabitável), mas acabamos discordando do júri oficial e popular em duas de nossas escolhas. Aliás, exatamente por fazer parte do júri, não pude comentar ao longo do evento sobre os filmes. Tirarei o atraso ao longo dessa semana, quando publicarei um balanço mais detalhado sobre as mostras.

Confira abaixo a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS


MELHOR FILMEKing Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante
MELHOR DIREÇÃO: Ruy Guerra (Aos Pedaços)
MELHOR ATRIZ: Isabél Zuaa (Um Animal Amarelo)
MELHOR ATOR: Andrade Júnior (King Kong en Asunción)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Alaíde Costa (Todos os Mortos)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Thomás Aquino (Todos os Mortos)
MELHOR ROTEIRO: Felipe Bragança (Um Animal Amarelo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Aos Pedaços)
MELHOR MONTAGEM: Eduardo Gripa (Me Chama Que Eu Vou)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Salloma Salomão (Todos os Mortos) e Shaman Herrera (King Kong en Asunción)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Dina Salem Levy (Um Animal Amarelo)
MELHOR DESENHO DE SOM: Bernardo Uzeda (Aos Pedaços)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Elisa Lucinda (Por Que Você Não Chora?)
MENÇÃO HONROSA DO JÚRI: Higor Campagnaro (Um Animal Amarelo)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)King Kong en Asunción
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança
MELHOR LONGA-METRAGEM GAÚCHOPortuñol, de Thaís Fernandes

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS


MELHOR FILME: La Frontera, de David David
MELHOR DIREÇÃO: Mariana Viñoles (El Gran Viaje al País Pequeño)
MELHOR ATRIZ: Daylin Vega Moreno e Sheila Monterola (La Frontera)
MELHOR ATOR: Anibal Ortiz (Matar a un Muerto)
MELHOR ROTEIRO: David David (La Frontera)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nicolas Trovato (El Silencio del Cazador)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRIEl Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)El Gran Viaje al País Pequeño
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA)El Gran Viaje al País Pequeño

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS


MELHOR FILME: O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader
MELHOR DIREÇÃO: Bernardo Ale Abinader (O Barco e o Rio)
MELHOR ATRIZ: Luciana Souza (Inabitável)
MELHOR ATOR: Daniel Veiga (Você Tem Olhos Tristes)
MELHOR ROTEIRO: Matheus Farias e Enock Carvalho (Inabitável)
MELHOR FOTOGRAFIA: Valentina Ricardo (O Barco e o Rio)
MELHOR MONTAGEM: Ana Júlia Travia (Você Tem Olhos Tristes)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Hakaima Sadamitsu e M. Takara (Atordoado, Eu Permaneço Atento)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Francisco Ricardo Lima Caetano (O Barco e o Rio)
MELHOR DESENHO DE SOM: Isadora Torres e Vinicius Prado Martins (Receita de Caranguejo)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Preta Ferreira (Receita de Caranguejo)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)O Barco e o Rio, de Ale Abinader
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA)Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho

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