Apostas para o Oscar 2020 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Mais curta do que o habitual (ainda bem, especialmente quando os vencedores são sempre os mesmos!), a temporada de premiações deste ano chega ao fim neste domingo (09), quando o Oscar revela os vencedores de sua 92ª edição. O histórico recente da Academia acusa a possibilidade de surpresas em comparação a maioria dos outros prêmios televisionados (Birdman, A Forma da Água e Green Book contrariaram o franco favoritismo de seus respectivos adversários), mas, até que se prove o contrário, 1917 é o filme a ser batido na cerimônia de 2020.

Novamente sem apresentador (ano passado aprendemos que isso não faz diferença alguma), o Oscar será transmitido a partir das 22h aqui no Brasil pela TNT. Para quem curte o tapete vermelho, a transmissão no canal começa às 21h. Já a Globo terá transmissão ao vivo e gratuita pelo G1 e pela Globoplay, dando início a sua cobertura às 20h. Até lá, como forma de tentar antecipar o que pode acontecer na cerimônia, deixo alguns comentários e impressões sobre as categorias, bem como as minhas preferências em cada caso. E não esqueçam: nos encontramos logo mais para comentar os vencedores!

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Parasita pode fazer história como a primeira produção em língua não-inglesa a faturar o Oscar de melhor filme, mas será mesmo que é possível desbancar 1917?

MELHOR FILME
Ainda sinto falta do tempo em que somente cinco filmes concorriam ao grande prêmio da noite. Com a possibilidade de até dez produções serem indicadas, sempre fica muito claro aquelas que estão sobrando na disputa. Apesar disso, essa parece ser a seleção mais equilibrada em anos, deixando a preferência, claro, para a identificação e o gosto pessoal de cada um. Não gosto de Era Uma Vez Em… Hollywood, que traz Quentin Tarantino mais uma vez afundado em longos excessos. Admiro determinados pontos de O Irlandês, mas não é o tipo de filme que me empolga ou muito menos me fascina. O franco favorito 1917 é um espetáculo técnico irrepreensível, só que tudo é tão planejado e ensaiado que acaba sem espontaneidade. Coringa, que é o líder de indicações, foi mais admirado do que deveria (são exageradas as menções em figurino e maquiagem, por exemplo), mas é uma produção que defendo por revigorar as fórmulas de filmes baseados em quadrinhos. Tenho um carinho imenso por Adoráveis Mulheres e fico feliz de ver um filme tão “simples” quanto História de Um Casamento chegar a esse nível de celebração. De qualquer maneira, nem somados esses filmes (e mais Ford vs. FerrariJojo Rabbit) chegam perto do impacto de Parasita. É um filmaço que ainda será muito reverenciado e citado. Tomara que os votantes se atentem a esse marco instantâneo e finalmente premiem pela primeira vez uma produção estrangeira na categoria principal.

MELHOR DIREÇÃO
É praticamente impossível Sam Mendes perder o Oscar de melhor direção, tanto pelos prêmios acumulados até aqui (Globo de Ouro, BAFTA, Sindicato dos Diretores e Critic’s Choice) quanto pelo fato de que a Academia adora um trabalho de “curiosidades”, onde cineastas falam pelos cotovelos sobre as dificuldades de produção, os meses de preparação e os contorcionismos para alcançar determinadas proezas técnicas. Como sempre, os prêmios gostam de mais direção e não da melhor direção. Tendo admirado a direção de Mendes pela técnica e não pela emoção, meu voto seria outro, e novamente destinado a Parasita. O que Bong Joon-ho faz praticamente em um único cenário, transitando entre gêneros tão diferentes, é coisa de mestre. Ele tem o espectador na mão durante todo o desenrolar da trama, sem precisar de muitas firulas para fazer um grande filme. Sua direção é de um rigor impressionante, embalada em um discurso urgente para o caos político e social que vivemos atualmente.

Com a melhor performance de sua carreira em Dor e Glória, Antonio Banderas chega pela primeira vez ao Oscar.

MELHOR ATRIZ
A seleção mais fraca da categoria em muitos anos, e não por falta de opção: Lupita Nyong’o, por exemplo, poderia estar facilmente concorrendo por Nós, mas a Academia segue com dificuldades em reconhecer atrizes negras fazendo papéis que não são marginalizados ou sobre o período da escravidão (não à toa, justamente, a única interpretação negra na disputa entre todas as categorias de atuação este ano é a de Cynthia Erivo em Harriet). Com o que temos, torna-se impossível ter outra alternativa a não ser premiar Renée Zellweger por seu belo desempenho em Judy: Muito Além do Arco-Íris. É muito tocante a simbologia desse reconhecimento, por motivos que já discuti na crítica que escrevi para o filme. Ela não tem disputa, seja por merecimento ou por chances de vitória: a transformação de Charlize Theron é impressionante em O Escândalo, Scarlett Johansson tem um dos papéis de sua vida em História de Um Casamento e Saoirse Ronan segue trilhando uma bela carreira com Adoráveis Mulheres, mas Renée está um degrau acima.

MELHOR ATOR
O marasmo entre as atrizes é compensado pela seleção de atores protagonistas. É óbvio e justo que Joaquin Phoenix vença por Coringa (além de ser uma interpretação muito autêntica, a celebração é uma boa reparação histórica para esse ator que sempre colecionou desempenhos marcantes), o que não deve ser motivo para diminuir seus concorrentes. Adam Driver tem o melhor momento de sua trajetória até aqui com História de Um Casamento, onde ele é grandioso fazendo o papel de um homem comum. Jonathan Pryce faz uma dobradinha incrível com Anthony Hopkins em Dois Papas, assim como Leonardo DiCaprio tem um excelente momento com Brad Pitt em Era Uma Vez Em… Hollywood. Entretanto, talvez seja Antonio Banderas o ator que ficará no meu coração com Dor e Glória. É o tipo de performance cuja indicação por si só já é uma vitória, a exemplo do que aconteceu com Charlotte Rampling em 45 Anos e Marion Cotillard em Dois Dias, Uma Noite. Em todos os casos, a Academia jamais premiaria desempenhos tão sutis, econômicos e interiorizados. 

Florence Pugh, que concorre a melhor atriz coadjuvante, é um dos destaques de Adoráveis Mulheres.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Fico chateado com a futura vitória de Laura Dern (História de Um Casamento) por inúmeras razões. Primeiro porque é prêmio de carreira e não de performance, o que é sempre desestimulante, especialmente quando acontece com grandes atrizes. Segundo porque ela sequer está entre as melhores performances do filme (além de Scarlett e Driver, ainda faltaram as devidas lembranças para Alan Alda). Terceiro porque o papel não tem vida própria, muito menos um arco dramático. E, por fim, Dern repete nele o que já havia feito em Big Little Lies. O quinteto selecionado não é dos mais fortes (se tivesse que escolher, votaria em Florence Pugh por Adoráveis Mulheres ou em Kathy Bates por O Caso Richard Jewell), e talvez essa seja a grande razão para o favoritismo de Laura. Entre as ausências, muito se fala em Jennifer Lopez, que, na verdade, tem praticamente o mesmo tempo de tela da protagonista Constance Wu em As Golpistas, mas, nesse limiar entre protagonista e coadjuvante, eu ficaria com Octavia Spencer em Luce, onde ela nunca esteve tão boa.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Reduto de prêmios para quitar dívidas e consagrar protagonistas que desejam ganhar Oscar mas não têm chances em sua respectiva categoria, o segmento de coadjuvantes ganha outra seleção altamente duvidosa ao estilo do ano em que Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) concorreram com duas escandalosas fraudes de categoria. Em 2020, temos pelo menos dois protagonistas concorrendo como coadjuvantes: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) e Anthony Hopkins (Dois Papas), com o primeiro sendo favoritíssimo para levar o Oscar. Como tenho aversão a fraudes de categoria, sequer incluiria os dois na disputa, por melhores que sejam os desempenhos. Com isso, sobram os dois coadjuvantes de O Irlandês (Joe Pesci e Al Pacino) e Tom Hanks em Um Lindo Dia na Vizinhança. Ficaria com Al Pacino, que tem um dos melhores personagens do filme de Martin Scorsese e rouba as atenções para si toda vez que entra em cena. Vale lembrar ainda duas performances esquecidas e dignas de estarem aqui: Song Kang-ho por Parasita e Sam Rockwell por O Caso Richard Jewell. 

OUTRAS CATEGORIAS
Temos duas brigas interessantes entre os roteiros. Na categoria original, Quentin Tarantino vinha colecionando estatuetas nos prêmios televisionados (levou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice), mas, nas últimas semanas, ele viu Parasita brilhar no BAFTA e no Sindicato dos Roteiristas. Fico, obviamente, com a produção sul-coreana. Já em roteiro adaptado, tudo indica que Jojo Rabbit leve a melhor, mas desconfio que Adoráveis Mulheres possa surpreender, beneficiado pelas amplas críticas que seguem sendo feitas a um circuito de premiações sem muita representatividade. Seria a chance de compensar o fato de Greta Gerwig não ter levado nenhum prêmio por Lady Bird e também a absurda estatística de que nenhuma mulher ganhou Oscar roteiro nos últimos dez anos. Entre as categorias técnicas, uma boa quantidade de estatuetas deve ir para 1917, entre elas fotografia, edição de som, mixagem de som, design de produção e efeitos visuais. Animação está entre Toy Story 4Klaus. Documentário tem a disputa centrada entre For Sama Honeyland, mas com boas chances de Democracia em Vertigem surpreender (não é bairrismo: lembram como o cenário político entregou o Oscar de melhor filme estrangeiro para O Apartamento em 2017?).

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Confira abaixo a nossa lista de apostas:

APOSTAS

MELHOR FILME: 1917 / alt: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917) / alt: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Scarlett Johansson (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento) / alt: Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Al Pacino (O Irlandês)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita / alt: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jojo Rabbit / alt: Adoráveis Mulheres
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita / alt: Dor e Glória
MELHOR DOCUMENTÁRIO: For Sama / alt: Democracia em Vertigem
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4 / alt: Klaus

MELHOR TRILHA SONORA: Coringa / alt: 1917
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman) / alt: “Stand Up” (Harriet)
MELHOR MONTAGEM: Parasita / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: 1917 / alt: Parasita
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917 / alt: Coringa
MELHOR FIGURINO: Adoráveis Mulheres / alt: Jojo Rabbit

MELHOR MIXAGEM DE SOM: 1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR EDIÇÃO DE SOM1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo / alt: Judy: Muito Além do Arco-Íris
MELHORES EFEITOS VISUAIS: 1917 / alt: Vingadores: Ultimato

Um comentário em “Apostas para o Oscar 2020 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

  1. Acho que suas apostas estão certeiras, Matheus. Não devemos fugir disso hoje à noite. Mais uma temporada em que o Oscar se torna totalmente previsível…

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