“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o tão cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Contudo, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Enquanto Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história com essa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o campo da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada fugisse do controle? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados, mas a lógica interna de que a história se desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para que tudo fosse registrado da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Entretanto, com o desenrolar da trama, logo se percebe cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. É perceptível onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina. Se abrissemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhados de maneira muito clara. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um game.

Em meio a essa lógica que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, mas isso não diminui a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E fica por aí. Elogiar mais do que isso está diretamente condicionado ao fato de cada espectador se conectar ou não com a proposta do plano-sequência.

Um comentário em ““1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

  1. Não assisti ainda, e provavelmente não conseguirei assistir ‘1917’ a tempo do Oscar. De toda forma, vejo muita gente comentando justamente sobre a questão do plano sequência. Provavelmente, se trata do grande favorito ao Oscar 2020 de Melhor Filme.

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