Três atores, três filmes… com Suzana Uchôa Itiberê

Editora-chefe da revista Preview, a Suzana Uchôa Itiberê, que eu conheci pessoalmente nesses encontros cinéfilos proporcionados pelos festivais de cinema, separou mais do que três atores para a nossa coluna. A lista que vocês conferem abaixo traz, na verdade, três ícones do cinema mundial, em desempenhos indiscutivelmente emblemáticos. Da inesquecível Audrey Hepburn em Charada, passando por Jack Nicholson em Melhor é Impossível, até chegar aos dias de hoje com o arraso que é Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma, a Suzana recapitula essas performances ao mesmo tempo em que ilumina as razões e os detalhes que fazem delas paradas obrigatórias na lista de qualquer cinéfilo. Abaixo, a Suzana conta tudo!

Audrey Hepburn (Charada)
Sou apegada a sutilezas. Costumo não me impressionar com interpretações marcadas por arroubos emocionais, gritarias, gente se descabelando (talvez por isso me irrite tanto com novelas). São as pequenas coisas que tornam certos personagens únicos. A icônica sequência em que a estrela canta “Moon River” na escada de incêndio em Bonequinha de Luxo é a essência da delicadeza e da solidão, mas uma das cenas mais saborosas e espontâneas que tenho guardada na memória acontece em Charada, que Stanley Donen dirigiu em 1963. Na trama, o marido da protagonista (Audrey) é assassinado e começa um jogo de gato e rato para descobrir onde foi parar o dinheiro que estava com ele. O personagem de Cary Grant oferece ajuda, mas seus motivos são suspeitos. No auge da ação, ela o pega de surpresa e pergunta: “Sabe o que você tem de errado?”. Ele, afobado e na defensiva, responde: “Não, o quê?”. E ela solta um sedutor e malandro: “Nada!”. O tom de voz perfeito e um rosto suave irresistível. Essa era Audrey Hepburn, simples, elegante e naturalmente sensual.

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Em 2013, o astro inglês se tornou o primeiro a receber três Oscar de melhor ator. No discurso, citou o diretor de Lincoln, Steven Spielberg, claro, mas agradeceu especialmente à mulher, Rebecca Miller, por ter suportado viver com tantos homens diferentes e estranhos desde que se casaram, em 1996. Um parêntesis: Rebecca é filha do dramaturgo Arthur Miller e conheceu Day-Lewis nos bastidores da adaptação para o cinema da peça As Bruxas de Salem. Talvez ela não tenha convivido com o viúvo John Proctor, mas passou vários meses com o ex-militante do IRA Danny Flynn, de O Lutador, o gângster William Cutting (Bill Açougueiro) de Gangues de Nova York, o cineasta italiano Guido Contini de Nine, e ninguém menos que o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Day-Lewis não interpreta, ele se torna, e ver esse mergulho profundo é inebriante. Todos esses personagens me arrancaram arrepios, mas nenhum me pegou pelo estômago como o Reynolds Woodcock de Trama Fantasma, nova parceria com Paul Thomas Anderson (de Sangue Negro). Na Londres dos anos 1950, Woodcock é um estilista confiante e focado que comanda a Maison ao lado da irmã, Cyrill (Lesley Manville). Solteiro convicto, ele encontra inspiração nas mulheres que entram e saem da sua vida. Até o dia em que conhece Alma (Vicky Krieps), a garçonete de modos desajeitados e personalidade forte que se torna a nova musa e abala as rígidas estruturas do mago da moda. Essa breve sinopse pode dar a ideia de um romance enfadonho, mas há algo macabro nessa relação. Nada é aleatório no idiossincrático Reynolds. A maneira de segurar uma xícara, a altura do olhar, o posicionar de pernas, o tom da voz e um impagável bufar impaciente. Fiquei hipnotizada pela meticulosidade na construção desse personagem. No final, ele manda um beijinho para Alma que diz mais que mil palavras. É coisa de mestre, obra-prima da atuação. O próprio ator admite que é um enorme sofrimento largar seus personagens, uma das explicações para ter anunciado a aposentadoria depois desse trabalho sem igual. Para mim, resta a esperança de que mude de ideia.

Jack Nicholson (Melhor é Impossível)
Há uma cena de bastidores de O Iluminado (disponível no YouTube) em que Jack Nicholson se movimenta freneticamente para entrar no clima do personagem, antes de rodar a antológica sequência da machadada. É um instinto animal que ele faz brotar ali e acredito que seu canal criativo venha do âmago – enquanto o de Daniel Day-Lewis, por exemplo, pareça ser fruto de meticulosidade. O que nos leva ao excêntrico escritor Melvin Udall de Melhor é Impossível, dirigido por James L. Brooks, e que em 1998 rendeu ao ator seu segundo Oscar na categoria principal. Em tempos de #TimesUp, o personagem de Nicholson ganha atualidade como um amálgama de tudo o que é considerado execrável em um ser humano: misógino, preconceituoso, xenófobo, cruel com animais, machista, grosseiro e por aí vai… Pois o popular romancista ainda sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e almoçar todos os dias no restaurante onde Carol (Helent Hunt) é garçonete também é uma mania. Então como é possível um sujeito tão odioso ser ao mesmo tempo tão cativante? Simples. Porque Nicholson explora cada uma de suas camadas (e são muitas) com uma mescla única de humor e melancolia. É uma atuação instintiva e cheia de charme, que faz as qualidades de Melvin surgirem das formas mais inesperadas. “Você me faz ser um homem melhor”, ele responde à Carol quando ela lhe pede um elogio. E então arqueia as sobrancelhas. Melhor, impossível…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: