Três atores, três filmes… com Pablo Villaça

O tempo voa. De repente, chegamos ao 40º convidado da coluna Três atores, três filmes! E quem protagoniza essa simbólica estatística é um nome de peso: o crítico de cinema Pablo Villaça, que, desde 1997, comanda o Cinema em Cena, um dos mais antigos sites de cinema do Brasil. Fui aluno do Pablo em 2012, quando cursei, aqui mesmo em Porto Alegre, o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica ministrado por ele, mas a influência vem de muito antes: ainda em 2006, quando comecei a rabiscar meus primeiros escritos sobre cinema, já tinha o trabalho do Pablo como uma referência entre os nomes que eu acompanhava nacionalmente. Por isso, não é apenas pela extensa e consistente trajetória profissional que tenho imensa alegria em recebê-lo aqui. É também pela ligação afetiva que tenho com o trabalho do Pablo e pela forma aberta e acessível com que ele topou participar da coluna. Quanto às performances escolhidas, elas revelam preferências já conhecidas do nosso convidado, mas o mais bacana é que, a cada nova análise assinada por ele, descobrimos outros tantos detalhes que passavam despercebidos. Não é diferente agora. Confiram abaixo!

Marlon Brando (O Poderoso Chefão)
Brando tinha 46 anos de idade quando rodou o filme, mas, observando seu envelhecimento progressivo ao longo da narrativa (que iniciou quando seu personagem já era bem mais velho do que ele), é notável constatar sua fragilidade física crescente que se torna patente não pela maquiagem, mas por sua postura, sua voz e seus maneirismos. Além disso, o momento em que Don Vito recebe a notícia da morte de Santino representa, para mim, o ponto máximo da carreira de um ator que já é o melhor dos melhores: ao ouvir Tom Hagen (Robert Duvall) informar que Sonny foi metralhado e está morto, Brando expulsa o ar do corpo de uma vez só, como se tivesse levado um soco. No entanto, ciente de que deve tomar decisões imediatas, ele reúne as forças para dizer que não quer nenhuma investigação – quando, então, solta um pequeno gemido que sugere a imensa dor que está enfrentando. Aos poucos, recobra um pouco das forças e ergue o queixo, mas, ao dizer a última fala (“This war stops now”), ele mal chega ao final e sua voz desaparece num suspiro. Este momento sempre me parte o coração.

Al Pacino (trilogia O Poderoso Chefão)
A transformação de Michael Corleone é o centro narrativo da trilogia: de jovem idealista que quer se manter longe dos negócios da Família, é obrigado a assumir sua liderança até perder completamente qualquer bússola moral, eliminando o próprio irmão mais por sentir-se traído do que por necessidade – algo que o atormenta pelo resto da vida até sua morte solitária no meio de cachorros vira-latas no chão poeirento de um lugar vazio. Pacino retrata todas estas etapas de Michael com sutileza: da alegria jovial do personagem ao dançar com a noiva ao ressentimento que demonstra para com o pai, ele deixa claro que aquele é um homem que valoriza muito mais a família do que a Família – e é sua preocupação com a segurança do pai que o leva a assumir uma ação que, ele sabe, irá eliminar qualquer possibilidade de uma vida longe da violência. Aos poucos, ele recupera um quê de alegria na Sicília, mas a morte de Apollonia acaba deixando-o amargo. A partir, sua frieza se torna chocante, revelando-se no planejamento do ataque contra as quatro outras famílias, na relação com a esposa e na forma como lida com o cunhado e com Sal, que considerava um tio. A partir da Parte II, esta implacabilidade do personagem se torna ainda maior, sendo a decisão de matar Fredo a que finalmente elimina qualquer traço de humanidade e o afasta de vez daqueles que ama. O curioso é que, na Parte III, Michael ressurge consideravelmente mais leve e feliz – o que é fruto óbvio de seu alívio por finalmente ter legitimado todos os negócios da Família e saído do mundo do crime (algo que sempre prometeu fazer). Esta alegria temporária, contudo, é destruída quando seu passado retorna para cobrar tudo que fez, o que finalmente o destrói definitivamente. E Al Pacino encarna toda esta jornada mesclando introspecção e explosão, carinho e frieza, amor e ódio.

Brooklynn Kimberly Prince (Projeto Flórida)
O que a pequena atriz faz no filme de Sean Baker é algo de único: com uma naturalidade surpreendente para uma estreante, a garota constrói todo o universo de sua personagem, Moone, a partir de ações displicentes como brincar de bater a cabeça na parede (até se machucar e agir com surpresa infantil diante do óbvio), lamber um sorvete com a empolgação de alguém que encara cada guloseima como uma alegria a ser explorada ao máximo e os saltos sapecas ao convidar os amigos para invadirem uma sala na qual não deveriam entrar. A performance de Prince é tão autêntica, aliás, que muitos parecem não acreditar que se trata de interpretação. “Ela está sendo ela mesma”. Ora, ninguém se atreveria a dizer algo assim sobre Meryl Streep ou Daniel Day-Lewis. Por que com Prince é diferente? Porque é criança. Até que você lê o roteiro, assiste a vídeos dos bastidores ou testemunha mais uma vez sua vulnerabilidade repleta de lágrimas nos minutos finais e constata que, sim, ela estava interpretando. Suas falas eram decoradas; suas emoções, “simuladas” (o que não quer dizer que ela não as experimentou de verdade). E isso, somado ao carisma da garota, cria uma performance que não apenas deveria ter sido indicada a todos os prêmios de Melhor Atriz relativos a 2017, mas também vencido todos.

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