Corpo Elétrico

Como eu penso muito, às vezes eu preciso descarregar…

Direção: Marcelo Caetano

Roteiro: Gabriel Domingues, Hilton Lacerda e Marcelo Caetano

Elenco: Kelner Macêdo, Ana Flávia Cavalcanti, Dani Nefussi, Daniel Torres, Emerson Ferreira, Ernani Sanchez, Evandro Cavalcante, Georgina Castro, Henrique Zanoni, Júlio Silvério, Kiara de Paula, Lucas Andrade, Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada, Nash Laila, Nathalia Ernesto, Rodrigo Andreolli, Ronaldo Serruya, Teka Romualdo, Welket Bungué

Brasil, 2017, Drama, 94 minutos

Sinopse: Elias (Kelner Macêdo) é o jovem criador de uma fábrica de confecção roupas no centro de São Paulo. Ele mantém pouco contato com a família na Paraíba, e passa seus dias entre o trabalho e os encontros com outros homens. Enquanto reflete sobre as possibilidades de futuro, começa a ficar cada vez mais próximo dos colegas da fábrica, e vê os amigos seguirem caminhos diferentes dos seus. (Adoro Cinema)

Livre e autêntico como todos nós deveríamos ser, Corpo Elétrico é um milagre. Basta perceber a própria concepção do longa-metragem de estreia do cineasta mineiro Marcelo Caetano para perceber que estamos diante de uma obra com tino raro, seja no cinema brasileiro ou no de qualquer outra nacionalidade: renegando relacionamentos trágicos, roupas de grife, baladas estilosas, o clássico processo da auto-descoberta e os corpos tão idealizados, Corpo Elétrico retrata o universo gay invertendo tudo o que existe de mais tradicional – e por que não clichê – em filmes com essa temática. Sambando na laje ou fazendo performance no palco de uma festa drag, trabalhando duro para sobreviver ou simplesmente dando risadas com os amigos em uma mesa de bar e interessados tanto pelo negro afeminado quando pelo segurança casado e enrustido de um shopping, os gays representados aqui, assim como na vida, não se encaixam em fórmulas. E é essa multiplicidade tão bonita – não apenas deles, mas de qualquer ser humano – que torna Corpo Elétrico um filme tão necessário.

Radiografando desejos e afetos (amorosos ou não) na periferia, o filme de Marcelo Caetano pode ser equivocadamente interpretado como um trabalho sem conflitos, visto que a homossexualidade não é um tópico questionado ou polemizado por qualquer um dos personagens. Corpo Elétrico também pode ser interpretado dessa forma porque sua história é essencialmente cotidiana e naturalista, sem qualquer reviravolta ou grandes acontecimentos, mas há sim valiosas propostas de reflexão, até porque a força de uma obra cinematográfica não pode e nem deve ser medida apenas pela quantidade ou pelo tamanho dos obstáculos que coloca no caminho de seus personagens. Difícil mesmo é construir beleza de um filme que retrata, a partir da alegria e da libertação, a vida de uma parcela da sociedade que não costuma se ver na tela de forma tão espirituosa e realista. Nesse sentido, Marcelo Caetano revoluciona: pelo menos no Brasil, nunca houve um filme gay como Corpo Elétrico, cuja naturalidade ao tratar de assuntos comuns a todos nós – trabalho, família, amor, sexo – confere ao longa uma sofisticação que muitos dramalhões de cenas hiperbólicas jamais alcançariam.

Ao encenar sua história na periferia de São Paulo, mais especificamente no duro trabalho de uma fábrica de confecção de roupas femininas, o longa observa, com um olhar muito meticuloso, a vida das pessoas que, apesar de toda dificuldade financeira e de oportunidades, sempre encontram, no meio de cada batalha diária, motivos parar rir, festejar e esperar por dias melhores. De elenco irretocável – o protagonista Kelner Macêdo, em especial, é bonito, espontâneo e bom ator -, Corpo Elétrico se torna raro por abraçar essa parcela muito específica e esquecida da sociedade ao mesmo tempo em que consegue, com humanidade, carinho e muita consciência, puxar a história para o plano universal, falando sobre modelos de relacionamento hoje em franco processo de redefinição e reflexão. É bem provável que tanta autenticidade custe caro ao filme em termos de bilheteria (Negros? Gays? Pobres? Tudo em uma mesma história? O preconceito ainda corre solto nesse sentido), mas, em termos artísticos, Corpo Elétrico é vitória das mais importantes. E é exatamente isso o que fica no final das contas.

2 comentários em “Corpo Elétrico

  1. Interessante, Matheus! Seu texto me deixou curiosa para assistir ao filme!

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