45º Festival de Cinema de Gramado #14: “João, o Maestro”, “A Fera na Selva” e “Vergel”

Por falta de tempo – e, em certos casos, de interesse – deixei de escrever sobre outros longas-metragens exibidos aqui no 45º Festival de Cinema de Gramado. Aproveito a reta final do evento para me retratar e compensar essa leva que ficou para trás. Vamos aos filmes.

Na cinebiografia João, o Maestro, as esforçadas performances de Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero se diluem em um filme tradicional e sem tempero.

João, o Maestro

Exibido fora de competição como o longa de abertura do 45º Festival de Cinema de Gramado, João, o Maestro é um filme-evento no sentido de ser uma obra que registra a inspiradora história verídica de João Carlos Martins, pianista brasileiro de repercussão mundial que, após um acidente, ficou impossibilitado de tocar piano e encontrou na regência de orquestras uma forma de dar continuidade ao seu amor pela música. Como evento, tem a garantia de grande público e bilheteria. Já em termos de valor artístico, há muito pouco a ser dito sobre um filme que apenas reproduz fórmulas e vícios de cinebiografias populares assinadas pela Globo Filmes.

Ainda que não apresente a confusão narrativa de Elis, citando outro longa biográfico exibido recentemente no evento gramadense, falta a João, o Maestro qualquer tipo de tempero. Falando quase inteiramente em espanhol e inglês – o que imediatamente nos tira da verdade que as interpretações esforçadas de Alexandre Nero e principalmente Rodrigo Pandolfo poderiam trazer -, o filme tem um roteiro apressado que novamente viaja ao mundo, dá saltos temporais e apresenta uma gama de personagens sem aprofundá-los ao mesmo tempo em que a direção de Mauro Lima – que, diga-se de passagem, fez trabalhos bacanas como Meu Nome Não é JohnnyTim Maia – peca por não trazer personalidade ao relato de um personagem riquíssimo.

Repleto de apresentações musicais – são mais de 16 números ao piano, muitos deles interpretados pelos próprios atores -, João, o Maestro não dá a real dimensão dos problemas, que sempre se resolvem muito facilmente em um curto espaço de tempo. Em tempos em que tanto se debate a questão da representatividade, é também incômodo o retrato que a produção faz de suas figuras femininas, todas reduzidas a papeis super coadjuvantes e de mero apoio ao protagonista, quando não sem personalidade, como é o caso da namorada vivida por Alinne Moraes, que, julgando pela história, não tem vontade ou identidade.

Dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel, o drama A Fera na Selva é um ponto assumidamente fora da curva, com seus prós (e muito mais) contras.

A Fera na Selva

É complexo rotular um filme de teatral, adjetivo normalmente associado a comparações negativas. Há títulos nesse formato que realmente funcionam, como por exemplo DúvidaÁlbum de Família, ambos coincidentemente estrelados por Meryl Streep. Já outros se afundam não por conter uma carga considerável de diálogos ou por serem encenados com poucos atores em uma quantidade limitadíssima de cenários, mas por simplesmente não apresentarem exercício cinematográfico algum, onde a câmera está apenas ali, sem fluir, criar ou comunicar algo extratextual. É o caso de Deus da Carnificina ou do recente Um Limite Entre Nós. E agora do drama A Fera na Selva, que, dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel com base na novela do escritor inglês Henry James, entrega toda sua confiança ao texto, esquecendo-se de envolver o espectador com os tantos sentidos que podem ser proporcionados pelo cinema.

A discussão é fabulosa – a de um homem que, à espera de um acontecimento extraordinário que o distinguirá de todos os outros seres humanos, esquece, justamente, de viver as pequenas coisas da vida -, mas até a transposição soa um tanto atrapalhada, já que sua reflexão nunca é encenada na prática: ao invés de reproduzi-la em momentos simples do cotidiano, A Fera na Selva prolonga a verbalização ao longo de seus 85 minutos. É óbvio que a angústia da espera assombra o protagonista, mas ninguém fala só sobre isso na vida. Limitando espaço e situações a partir dessa interminável discussão, o longa parte para o plano onde o teatral é um problema, já que os personagens praticamente não fazem outra coisa a não ser filosofar sobre a tal questão. Com isso, A Fera na Selva não introduz outras figuras em cena e restringe seu dueto a cenários fechados – e talvez por isso mesmo as cenas ao ar livre surjam tão refrescantes, reforçados pela ótima fotografia do grande Lauro Escorel.

Além do contexto, os próprios diálogos seguem a verve teatral com frases longas e posudas cuja relevância só não é descartada porque Eliane Giardini é uma grande atriz capaz de comover mesmo em saltos temporais tão repentinos. Na passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, onde o filme não recebeu a mais positiva das recepções, Betti e Giardini sempre fizeram questão de dizer que A Fera na Selva é um filme propositalmente palavroso, um ponto assumidamente fora da curva. Admiro demais a consciência, a proposta e, claro, a coragem de fazer um filme assim, já que sou pleno defensor de que é melhor errar com ousadia do que fazendo o básico. Ao mesmo tempo, não acredito que devo redimensionar meu envolvimento ou meu julgamento acerca da obra por conta disso. Estou errado?

Camila Morgado em meio às cores. No drama Vergel, a atriz tem sua melhor chance em anos. Aqui, o o luto é contado também através da estética.

Vergel

Último longa exibido no 45º Festival de Cinema de Gramado, o drama Vergel traz a aparição mais desafiadora de Camila Morgado desde Olga. Entregue de corpo e alma ao papel de uma mulher sem nome que enfrenta um luto repentino e está à beira da loucura, Camila absorve todo o pesadíssimo tom da história escrita e dirigida por Kris Niklison, ampliando a sensação já sufocante de um filme em forma de monólogo passado inteiramente dentro de um único apartamento. Conferindo linguagem audiovisual à história mesmo com ela se passando em circunstâncias tão restritas (um ótimo contraponto ao que escrevi acima sobre A Fera na Selva), Vergel é uma experiência extremamente densa, silenciosa e entregue às imagens, estilo que certamente o restringe para certas plateias.

Na união dos planos estético e temático, Vergel não deixa de remontar ao belíssimo Direito de Amar, drama onde o diretor Tom Ford acompanhava um dia de luto na vida de um homem com um senso visual pulsante. O caso aqui é parecido: Kris Niklison não abre mão de usar diversas paletas de cores, cenários e enquadramento para significar através das imagens o processo de luta e redenção de uma mulher em estado catatônico e de suspensão. Nesse processo, ajuda o fato do filme ter sido rodado inteiramente no apartamento da diretora na Argentina, o que mostra uma intimidade das lentes com cada canto explorado. Ostentando tanta carga estética, Vergel pode ser tachado de maneirista, mas é importante compreender que tudo está a favor da história e principalmente da missão de dar dinâmica a um relato que poderia estar fadado a ser um teatro monocórdico.

De ritmo muito particular, Vergel é um filme extremamente denso, daquele tipo que não facilita a experiência para o espectador. Há nele algumas escolhas que de fato soam maneiristas ou pelo menos descartáveis, como a trilha de piano às vezes invasiva e algumas tiradas cômicas que soam frequentemente insistentes. O que vale, no entanto, é Vergel ter tanta firmeza da claustrofobia emocional que traz para sua protagonista e consequentemente para o espectador. Ainda há de se valorizar a direção e o roteiro assinados por uma mulher, configuração que, sem dúvida, faz a diferença na forma com que a obra explora o íntimo e o físico da sua personagem. Vergel causa estranhamento e, por conta de sua densidade, certa distância – nunca é fácil se aproximar de algo tão cru e pesado -, mas, para quem está disposto a embarcar, pode ser uma experiência bastante diferente, e com o bônus da ótima interpretação de uma ótima atriz que há certo tempo não recebia uma chance como essa.

2 comentários em “45º Festival de Cinema de Gramado #14: “João, o Maestro”, “A Fera na Selva” e “Vergel”

  1. Mesmo com as ressalvas em relação à “João, O Maestro”, quero conferir o filme. Particularmente, também fiquei interessada nos dois outros filmes resenhados. Parecem ser bons!

    • Kamila, o filme não me impressionou nem um pouco… E até esperava que ele fosse fazer carreira mais marcante durante sua passagem pelos cinemas!

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