Cinema e diversidade sexual

Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, sócio-diretores da Avante Filmes, falam ao Cinema e Argumento sobre a realização da terceira edição do CLOSE

A diversidade sexual foi o principal tema do cenário cultural de Porto Alegre na última semana. Desde o dia 16, a capital gaúcha recebe a terceira edição do CLOSE – Festival Nacional de Diversidade Sexual, uma corealização da SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade com a Avante Filmes. O objetivo do evento é valorizar obras cinematográficas que promovem reflexões sobre a diversidade de expressões da sexualidade humana. A programação, que termina nesse domingo (20), teve exibições no CineBancários e na sala Norberto Lubisco da Casa de Cultura Mário Quintana.

Para Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, sócio-diretores da Avante Filmes, o CLOSE vem para fortalecer a identidade cultural de Porto Alegre: “É importante para consolidar a cidade como um centro cultural e pensante dentro do país. Porto Alegre tem este ‘título’ ainda para olhos externos, mas os portoalegrenses sabem que a realidade daqui é diferente. E isso se aplica a todo país: produzir, fomentar e exibir conteúdo é uma tarefa e tanto, que, na maioria das vezes, não recebe o apoio que deveria”. Para os diretores, é fundamental incentivar festivais de cinema, teatro e música, apresentando obras independentes e acessíveis, com entrada franca em espaços acessíveis ao grande público.

A luta diária para a construção desse cenário também ganha, através do CLOSE, um debate social e histórico, além, claro, de expressões artísticas mais livres. “Procuramos evidenciar obras de baixo orçamento, que não contaram com editais ou apoios em formas diferentes de viabilização. É uma edição de pesquisa e que dispõe ao público obras que nunca entrariam no sistema comercial cinematográfico”, comentam os diretores. Abrindo uma importante janela para realizadores de filmes de nicho, o CLOSE se destaca por não limitar sua programação, com produções mais viscerais, onde, segundo Matzembacher e Reolon, os realizadores têm maior possibilidade de expor suas ideias sem restrições.

Para Matzembacher, destacam-se, na programação de 2012, obras como Tudo Que Deus Criou, de André da Costa Pinto, e Reincarnate, de Thunska Pansittivorakul. As duas obras, para ele, “representam” a proposta do festival: “Elas foram realizadas com pouco recurso e trazem à tona assuntos e pontos de vista não debatidos. São filmes em que os cineastas optaram por trazer ao público suas inquietações, e ainda mostram que a falta de investimento privado e público não foi um empecilho, mas sim, muitas vezes, um elemento estético”.

Matzembacher e Reolon realizaram, recentemente, o curta Um Diálogo de Ballet, exibido no último Festival de Cannes (integrando o longa Other Than) e, aqui no Brasil, um dos concorrentes da mostra competitiva de curtas nacionais do 40º Festival de Cinema de Gramado. O curta, que fala sobre a incomunicabilidade e as diferenças entre dois homossexuais de idades bem distintas foi exibido na edição desse ano do CLOSE, Um Diálogo de Ballet representa muito bem a ideia de que o cinema é uma ferramenta de reflexão, o que, claro, é idealizado pelo CLOSE. “A arte em geral serve, principalmente, para mostrar os anseios, sentimentos e necessidades humanas. Assim, um festival que aborda a temática da sexualidade, em sua amplitude, gera debates e questionamentos importantes para a evolução de uma sociedade”, apontam.

No entanto, ainda há muito a ser feito. Os diretores contam que, apesar da boa receptividade do festival, nem todo mundo está interessado em apoiar projetos de gênero, o que torna tudo ainda mais difícil. “Trabalhar com cultura já não é uma tarefa fácil”, afirmam, “e a falta de investidores diretos é uma grande dificuldade, bloqueando diversas ações interessantes que o evento poderia proporcionar a Porto Alegre. Na contramão, temos recebido um maior espaço espaço na mídia convencional e alguns apoiadores antigos, parceiros desde a primeira e a segunda edição, contribuem mais e mais”.

O CLOSE, contudo, não se intimida com obstáculos e, ano após ano, conquista novos públicos, o que é comemorado por Matzembacher e Reolon: “Já na primeira edição foi um sucesso. Nem mesmo nós tínhamos a certeza de que seria tão positivo. Sessões lotadas, público super participativo e interessado, realizadores do país inteiro presentes”. Segundo os realizadores, o feedback do público foi muito expressivo, com diversos estilos, faixas etárias, classe social, orientação sexual, todos estavam interessados em ver bons filmes e debater cinema e sexualidade. Que todo esse envolvimento continue crescendo ano após ano. O CLOSE certamente merece.

2 comentários em “Cinema e diversidade sexual

  1. Kamila, obrigado! Foi um prazer fazer a cobertura do CLOSE! E concordo contigo: é sempre importante valorizar iniciativas que fomentem discussões a e ampliação do público cinéfilo.

  2. Valorizo bastante iniciativas como esse festival. Acho importante que seja dado espaço a esse tipo de produções para fomentar discussões e também, claro, para ajudar na formação de um público cinéfilo maior. O próprio crescimento do evento, ao longo dos anos, já é uma prova do sucesso da iniciativa. Que eles se tornem exemplos e motivos de inspiração para outras pessoas que queiram fazer o mesmo. Aproveito para te parabenizar pela cobertura do festival, que foi excelente!

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