Cinema e Argumento

TIFF 2024, #3: “The Room Next Door”, de Pedro Almodóvar

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Debutar em Hollywood é um caminho quase natural para diretores de língua não-inglesa que ganham o mundo com filmes dirigidos em seu país de origem. Pedro Almodóvar, vencedor de dois Oscars com Tudo Sobre Minha Mãe e Fale Com Ela, resistiu durante um bom tempo a essa tendência. E também deu tempo ao tempo: primeiro, teria Meryl Streep como protagonista de seu Julieta para, anos depois, começar a planejar A Manual for Cleaning Women com Cate Blanchett. Por diferentes razões, os dois projetos não seguiram. 

Ao invés disso, Almodóvar optou por um caminho mais brando: começou a filmar em Hollywood com dois curtas-metragens. O primeiro, A Voz Humana, foi rodado com Tilda Swinton durante a pandemia, enquanto Estranha Forma de Vida trouxe Ethan Hawke e Paul Mescal em um western gay. Em ambos os casos, o resultado não incendiou. Talvez pela abrupta interrupção de histórias merecedoras de uma narrativa mais longa. Ou, então, pelo perceptível exercício de Pedro em tentar “traduzir” o seu estilo e linguagem para um outro universo. Até que, finalmente, seu primeiro longa em inglês acontece: The Room Next Door, adaptação do livro “What Are You Going Through”, de Sigrid Nunez, com Tilda Swinton e Julianne Moore nos papeis principais.

O tempo dado por Almodóvar para si próprio na busca para a sua primeira grande estreia em Hollywood se traduz na tela, pois The Room Next Door traz, em primeiro lugar, o cineasta visivelmente confortável com a mudança de ares. Não se trata apenas de uma transposição dos elementos clássicos de Almodóvar — suas cores, a trilha de Alberto Iglesias, o melodrama — para uma outra língua. Há no filme a discussão respeitosa e humana acerca de um tema complicado como a eutanásia, o gosto do cineasta por dirigir grandes atrizes e, mais do que tudo, a preservação de sua essência, em estilo e narrativa, como contador de histórias, sem se adequar à forma de outra indústria.

The Room Next Door se concentra nos diálogos entre Martha (Tilda Swinton) e Ingrid (Julianne Moore) e acerta ao deixar de lado fatos, revelações ou reviravoltas. A embalagem palavrosa é um acerto na medida em que o filme tem ambições muito simples, como a de se concentrar na relação entre essas duas mulheres que, um dia colegas de profissão, voltam a se aproximam em função do câncer terminal de uma delas. O texto coloca o espectador cúmplice dessa vida repentina agora compartilhada pelas duas — para além do apoio mútuo e das cumplicidades femininas, Martha e Ingrid meditam sobre o que significa viver e morrer de verdade, sem, claro, vertentes de autoajuda, já que se trata de Pedro Almodóvar, mesmo que em outra língua.

A melancólica atmosfera disfarça certas fragilidades, como o dispensável uso de determinados flashbacks para ilustrar a vida pregressa de Martha, quando, na realidade, a narração da própria personagem já é suficiente. Outro aspecto que não chega a estar devidamente lapidado é o quanto sabemos muito mais sobre uma personagem do que sobre outra. Ficam algumas lacunas na história de Ingrid — afinal, quais foram as suas reais motivações para escrever um livro sobre morte e por que esse tema é um assunto tão delicado para a personagem. São questões que The Room Next Door mais insinua do que responde, o que, nesse caso, é um demérito.

Lindamente fotografadas por Eduard Grau, seja com os flocos de neve nova-iorquinos ou com as paisagens idílicas de uma casa afastada da vida urbana, Tilda Swinton e Julianne Moore preenchem a tela com seus talentos habituais e toda a pompa necessária para serem duas chicas de Almodóvar. O encontro entre as duas, que atuam pela primeira vez juntas, é o tipo de acontecimento que um cineasta como ele merecia em uma estreia hollywoodiana. The Room Next Door não é exatamente um grande longa do cineasta, mas se encaixa muito nessa sua fase mais sensível e atenta à finitude da vida e o que fizemos dela, já vista no excepcional Dor e Glória.


THE ROOM NEXT DOOR REVIEW

Debuting in Hollywood is an almost natural path for non-English-speaking directors who gain worldwide recognition with films made in their home countries. Pedro Almodóvar, who already has two Oscars for All About My Mother and Talk to Her, resisted this trend for quite some time. He also took his time: first, he was set to have Meryl Streep star in his Julieta, and later, after years, began planning A Manual for Cleaning Women with Cate Blanchett. For different reasons, both projects did not move forward as his first English-language feature.

Instead, Almodóvar chose a gentler path: he began filming in Hollywood with two restrained short films. The first, The Human Voice, was shot with Tilda Swinton during the pandemic, while Strange Way of Life featured Ethan Hawke and Paul Mescal in a gay western. In both cases, the results did not ignite much excitement. Perhaps this was due to the abrupt halt of stories that deserved a longer narrative. Or maybe it was due to Pedro’s evident effort to “translate” his style and language into a different universe. Finally, his first English-language feature happens: The Room Next Door, an adaptation of the book What Are You Going Through by Sigrid Nunez, with Tilda Swinton and Julianne Moore in the lead roles.

The time Almodóvar gave himself in the quest for his first big Hollywood debut shows on screen, as The Room Next Door reveals a filmmaker visibly comfortable with the change of setting. It’s not just a matter of transposing Almodóvar’s classic elements – his colors, Alberto Iglesias’ soundtrack, the melodrama – into another language. The film also delves into a respectful and human discussion of a complicated topic like euthanasia, highlights the director’s fondness for working with great actresses, and, more than anything, preserves his essence as a storyteller in both style and narrative, without conforming to another industry’s standards. 

The Room Next Door focuses on the dialogues between Martha (Tilda Swinton) and Ingrid (Julianne Moore), and it succeeds by steering away from plot twists or big revelations. The film’s word-heavy approach is a strength because it has very simple ambitions: to concentrate on the relationship between these two women who, once colleagues, reconnect due to one of them facing terminal cancer. The script makes the audience a silent witness to this suddenly shared life – beyond mutual support and feminine camaraderie, Martha and Ingrid reflect on what it truly means to live and die, without delving into self-help clichés, as this is, after all, Pedro Almodóvar, even in a different language.

The melancholic atmosphere disguises certain weaknesses, such as the unnecessary use of some flashbacks to illustrate Martha’s past, when, in fact, the character’s own narration is sufficient. Another aspect that doesn’t feel fully developed is how we end up knowing much more about one character than the other. There are some gaps in Ingrid’s story – after all, what were her real motivations for writing a book about death, and why is this theme such a delicate subject for her? These are questions that The Room Next Door hints at more than it answers, which in this case is a shortcoming.

Beautifully shot by Eduard Grau, whether it’s the New York snowflakes or the idyllic landscapes of a house far from urban life, Tilda Swinton and Julianne Moore fill the screen with their usual talent and all the poise necessary to be Almodóvar’s leading ladies. The meeting of these two actresses, working together for the first time, is the kind of event a filmmaker like Almodóvar deserved for his Hollywood debut. The Room Next Door may not be one of the director’s great films, but it fits well within his more sensitive phase, focused on life’s finitude and what we make of it, as seen in the exceptional Pain and Glory.

TIFF 2024, #2: “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles

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O editor do jornal pediu, mas Eunice Paiva, a protagonista de Ainda Estou Aqui, não cedeu. A foto que ela está prestes a tirar com a família para publicação será, sim, com todos sorrindo, sem sinais de tristeza. Trata-se de um momento emblemático no filme de Walter Salles, pois sintetiza não apenas a essência de uma grande mulher, mas também a de um filme muito parecido com ela, que viu o marido ser levado para interrogatório durante a ditadura militar brasileira e, sem nunca mais encontrá-lo, precisa reinventar a família e a si própria.

A personagem existiu de verdade, e a sua história de vida ainda estava por ser descoberta — Eunice é mãe do escritor Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que dá origem ao longa, e do célebre Feliz Ano Velho. Dona de casa da burguesia carioca, ela se transforma completamente após perder o marido duas vezes: primeiro, com sua ausência dentro de casa, quando ele é levado por milicos; e, depois, com a sua morte, oficialmente reconhecida apenas muitos anos depois pelo Estado brasileiro.

Walter Salles, que realiza seu primeiro longa após mais de uma década, já parte com uma vantagem ao contar a história de Eunice em si, abordando-a de maneira cuidadosa e sensível. A partir do roteiro escrito por Heitor Lorega e Murilo Hauser, ele evita ao máximo a exploração de emoções em momentos-chave da trama. O choro que a protagonista esconde e a sua constante determinação em preservar os filhos, custe o que custar, funcionam muito mais do que a mera exposição, colocando o espectador na mesma posição ao testemunhar os fatos — o que, dramaticamente, cria um efeito cumulativo e melancólico.

Ainda Estou Aqui revela Eunice como uma mulher à frente de seu tempo. Além de segurar sozinha a barra de criar a família após o desaparecimento do marido, ela decide cursar Direito para, dessa forma, exigir pessoalmente das autoridades brasileiras o reconhecimento da morte não decretada do esposo — um arquiteto e ex-deputado que, apesar da ausência física, ficou vivo na memória de Eunice até os seus últimos dias de vida, em dezembro de 2018, quando faleceu após quase 15 anos convivendo com o mal de Alzheimer.

Concentrando o capítulo específico da História de um país na trajetória de uma única mulher, Ainda Estou Aqui se esquiva dos didatismos de uma temática já deveras explorada pelo cinema brasileiro. Não por acaso, ao apostar nessa perspectiva “individualizada”, o filme se torna universal, identificável e ainda mais próximo ao espectador. A narrativa segue um estilo bastante clássico, com as devidas contextualizações, mas o coração de Ainda Estou Aqui está no cotidiano e no silêncio de incontáveis pessoas que foram torturadas pela ditadura de outra forma: condenadas ao convívio diário com lacunas e perguntas nunca respondidas.

Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva, é um espetáculo de sutileza, força e sobriedade. E aqui reservo um tempo para falar especificamente sobre seu trabalho porque Ainda Estou Aqui é o retorno que ela merecia após tantos anos sem participar de um longa de ficção (os dois últimos foram em 2009: A Mulher Invisível e Os Normais 2). Proporcional em economia e emoção, é uma interpretação que nos remete a outros grandes momentos de sua carreira no cinema, principalmente entre os anos 1980 e 1990, quando brilhou em filmes como A Marvada Carne, Terra Estrangeira, Eu Sei Que Vou Te Amar e Com Licença, Eu Vou à Luta.

E, se comentei sobre o quanto Ainda Estou Aqui suprime emoções para, de certo modo, reproduzir o próprio estado interno da protagonista, a situação muda inevitavelmente no terço final da trama, quando Eunice recebe a oficialização pela qual tanto lutou (“é esquisito, sentir alívio com um atestado de óbito”, diz ela). Já enfrentando o mal de Azheimer, e interpretada pela incomparável Fernanda Montenegro, em  aparição poderosa, Eunice vê como o tempo atuou sobre a sua família e percebe que, por mais que o passado esteja “resolvido’, ele sempre estará presente.

O fato de Ainda Estou Aqui chegar aos cinemas em 2024 também carrega um gosto melancólico, pois se torna um importante lembrete dos horrores que vivemos nesse período sombrio da trajetória brasileira. Em um país que, nos últimos anos, pareceu esquecer e até glorificar a ditadura, em uma perigosa manobra política de massa, o filme é mais do que um poderoso antídoto. Assim como em Central do Brasil, Walter Salles lança um olhar atemporal sobre o que constitui o Brasil. Que ele não demore tanto para nos brindar novamente com obras de tamanha potência.


I’M STILL HERE REVIEW

The newspaper editor asked, but Eunice Paiva, the protagonist of I’m Still Here, did not comply. The family photo she is about to take for publication will indeed be with everyone smiling, without sadness. This moment is emblematic in Walter Salles’ film because it summarizes not only the essence of a great woman but also of a film very similar to her – a woman who saw her husband taken for interrogation during Brazil’s military dictatorship and, never seeing him again, had to reinvent her family and herself.

The character really existed — she is the mother of writer Marcelo Rubens Paiva, author of the book that inspired the film, and of the famous Happy Old Year. Her life story was still waiting to be discovered. Being a bourgeois housewife from Rio de Janeiro, she is completely transformed when she loses her husband twice: first, with his absence from home after being taken by the military; and later, with his death, officially recognized many years later by the Brazilian government.

Walter Salles, making his first feature film in over a decade, starts off strong with Eunice’s story alone and with the way he chooses to tell it. Based on the script written by Heitor Lorega and Murilo Hauser, he minimizes emotional exploitation in the key moments of the plot. The tears Eunice hides and her constant decision to protect her children at all costs work much better than mere emotional display, putting the audience in the same position of witnessing the facts. Dramatically, this creates a cumulative and melancholic effect.

I’m Still Here understands the forward-thinking woman that Eunice was. In addition to single-handedly bearing the burden of raising her family after her husband’s disappearance, she decides to study law so she can personally demand from the Brazilian authorities the recognition of her husband’s undeclared death – an architect and former congressman who, despite being physically absent, remained alive in Eunice’s memory until her last days in December 2018, when she passed away after living nearly 15 years with Alzheimer’s disease.

By focusing on a specific chapter of a country’s history through the life of one woman, I’m Still Here avoids the didacticism of a subject already extensively explored by Brazilian cinema. It’s no coincidence that, by getting on this “individualization”, the film becomes universal, relatable, and even closer to the viewer. The narrative follows a classic style, and the necessary contextualization is made, but the heart of I’m Still Here lies in the everyday lives and hearts of countless people who were tortured by the dictatorship in another way – condemned to live daily with absence, and the lack of answers.

Like Eunice Paiva, Fernanda Torres delivers a spectacular performance of subtlety, strength, and restraint. Here, I take a moment to specifically talk about her because I’m Still Here is the comeback she deserved after so many years without participating in a fiction feature (her last two were in 2009: The Invisible Woman and So Normal 2: The Craziest Night Ever). Her new role, balanced in economy and emotion, reminds us of the many grand performances that have marked her career, especially in the 1980s and 1990s, when she shone in films like That Damned Meat, Foreign Land, Love Me Forever or Never and Com Licença, Eu Vou à Luta.

And while I mentioned how I’m Still Here suppresses emotions to, in a way, reflect the protagonist’s inner state, this inevitably changes in the final third of the film. Eunice finally receives she fought so hard for (“it’s strange to feel relief with a death certificate”, she says), and as she faces Alzheimer’s and is portrayed by the incomparable Fernanda Montenegro in a powerful appearance, she sees how time has impacted her family and how the past, no matter how resolved, will always remain present.

The fact that I’m Still Here arrives in theaters in 2024 also carries a melancholic tone, as it serves as an important reminder of the horrors experienced during a dark chapter in Brazilian history. For a country that, in recent years, has forgotten and even glorified the dictatorship in a dangerous political mass maneuver, this is more than powerful. Just as he did in Central Station, Walter Salles casts a timeless gaze on what defines Brazil. Let’s hope it won’t take him as long to bring us more works of this magnitude.

TIFF 2024, #1: “Oh, Canada”, de Paul Schrader

Exibido no Festival de Cannes e, agora, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Oh, Canada traz o diretor Paul Schrader (Gigolô Americano, Mishima, Fé Corrompida) em um tom mais melancólico e memorialista. Com base no livro “Foregone”, de Russell Banks, ele conta a ,história de um famoso e fictício cineasta que, à beira da morte, participa de um documentário sobre a sua vida antes da fama. São, como o próprio personagem diz, confissões que nem mesmo a esposa, vivida por Uma Thurman, havia ouvido durante seus longos anos de casamento. Ao mesmo tempo, devido à doença, ela questiona se os depoimentos do marido não se confundem entre as fronteiras de realidade e ficção, de certa forma embaralhando os relatos repletos de idas e vindas no tempo.

A ideia de Oh, Canada radiografar o seu protagonista a partir de quem ele era antes da fama é acertada — e até mesmo fora da curva, já que Schrader, também autor do roteiro, não busca fazer o retrato edificante de um homem que prosperou na vida, venceu obstáculos ou algo parecido. O interesse reside nos equívocos de alguém que, durante a juventude, tomou diversas rotas problemáticas, seja abandonando a esposa e um filho para nunca mais vê-los por décadas, até o malabarismo sem responsabilidade afetiva alguma entre as mulheres que cruzaram pelo seu caminho. A obra de Leo Fife (Richard Gere) é vista à parte de quem ele foi e é quando as câmeras estão desligadas, fronteiras que Oh, Canada desenha claramente desde o princípio.

O longa, contudo, não decola em questões primordiais. É irônico que Schrader ganhe pontos ao não tentar amaciar o protagonista por espectador, mas falhe em conseguir despertar algum interesse por ele. Parte desse problema está em como Oh, Canada se alterna entre o passado e o presente, criando, através dessa abordagem, expectativas em torno da vida do personagem que nunca são cumpridas. É como se estivéssemos todo o tempo à espera de uma revelação ou de um acontecimento que justifique as tantas cerimônias em torno da gravação do documentário sobre o protagonista. Leo Fife, em suma, não tem episódios tão interessantes assim para relatar, e isso prejudica a atmosfera que o longa inegavelmente tenta construir.

A montagem de Benjamin Rodriguez Jr. também bagunça um pouco as coisas, pois, para além da ausência de clímax, Oh, Canada não é um filme que flui bem, por vezes tornando-se até um pouco confuso entre os personagens que coloca e tira de cena ou nas próprias intervenções que nos trazem ao presentem e servem para dar mais peso dramático aos acontecimentos narrados. Se continuo achando Jacob Elordi um ator limitado (ele interpreta Leo Fife no passado) e fico frustrado por Uma Thurman ter em mãos uma personagem sem muitas dimensões, ao menos créditos devem ser dados a Richard Gere, despido de vaidades e visivelmente comprometido com um tipo de papel que não costuma lhe ser confiado com muita frequência. Sua presença, bem como o ótimo uso de canções ao longo da história, é o que vislumbra a melancolia que Oh, Canada não alcança como um todo.


OH, CANADA REVIEW

Premiered at the Cannes Film Festival and now at the Toronto International Film Festival, Oh Canada brings director Paul Schrader (American Gigolo, Mishima, First Reformed) in a more melancholic and reflective tone. Based on Russell Banks’ book Foregone, it tells the story of a famous fictional filmmaker who, on the verge of death, participates in a documentary about his life before fame. These are, as the character himself says, confessions that not even his wife, played by Uma Thurman, had heard during their long years of marriage. At the same time, due to his illness, she questions whether her husband’s testimonies blur the line between reality and fiction, in a way muddling the narrative field with flashbacks. 

The idea of Oh Canada dissecting its protagonist based on who he was before fame is spot-on – and even unconventional, since Schrader, who also wrote the script, does not aim to create an uplifting portrait of a man who succeeded in life, overcame obstacles, or anything like that. The focus lies on the missteps of someone who, during his youth, took several problematic paths, from abandoning his wife and child, whom he never saw again for decades, to emotionally irresponsible juggling of relationships with the women who crossed his path. The work of Leo Fife (Richard Gere) is seen separately from who he was and is when the cameras are off – boundaries that Oh Canada clearly establishes from the start.

The film, however, falters in key areas. It’s ironic that Schrader earns points by not trying to soften the protagonist for the audience but fails to generate any real interest in him. Part of this issue lies in how Oh Canada alternates between past and present, creating, through this approach, expectations about the character’s life that are never fulfilled. It’s as if we’re constantly waiting for a revelation or an event to justify all the pomp surrounding the documentary about the protagonist. In short, Leo Fife doesn’t have such interesting stories to tell, and that weakens the atmosphere the film undeniably tries to build.

Benjamin Rodriguez Jr.’s editing also muddles things a bit. Beyond the absence of a climax, Oh Canada isn’t a film that flows well, at times becoming a bit confusing with the characters it introduces and removes from scenes, or interventions that bring us back to the present, meant to add dramatic weight to the narrated events. While I still find Jacob Elordi a limited actor (he plays Leo Fife in his younger years) and feel frustrated that Uma Thurman plays a character without many dimensions, at least credit must be given to Richard Gere. Stripped of vanity and visibly committed to a type of role not often entrusted to him, his performance, along with the excellent use of songs throughout the story, is what captures the melancholy that Oh Canada as a whole fails to fully achieve.

52º Festival de Cinema de Gramado #9: “Filhos do Mangue”, de Eliane Caffé

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Um homem acorda cercado por uma multidão. Em polvorosa, homens e mulheres lhe fazem mil e uma acusações, exigindo diversos acertos de contas. Só que o tal homem, conhecido como Pedro Chão, não lembra de absolutamente nada. Está tão desnorteado quanto desmemoriado. Ao mesmo tempo em que busca juntar as peças de tudo o que aconteceu, ele tenta responder a esse tribunal formado em sua volta. E é basicamente sem preencher as lacunas de eventos passados que Filhos do Mangue narrará a história desse protagonista sem referencial, inclusive sobre ele próprio.

Afeita a interações com as comunidades que verdadeiramente habitam os locais em que seus filmes se passam, a diretora Eliane Caffé, do ótimo Narradores de Javé e de Era o Hotel Cambridge, volta a apostar nessa fórmula de experiências coletivas. Em Filhos do Mangue, ela chega ao Rio Grande do Norte mostrando os costumes de um povo ribeirinho, interpretado por um numeroso elenco de não-atores que dá vida a questões envolvendo não só sua natureza antropológica da região como também questões relacionadas a desvio de verba pública, exploração da prostituição e cenas de violência doméstica.

Como um longa-metragem coral, Filhos do Mangue é uma grata surpresa. A longa cena em que a comunidade confronta o homem desmemoriado já dá conta, logo no início do filme, de apresentar ao espectador as diferentes dinâmicas e personalidades dos personagens que vamos acompanhar ao longo da trama. E eles não poderiam ser mais humanos: concordam, brigam, alteram a voz, clamam por racionalidade e expõem uma série de temperamentos que, quando combinados, definem muito bem aquela vida coletiva.

Assim como nós, o protagonista vivido por Felipe Camargo vai (re)conhecendo cada um deles. Na verdade, a situação é muito mais complexa em seu caso, uma vez que, sem referências sobre si próprio, ele depende da palavra dos outros para tentar se decifrar. Sua confusão é palpável não só pelo excelente desemprenho de Camargo, mas também por uma circunstância que desafia valores — afinal, como ele pode ter tomado, em outra “vida”, as tantas decisões erradas e condenáveis que lhe contam e que ele não identifica como características de sua índole?

Sem se reconhecer no espelho, Pedro Chão convive com essa violência de verem outros desenhando sua própria pessoa e passa a viver às margens daquela comunidade, como se estivesse a cumprir uma penitência cotidiana que ele, no fundo, passa a compreender como justa. Filhos do Mangue, então, olha bastante para esse homem por meio de silêncios e atividades banais. É quando Felipe Camargo trabalha nas minúcias, pois a jornada interna de Pedro Chão acontece, em sua maioria, no não-dito.

Por vezes, o longa quer abraçar coisas demais, o que imprime irregularidades no número de temas discutidos e na profundidade dos personagens abordados. Contudo, se no roteiro escrito em parceria com Luis Alberto Abreu, Eliane Caffé resvala na concisão, o mesmo não pode ser dito de sua firme direção: tanto ela trata a comunidade ribeirinha sem maniqueísmo algum como fortalece a todo momento o trabalho coletivo em cena, extraindo ótimos momentos inclusive dos atores não-profissionais e consolidando o seu dom de transformar um grupo em uma voz uníssona. 

52º Festival de Cinema de Gramado #8: “Cidade; Campo”, de Juliana Rojas

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Há exatos dez anos, a cineasta Juliana Rojas lançava o seu primeiro filme solo como diretora, após dividir o comando de Trabalhar Cansa com Marco Dutra e assinar a montagem de títulos como O Que Se Move, de Caetano Gotardo. A grata surpresa de seu voo individual se deu pela injeção de criatividade que é Sinfonia da Necrópole, um filme diferente de tudo que ela já havia feito em suas parcerias e como curta-metragista. Afinal, não é todo dia que vemos um musical ambientado em um cemitério, especialmente no Brasil. Daí a minha curiosidade para descobrir qual seria o seu próximo projeto pessoal, que acabou nascendo para o público agora, uma década depois, com “Cidade; Campo”, pelo qual recebeu o prêmio de melhor direção na seção Encounters do Festival de Berlim, criada para fomentar trabalhos ousados de cineastas independentes e inovadores.

Dessa vez, Rojas se volta ao drama, mas sem abandonar os toques sobrenaturais/fantasmagóricos que marcaram vários de seus trabalhos (As Boas Maneiras, que ela dirigiu ao lado de Marco Dutra, é outra pérola). Em Cidade; Campo, ela explora o feminino em dois capítulos, um protagonizado pela sempre excelente Fernanda Vianna, e outro por Mirella Façanha e Bruna Linzmeyer. Todas as personagens se veem um momento de transição em meio ao luto. No segmento da cidade, Joana (Vianna) se muda para São Paulo após perder na inundação da sua terra natal. Já na parte do campo, Flávia (Façanha) se muda com Mara (Linzmeyer) para a fazenda que herdou do pai, falecido recentemente. Como acontece com a grande maioria dos filmes episódicos, uma história funciona melhor do que outra, o que deixa uma sensação inevitável de descompasso.

A imersão no universo de Joana ganha em todos os aspectos. Há muita melancolia na histórias dessa personagem sem chão e que precisa reconstruir não só a parte prática da sua vida, desde ter onde morar até conseguir um novo emprego em outra cidade, mas também a afetiva — e é com o apoio da irmã e, principalmente, com a presença do sobrinho que ela encontrará acolhimento e afeto em meio aos escombros da sua vida. Fernanda Vianna, em mais uma grande interpretação, captura com sensibilidade o processo de luto de Joana, ao mesmo tempo em que pincela os novos despertares de uma mulher que perdeu suas referências e ainda está vinculada ao passado. A cena em que ela, descalça, procura a terra do canteiro para colocar os pés, relembrando sua vida no campo, é uma perfeita representação disso. A personagem também encapsula um tema sempre presente na filmografia de Rojas: o trabalho, visto aqui na luta de Joana para sobreviver ao capitalismo violento da “cidade do trabalho”

Já no segundo capítulo, a Flávia de Mirella Façanha assume o protagonismo. O seu luto está ancorado na perda recente do pai, que desperta diversas questões mal resolvidas da personagem com ele e com ela própria. Se o isolamento na fazenda traz a circunstância perfeita para que Cidade; Campo se dedique a um tom fantasmagórico, a abordagem um tanto desfocada deixa o resultado frequentemente truncado. Não sinto nesta segunda parte a mesma coesão da primeira, talvez porque o leque se abra demais, com outros conflitos envolvendo a busca de Flávia pela compreensão de sua ancestralidade e o relacionamento com Mara. Falta clareza para onde esse segmento do filme deseja ir, prejudicando o teor dramático e as eventuais experimentações que se fazem mais presentes.

Façanha e Linzmeyer estão ótimas, complementares em seus diferentes estilos de interpretação e certeiras na construção de um relacionamento que sempre soa íntimo e verdadeiro. A química entre as duas rende, inclusive, uma cena de sexo marcante para o cinema brasileiro, rompendo com as habituais representações da interação entre dois corpos. Juntas, elas tecem com esmero os símbolos de um relacionamento que resiste a opressões e vulnerabilidades. Flávia e Mara se aconchegam, como se fossem a casa uma da outra, o que é muito bonito. Mesmo diante dos problemas que tenho com a segunda história, essa acaba sendo a conexão que funciona para mim entre as duas partes de Cidade; Campo: o afeto como uma força de reconstrução e sobrevivência.