Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Raquel Piegas

raqueltresMesmo em um curto espaço de tempo até aqui, o Jornalismo já me trouxe muitas experiências e trabalhos bacanas. Nada, no entanto, se compara às amizades tão especiais que vieram com o pacote. Na lista de encontros mais marcantes, o que tive com a Raquel Piegas está indiscutivelmente entre os mais importantes. Devido ao destino e à geografia, já não nos vemos pessoalmente há alguns anos, mas isso não é motivo para que nossas risadas, trocas e conversas fiquem menos relevantes do que quando convivíamos diariamente. Agora, trago a Raquel para um pouquinho mais perto de mim com a participação dela na coluna Três atores, três filmes. A seleção tem a cara da convidada, em especial a primeira escolha, que valoriza um desempenho luminoso e revelador e que eu já deduzia que pudesse estar entre seus desempenhos favoritos por dizer muito sobre quem a própria Raquel é. Fiquem abaixo, portanto, com a participação dessa amiga que admiro desde sempre.

Penélope Cruz (Volver)
Sou uma grande fã de Penélope. Foi um pouco difícil escolher qual atuação dela me é mais emblemática. Em todas suas personagens, Penélope leva um quê de si. Da mulher latina que não se entrega, que é intensa, que não se renega. Raimunda é uma matriarca, uma representação da força feminina, em uma lição de resistência diante de uma situação forte e impetuosa como o abuso sexual de sua filha e o assassinato em legítima defesa de seu marido, cometido pela filha abusada. Volta e meia me pego revendo a cena em que Raimunda interpreta a canção Volver, de Carlos Gardel. Essa parte do filme me traz a intensidade de quem está vivendo longe de sua terra, como eu. As lágrimas reais de Penélope nessa atuação me representam. É uma atuação a qual recorro em diversos momentos.

Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Escolhi uma atuação atual dessa atriz, por recentemente ter assistido a esse filme. Um drama sem choros fantasiosos, sem atuações escrachadas, sem melodrama. Um drama real, uma família real, uma situação com a qual podemos nos deparar constantemente: a ilusão de que somos intocáveis por doenças ou males que nos parecem distantes e que surgem de maneira inesperada para nos ensinar a reviver. Julianne consegue transmitir mesmo com sua expressão serena, em uma atuação que comove somente pelo olhar.

John Cusack (Alta Fidelidade)
Alta Fidelidade é cultura pop até os ossos. Desde o livro, escrito por Nick Hornby, até sua trilha sonora, o filme é um ícone de uma geração que está perdida e sabe que está perdida. E faz disso um estilo de vida, claro. Rob Gordon é viciado em listas. Top 5. Cada aspecto de sua vida é avaliado com base em cinco itens que ele escolhe como sendo os mais emblemáticos. Alta Fidelidade é uma tentativa de Rob se reencontrar reparando seus cinco maiores erros e decepções amorosas, com mulheres claramente mais fortes e emblemáticas que ele. É um personagem que me apaixona pelos seus lugares comuns e com a forte identificação que promove ao nos despertar a certeza de que é necessário reconhecer e revisitar cada fracasso vivido como uma maneira de evolução.

Três atores, três filmes… com José Pedro Goulart

zepedrotresQuem acompanha o blog sabe que, no Festival de Cinema de Gramado do ano passado, fiquei completamente impressionado com Ponto Zero, filme dirigido pelo meu conterrâneo e colega jornalista José Pedro Goulart. Não vou esconder minha gafe: foi só depois de conferir o longa que investiguei os trabalhos prévios de Goulart, incluindo o célebre curta-metragem O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, que ele assinou em parceria com Jorge Furtado em 1986 (não cometam o mesmo erro que eu e confiram já esse filme aqui). Ao longo de sua trajetória, o diretor fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, a Zeppelin Filmes e, em 2008, a Mínima. Sua carreira ainda passa por publicidade, crônicas e produção de obras que considero particularmente marcantes na cinematografia gaúcha como Ilha das FloresO Cárcere e a Rua. Sem falar, claro, de Ponto Zero, que tem previsão de estreia para o primeiro semestre deste ano e que espero que, para vocês, seja uma experiência tão impactante quanto foi para mim. Ou seja, currículo é o que não falta ao nosso primeiro convidado de 2016 da coluna, o que só aumenta a minha honra de tê-lo por aqui. Fiquem abaixo com as escolhas do diretor, todas com justificativas que são verdadeiras aulas sobre a importância do ator para o fazer cinematográfico.

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Sidney Poitier (No Calor da Noite)

No Oscar deste ano não há nenhum ator negro indicado a qualquer premiação. Imaginemos o inverso, todos os atores nominados sendo negros e nenhum branco.

De modo que esta pequena grande lista começa com um filme de 1967, de Norman Jewison,  No Calor da Noite, cujo ator principal é um negro tão escuro que obrigou que fosse feita uma iluminação especial – rebaixada, para que não lhe refletisse a pele demais -, Sidney Poitier.

O filme conta a história de um investigador policial (Poitier) que, de passagem por uma pequena cidade do sulista dos EUE, é detido, por preconceito, como suspeito de um crime recentemente cometido. Desfeita a engrisilha, ele acaba ironicamente retido na cidade para trabalhar na investigação do crime pelo qual foi acusado. Trata-se de um detetive arguto, mas tem que enfrentar a desconfiança de todos, primeiro por ser forasteiro, e principalmente por ser preto.

Durante toda  a carreira, Sidney Poitier, interpretou homens de cor que tinham que lidar com isto. De alguma forma, frontalmente ou ladinamente, o fato de ser negro estava contido na temática (o cinema demorou a considerar a cor um não assunto). Ou seja, parte da interpretação é extensão de sentimento. Maltratar um personagem por ser negro, interpretado por um negro, equivale a um ator judeu sofrendo  as circunstâncias em um campo de extermínio nazista.

A extensão favorece, claro, porém todo grande ator trabalha com cartas secretas –  e cada carta contém a capacidade de estabelecer verdade nas nuances, naquilo que não é tão aparente, mas faz a diferença. Poitier tem uma baralho completo no bolso. Ele não grita, é matreiro, elegante feito um gato, milimétrico nas expressões. Talvez porque soubesse que era isso que fazia a diferença: ele se sentia bem de gravata.

No filme de Jewinson, No Calor da Noite, há uma cena antológica que, reza a lenda, teria sido exigência do ator. Nela, o personagem de Poitier é esbofeteado por um sujeito rico e poderoso, quando este se vê acusado por ele de ser um criminoso. Poitier imediatamente revida, devolvendo o bofete no sujeito. A maneira inesperada com que tudo acontece, ação e reação, põe a questão do racismo no seu devido lugar.

Mas o filme vai além, trata de um assassinato e das conspirações para que ele não fosse resolvido, uma rasura no sistema, um esboço daquilo que viria a ser tratado na explosiva série recentemente lançada, Making a Murderer. Por fim, há a relação entre Tibbs (Poitier) e Gillespie (Rod Steiger – Oscar de melhor ator pelo filme).  Gillespie, um delegado durão, mas repleto de angústia naquele fim de mundo, onde se sente perdido e solitário, descobre-se de alguma forma em sintonia com Tibbs: começa o filme prendendo aquele negro suspeito, mas evolui numa intrigante relação. O diálogo de ambos na cena derradeira na estação de trem é antológica.

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Klaus Kinski (Aguirre, a Cólera dos Deuses)

Aguirre, a Cólera dos Deuses é um desafio do grande cineasta alemão Werner Herzog, ao se embretar na selva amazônica – isso no começo dos anos 70 – sem pai nem mãe, para contar a história de uma expedição espanhola em busca do reino perdido de Eldorado, fato histórico acontecido em 1560.  O filme é narrado como se fosse um documentário, as condições realistas vertendo na tela, e eis aqui o meu ponto para a escolha dele: a distância do cinema e o teatro na dramatização. Num outro filme de Herzog, Fitzcarraldo, muito parecido, o cineasta volta à selva, mostrando que obsessão não tem limites quando se trata de enfrentar… limites.

E se Poitier é um felino, um gentleman na frente e por trás das telas, esta lista faz um corte seco para um cão – condenado, desgraçado, desmiolado – Klaus Kinski, genial, mas cujos adjetivos de insanidade são insuficientes para catalogá-lo. Personagem e ator se confundem. Difícil imaginar onde a atuação começa e termina quando um louco interpreta um louco, ou talvez tenhamos que lidar com o fato sobrenatural de que a alma de Lope de Aguirre tenha se instalado em Klaus Kinski. A cena do barco, assaltado por centenas de macacos enquanto Kinski perambula alucinado entre eles, apanhando um ou outro a esmo, faz parte da coleção daquilo que o cinema fez de mais impressionante desde que foi inventado.

Werner Herzog, por sua vez não fica atrás: as filmagens de Aguirre e Fitzcarraldo, ambos com locações na selva, teriam custado centenas de árvores nativas, animais e até mesmo ceivado vidas de índios a serviço do projeto. As histórias que são contadas a respeito da saga conjunta Herzog/Kinski são incríveis – há um documentário, inclusive, assinado por Herzog, Meu Melhor Inimigo, cujo título explica muito da turbulenta relação profissional e pessoal dos dois (que durou anos).

E é tudo verdade: os ataques de megalomania de Kinski durante as filmagens, as falas desconexas, as agressões a outros atores. Em especial se destaca a história de que, quando Klaus Kinski ameaçou abandonar as filmagens de Aguirre, o próprio Herzog apontou um revólver carregado para ele: se ele fizesse isso o mataria e depois a si próprio. Ou de uma outra, de quando os índios se ofereceram a Herzog para matarem Kinski. Werner Herzog declinou da oferta e convenceu os índios dizendo que precisava de um ator para concluir o filme.

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Paulo José (Macunaíma)

Por fim, para completar a tríade proposta pelo blog, o oposto de Kinski: de Lavras do Sul para o mundo, Paulo José, um cara legal. Mais do que isso, trata-se de um artista maravilhoso, que protagonizou filmes notáveis como Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, mas minha escolha aqui é Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

A partir de um texto original de Mário de Andrade, o filme tece um pano feito da linhagem que envolvia a nação. Por trás das peripécias de Macunaíma, um herói sem caráter que nasce negro (Grande Otelo) e vira branco (Paulo José), um tanto de Brasil raso e profundo. O país caloroso, tropical, cuja malemolência se autoexplica por um ritual permanente de autofagia.

Macunaíma é o encontro do Modernismo com Cinema Novo –, o manifesto da arte nativa, “tupy or not tupy”, bradava outro Andrade , o Oswald, por uma câmara na mão, uma ideia na cabeça, ainda outro Andrade, o Glauber (de Andrade Rocha) – em tudo a ideia era resistir. E reagir. Aquilo que vinha de fora não era lei, era preciso desconstruir na forma – linguagem é resistência.

Macunaíma nasce preto retinto e filho do medo da noite, passa seis anos sem falar, só de preguiça. Com a morte da mãe, aquela que lhe previu o destino (nome que começa por má, tem má sina), vira branco, sai do campo em direção à cidade, ao progresso, numa saga/paródia onde encontra a marginália: vadios, prostitutas, mendigos. E encontra o amor, Ci, uma guerrilheira urbana com quem tem um filho preto. Por fim, Macunaíma volta ao campo mais pobre do que saiu, carregando eletrodomésticos, badulaques da modernidade, algo imprestável naquele lugar. É o fim do herói.

A performance de Paulo José  é vivaz, tenho-a na memória, e vi o filme há mais de 30 anos. Havia uma questão que era a troca de atores para um mesmo personagem. E o filme começava com um Grande Otelo engraçadíssimo; moleque, brejeiro, safado. Era de se imaginar que o espectador fosse se ressentir da falta dele quando troca para o Paulo. Isso de fato acontece, mas não por muito tempo, em seguida o encantamento com o Macunaíma branco se refaz.

Acredito que a lente da câmara capture algo mais do que só a técnica do ator. Alguma coisa que não se explica, mas que é nítida, tanto na compreensão que o ator tem sobre a trama, mas também sobre a vida, sobre a arte, sobre as coisas. Lembro da primeira vez que ouvi a narração que o Paulo fez para o Ilha das Flores do Jorge Furtado – que coisa emocionante. Boa parte do sucesso do filme se deve a ele.

Abaixo um link de uma pequena mostra do talento, da compreensão do ofício do Paulo, recitando Drummond:

Três atores, três filmes… com Bruno Costa

brunotresConversar com o Bruno sobre cinema sempre rende discussões das mais interessantes. Resultado de outro ótimo encontro proporcionado pela internet e pelas redes sociais, nosso contato cinematográfico já ultrapassa a mera relação de blogueiro e leitor. É sempre um prazer trocar ideias com ele sobre cinema porque, além de termos muitas afinidades (principalmente no que se refere ao nosso afeto por atrizes), acredito que sempre provocamos um no outro novas reflexões sobre determinadas obras. A lista selecionada pelo Bruno tem a cara dele (claro que não poderia faltar Kate Winslet) e até reserva algumas afirmações bastante atípicas (será que existe uma interpretação melhor de Chalize Theron do que a de Monster – Desejo Assassino?).

Charlize Theron (Jovens Adultos)
Charlize Theron pode até ter ganhado o Oscar por Monster – Desejo Assassino (2003), mas é na pele da problemática Mavis Gary de Jovens Adultos (2011) que a atriz obteve o melhor desempenho da sua carreira. Amarga, bitch queen, sarcástica, infantil e presunçosa, sua personagem aqui é uma soma de vários defeitos que faz alguém ser detestável. Mesmo com uma personagem tão intragável e complexa, Theron consegue brilhar intensamente. Aliás, ela está impagável em suas caras e bocas, personificando com maestria o desprezo de Mavis pelas pessoas da sua cidadezinha natal, as quais ela reencontra graças a brilhante ideia de tentar reconquistar o namorado da adolescência, hoje um homem casado. Mas a grandiosidade da construção de Charlize vai além dos aspectos externos – algo que considero primário numa construção de personagem. Seu brilhantismo reside em conseguir transmitir a essência de um filme que trata sobre pessoas altamente capazes de obter êxito pessoal, mas que, por algum motivo, sabotam sua existência com atitudes infantis. São ressentimentos e descontentamentos para consigo mesmo que definem Mavis Gray. E Charlize Theron foi ótima em transmitir isso.

Gregory Peck (O Sol é Para Todos)
Um herói! Eis o melhor adjetivo para definir Atticus Finch, o mitológico personagem de O Sol é Para Todos. Adaptado do premiado romance de Harper Lee, a premissa do filme é simples: Atticus Finch, íntegro e renomado advogado da fictícia Maycomb, aceita defender um negro acusado de estuprar uma moça branca. O problema? Tudo se passa na década de 30, numa sociedade segregadora e preconceituosa, onde a palavra de um homem negro não devia ser levada em conta. Apesar da trama simples, o desenrolar dos acontecimentos é impactante em O Sol é Para Todos. E o valor social da história está longe de perder a relevância. Entretanto, tudo ficaria comprometido caso não tivessem encontrado o intérprete adequado para dar vida a Atticus Finch. Felizmente, o filme encontra nas qualidades do ator norte-americano Gregory Peck uma escolha mais do que acertada. Considerado um dos grandes atores da era dourada do cinema, Peck era conhecido por simbolizar a referência moral de Hollywood, dado seu ávido ativismo. De estilo sóbrio, voz serena, olhar que diz pouco e muito ao mesmo tempo, Peck empresta a Atticus Finch aspectos de sua persona pública, proporcionando ainda mais credibilidade e empatia do público em relação a um personagem que já nasceu mitológico em suas origens literárias. Longe de significar um demérito, essa fusão entre as características do interprete e as da figura ficcional resulta num desempenho cujo poder afetivo é inigualável. O Atticus Finch de Peck é mágico, soberbo, cativante e inesquecível!

Kate Winslet (O Leitor)
Dos grandes desempenhos da inglesa Kate Winslet, poucos costumam citar sua atuação em O Leitor (2008). Seja por causa da polêmica nas premiações ou pela controversa personagem, a grande verdade é que a composição da atriz para Hanna Schmitz merecia maior consenso. A primeira vez que conferi o desempenho de Kate neste filme, identifiquei de imediato as suas principais características como atriz: a profundidade técnica e emocional, o uso do erotismo como ferramenta de dramatização e a tão habitual sensação de poder e vulnerabilidade que ela traz a suas personagens. Despida de qualquer vaidade, Winslet apresenta ao público novidades no seu repertório, visíveis seja na rudeza da Hanna ou no interessante trabalho físico realizado. Certamente um dos seus maiores desafios de sua carreira, Hanna é, nas mãos de Kate, complexa, misteriosa, arisca, rude e de moral no mínimo duvidosa. O impressionante é que a atriz consegue ir além do proposto, conferindo uma pitada de humanidade a uma figura cujo passado odioso assombrou a si e aos seus durante toda vida.

Três atores, três filmes… com Sheron Neves

sherontresDessa vez, a coluna deveria se chamar “Três atores, três séries”, mas vamos manter a tradição do título. Ela deveria ter nome diferente porque a convidada é uma grande pesquisadora de TV, segunda tela, storytelling e transmídia, e também porque a conheci justamente em um curso sobre séries (mais especificamente sobre as produções da HBO) anos atrás. Sheron Neves, mestre em Media Studies pela Birkbeck, University of London e professora na ESPM-Sul, PUCRS e Unisinos, vem hoje ao Cinema e Argumento para comentar, excepcionalmente, três grandes atuações da TV. As escolhas particularmente me fascinaram porque fogem do previsível, conforme ela mesma explica na introdução abaixo. E como não pular de alegria ao ver Six Feet Under, meu seriado favorito de todos os tempos, lembrado na seleção? Ah, e não deixem de conferir o trabalho da Sheron no Meditations in an Emergency!

Antes de listar minhas três atuações favoritas da TV, preciso fazer um parênteses: não incluí os britânicos, pois precisaria de uma lista bem maior do que a que me foi encomendada. Sejam eles jovens como Nicholas Hoult (Skins) ou tarimbados como Maggie Smith (Downton Abbey), são todos responsáveis por performances impecáveis. Falando em impecável, mais um parênteses: deixei de fora Bryan Cranston (Breaking Bad), um dos meus favoritos. Afinal, o que dizer que ainda não foi dito pela imprensa ou pelas inúmeras premiações que recebeu pelo papel? Optei, portanto, por três performances menos conhecidas, mas não menos extraordinárias.

Sofia Helin (The Bridge)
Para viver Saga Norén, a brilhante policial com síndrome de asperger de The Bridge, a atriz sueca optou por uma interpretação sem grandes afetações, mas extremamente convincente. Vários remakes do drama sobre um maquiavélico assassino em série já foram feitos, mas nenhuma atriz parece ser capaz de interpretar a personagem com tamanha naturalidade como Helin, cujo carisma conseguiu destronar a até então diva número um do nordic-noir, a atriz Sofie Gråbøl (da série sueca The Killing). Ao mesmo tempo em que ajuda a compor a dureza monocromática da série, a detetive criada por Helin faz também o perfeito contraponto. Como um Spock de saias, é seu distanciamento emocional e sua inabilidade social que a tornam uma boa observadora. É a sua honestidade brutal que a torna autêntica, e o seu caráter que a leva a construir a principal “ponte” do título: a amizade com seu parceiro, o passional detetive Rohde. Deliciosamente trágicos, os dois acrescentam um componente humano a um thriller gélido e cerebral.

Michael K. Williams (The Wire)
Natural do Brooklyn, o ator já possuía alguns pequenos papéis no currículo quando foi chamado para desempenhar Omar Little na premiada série The Wire (HBO, 2002-2008). Sua performance como o temido gangster/Robin Hood de Baltimore lhe rendeu inúmeros elogios da crítica, e até mesmo de Barack Obama, na época senador. O contraditório personagem parece ter sido feito sob medida para o ator que, com seu rosto carrancudo (marcado por uma enorme cicatriz obtida em uma briga no dia do seu 25º aniversário) pode parecer assustador à primeira vista. Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, o ator consegue transmitir a complexidade deste que é um dos melhores personagens da série: apesar do rosto duro e dos atos inquestionavelmente cruéis, ele permanece a pessoa mais honesta e altruísta dentro de uma cidade repleta de políticos e policiais corruptos. Williams consegue transmitir esta dualidade com total sutileza e maestria.

Frances Conroy (Six Feet Under)
Formada pela prestigiada Juilliard School de Nova Iorque, a veterana atriz de teatro conquistou o grande público como a matriarca da família Fisher em Six Feet Under (HBO, 2001-2005). Mais conhecida até então no circuito independente, Conroy usou sua experiência nos palcos da Broadway para construir uma personagem absolutamente cativante e tragicômica. Uma das personagens mais imprevisíveis da série, Ruth Fisher surpreende desde uma das primeiras cenas do episódio piloto, quando atira longe uma travessa de comida ao receber um telefonema com más notícias. Inicialmente o retrato típico da esposa baby boomer, recatada, perfeccionista e submissa, na pele de Conroy a personagem ganha uma dimensão surpreendente. O fim abrupto de seu casamento de 35 anos é o estopim de uma transformação que irá confundir a seus filhos e a ela mesma. Acredito que poucas atrizes conseguiriam interpretar com tamanha sensibilidade a jornada de uma mulher que descobre, no auge de seus anos dourados, sua própria sexualidade e individualidade.

Três atores, três filmes… com Roberta Pinto

rtarobertatresPor aqui no Rio Grande do Sul, a cinéfila Roberta Pinto já teve passagens por importantes veículos de comunicação. Como gosta de dizer, é fã de cinema desde que se “conhece por gente” e encontrou no Jornalismo uma maneira de expressar o seu amor pela sétima arte. Já são mais de dez anos na profissão, passando por experiências em rádio, TV e online – entre os projetos dela, inclusive, esteve o blog Janela Indiscreta/Em Cartaz. Já quando o assunto é assistir a filmes, um “santíssima trindade” norteia a vida da nossa convidada. Suas escolhas para a coluna são, por isso, baseadas em longas dos três diretores que vocês vão descobrir logo abaixo. E que diretores! Todos os desempenhos escolhidos pela Roberta são inéditos aqui na coluna – e são ainda um excelente guia para quem está querendo começar a procurar interpretações no cinema de diretores clássicos.

Sou uma cinéfila inveterada desde que me conheço por gente. Aprendi a gostar de filmes antes de mesmo de aprender a ler ou escrever. O cinema acabou me levando de forma indireta ao jornalismo onde tive a oportunidade de comentar e escrever sobre….Adivinhou? Ci-ne-ma. E eis que tenho uma “santíssima trindade” quando se trata da sétima arte. São três cineastas que devoto: Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Woody Allen. Acho que além do talento para contar histórias de uma forma muito particular (Hitchcock e Kubrick fazem amor com a câmera e Woody Allen com as palavras), os três cineastas também conseguiram extrair desempenhos memoráveis de seus atores.

James Stewart (Um Corpo Que Cai)
O ator encarna com perfeição o perturbado policial obrigado a se aposentar após um trauma e acaba prestando favores como detetive particular para um conhecido. Só que o personagem tem mais profundidade do que isso, e Stewart vai trazendo aos poucos com olhares, sutilezas, expressões, uma camada mais densa. A camada de uma homem obcecado e perturbado, que decide manipular e transformar uma mulher na outra que pensou ter perdido. Sempre gostei de pensar que o personagem tem muito de como o próprio Hitchcock via o feminino: como algo a ser manipulado para o seu prazer. Afinal, era assim que Hitchcock operava com suas estrelas: decidia seus penteados, a maneira de falar, sua postura, suas roupas e até se era ou não o momento de terem filhos (o papel de Kim Novak em Um Corpo que Cai era para ser de Vera Miles que OUSOU engravidar e perdeu para sempre o status de estrela de primeiro escalão no coração do mestre do suspense). James Stewart em Um Corpo que Cai é um perfeito Hitchcock.

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
Partimos então para outro diretor exigente: Kubrick. Ele tinha mania de perfeição e costumava levar seus atores à exaustão até conseguir uma tomada perfeita. Se ele conseguiu o desempenho perfeito de Jack Nicholson em O Iluminado (já comentado aqui no blog), também extraiu o máximo de um ator que estava em início de carreira quando cruzou seu caminho: Malcom McDowell em Laranja Mecânica. A entrega de McDowell ao personagem foi tão intensa que durante a cena em que Alex é submetido ao tratamento Ludovico o ator teve a sua córnea arranhada pelos pequenos ganchos e ficou temporariamente cego. Num outro exemplo de sintonia entre o ator e seu ator, a cena clássica do estupro, onde Alex canta Singin´ in the rain foi filmada sem ser planejada. Stanley perguntou se McDowell sabia cantar e dançar e o ator improvisou a canção de Gene Kelly. Não precisa dizer que essa cena entrou para história do cinema. Pena que o projeto de Napoleão com direção de Kubrick e McDowell no papel título não saiu do papel. Teria sido interessante de assistir.

Gena Rowlands (A Outra)
Sei que ela já apareceu aqui no blog também, mas não posso deixar e registrar o desempenho de Gena Rowlands em A Outra, de Woody Allen. Woody escreve os melhores papeis que um ator pode desejar, e valoriza muito as atrizes com as quais trabalha. Em A Outra, filme que mostrava uma imersão mais bergminana do diretor nova-iorquino, Gena interpreta uma intelectual prestes a completar 50 anos que parece se concentrar na confecção de um livro aluga um apartamento vizinho a um consultório de psiquiatra. Pela ventilação, Gena escuta as consultas dos pacientes (uma mulher em particular chama a sua atenção) e passa a questionar as próprias escolhas que fez na vida. Uma atriz completa, Gena Rowlands descasca todas as camadas da personagem e termina o filme de uma maneira totalmente diferente de como iniciou, buscando uma sensibilidade que sempre esteve nela, porém adormeceu com o tempo. Sem dúvida um grande desempenho na carreira de uma das melhores atrizes de sua geração.