Três atores, três filmes… com Rubens Ewald Filho (segunda parte)

Nesta segunda parte do Três atores, três filmes, com o Rubens Ewald Filho, ele mais uma vez surpreendeu. Se, na postagem passada, Rubens escolheu duas interpretações de um mesmo filme praticamente desconhecido, agora ele resolveu fazer uma análise de um tipo pouco reconhecido pelo cinema: o das mocinhas. Ou melhor, o das ingênuas. Muitas são os vilões que conhecemos e que são celebrados pelo cinema… Mas quem são aqueles intérpretes que realmente sabem fazer uma pessoa de boa índole e ainda assim surpreender? No comentário abaixo, Rubens fala um pouco sobre isso e ainda define a sua maior queridinha quando esse assunto vira pauta. Mais uma vez, agradecemos a presença dele aqui no blog!
Nunca entendi porque a crítica – e, por vezes, o próprio público – confunde personagem com ator. Até hoje mesmo em novelas é muito comum o ator ser chamado pelo nome do personagem e não o dele. E o sistema de colocar as identificações todas rápidas e sem foto em nada ajuda. Antigamente, com freqüência, os trailers identificavam os nomes e hoje somos obrigados a recorrer às revistas de fãs ou fofocas para reconhecê-los. Tem uma hora que todos ficam com a mesma cara, em particular as meninas. E, quando uma delas consegue ter um tipo mais marcante (como Juliana Paes), é um milagre. Por isso, não se criam estrelas e, hoje, os verdadeiros astros da TV estão com 60 anos, velhos demais para serem galãs. Mas onde estão os de 40 para substituí-los, tanto homens quanto mulheres?
Bom, não é problema nosso. Viemos falar de cinema e louvar os coitados que tem a infelicidade de fazer papeis de ingênuos, mocinhos e mocinhas, heroínas e galãs. Todo mundo do meio sabe que nada melhor do que ser vilão: são personagens mais ricos, mais cheio de nuances e de altos e baixos, e muito mais difíceis de esquecer do que alguém que está ali porque é bonitinho. São tantos os nomes que se tornaram inesquecíveis como vilões (Vincent Price, Boris Karloff, Bela Lugosi, Christopher Walken) ou mulheres fatais (Marlene Dietrich, Hedy Lamarr, Bette Davis, Joan Crawford). E todos com maior longevidade de carreira. Mas o que você pode fazer com uma ingênua quando ela envelhece? No máximo fazer papel de mãe, tia ou futuramente de avó. Outra chatice total. Pode render surpresas (como a ingênua Shirley Jones, que levou um Oscar injusto por Entre Deus e o Pecado só porque fez papel de prostituta!) ou aposentadoria precoce.
Sempre tive um fraco, porém, pelas “girls next door” – fruto, sem dúvida, da minha juventude reprimida. Atrizes como Sandra Dee, Piper Laurie, Pat Crowley, Jane Powell, Diane Baker, a atlética Esther Williams (com quem me identificava porque era também nadador), Terry Moore, Natalie Wood, Pier Angeli (ainda que algumas como esta tivessem “o diabo no corpo” como se dizia antigamente) tiveram esse problema: não conseguiram se livrar do tipo e tiveram que recorrer a outras saídas. Sandra Dee se aposentou, se tornou alcoólatra e destruiu sua vida traumatizada por ter sido violentada quando criança pela padrasto. Diane foi para a TV, Esther vender piscinas, Piper foi procurar papeis bons em teleteatros…
Mas nenhuma delas resiste tanto tempo quando a minha favorita foi e continua a ser, por fidelidade, Debbie Reynolds. Não pensem que ela deve tudo a Cantando na Chuva – até porque esse filme só foi reconhecido e descoberto décadas depois de ter sido lançado. Antes, era apenas mais um musical da Metro e pronto. Debbie não era dançarina nem cantora. Mera ginasta. Mas começou com 17 anos, passou a estudar e aprender. Tinha uma notável energia e concentração que se tornaram sua marca registrada. Essa personalidade, que, com o tempo, floresceria em um incrível senso de humor e autocrítica, seria a base para transmitir na tela a irresistível graça de Tammy, a Flor do Pântano (ela teve dois discos de ouro pelos sucessos de Abba Daba Honey Moon e do tema musical de Tammy). Mas seu maior êxito foi na vida real, quando enfrentou um marido (Eddie Fisher) que a deixou por Elizabeth Taylor, com quem teve dois filhos pequenos. Depois, dois outros maridos que roubaram tudo que ela tinha e fizeram falir inclusive um cassino!
Mas Debbie não desistiu e se tornou realmente unsinkable, “inafundável”, como a sua personagem Molly Brown, que escapou do naufrágio do Titanic no filme A Indomável Molly, de 1964, que lhe deu sua única indicação ao Oscar. Se gostava dela criança é porque suspeitava que ela tinha dentro de si essa força de vida que me serviu de lição também na minha própria experiência. Como Debbie, há poucos anos fui roubado por um parente que fugiu com meu dinheiro e causou uma crise em família, que praticamente acabou. Não a crise, a família! Seguido por outra amiga que também fez parecido, usando trapaça para pagar as contas dela. Processar não daria resultado. Fiz como Debbie: enfrentei a situação, estou dando ainda a volta por cima (mais difícil psicologicamente do que na grana). Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo.
Três atores, três filmes… com Rubens Ewald Filho (primeira parte)

Essa foto ao lado foi tirada em 2011, quando participei do 39º Festival de Cinema de Gramado. Era a primeira vez que eu encontrava pessoalmente o Rubens Ewald Filho, um cara que fez parte da minha formação cinéfila e que sempre foi uma das minhas grandes referências em cinema. Não sabia naquela época que, posteriormente, eu viria, de certa forma, a trabalhar junto com o Rubens, na organização do próprio Festival de Cinema de Gramado – onde ele, desde o ano passado, assumiu a curadoria dos longas-metragens em competição ao lado de José Wilker e Marcos Santuario. Agora, com esse contato mais próximo, resolvi convidá-lo para o Três atores, três filmes. Ele aceitou o convite prontamente, mas com uma condição: que essa sua participação fosse dividida em duas partes. O motivo? Rubens quis mais tempo para pensar nas interpretações e também para produzir as justificativas. De qualquer forma, temos, abaixo, as duas primeiras escolhas dele, cujas atuações vêm de um mesmo filme: Song for Marion, de 2012. As escolhas me surpreenderam não apenas porque vieram de um longa recente e praticamente desconhecido mas porque me entusiasmaram completamente a procurar tal obra. Alguém aí já conferiu o filme para assinar embaixo dos comentários?
Vanessa Redgrave e Terence Stamp (Song for Marion)
Na internet, descobri, por acaso, um filme que tinha ouvido falar apenas de passagem: Song for Marion (também conhecido como Unfinished Song na Inglaterra). E é coisa rara! Passei o filme todo fungando sem conseguir conter as lágrimas. Podemos creditar também o fato de que ficamos mais sentimentais quando envelhecemos… Ainda mais quando já perdemos os pais, a mãe em particular. Mas chorei, confesso, por admiração. Que atriz maravilhosa é a Vanessa Redgrave! Sou fã dela desde quando a vi muito tempo atrás, no começo da minha carreira, com Blow Up, de Antonioni, onde tinha um jeito de Greta Garbo. Mas era apenas uma impressão já que não podia supor que ela fosse um camaleão, capaz de se transformar e de virar mil e uma coisas, desde a lendária Isadora Duncan até a tenista Renée Richards, no telefilme Second Serve, de 1986 (o maior tour de force que já vi: ela começa como homem vestido de mulher, travesti, depois vira transexual e consegue ser convincente o tempo todo). Felizmente, conheço-a pessoalmente e descobri que é completamente louca. Só que no melhor sentido da palavra. Uma pessoa que faz um mergulho tão profundo dentro de sua própria alma e dos mistérios do ser humano não pode voltar ilesa!
Nos últimos anos, Vanessa voltou a se unir ao antigo namorado Franco Nero, que a ajudou a suportar a perda, em um curto período, da filha Natasha Richardson, da irmã Lynn e do irmão Corin. O sofrimento está estampado no seu rosto neste em Song for Marion, onde faz uma senhora que sofre de câncer mas enfrenta a doença para poder cantar no coral de idosos de seu bairro. É uma interpretação incrível… Toda sensibilidade e doçura está visível nos mínimos detalhes, sem nenhum pudor em se expor. Ela compartilha tudo com o hoje maduro e ainda melhor Terence Stamp, que interpreta o marido duro e caladão. Stamp, lendário astro de Teorema e Histórias Extraordinárias, de Fellini, é adepto de outra linha de interpretação que eu admiro: faz o menos possível, com tudo interiorizado em seus olhos. E consegue o máximo efeito, até mesmo revelando uma voz especial no final do filme. Acho muito interessante o carinho que a gente tem por aqueles com que a gente envelheceu junto. O casal era lindo e hoje são velhos. Mas não perderam nada de seu charme, carisma, talento e, por que não, beleza.
Três atores, três filmes… com Alex Gonçalves

Das relações que estabeleci quando passei a fazer parte do mundo de blogueiros cinéfilos, uma das que mais me marcou foi certamente a do Alex Gonçalves. Como ele bem comentou quando me convidou para participar da seção Os Cinco Filmes Prediletos, do Cine Resenhas (blog atualizado com afinco e personalidade por ele), nos conhecemos ainda nos tempos de Orkut, quando defendíamos ferrenhamente o filme A Vila, do hoje fracassado M. Night Shyamalan. Com o tempo, descobrimos que nossos gostos cinematográficos não são lá tão parecidos, mas permanecemos firmes e fortes nesse mundo blogueiro onde tanta gente vai e vem. Acompanhamos a trajetória um do outro nesse meio – o que é muito legal! E, quando pedi ao Alex para participar do Três atores, três filmes, tinha uma certa ideia das escolhas que viriam. Acertei duas delas! Como sempre, ele justifica sua lista com uma admirável argumentação. Uma satisfação tê-lo participando aqui. Fiquem abaixo, então, com as escolhas do Alex!
Anthony Hopkins (O Silêncio dos Inocentes)
Melhor suspense criminal que o cinema já produziu, O Silêncio dos Inocentes é notável porque vai além da maestria com que conduz a busca pelo assassino em série Buffalo Bill. O elemento que verdadeiramente nos prende ao filme (e que Jonathan Demme perceberia de antemão ao dirigi-lo) é a interação entre a agente em formação Clarice Starling e Hannibal Lecter, doutor e canibal há anos enclausurado em uma prisão de alta segurança que a auxiliará a traçar o perfil de Buffalo Bill. Em algumas entrevistas posteriores ao filme, Anthony Hopkins assumiu que pressentia que a indicação ao Oscar pelo papel se converteria em vitória. Porém, o que o ator provavelmente não imaginou foi a popularidade que atingiria como Hannibal Lecter, um dos mais fascinantes personagens do cinema. Através de uma composição meticulosa, que funde elegância e perigo, Hannibal parece se comunicar conosco ao encarar a câmera de Demme. Em seu último encontro com Clarice Starling, atinge nosso âmago ao agradecê-la por contar o episódio que a marcou na infância e a motiva a capturar Buffalo Bill.
Nicole Kidman (Os Outros)
A australiana Nicole Kidman é uma das poucas profissionais do cinema que não deixa indícios de que estamos diante de uma mera atriz e sim de uma mulher capaz de desaparecer em inúmeras personagens. Nicole Kidman pode incorporar tanto figuras reais, como escritora Virginia Woolf, a fotógrafa Diane Arbus e a jornalista Martha Gellhorn, quanto criações da própria ficção, como a bruxa Gillian Owens e uma heroína romântica de Henry James, Isabel Archer. Porém, o momento em que fiquei fascinado por Nicole Kidman pela primeira vez veio como Grace Stewart, a personagem central de Os Outros. Em um filme em que a escuridão é o refúgio e a luz é a inimiga, Nicole processa como Grace todas as dúvidas e temores que a acompanham diante dos obscuros eventos da história. Assim como Grace, somos seres humanos a todo o instante desorientados com as nossas próprias crenças e com a linha tênue entre a vida e a morte. Não estranhe se o nome Grace e o sobrenome Stewart remeterem aos protagonistas de Janela Indiscreta, Grace Kelly e James Stewart. Se estivesse vivo, Alfred Hitchcock, assim como nós, teria caído de amores por Nicole Kidman.
Sigourney Weaver (quadriologia Alien)
Na minha infância e adolescência, muitos amigos estranhavam quando apontava a Tenente Ellen Ripley como o meu “herói” favorito. É hábito considerar para este título personagens das histórias em quadrinhos, como o Superman e o Homem-Aranha. Pois, para mim, eles não passam de criaturas insossas, quase ordinárias. Feita por Sigourney Weaver, Ellen Ripley só se tornou protagonista de Alien – O Oitavo Passageiro em sua meia hora final. Adquiriu mais espaço e bravura nos três capítulos seguintes da franquia Alien. É o papel que toda atriz do mundo desejaria desempenhar. Ripley jamais é amedrontada pelos homens, mas não perde sua feminilidade quando precisa assumir o papel de mãe de uma garotinha (Aliens – O Resgate) ou ter compaixão por suas versões defeituosas (Alien – A Ressurreição). Sigourney Weaver já atingiu meu coração em muitas ocasiões: quem viu filmes como Nas Montanhas dos Gorilas, A Morte e a Donzela, O Mapa do Mundo e Orações Para Bobby sabe que ela é uma das maiores bênçãos do cinema. No entanto, o nosso primeiro herói a gente nunca esquece.
Três atores, três filmes… com Ricardo Lubisco

Dois anos atrás eu já havia conversado com o Ricardo Lubisco especificamente sobre atuações marcantes do cinema. Foi quando ele participou de uma edição especial do extinto Sala de Cinema, programa de rádio que apresentei e produzi durante mais de dois anos na Rádio IPA. Agora, voltamos ao tema e o Ricardo me deu a satisfação de poder contar com ele novamente para mais esta empreitada. Cinéfilo exemplar e também blogueiro (visitem o ótimo Uma Dose de Cinema, um blog que vai bastante de acordo com a proposta do Cinema e Argumento!), ele fez uma das listas mais interessantes para o Três atores, três filmes até agora. Uma lista que, por sinal, reflete muito bem o conhecimento do Ricardo sobre cinema de todas as épocas e estilos. Fiquem abaixo, então, com as escolhas e os comentários dele!
Beatrice Dalle (Betty Blue)
Beatrice Dalle sempre será lembrada pelos amores e loucuras de Betty Blue. Uma personagem única na história do cinema, capaz de atrair e afastar as pessoas com a mesma profundidade. É a estréia da atriz no cinema, e continua até hoje sendo o seu melhor papel. O filme de Jean-Jacques Beineix pode ter uma linda fotografia, uma trilha sonora magnífica, mas é pela inesquecível atuação de Beatrice que será sempre lembrado. Uma poesia filmada e interpretada.
Bill Murray (Flores Partidas)
Bill Murray conseguiu realizar neste filme do grande Jim Jarmusch o que poucos conseguiriam. Interpretar um personagem sem expressão. Não poderia fazer uma lista de atores sem citá-lo, pois é um dos atores mais caricatos e irreverentes do cinema (assim como Roberto Benigni), capaz de realizar diferentes tipos, sem nunca perder o nível de atuação. Neste filme em particular, ele se sobressai atravessando o país para conversar com ex-namoradas, e mesmo inexpressivo, sabe como tirar as melhores emoções de quem assiste o filme.
Anthony Quinn (Zorba – O Grego)
É um dos meus atores favoritos em um papel que não cairia tão bem em mais ninguém. Anthony Quinn dá vida ao atrapalhado, mas de enorme coração, Zorba. São em cenas como a do começo do filme na estação, a do convento, ou a da sensacional e imortal dança, que temos a noção da grandeza desse personagem, e desse filme. Uma obra-prima protagonizada por um dos melhores atores da história do cinema.
Três atores, três filmes… com Leticia Kiraly
Logo quando tive a ideia de começar essa série de posts aqui no blog, pensei que a Leticia Kiraly era uma dessas pessoas que eu não poderia deixar de chamar para participar. Assim como a Luíza Cerioli, que foi a convidada anterior, essa minha colega jornalista que fui conhecer apenas nos últimos meses de faculdade (e com quem tive o prazer de me formar), tem um gosto altamente refinado – tanto para filmes quanto para seriados. Sempre soube que dela viria uma lista cheia de ótimas escolhas e argumentos. E não me enganei, como vocês podem ver no resultado abaixo. Entre as escolhas da Leticia, o primeiro bicampeonato da seção: Tom Hanks foi novamente lembrando por seu desempenho em Forrest Gump – O Contador de Histórias. Particularmente, acho que o grande desempenho dele é Filadélfia. Mas, e você, concorda com as escolhas da Leticia?
Tom Hanks (Forrest Gump – O Contador de Histórias)
Difícil escolher apenas um dos filmes de Tom Hanks. Neste clássico, ele comove e diverte misturando inocência, virtude e uma sensibilidade única. Somos envolvidos pela história de vida de Forrest Gump, um cara não muito esperto, mas que passa por experiências mágicas, trágicas e inspiradoras. Atuação primorosa de Tom, até no sotaque sulista do Alabama. Nesta produção de trilha sonora impecável, muitas vezes fui incapaz de segurar as lágrimas.
Christian Bale (Psicopata Americano)
A versatilidade de Christian já é senso comum. Neste filme cult e polêmico, o ator reflete todo o vazio de um rótulo surgido nos anos 90 nos Estados Unidos: os yuppies. Uma geração de jovens, bonitos, bem sucedidos, e infelizes. O teor macabro e até de humor negro do filme mostra a capacidade de indiferença do ser humano a tudo que é verdadeiro. Christian é um psicopata, pois não consegue sentir nada, mas ainda assim, desenvolve esse vazio com maestria.
Natalie Portman (O Profissional)
O filme apresenta um combinado de ótimas atuações: Natalie, Jean Reno, Gary Oldman. Mas a jovem atriz, com apenas 12 anos na época, foi capaz de transmitir ao espectador uma relação incomum entre uma menina e um homem. Duas pessoas perdidas, que encontraram no amor a única saída para uma vida sem esperanças. Matilda é ao mesmo tempo uma criança assustada e uma mulher sexy, e faz com que o público torça por esse amor proibido.