Três atores, três filmes… com Lariza Squeff
Ela é jornalista e atriz, combinação que cai como uma luva para esta coluna. Da trajetória como intérprete, Lariza Squeff traz sua formação com nomes como Estrela Strauss, Eduardo Milevicz, Walter Rippel, Grupo Tapa e Wolf Maya. Já do jornalismo, vem com uma bagagem de colaborações para veículos como Vogue, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Jornal da Tarde e TV Globo. “Como atriz e jornalista, eu gosto de histórias que possam parecer reais e que me façam pensar, refletir, me projetar naquela situação. Amo também filmes com conteúdos fantásticos e surrealistas, mas quando a trama tem um ‘pezinho’ na realidade, a história me atravessa por semanas. Porque no final das contas, o cinema é principalmente sobre conexão humana, sobre o que nos une como seres humanos”, ela me conta. Para representar essas suas afinidades cinematográficas, Lariza foi do cinema brasileiro ao Oscar, passando ainda por um clássico de Stanley Kubrick. Descubram a seguir!
Jodie Foster (O Silêncio dos Inocentes)
Jodie sempre foi, para mim, uma mestra da interpretação. Desde a primeira vez que a vi em A Menina do Fim da Rua, eu, ainda uma menina, fiquei impressionada com sua capacidade de transmitir emoções tão complexas e autênticas. Eu pensava: como ela consegue viver sozinha, sendo tão jovem? Uma interpretação tão real que me angustiava… Jodie Foster como a agente Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes é fascinante. Na cena final, em que Clarice Starling entra na casa de Buffalo Bill e o enfrenta no sótão escuro, a tensão é palpável. Bill usa óculos especiais que lhe permitem vê-la, enquanto ela está imersa na escuridão total. A respiração contida, o olhar de terror, a vulnerabilidade e a força que Jodie Foster consegue imprimir são inesquecíveis. Não á toa, ela ganhou seu segundo Oscar pelo filme. Talvez por sua genialidade e inteligência, não vemos Foster tanto quanto gostaríamos em cena; ela deve selecionar muitos os papéis que lhe oferecem. No que ela está certa, mas o público sente falta.
Shelley Duvall (O Iluminado)
Assisti a O Iluminadocom 14 anos e passei semanas pensando naquilo. Se teria coragem de aceitar um trabalho daqueles e como fugiria daquela situação. Será que eu passaria por aquela mini janela para fugir na neve? Depois de rever o filme diversas vezes, me dei conta de que a fragilidade de Shelley Duvall, como Wendy Torrance, fez o contraste magistral do filme. Quando Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson, já dominado pela loucura e possessão, avança ameaçadoramente contra ela, a vulnerabilidade física e emocional de Duvall, armada apenas com um taco de beisebol, torna a cena visceralmente aterradora. É como se Wendy Torrance não tivesse forças psicológicas para enfrentar a realidade macabra que se desenrola diante de seus olhos: o homem com quem se casou, o pai do seu filho, agora deseja aniquilá-los. A intensidade do frio e o completo isolamento do mundo exterior exacerbam essa sensação de desamparo. Shelley com o Jack Nicholson formaram um par perfeito para deixar o clássico do Stanley Kubrick entre os grandes filmes do século 20.
Rodrigo Santoro (Abril Despedaçado)
O que mais me marcou em Abril Despedaçado, este lindo filme do Walter Salles, é o olhar marejado e melancólico de Rodrigo Santoro durante toda a trama. Ele traz no olhar aquela desgraça familiar e social daquela comunidade em que um sangue tem que ser vingado com outro, numa espiral interminável e angustiante. É como se o olhar dele congregasse todas as mortes, as dores, os lutos que não passam. É um olhar que traz o assombro daquela região árida e desolada. Mesmo sob esse peso esmagador, Santoro consegue também transmitir uma surpreendente doçura e ternura, evidenciando a complexidade emocional de seu personagem. Essa habilidade tornou sua atuação inesquecível.
Três atores, três filmes… com Tina Kakadelis

Tina Kakadelis foi a mentora do meu grupo na Media Iniative Inclusion do último Festival Internacional de Cinema de Toronto, e tê-la aqui na coluna é uma felicidade sem tamanho porque compartilhamos de uma visão muito humana sobre a experiência de ver filmes. “Muitas vezes me perguntam por que acho que sou qualificada para ser uma crítica. Acho que todo mundo é crítico deveria olhar para os filmes (e para toda a arte) com um olhar curioso, sem nunca esquecer o trabalho de amor envolvido. Crítica não é uma palavra inerentemente negativa. Algumas das melhores críticas vêm de quem ama fazer filmes com tudo o que tem.”, ela escreveu no seu site, o Beyond the Cinerama Dome. A paixão pela sétima arte levou Tina a se tornar uma crítica certificada do Rotten Tomatoes e membro de várias associações, como a GALECA (Society of LGBTQ Entertainment Critics), a Online Association of Female Film Critics e a Pittsburgh Film Critics Association. Deixo aqui meu imenso agradecimento à ela por topar o desafio da coluna e por compartilhar visões tão especiais sobre interpretações que tocaram o seu coração.
Charles Melton (Segredos de Um Escândalo)
No dia em que as indicações ao Oscar foram divulgadas, li um artigo que listava incorretamente Melton como indicado. Foi um daqueles raros momentos em que senti que a pessoa certa estava sendo indicada. Claro, acabei descobrindo que ele não foi indicado, e a temporada de premiações voltou ao seu absurdo habitual. A atuação de Melton é silenciosa, mas muito penetrante. Ele interpreta Joe, um homem de trinta e poucos anos casado com uma mulher, Gracie (Julianne Moore), que iniciou um relacionamento sexual com Joe quando ele tinha treze anos e ela trinta e seis. Já se passaram vinte e três anos, e eles têm três filhos. O relacionamento é o foco de um filme independente, e a atriz (Natalie Portman) que interpreta Gracie vem à cidade para observá-lo. Segredos de Um Escândalo foi polarizador devido ao assunto, mas nunca glamorizou o aliciamento de Gracie com Joe. É claro que Gracie contou sua história para Joe e, assim, fazê-lo acreditar que nada de impróprio aconteceu, mas a mágica da atuação de Melton é que o público experimenta sua gradual compreensão dos fatos. Trata-se de uma série de entendimentos silenciosamente devastadoros que se acumulam em Joe até ele sufocar. Melton, que brincou dizendo que “Riverdale era [sua] Juilliard”, aborda esse papel com uma graça estóica e gentil. É o tipo de papel ignorado em favor de performances duras e barulhentas que ocupam toda a tela. Melton quase desaparece no fundo, mas é sua contenção que permanece com você depois que o filme.
Adèle Haenel (Lírios d’Água)
Cresci assistindo às aventuras clássicas de Spielberg dos anos 1980. Indiana Jones foi um grande filme para mim e, durante grande parte da minha vida, pensei que todos os filmes eram grandes e barulhentos. Numa tarde de sábado, por volta de 2007 ou 2008, me deparei com um filme chamado Lírios d’Água. Foi meu primeiro filme em idioma diferente do inglês e a primeira vez que vi algo fundamentalmente diferente de um blockbuster americano. Dou crédito a Lírios d’Água por ter iniciado meu caso de amor com o cinema ao longo da vida, e é inegável que um grande motivo desse impacto em mim foi Haenel. Ela interpreta Floriane, uma nadadora sincronizada que está lidando com todas as dificuldades que fazem parte da maioridade. É difícil para mim celebrar o meu amor pelo cinema sem dar algum crédito a Haenel, que me cativou desde tão jovem. Eu poderia ter escolhido sua atuação mais recente em Retrato de Uma Jovem em Chamas, mas devo tanto a Lírios d’Água que pareceu errado escolher outro papel. Haenel é tão fundamentada, tão acessível, mas tão magnífica que parece etérea. Passar de sucessos de bilheteria barulhentos e bombásticos para Lírios d’Água foi um choque. Eu não sabia que o cerne de um filme poderia existir em uma performance, em contraste a uma série de aventuras emocionantes. Com a atuação de Haenel em Lírios d’Água, foi a primeira vez que entendi isso – e serei eternamente grata ao universo de filmes que essa experiência me apresentou.
Gene Kelly (Cantando na Chuva)
É quase uma saída fácil escolher Gene Kelly em Cantando na Chuva porque todos no mundo deveriam escolher esta performance. Não foi um dos filmes que meus pais me mostraram quando eu era mais jovem, então, demorei até 2023 para finalmente assisti-lo. Já tinha visto trechos das músicas “Singin’ in the Rain” e “Make ‘em Laugh”, mas nada poderia ter me preparado para assistir ao longa na íntegra. Na verdade, fico feliz por não ter visto esse filme quando criança, porque assisti-lo como uma adulta que consegue entender o esforço e a habilidade necessários para fazer um trabalho como esse foi algo especial. No centro do filme está Kelly. Ele tem a habilidade milagrosa de pegar sequências intensamente coreografadas e fazê-las parecer ações espontâneas e repentinas. O público pode ver outros atores pensando em seus próximos passos, mas Kelly se move com liberdade e fluidez pela tela como se sempre conhecesse essas danças e estivesse apenas esperando uma câmera aparecer e capturá-las. Há uma alegria que ainda existe setenta anos depois, e é uma prova do grande nível de entusiasmo de Kelly por atuar. É contagioso e faz com que eu, péssima em dançar, tenha vontade de levantar e sacudir o esqueleto. Kelly tem um carinho por isso em cada apresentação, e seu ponto mais alto está em Cantando na Chuva.
Três atores, três filmes… com Ann-Chloé Mentor
Uma das minhas melhores experiências durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto, evendo do qual participei pela primeira vez em setembro deste ano, foi poder conhecer pessoas de diversos lugares do mundo, sejam elas de grande veículos ou de atuação independente, como eu. No caso da Ann-Chloé Mentor, fomos colegas na Media Inclusion Initiative do festival, projeto que busca levar ao TIFF um perfil mais diverso de críticos de cinema. Natural do Canadá, ela percebeu que estava interessada em comunicação e mídia depois de ingressar na Leeds Student Television durante seu semestre no exterior na Universidade de Leeds, Reino Unido. Quando pedi que escrevesse uma breve introdução sua aqui para coluna, Ann-Chloé logo revelou que toda sua personalidade foi formada pela trilogia High School Musical e por Bratz, e que inveja quem ama filmes de terror ou de “arte”, pois se considera alguém “muito simples” quanto aos filmes que gosta, algo que, segundo ela, está refletido na lista de performances escolhidas abaixo. Many thanks, dear Ann-Chloé!
Renée Zellweger (O Diário de Bridget Jones)
O Diário de Bridget Jones é meu filme favorito de todos os tempos e a minha primeira escolha no top 4 do Letterboxd. Como uma romântica incurável, só faz sentido para mim escolher pelo menos uma comédia romântica para esta lista. Uma das melhores partes da atuação de Renée, com a qual acho que a maioria concorda, é como ela conseguiu dominar o sotaque britânico. É um dos raros casos em que se pode dizer com segurança que um americano testou com sucesso um sotaque britânico. Minha parte favorita de Bridget é como ela é estranha e identificável. Também é péssima para falar em público e não pensa antes de falar, o que faz parte de seu charme (Mark parece concordar, pois gosta dela do jeito que ela é). Mesmo que ela planeje tomar decisões melhores na vida, Bridget admite ser estranha e alguém que, às vezes, faz uma sopa azul. Essa personagem significa muito para mim porque, pessoalmente, às vezes me sinto um pouco estranha e gosto da ideia de ter pessoas ao redor que gostam de você exatamente do jeito que você é, com estranhezas e tudo mais.
Dominic Sessa (Os Rejeitados)
Desde os primeiros segundos, eu sabia que iria gostar de Os Rejeitados. Muitos filmes que acontecem no passado às vezes tiram você da história por causa do quão moderna nossa tecnologia se tornou e da alta qualidade das câmeras. Nesse caso, a granulação deu ao filme uma sensação muito autêntica para mim. Dominic Sessa teve uma atuação fantástica, e o que mais me chocou foi o fato de esta ser sua estreia. Ele estava no lugar certo na hora certa. É fácil associar grandes nomes a um projeto porque você sabe que ele venderá; no entanto, penso que este Os Rejeitados realmente mostra que deveríamos dar mais oportunidades aos “ninguéns”. Trata-se de um longa que definitivamente fará parte dos meus feriados de agora em diante, e estou animada para ver o que o futuro reserva para Dominic Sessa.
Jacob Elordi (Saltburn)
Jacob Elordi é cool (e lindo) sem precisar se esforçar neste filme. Seu personagem, Felix, vem de uma família com MUITO dinheiro e sempre teve tudo o que poderia desejar. É alguém muito atraente e seguro de si. Você quer ser ele ou estar com ele, e Jacob Elordi personificou perfeitamente esse tipo de personagem. O papel reforçou sua posição de “menino branco do mês” e deu origem a edições do TikTok que ficaram gravadas em minha mente. Há muitoa discussão em torno do filme, seja pelas cenas chocantes ou pelo discurso em torno de classes, mas uma coisa que você não pode negar é o quão lindo o resultado é. Não só isso, mas também é divertido e dá vontade de festejar (e acho que todos nós merecemos um pouco de diversão agora).
Três atores, três filmes… com João Fonseca
João encara o cinema de formas com as quais eu me identifico muito. Ele, por exemplo, acredita que os filmes trazem mais sentido para as nossas vidas e que eles podem nos tornar pessoas melhores. Foi com esse fascínio muito sensível pela sétima arte que João criou o blog Olhar Além da Tela, onde busca instigar as pessoas a explorarem o mundo do cinema de uma forma mais emocional e, assim, olharem para elas próprias e para as suas vidas. Nosso contato é recente, mas as afinidades cinematográficas são muitas, o que logo se converteu nesse convite para a coluna. Consolidando Giuletta Masina em Noites de Cabíria como a performance mais citada desde o início desse espaço, esse querido colega da crítica também trouxe interpretações inéditas por aqui: a de Al Pacino em Parceiros da Noite e a de Celia Johnson em Desencanto. Garanto a vocês que vale a leitura! Obrigado demais, João!
Giulietta Masina (Noites de Cabíria)
Noites de Cabíria foi meu primeiro contato, e acredito que o de muita gente também, com Giulietta. Uma das obras-primas de Federico Fellini que conta a trágica e cômica história de uma prostituta que procura bondade e felicidade em um mundo cínico. Um filme que ainda ressoa e impressiona por sua honestidade. Nas últimas semanas, eu tive a oportunidade de ver o espetáculo Luz e Neblina, livremente inspirado no clássico de Fellini, do Grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum, que encheu o Grande Teatro Cemig Palácio das Artes aqui em Belo Horizonte. Uma peça que mistura teatro e cinema como pouco se vê. Ainda que uma ótima oportunidade de engrandecer ainda mais essa história, sinto que apenas Giulietta soube, com precisão, dar para Cabiria a inocência, presença, ingenuidade, doçura e esperança que residem em cada um de nós. Como podem apenas os olhos dizerem tanto? Quando tudo parece perdido, quando não há mais esperança dentro do seu coração, é possível sorrir? Encontrar conforto nesse pandemônio? Giulietta, que eu carinhosamente chamo de Fernanda Montenegro italiana, entrega em Noites de Cabíria uma performance de uma vida inteira. Assim como Fernanda, que amamos e é um ícone brasileiro, Giulietta foi destemida. Transmitiu raiva, desesperança, mas também fé. No final do filme, nos inclui na história e nos chama para olharmos o mundo com outros olhos. É nisso que me agarro todos os dias. Não em um “Deus”, uma religião, alguma pessoa, mas no mundo como ele é. Cruel, terrível e, ainda assim, belo.
Al Pacino (Parceiros da Noite)
A performance de Al Pacino causou muita controvérsia e discordância dentro e fora da produção de Parceiros da Noite. A repercussão negativa do filme na época provocou protestos, boicotes e, posteriormente, o próprio diretor, William Friedkin, demonstrou ter tido problemas com ele sobre a forma como cada um enxergava o final do filme. Apesar de todos os obstáculos, acredito, desde a primeira vez que assisti Parceiros da Noite, que sua performance e o contexto transformaram seu personagem exatamente naquilo que a história pedia. Já escrevi sobre esse filme antes, sobre a forma como explora a violência que existe em todos nós, contra o outro ou contra nós mesmos. Do que somos capazes quando não aceitamos aquilo que é “outro” em nós? Daquilo que é diferente? Al Pacino, que não sabia nada sobre aquele universo e a atmosfera do filme, parece transpor perfeitamente sua própria inocência, ingenuidade e ignorância no personagem quando confrontado com aquele mundo. Longe da sua zona de conforto, ele não falou sobre o filme por muito tempo. Enfrentou muita represália, mas conseguiu entregar uma performance tão complexa e paradoxal quanto o próprio personagem. Parceiros da Noite é um filme à frente de seu tempo. É uma experiência perturbadora e inconvencional que afeta as pessoas em seus níveis mais profundos.
Celia Johnson (Desencanto)
Desencanto é o único filme que assisti com Celia Johnson, mas nunca esquecerei seu rosto. Seus momentos de reflexão, sua batalha interna imensurável expressa delicadamente, mas poderosamente pelo seu rosto. É um filme com um texto e performances que marcam para sempre. O romance de um amor impossível é algo que, até hoje, nos comove de inúmeras formas. Talvez por não ser algo tão simples como um “felizes para sempre”. Mexe com nossas expectativas e nos obriga a enxergar a vida como ela é. Existe amor mesmo que duas pessoas não possam ficar juntas. Eu já fiz teatro por alguns anos. Em um momento da minha vida em que ainda não entendia realmente o potencial e o significado do que é atuar. Acho que muitos de nós esquecemos. Focamos tanto em nós mesmos e esquecemos que atuar é dar espaço para o outro existir em você. A arte da atuação exige muita empatia. Você cede um pouco da própria identidade, para que o personagem venha através do seu corpo. É um ofício de humildade, humanidade e entrega. Acredito que é dessa paixão de onde vêm as melhores performances. Algumas vêm do acaso, do contexto, do tempo, e outras parecem boas demais para serem atuações, se é que vocês me entendem. Ainda que seja uma atuação, o que eu vejo na tela é de verdade. Eu sinto dor, amor, medo e todos os sentimentos comuns a todos nós. Por isso sempre amei cinema, teatro e todas as formas de arte. É um espaço seguro para que exploremos o melhor e o pior de nós. Um lugar para pessoas como Giulietta, Al Pacino e Celia, ainda que tenham ou não passado por coisas parecidas com seus personagens, possam criar algo do abstrato. Transformar e se permitirem serem transformados. Fazendo sentido ou não, é assim que enxergo tudo isso.
Três atores, três filmes… com Bruna Berlitz
Desde que se conhece por gente, a Bruna Berlitz sempre foi apaixonada por audiovisual. “Minha mente estava constantemente em outro lugar, em histórias que criava na minha cabeça, e nos filmes e desenhos que assistia”, conta. Foi a comunicação, no entanto, que trouxe algumas das suas maiores realizações: atuando na área há mais de seis anos, a Bruna já atuou como cinegrafista, editora de vídeo, produtora de conteúdo e gestora de redes sociais. Ela tem um perfil no Instagram em que fala sobre cinema, e a minha dica é acompanhar, pois tem dica pra todo mundo, dos filmes cults aos filmes pro provão. As escolhas da Bruna para a coluna traduzem, claro, essa proposta plural, com menções tanto a ícones como Audrey Hepburn e Anthony Hopkins quanto a um nome da nova geração, no caso, Lupita Nyong’o. Boa leitura!
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Um ator que dispensa apresentações. Mesmo sendo uma escolha óbvia, achei necessário pontuar. Principalmente nesse filme, que me fez chorar, e sentir toda a dor e confusão que o personagem tem de lidar. Um dos retratos mais tristes, e mesmo assim verdadeiros, sobre o alzheimer e a velhice. No qual Anthony retrata de forma muito digna e respeitosa. Toda a teimosia, raiva, tristeza, solidão, e outros sentimentos dão vazão nessa interpretação, que busca nos colocar no lugar de quem não se sente em casa, nem mesmo em sua própria moradia. Um filme que lida com o tempo-espaço de uma maneira muito interessante, e mostra o quanto é desesperador não poder confiar nem mesmo na sua própria mente.
Audrey Hepburn (Um Clarão nas Trevas)
Eu não poderia começar essa lista sem citar a minha queridinha, Audrey Hepburn, que além de ter sido um ser humano incrível, foi uma atriz fenomenal. Que marcou a minha entrada aos filmes clássicos, pois o primeiro que assisti foi um dos seus filmes mais famosos e icônicos, Bonequinha de Luxo. Mas a atuação que destaco de toda sua filmografia, e que considero no meu top 3 aqui, é do filme Um Clarão nas Trevas (1968). Nele, Audrey interpreta uma mulher cega que tem sua casa invadida por criminosos. Entregando uma atuação digna de uma de suas 5 indicações ao Oscar, que foi bem marcada pela complexidade do papel. Sendo um filme que trabalha muito a questão da emoção de cada personagem, e das situações caóticas em cena, ainda mais pelo fato de se passar em um único ambiente. O nervosismo que sentimos está completamente ligado à entrega de Hepburn, que se compromete em retratar o desespero da situação. De uma das formas mais impressionantes que já vi, trazendo com sua atuação o sentimento de claustrofobia e determinação em sobreviver. Suas emoções vão das mais calmas, até as mais horripilantes. Transmitindo um misto de insegurança e ferocidade de uma forma sem igual.
Lupita Nyong’o (Nós)
Lupita é uma força da natureza que eu poderia exaltar pra sempre, mas a sua atuação em Nós (2019) é algo que me apavorou por um bom tempo. Em um filme de um dos meus diretores preferidos, ela brilha com uma atuação visceral, através de uma narrativa complexa e profunda. Atingindo a essência do terror em vários nuances, pois cada vez que penso sobre esse longa percebo diferentes camadas. Lupita consegue transitar por extremos: da felicidade em ser uma mãe de férias com a família; do pavor de ter sua casa ameçada por estranhos; da bizarra e expressiva doppelganger de uma mulher; do absoluto caos e crítica social que se esconde nesse suspense, no qual ela interpreta maravilhosamente a dualidade. Em um estudo sobre como nós nos comportamos em sociedade, diante de privilégios e injustiças, Lupita se destaca como o veículo e símbolo humano nessa disputa.