Os vencedores do BAFTA 2024

Cillian Murphy com o seu BAFTA de melhor ator por Oppenheimer. Filme de Christopher Nolan novamente se consagra com folga na temporada.
Oppenheimer segue imbatível nas premiações com mais uma grande vitória, dessa vez no BAFTA, onde levou os prêmios de melhor filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia, montagem e trilha sonora. Se os britânicos confirmaram o favoritismo do filme de Christopher Nolan, inclusive impulsionando Cillian Murphy na disputa contra Paul Giamatti (Os Rejeitados) em melhor ator, a cerimônia também foi positiva para Pobres Criaturas, que recebeu mais um prêmio para a sua protagonista Emma Stone e faturou categorias técnicas como as de melhor design de produção, figurino, efeitos visuais e maquiagem e cabelo. Não há dúvidas de os dois filmes são os protagonistas da temporada desse ano.
Para o BAFTA em si, a edição 2024 volta a sinalizar os problemas cada vez mais crônicos do sistema de votação. Há um descompasso entre a fase de escolha de indicados e a de vencedores. Na primeira, o corpo de votantes se mistura com um júri, resultando em decisões que soam estranhíssimas ao invés de “autorais”, como a de esnobar Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas) em melhor direção e Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores) melhor atriz. Já na segunda, votada apenas pelos membros, o BAFTA acaba elegendo os mesmos vencedores de outras premiações, ainda que existam escolhas inspiradas, a exemplo de melhor som para Zona de Interesse e melhores efeitos visuais para Pobres Criaturas. Na busca pela representatividade e por si própria, a premiação ainda não reencontrou o seu caminho.
Confira abaixo a lista de vencedores:
MELHOR FILME: Oppenheimer
MELHOR DIREÇÃO: Christopher Nolan (Oppenheimer)
MELHOR ATRIZ: Emma Stone (Pobres Criaturas)
MELHOR ATOR: Cillian Murphy (Oppenheimer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Robert Downey Jr. (Oppenheimer)
MELHOR ELENCO: Os Rejeitados
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anatomia de Uma Queda
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ficção Americana
MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO-INGLESA: Zona de Interesse (Reino Unido)
MELHOR FILME BRITÂNICO: Zona de Interesse
MELHOR ANIMAÇÃO: O Menino e a Garça
MELHOR DOCUMENTÁRIO: 20 Dias em Mariupol
MELHOR FOTOGRAFIA: Oppenheimer
MELHOR MONTAGEM: Oppenheimer
MELHOR FIGURINO: Pobres Criaturas
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pobres Criaturas
MELHOR TRILHA SONORA: Oppenheimer
MELHOR SOM: Zona de Interesse
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM: Pobres Criaturas
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Pobres Criaturas
MELHOR CURTA-METRAGEM: Jellyfish and Lobster
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Crab Day
EEE RISING BAFTA: Mia McKenna-Bruce
MELHOR ESTREIA DE ROTEIRISTA, DIRETOR OU PROCUTOR: Savanah leaf, Shirley O’Connor e Medb Riordan (Earth Mamma)
Independent Spirit Awards 2024: “Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer

Rudolf (Christian Friedel) e Hedwig (Sandra Hüller) finalmente estão vivendo a vida que sempre sonharam. Desde os filhos bem-educados à mansão imponente com piscina, jardins e estufa, o casal sente ter realizado tudo aquilo que imaginavam desde que iniciaram seu relacionamento, aos 17 anos de idade. Para eles, trata-se de um inquestionável paraíso. No entanto, para nós, espectadores, o que se desenrola na tela é um verdadeiro inferno. E a razão para isso é tão simples quanto aterradora: Rudolf e Hedwig moram ao lado do campo de concentração de Auschwitz. Apenas um muro os separa do local onde mais de um milhão de pessoas foram mortas durante o Holocausto.
Ao longo da história e da evolução, o ser humano aprendeu a se adaptar a todo tipo de circunstância; há, no entanto, algo de muito terrível quando perdemos a capacidade de nos horrorizar com a barbárie. Quando isso ocorre, falhamos como humanidade. Essa é uma temática que interessa ao diretor Jonathan Glazer, e que acaba conduzindo todo o mal-estar que permeia Zona de Interesse — seu primeiro longa-metragem em uma década, desde Sob a Pele, de 2013. E, para ampliar o contraste perturbador entre o descaso da família Höss e o genocídio diário ocorrido em Auschwitz, Glazer se vale de uma estratégia perspicaz: a de não encenar uma cena explícita sequer de violência, elevando o longa a uma experiência sensorial.
Tudo o que percebemos são fumaças ao fundo, o som de tiros, alguns gritos e ruídos por vezes indecifráveis. Sabemos, no entanto, que tudo isso significa morte e tortura. Os crimes cometidos em Auschwitz serão eternamente repugnantes, a ponto de um filme como Zona de Interesse causar grande incômodo apenas ao cutucar o imaginário do espectador, sem precisar recorrer a um horror explícito. Mesmo quando o indizível se traduz em passagens, digamos, mais diretas ao assunto, Glazer preserva o impacto — como quando Hedwig e Rudolf se divertem na cama com o perfume francês que pertencia a um dos mortos no campo de concentração.
Zona de Interesse captura o cotidiano da família Höss ao estilo de um reality show. Em certo ponto, mais de trinta microfones e dez câmeras trabalhavam simultaneamente em diferentes pontos da casa, possibilitando que os atores circulassem em cena com o mínimo de interferência. Foram 800 horas de material bruto condensadas em cerca de 105 minutos, com planos estáticos que, entre um corte e outro, colocam o espectador na posição de observador. É um convite para que, do lado de cá da tela, exercitemos nossa capacidade de encontrar significado nas ações mais banais, desde o filho que brinca no quarto com bonequinhos empunhando rifles, até o casaco de pele provado em frente ao espelho.
A inspiração para Zona de Interesse vem do romance homônimo de Martin Amis, também autor do roteiro ao lado de Jonathan Glazer; mas muita atenção para a palavra inspiração, pois a versão cinematográfica é diferente em uma série de aspectos, começando pela decisão de nomear a família Höss, ao invés de criar personagens ficcionais como no livro. Os Höss de fato existiram, e é importante identificá-los, tamanho o papel exercido por eles em uma das maiores atrocidades da História. Se há alguém na realidade encenada por Zona de Interesse que merece alguma compreensão, talvez seja apenas o cachorro — a única alma verdadeiramente viva que parece inquieta, agitada e incomodada com a atmosfera daquele ambiente.
E pensar que, em um passado recente, dadas as devidas proporções, essa história se repetiu aqui no Brasil – quando centenas de milhares de vidas foram ceifadas pela Covid-19, enquanto autoridades eleitas pelo povo testemunhavam impassíveis a desgraça de toda uma população, banalizando o valor da existência do próximo. É impossível não constatar que, infelizmente, como seres humanos, ainda temos muito a evoluir.
INDICAÇÃO AO INDEPENDENT SPIRIT AWARDS 2024:
– Melhor filme internacional
Independent Spirit Awards 2024: “Ficção Americana”, de Cord Jefferson

Cord Jefferson pode estar debutando na direção de longas-metragens com Ficção Americana, mas os louros que ele vem recebendo por esse trabalho de estreia não deveriam ser uma surpresa, especialmente se lembrarmos que é de sua autoria o roteiro de This Extraordinary Being, um dos episódios mais fenomenais da minissérie Watchmen. O Emmy conquistado por esse trabalho é inquestionável: nele, Jefferson e o criador Damon Lindelof fazem a protagonista Angela Abar (Regina King) voltar no tempo para compreender a verdadeira história de seu avô e do herói Hooded Justice, ao mesmo tempo em que coloca o espectador diante de uma série de discussões históricas e sociais sobre as eternas cicatrizes deixadas pelo racismo sistêmico.
O fascínio causado pelo roteiro desse episódio reside na criatividade com que Jefferson e Lindelof aliam a reflexão da pauta a uma estrutura criativa e frequentemente surpreendente, sem jamais perder de vista o diálogo entre técnica e emoção. Ainda que caminhe para um lado oposto em Ficção Americana, é palpável o quanto Jefferson, dessa vez no plano da comédia, sublinha o seu comprometimento em fugir do óbvio. Para tanto, ele toma como base o romance Erasure, de Percival Everett, agora se debruçando em questões raciais a partir das relações entre autor, público e crítica no campo da literatura. E, assim como aconteceu em This Extraordinary Being, não há nada de intelectualoide no resultado.
O protagonista de Ficção Americana é Thelonius Ellis (Jeffrey Wright), autor e professor universitário que já lançou alguns livros em sua carreira. Todos sem sucesso, e sempre catalogados nas livrarias como literatura de estudos afro-americanos, apenas por terem sido escritos por um autor negro. Thelonius se dói dessas visões simplistas: ele não apenas está cansado de ver a população negra estereotipada em papéis de rappers, traficantes e presos injustamente pela polícia, como já começa a perder a paciência com um certo policiamento de vocabulário. Ele, por exemplo, diz não se ofender mais com o uso da palavra nigga, e que é preciso ressignificar o que de fato se configura como ofensa ou racismo nos dias de hoje.
A impaciência de Thelonius com o que vê ao seu redor é divertida de se assistir, mais ainda quando ele se depara com o sucesso de Sintara Golden (Issa Rae), uma escritora negra que rapidamente alcança as paradas de best sellers com um romance repleto de estereótipos sobre a população negra. Aos olhos do protagonista, claro. A partir daí, Ficção Americana joga o personagem em um emaranhado de situações que questionam seus valores e suas próprias ideias de sucesso. Afinal, vale a pena tentar tanto mudar o mundo quando ninguém lê o que você escreve? Ou é melhor apenas abraçar a obviedade do mundo e aceitar as cifras inimagináveis que trabalhos simplistas oferecem, mesmo que em detrimento da sua própria visão de mundo?
Em paralelo a essas discussões, Ficção Americana observa a vida de Thelonius, mostrando que muito do seu gênio intelectual (e, por que não, difícil) também se reflete na forma como ele lida com questões familiares: desde a irmã que cobra dele uma maior presença no dia a dia da família (Tracee Ellis Ross), ao irmão gay que está tardiamente se confrontando com dilemas pessoais devido ao longo tempo passado dentro do armário. É própria família que fará Thelonius rever muitos de seus comportamentos e, claro, o que ele de fato deseja de sua carreira e a forma como encara a negritude, tanto a sua, quanto a dos outros.
A fina ironia de Ficção Americana é deliciosa, muito porque Cord Jefferson se preocupa em não fazer do protagonista um intelectual pedante ou apenas rabugento. Ele consegue esse feito ao colocar o espectador em seu lugar; afinal, é mesmo cômica, para não dizer trágica, a relação que grande parte da população branca estabelece com a representação de pessoas negras no terreno da literatura ou do cinema. A sacada de colocar Thelonius entre os jurados de um concurso literário, por exemplo, representa bem a tônica do longa: é de rir e revirar os olhos como três escritores brancos defendem o prêmio para o livro rasteiro escrito por um ex-presidiário negro, somente pela urgência do tema racial, enquanto os dois escritores negros da banca avaliadora rejeitam a obra em função do discurso fácil e dos clichês utilizados na questão da representatividade.
Como o excelente ator que sempre foi, Jeffrey Wright alcança equilíbrio perfeito na construção de um protagonista tragicômico. Seu maior feito é conseguir conectar a plateia com a incredulidade de Thelonius, mas também fazê-la compreender as frustrações e os caminhos tortuosos tomados por esse homem em conflito com o mundo. O timing de Wright é precioso, e só melhora quando divide a cena com um elenco recheado de participações tão rápidas quanto eficientes, como as de Tracee Ellis Ross, Issa Rae e Sterling K. Brown. Nem todos encontram terreno fértil ao interpretar um homem mundano com aspirações cotidianas — tarefa complicada, mesmo se considerarmos o campo das comédias. Felizmente, Jeffrey consegue essa proeza tão logo Ficção Americana começa.
Aos 42 anos, Cord Jefferson debuta na direção de longas com uma experiência bastante curta. São, segundo o IMDb, foram apenas sete títulos até aqui, incluindo outras séries de sucesso como The Good Place e Master of None. Parece pouco, para alguém que se apresenta agora nos cinemas com frescor, ideias arejadas e a capacidade de abordar, com leveza e inteligência, discussões normalmente tratadas pelo cinema com as obviedades que o protagonista Thelonius tanto rechaça. Que o reconhecimento recebido até agora, desde o carinho da crítica às indicações para premiações como o Independent Spirit Awards e o Oscar, sejam a confirmação de um talento em ascensão — e o incentivo necessário para que mais vozes como a deste diretor sejam descobertas.
INDICAÇÕES AO INDEPENDENT SPIRIT AWARDS 2024:
– Melhor filme (Cord Jefferson, Jermaine Johnson, Nikos Karamigios e Ben LeClair)
– Melhor roteiro (Cord Jefferson)
– Melhor performance protagonista (Jeffrey Wright)
– Melhor performance coadjuvante (Erika Alexander)
– Melhor performance coadjuvante (Sterling K. Brown)
Independent Spirit Awards 2024, here we go!
Foi com imensa alegria que recebi a notícia de que tive meu credenciamento aprovado para o Independent Spirit Awards! Se eu já tinha a satisfação de ser membro-votante do prêmio há dois anos, agora tudo fica ainda mais especial com essa oportunidade que eu jamais imaginaria ser possível, mesmo agora, quando completei recentemente 16 anos de escrita sobre cinema.
A cerimônia acontece no dia 25 de fevereiro em Los Angeles, com uma disputa das mais acirradas dos últimos anos, tanto em termos de probabilidade de vitória quanto em qualidade dos próprios concorrentes mesmo. Como colocar na balança filmes como Vidas Passadas, Todos Nós Desconhecidos, Segredos de Um Escândalo, Ficção Americana e até outros “menores” e ainda mais independentes como Passagens e We Grown Now?
A contextualização desse post é necessária porque, a partir de agora, publicarei aqui no blog meus textos sobre os filmes concorrentes, sempre sob a categorização do Independent Spirit Awards. Espero que acompanhem e gostem! Para quem quiser relembrar o anúncio dos indicados, é só dar o play abaixo!
It was with great joy that I was told that my accreditation has been approved for the Independent Spirit Awards! If I already have the satisfaction of being a voting member of the award, now everything is even more special with this opportunity that I would never have imagined possible, even now, when I recently completed 16 years as a film critic.
The ceremony takes place on February 25th in Los Angeles, with one of the fiercest competitions in recent years, both in terms of probability of victory and the quality of the competitors themselves. How to balance films like Past Lives, All of Us Strangers, May December, American Fiction and even other “smaller” and even more independent ones like Passages and We Grown Now?
The contextualization of this post is necessary because, from now on, I will publish my reviews on the films in competition, always under the Independent Spirit Awards categorization. I hope you follow along and enjoy! For those who want to remember the announcement of the nominees, just press play below!
