Cinema e Argumento

Os filmes em competição do 41º Festival de Cinema de Gramado

Dira Paes e Marco Ricca integram o elenco de "Os Amigos", filme que narra o dia em que um homem precisa ir ao enterro de um amigo de infância.

Dira Paes e Marco Ricca integram o elenco de “Os Amigos”, filme que narra o dia em que um homem precisa ir ao enterro de um amigo de infância.

Foram divulgados, na manhã dessa terça-feira (2), os filmes em competição do 41º Festival de Cinema de Gramado. O evento, que acontece de 9 a 17 de agosto, apresenta quatro mostras competitivas: longas brasileiros, longas estrangeiros, curtas brasileiros e curtas gaúchos (Prêmio Assembleia Legislativa). Entre os longas – cuja curadoria está com José Wilker, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho pelo segundo ano consecutivo -, a seleção reafirma o perfil universal e sem preconceitos adotado desde a edição passada. Na lista, uma animação (Até Que a Sbórnia nos Separe), debuts (A Bruta Flor do Querer, dos curta-metragistas Andradina Azevedo e Dida Andrade), um documentário (Revelando Sebastião Salgado, de Beste de Paula) e até mesmo uma história gay (Tatuagem, sobre um romance homossexual em tempos de ditadura). Nomes como Leandra Leal, Maitê Proença, Dira Paes, Caio Blat, Paulo Cesar Pereio, Domingos Oliveira, Sandra Corveloni e Alice Braga estão nos elencos dos oito filmes brasileiros em competição.

Já a seleção de estrangeiros (aqueles de língua latina) traz seis longas, históricos em sua maioria. Por isso, a expectativa fica com Cazando Luciérnagas, da Colômbia, que conta a jornada de Manrique, homem encarregado de supervisionar os resquícios de abandonadas minas de sal no meio de um árido ponto perto do oceano. Nesse emprego, ele encontrou uma desculpa para se isolar de um mundo com o qual não se importa. Entretanto, a aparição extraordinária de um cachorro pedigree que gosta de caçar vagalumes e a inesperada aparição de Valéria, sua filha de 12 anos até então desconhecida, darão a esse homem a oportunidade de reencontrar a alegria de viver. Em uma seleção que não inspira tanta curiosidade – justamente por ter um perfil que aposta bastante no documental, esse longa colombiano parece ser o sopro de humanidade em termos de drama na competição. Entre os curtas, é quase impossível prever alguma coisa. A curiosidade fica com Os Filmes Estão VivosO Matador de BagéTomou Café e Esperou, todos com exibições duplas por concorrerem nas mostras de curtas brasileiros e gaúchos. Confira abaixo a lista completa de concorrentes:

LONGAS BRASILEIROS

– A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade
– A Coleção Invisível, de Bernard Attal
– Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.
– Éden, de Bruno Safadi
– Os Amigos, de Lina Chamie
– Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira
– Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula
– Tatuagem, de Hilton Lacerda

LONGAS ESTRANGEIROS

– A Oeste do Fim do Mundo, de Paulo Nascimento – coprodução Brasil/Argentina
– Cazando Luciérnagas, de Roberto Flores Prieto – Colômbia
– El Padre de Gardel, de Ricardo Casas – Uruguai
– Puerta de Hierro: El Exilio de Perón – Argentina
– Repare Bem, de Maria de Medeiros – Portugal
– Venimos de Muy Lejos, de Ricardo Piterbarg – Argentina

CURTAS BRASILEIROS

– A Navalha do Avô, de Pedro Jorge
– A Voz do Poço, de Patrícia Black
– Acalanto, de Arturo Saboia
– Arapuca, de Hélio Villela Nunes
– Arremate, de Rodrigo Luna
– Carregadores de Monte Serratde Cassio Santos e Julio Lucena
– Colostro, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet
– Faroeste: Um Autêntico Wester, de Wesley Rodrigues
– Merda!, de Gilberto Scarpa
– O Matador de Bagé, de Felipe Iesbick
– Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado
– Os Irmãos Mai, de Thais Fujinaga
– Pouco Mais de Um Mês, de André de Novais Oliveira
– Sanã, de Marcos Pimentel
– Simulacrum Praecipiti, de Humberto Bassanelli
– Tomou Café e Esperou, de Emiliano Cunha

CURTAS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

– Armada, de Filipe Ferreira
As Memórias do Vovô, de Cíntia Langie
– Catalogárgula, de Lucas Neris e Luan Salce
– Codinome Beija-Flor, de Higor Rodrigues
Contrato de Amor, de Camilo Rodriguez, Leonor Jiménez e Thais Fernandes
– Ed, de Gabriel Garcia
– Entrevista, de Gabriel Horn
– Férias, de Iuli Gerbase
– Kassandra, de Ulisses da Motta Costa
– L’anime, de Diego Urrutia
– Logo Ali ao Sul, de Marcio Kinzeski
– Notícias Tuas, de Vicente Moreno
– O Matador de Bagé, de Felipe Iesbick
– Os Desconhecidos, de Eduardo Teixeira
– Os Filmes Estão Vivos, de Fabiano de Souza e Milton do Prado
Roda Gigante, de Julia Barth
– Somos Todos Ilhas, de Pedro Martins Karam
– Tomou Café e Esperou, de Emiliano Cunha

Números e novidades do 41º Festival de Cinema de Gramado

Rubens Ewald Filho, Marcos Santuario e José Wilker repetem a curadoria de 2012

Rubens Ewald Filho, Marcos Santuario e José Wilker repetem a curadoria de 2012. Foto: Leonardo Peixoto

Logo já começa a contagem regressiva para a 41ª edição do Festival de Cinema de Gramado. E o evento está com as preparações a mil! Recentemente, curadoria e comissões de seleção se reuniram para selecionar os filmes que disputarão o Kikito e o Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema Gaúcho. Os números desse ano são expressivos: 580 filmes foram inscritos, registrando um crescimento de 48% em relação ao ano passado. Na última edição, o evento se reestruturou completamente e voltou a respirar cinema, abandonando o flerte excessivo com sub-celebridades e o critério quase incompreensível na seleção de filmes (o que foi reformulado com grande êxito por Rubens, Santuario e Wilker).

Em 2012, nas categorias de longas brasileiros e latinos, ColegasArtigas, La Redota foram os consagrados, respectivamente. Entre os curtas, Elefante na Sala foi o melhor curta gaúcho e Menino do Cinco o vitorioso da mostra nacional. A diversidade de longas vista no último ano promete se repetir em 2013, segundo Rubens: “Muito além do aumento de inscrições, os filmes inscritos esse ano tiveram um crescimento impressionante de qualidade. Foi difícil descartar nomes da lista. Mas o resultado tem um pouco de tudo e podemos esperar um Festival mais rico em propostas de filmes”.

Além dos expressivos números alcançados pelas inscrições, o Festival de Cinema de Gramado ainda comemora outra conquista: ampliando seu diálogo com o cinema latino-americano, o evento agora terá exibições especiais no Peru. Em viagem à Lima, o prefeito de Gramado, Nestor Tissot, e a secretária de turismo da cidade, Rosa Helena Volk, firmaram uma parceria com a embaixada brasileira no país. O resultado desse encontro é a garantia de exibições dos vencedoras da próxima edição do Festival de Gramado na Semana do Cinema Brasileiro realizada no Peru. A 41ª edição do festival serrano acontece de 9 a 17 de agosto e é uma realização da Prefeitura Municipal de Gramado e da Coordenação Geral da Secretaria de Turismo com a colaboração da Gramadotur.

Oscar 2013: resultados

Na teoria, os vencedores do Oscar são difíceis de adivinhar. E, nesse sentido, a lista de 2013 parecia ter se superado: o mistério reinava e vários prêmios não tinham franco favorito. Mas basta a cerimônia de entrega começar para que a teoria vá por água abaixo: a festa apresentada neste domingo (24) por Seth MacFarlane foi marcada pela matemática óbvia. Com exceção de Ang Lee, todos os outros vencedores já corriam na frente em função de prêmios conquistados anteriormente.

Por isso, não foi surpresa ver Christoph Waltz vencendo (ele já tinha o Globo de Ouro e o BAFTA em casa) ou Jennifer Lawrence batendo o buzz de Emmanuelle Riva (a jovem já tinha vencido o SAG e o Globo de Ouro). Anne Hathaway e Daniel Day-Lewis, então, dispensam comentários. Idem para Argo. No entanto, quanto ao filme de Ben Affleck, vale a pergunta: será que sua vitória é em função dos votantes terem gostado mesmo do filme ou é resultado da forte pressão por ele ter reinado soberano na temporada de premiações? Prêmio genuíno ou sentimento de culpa? Nunca saberemos.

O tombo maior não foi de Jennifer Lawrence vencendo como melhor atriz (que deveria ter sido de Quvenzhané Wallis ou Emmanuelle Riva), mas sim de Lincoln, que ganhou apenas duas categorias das 12 que concorria. Só que sejamos justos: poucas vezes, nos últimos anos, vimos uma distribuição de prêmios tão igualitária. Resultado de uma excelente seleção, onde todos os filmes concorrentes tinham indicações, no mínimo, compreensíveis. Saldo positivo. Sobre a festa, a investida dos musicais foi, em sua maior parte, acertada, ainda que desarranjada (em especial a das canções indicadas).

A tal homenagem aos musicais mostrou-se avulsa, sem muitos critérios. Se Catherine Zeta-Jones deu claras provas de que o tempo lhe fez muito mal como intérprete musical (sua voz e sua incapacidade elástica quase estragaram a lembrança do arraso que é All that Jazz, em Chicago), tivemos momentos preciosos: a apresentação de Os Miseráveis foi um dos pontos altos da noite, Adele teve seu brilho atual sem nenhum esforço e Barbra Streisand emocionou com The Way We Were (mas por que mesmo cantar depois do in memoriam e não durante?).

Não dá para reclamar da distribuição de prêmios, até porque todos saíram com alguma coisa (menos Indomável Sonhadora) – o que é um feito notável: percebam como, nas categorias de filme, direção e atores nenhum filme teve mais de uma vitória. Entre elas, a surpresa ficou com Ang Lee, uma boa alternativa na categoria bagunçada (ele foi o único diretor com indicação a todos os outros prêmios da temporada). Sem dúvida, o inesperado da noite. Porém, apesar do saldo satisfatório, ainda está faltando brilho ao Oscar. Conseguiram resolver muitos problemas, é verdade, mas permanecemos sem uma grande cerimônia em termos de entretenimento e novidades desde 2009 – ano em que, curiosamente, também tivemos o melhor host recente: Hugh Jackman.

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MELHOR FILME: Argo
MELHOR DIREÇÃO: Ang Lee (As Aventuras de Pi)
MELHOR ATOR: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
MELHOR ATRIZ: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christoph Waltz (Django Livre)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Anne Hathaway (Os Miseráveis)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Django Livre
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Argo
MELHOR ANIMAÇÃO: Valente
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Amor
MELHOR FOTOGRAFIA: As Aventuras de Pi
MELHOR MONTAGEM: Argo
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Lincoln
MELHOR FIGURINO: Anna Karenina
MELHOR MAQUIAGEM: Os Miseráveis
MELHOR TRILHA SONORA: As Aventuras de Pi
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Skyfall” (007 – Operação Skyfall)
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Os Miseráveis
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall
MELHORES EFEITOS VISUAIS: As Aventuras de Pi
MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM: Searching for Sugar Man
MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM: Inocente
MELHOR CURTA-METRAGEM: Curfew
MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: Paperman

Oscar 2013: apostas

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Chegou a hora! Com ou sem Ben Affleck, milhões de cinéfilos de todo mundo estarão sintonizados, neste domingo (25), no Oscar – premiação que sempre será considerada a maior do cinema. Pode até ser que você não concorde com as escolhas da Academia, que as indicações não sejam de fato qualquer atestado de que um filme é o melhor do ano… Mas o Oscar é a parada final dessa época do ano que movimenta fortunas, atores, diretores, jornalistas, publicitários e afins. Impossível não reconhecer o poder dessa época. É a final do campeonato brasileiro no cinema. O Super Bowl da sétima arte. E a disputa de 2013 é a mais imprevisível em anos. Prêmios importantes como direção, atriz e ator coadjuvante estão completamente abertos. Nem mesmo os roteiros e algumas categorias técnicas chegam com francos favoritos. A cerimônia, transmitida pelo canal TNT a partir das 23h aqui no Brasil, será apresentada por Seth MacFarlane. Abaixo, nossas apostas para a grande noite:

MELHOR FILME

– Quem vence: Argo, pois a  matemática está toda a seu favor.

– Fique de olho em: Lincoln, a única alternativa lógica em termos de buzz.

– Quem merece: Os Miseráveis, porque sou do grupo que ama.

MELHOR DIREÇÃO

– Quem vence: Michael Haneke, uma vitória diferente à la Roman Polanski.

– Fique de olho em: Steven Spielberg, porque é o que mais faz sentido.

– Quem merece: Michael Haneke, pela franqueza sem concessões de Amor.

MELHOR ATRIZ

– Quem vence: Emmanuelle Riva, de aniversário, veterana e com papel infalível.

– Fique de olho em: Jennifer Lawrence, a jovem e eclética estrela que deu certo.

– Quem merece: Quvenzhané Wallis, a que mais surpreende entre as indicadas.

MELHOR ATOR

– Quem vence: Daniel Day-Lewis, imbatível em um papel de estilo imbatível.

– Fique de olho em: Joaquin Phoenix, o azarão que pode roubar a cena.

– Quem merece: Joaquin Phoenix, totalmente possuído em O Mestre.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

– Quem vence: Anne Hathaway, por cinco minutos inesquecíveis.

– Fique de olho em: Amy Adams, porque vai que dessa vez dá…

– Quem merece: Helen Hunt, de uma sutileza absurda em As Sessões.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

– Quem vence: Christoph Waltz, com o BAFTA e o Globo de Ouro na bagagem.

– Fique de olho em: Tommy Lee Jones, apesar do mau humor insuportável.

– Quem merece: Philip Seymour Hoffman, que deveria ser unanimidade.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

– Quem vence: A Hora Mais Escura, pela atualidade e por consolação.

– Fique de olho em: Django Livre, porque é Tarantino.

– Quem merece: Amor, pela força da universalidade.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

– Quem vence: O Lado Bom da Vida, porque não sairá sem nada…

– Fique de olho em: Argo, se estiverem realmente dispostos a corrigir os erros.

– Quem merece: Argo, simples, objetivo e eficiente.

** como não vi alguns indicados das categorias abaixo, seguem apenas as apostas (excetuando curtas e documentário):

MELHOR ANIMAÇÃO: Detona Ralph / alt: Valente

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: No / alt: Amor

MELHOR FOTOGRAFIA: 007 – Operação Skyfall / alt: As Aventuras de Pi

MELHOR MONTAGEM: Argo / alt: A Hora Mais Escura

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Os Miseráveis / alt: Anna Karenina

MELHOR FIGURINO: Anna Karenina / alt: Os Miseráveis

MELHOR MAQUIAGEM: Os Miseráveis / alt: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

MELHOR TRILHA SONORA: As Aventuras de Pi / alt: 007 – Operação Skyfall

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) / alt: “Suddendly” (Os Miseráveis)

MELHOR MIXAGEM DE SOM: Os Miseráveis / alt: As Aventuras de Pi

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: 007 – Operação Skyfall / alt: As Aventuras de Pi

MELHORES EFEITOS VISUAIS: As Aventuras de Pi / alt: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Oscar 2013 – Filme

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Pela primeira vez o esquema com mais de cinco indicados funcionou na categoria principal do Oscar. Mesmo que você não concorde com algumas escolhas dos votantes, há de de se reconhecer: as indicações de todos os filmes são perfeitamente justificáveis. E a seleção conseguiu ser a melhor em anos! É, acima de tudo, uma lista com os mais variados gêneros, que inclui, por exemplo, uma produção francesa e um musical. 2013 também foi o ano dos veteranos: seis dos nove diretores com filmes indicados na categoria principal já têm a estatueta em casa – seja por roteiro ou direção.

O jogo já parece decidido para Argo, mas a dúvida ainda paira: afinal, o Oscar vai com a maré ou assinará embaixo da rejeição de Ben Affleck na categoria de direção para consagrar outro filme – Lincoln, quem sabe, que sempre pareceu a alternativa mais óbvia? Argo já levou todos os prêmios possíveis, mas é bom lembrar de O Segredo de Brokeback Mountain. Só que, ao contrário do ano de Crash – No Limite, agora, em 2013, não nos surpreenderíamos com a derrota do favorito – o que, para todos os efeitos, pode ser um tanto frustrante. O suspense mais interessante está mesmo no resto da cerimônia, repleta de categorias indefinidas.

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AMOR (Amour, de Michael Haneke): Foi uma grande satisfação ver que, ao contrário de prêmios como o Globo de Ouro e SAG, o Oscar deu a devida atenção para esse filme pesado e sem concessões, que faz um dos retratos mais realistas sobre o envelhecimento. Apesar do título, Amor não é meloso ou muito menos apelativo quanto ao sentimento – o que pode surpreender certos públicos. Com ótimos desempenhos de dois veteranos do cinema francês, o longa é um dos mais marcantes da carreira de Michael Haneke e não seria surpresa vê-lo faturando importantes categorias como direção e atriz.

ARGO (idem, de Ben Affleck): É a sensação da temporada – e não é muito difícil entender o porquê: extremamente acessível, o novo filme de Ben Affleck dialoga com todos os públicos. Porém, esse perfil mais aberto não reduz o filme à previsibilidade: Argo tem uma história consistente, um clima de suspense eficiente e um roteiro muito bem resolvido. De vez em quando, quase apela para deixar o espectador nervoso, mas nada que altere o excelente resultado. Tem tudo para ser o vencedor da categoria principal e faturar outras como roteiro adaptado e montagem.

AS AVENTURAS DE PI (Life of Pi, de Ang Lee): Não tenho tanto apreço por esse novo filme de Ang Lee, que já está destinado a faturar várias categorias técnicas (trilha sonora, fotografia, efeitos visuais). Estranhamente, não é muito considerado para as categorias principais (mas lembrem-se que Lee foi o único diretor indicado a todos os prêmios da temporada). O reconhecimento técnico já está de bom tamanho para o longa, que tem um final interessante e até mesmo emotivo, mas cujo desenvolvimento não foge de vários esquemas presentes em histórias de sobrevivência.

DJANGO LIVRE (Django Unchained, de Quentin Tarantino): Não foi unanimidade, mas é um legítimo Tarantino, cheio de excelentes sacadas, personagens marcantes, violência e diálogos inteligentes. Merecia mais reconhecimento. Peca, como a maioria dos longas indicados, pelo excesso (a duração é um empecilho), mas Tarantino está sempre ali sendo diferente e ousado. Pela matemática, deve dar um segundo Oscar para Christoph Waltz (que já venceu o Globo de Ouro e o BAFTA) e, talvez, uma nova vitória para Tarantino em roteiro original.

A HORA MAIS ESCURA (Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow): Ganhou várias associações de críticos, mas não fez uma grande carreira no Oscar e em outros prêmios. É um filme que traz Kathryn Bigelow ainda mais segura atrás das câmeras, mas que, tematicamente, não chega a trazer grandes novidades desde Guerra ao Terror. É o estilo da diretora, claro, mas A Hora Mais Escura não escapa da sensação de repetição. Suas maiores chances de não sair da festa de mãos abanando estão com o roteiro original de Mark Boal e, em menor grau, com a protagonista Jessica Chastain.

INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin): Estrelinha na testa desse filme por ser o único com menos de duas horas de duração entre os indicados. Representante mais significativo do cinema independente na cerimônia de 2013, conseguiu importantes – e inesperadas – indicações, como a de Benh Zeitlin em direção. Indomável Sonhadora impressiona mais pela força da pequena Quvenzhané Wallis como protagonista do que pelo filme em si – o que pode resultar em uma provável surpresa na categoria de melhor atriz.

O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook, de David O. Russell): Impossível não associar o exacerbado entusiasmo por O Lado Bom da Vida com a influência de Harvey Weinstein. Complicado achar outra explicação para a paixão pelo filme de David O. Russell, que merecia, no máximo, ter indicações para Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Todas as outras lembranças são puro exagero: nada do que é apresentado nessa adaptação chega a ter o mesmo frescor ou originalidade de tantas outras excelentes comédias independentes que chegaram ao Oscar.

LINCOLN (idem, de Steven Spielberg): Líder de indicações, tem tudo para ser um Gangues de Nova York e quebrar a cara na cerimônia de premiação. Não dá para calcular mais que três estatuetas para o filme (de doze indicações), sendo uma a mais que previsível para Daniel Day-Lewis. Só que vale ficar de olho: Lincoln, mesmo convencional, pode ser a oportunidade da Academia sair à francesa da delicada questão envolvendo Argo. Consagrando o filme de Steven Spielberg, os votantes amorteceriam a polêmica, já que Lincoln foi, desde o anúncio das indicações, o longa que mais pareceu destinado a vencer o Oscar.

OS MISERÁVEIS (Les Misérables, de Tom Hooper): Seria um verdadeiro escândalo se Os Miseráveis fosse eleito melhor filme. Já virou obrigação falar mal de Tom Hooper e o longa não faz questão de agradar a todos (é, literalmente, ame ou odeie). Seria uma escolha polêmica, mas a vitória é mais do que improvável. Outro filme que começou a temporada de premiações com bastante força e que foi perdendo o brilho, até ser considerado, agora, um azarão. Merecia mais reconhecimento (afinal, sou do grupo que aprovou o resultado), mas seu esquecimento não dá para ser questionado devido à grande rejeição.

 OS ESQUECIDOS

No meu mundo justo – e bastante imaginativo para os padrões do Oscar – a categoria de melhor filme, com dez indicados, seria a seguinte:

007 – Operação Skyfall
Amor
Argo
Django Livre
Ferrugem e Osso
Holy Motors
O Mestre
Os Miseráveis
Moonrise Kingdom
No