Cinema e Argumento

Os indicados ao Emmy 2016

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Por falta de tempo, tenho visto menos séries do que gostaria. Aliado a isso, a infinita quantidade de programas me angustia: na ânsia de encontrar algo que realmente me interesse, acabo vendo quase nada. Por isso, pela primeira vez em anos me senti um pouco perdido com a lista dos indicados ao Emmy divulgada hoje. Só que, claro, não deixo de dar os meus pitacos. Antes de listá-los, meu maior luto com a seleção: é um absurdo The Leftovers não ter recebido uma indicação sequer por sua magistral segunda temporada. Uma aula de direção, roteiro e atuação, o programa merecia ter replicado aqui o seu sucesso no Critics’ Choice Awards, onde teve todo o seu elenco indicado em categorias individuais de atuação. E isso acontecer em tempos que Downton Abbey – que, desde a terceira temporada, está no piloto automático – segue sendo lembrada na categoria principal é realmente para sentar e chorar. Vamos a outras observações sobre a lista do prêmio, cuja cerimônia está marcada para 18 de setembro:

– Quando o Emmy resolve se apaixonar por uma série, mesmo que tardiamente, é bom sair da frente. Não vejo Game of Thrones, mas até fãs de carteirinha da série reconhecem o exagero de indicações. Dizem por aí que Peter Dinklage mal tem influência nessa última temporada e que Kit Harrington, apesar da popularidade, não é alguém que seja sinônimo de excelência em atuação a ponto de ser lembrado. Entre as comédias, o (merecido) reinado absoluto de Veep só se expandiu (nada menos que três indicações na categoria de direção!). Já no círculo das minisséries, o amor infinito foi para The People v. O. J. Simpson: American Crime Story. Justo? Me contem, pois também não assisto.

– A rainha do Emmy tem nome e sobrenome: Laurie Metcalf, com indicação tripla (atriz em comédia por Getting On, atriz convidada em drama por Horace and Pete e atriz convidada em comédia por The Big Bang Theory). Fico particularmente feliz pela primeira nomeação, pois sou fã da recentemente encerrada Getting On e, no seriado que quase ninguém vê, Metcalf é maravilhosa ao encarnar uma personagem que pode sim ser detestável, mas que, na verdade, só representa o que existe de secretamente pior em todos nós.

– Regina King deve novamente (e dessa vez merecidamente) levar o prêmio de atriz coadjuvante em minissérie pela surpreendente segunda temporada de American Crime, mas fiquei feliz mesmo pela lembrança de Lili Taylor, que tem o papel de uma carreira nesse drama pesado, delicado e complexo.

– Christine Baranski passou seis anos consecutivos sendo indicada e perdendo como melhor atriz coadjuvante por The Good Wife, e seu fim na premiação foi amargo: pela última temporada do programa, a atriz sequer foi indicada. Não é mesmo o seu melhor momento na série, mas havia material para chegar entre as finalistas (o último episódio). Pelo menos lembraram, com justiça, de Maura Tierney pelo segundo ano de The Affair.

– Que mau gosto essa indicação de A Very Murray Christmas na categoria de melhor telefilme. Aquilo é um horror! Porém, no geral, a categoria é fraca e sem concorrência, até mesmo com All the Way na disputa: o telefilme estrelado por Bryan Cranston e dirigido por Jay Roach é menos interessante do que parece.

– O que foi essa total mudança de sentimento por Orange is the New Black? Para um programa em franca ascensão no prêmio, o esquecimento até da então vitoriosa Uzo Aduba em atriz coadjuvante foi o maior choque da lista. Por outro lado, no sentido positivo, foram muitas as vibrações para The Americans, que finalmente foi indicada em importantes categorias principais, incluindo melhor série.

– A segunda temporada de Transparent é impecável e deveria, entre as comédias, ter o mesmo reconhecimento de Veep. O fato do programa não ter sido indicado a direção e receber uma única indicação em roteiro só comprova o quanto histórias menores e mais íntimas não têm o mesmo poder de convencimento entre os votantes. E eu ainda indicaria mais atores do elenco, começando por Kathryn Hahn, ótima como a rabina em plena crise matrimonial.

– No mais, o Emmy não se desapega fácil e, ao invés de substituições, prefere ampliar número de indicados para não abandonar séries que hoje quase ninguém mais vê, como Homeland, ainda lembrada em melhor drama, ou outras que há muito já deixaram de trazer novidades, a exemplo da própria Downton Abbey. Palpitando sobre os futuros vencedores, não há quem pare o furacão Game of Thrones. O hype é grande demais, superando até mesmo o tardio reconhecimento estrondoso de Breaking Bad anos atrás. Para as comédias, o voto também é certo: Veep, que só passou a ser consagrada com maior amplitude no ano passado. Mais um ano sem muitas novidades à vista para a cerimônia.

A lista completa de indicados está no site oficial do Emmy.

Oscar 2016: apostas

oscarapostas16Chegamos à noite do Oscar 2016 com uma cerimônia que promete ser a mais imprevisível em anos – e realmente isso não é coisa de manchetes corriqueiras que lemos ano a ano. O responsável pelo mistério tem nome: Alejandro González Iñárritu, que, este ano, voltou vencendo todos os prêmios que perdeu ano passado para Boyhood: Da Infância à Juventude. Mas e o Oscar? Iñárritu fará história e repetirá os prêmios que ganhou ano passado por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)? Ou A Grande Aposta surpreenderá? Spotlight ainda está vivo na disputa? Todas as perguntas serão respondidas hoje, a partir das 22h30, quando começam a ser anunciados os vencedores. A cerimônia será transmitida no Brasil pelo canal TNT a partir das 22h30. Sem mais delongas, vamos aos nossos palpites, excetuando as categorias de curtas-metragens!

MELHOR FILME
Quem leva: O Regresso, porque não discuto mais com matemática
Quem merece: Mad Max: Estrada da Fúria, o único indicado que revoluciona
Fique de olho em: A Grande Aposta, já que é sempre bom considerar o Sindicato dos Produtores
Nunca venceria: Perdido em Marte

MELHOR DIREÇÃO
Quem leva: Alejandro González Iñárritu (O Regresso) pode até não levar filme, mas essa é praticamente barbada
Quem merece: George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria), indiscutivelmente
Fique de olho em: George Miller, que faz coisas sobrenaturais em Mad Max
Nunca venceria: Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack), que chegou de última hora sem o aval de outros prêmios

MELHOR ATRIZ
Quem leva: Brie Larson (O Quarto de Jack), sem hesitar
Quem merece: Charlotte Rampling (45 Anos), que deixa suas concorrentes comendo poeira
Fique de olho em: não tem jeito, é da Brie Larson
Nunca venceria: dizem que Rampling pelas bobagens que falou sobre racismo invertido, mas, se Jennifer Lawrence vencesse de novo, o mundo desabava

MELHOR ATOR
Quem leva: Leonardo DiCaprio (O Regresso), o prêmio mais certo da noite
Quem merece: Michael Fassbender (Steve Jobs)
Fique de olho em: e quem vai ter coragem de tirar o prêmio do DiCaprio?
Nunca venceria: qualquer um dos outros

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Quem leva: Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa), e prometo que vou me isentar de comentar sobre a fraude
Quem merece: Rooney Mara (Carol)
Fique de olho em: Kate Winslet (Steve Jobs), que, na realidade, está quase empatada com Vikander
Nunca venceria: Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados), que não deveria nem estar indicada

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Quem leva: Sylvester Stallone (Creed: Nascido Para Lutar)
Quem merece: a categoria não me empolga, mas acho que iria de Tom Hardy (O Regresso)
Fique de olho em: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
Nunca venceria: Tom Hardy, que não foi lembrado em qualquer outra premiação

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados / alt: Straight Outta Compton
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta / alt: Carol
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR FIGURINO: A Garota Dinamarquesa / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MIXAGEM DE SOM: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria

MELHOR EDIÇÃO DE SOM: O Regresso / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR MONTAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: A Grande Aposta
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: O Regresso
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Til it Happens to You” (The Hunting Ground) / alt: “Simple Song #3” (Juventude)
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados / alt: Star Wars – O Despertar da Força
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Star Wars – O Despertar da Força / alt: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy / alt: Cartel Land
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: O Filho de Saul (Hungria) / alt: Cinco Graças (França)
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente / alt: O Menino e o Mundo
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria / alt: Ponte dos Espiões

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 2

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MELHOR ATOR

O sofrimento como excelência

Nunca entendi muito bem as brincadeiras em torno do Oscar que nunca chega para Leonardo DiCaprio. Basta olhar ligeiramente o histórico do ator na premiação para perceber que ele nunca foi franco favorito ou merecedor da estatueta (com O Aviador ele não tinha como rivalizar com o Ray Charles de Jamie Foxx e em O Lobo de Wall Street ele nunca bateria a transformação física de Matthew McCounaghey em Clube de Compras Dallas, citando suas performances mais lembradas). De qualquer forma, não deixa de ser desestimulante a ideia de vê-lo ganhando por um de seus papeis menos emblemáticos. Ele literalmente quase morre em O Regresso para ganhar um Oscar, mas o que impede DiCaprio de estar superlativo aqui é o papel quase desprovido de arco dramático e que leva as premiações a acreditarem que sofrimento é sinônimo de excelência. Em contramão, a fórmula é perfeita para que seu favoritismo seja absoluto: um bom histórico no prêmio, um papel de empenho físico e o protagonismo do filme com mais indicações este ano. Ainda assim, é tarefa árdua ter qualquer empolgação com a sua futura consagração, inclusive porque, pelo segundo ano consecutivo, teremos mais uma láurea preguiçosa para alguém que merecia mais do que isso (contextualizando: sigo inconformado com todos os prêmios para Julianne Moore por Para Sempre Alice).

É pela celebração de um papel errado e por não compreender muito bem essa obsessão injustificada de entregar logo o prêmio ao ator que de certa forma me indigno com a ideia de que esta categoria esteja tão decidida. Concorrentes não faltam e dois deles são muitíssimo dignos. Primeiro tem o visceral Michael Fassbender desaparecendo por completo no protagonista-título do subestimado Steve Jobs. Ele é ótimo em todas as fases desenhadas pelo filme, e os saltos temporais não representam qualquer problema para o ator em termos de reprodução física ou construção dramática. E segundo – e sei que dividirei opiniões – continuo achando Eddie Redmayne digno de aplausos agora com A Garota Dinamarquesa. Sinceramente, não vejo a caricatura que muitos apontam, e considero tocante e envolvente a sua composição para a primeira pessoa que se submeteu à cirurgia de troca de sexo. O mistério dessa categoria é a lembrança de Matt Damon por Perdido em Marte (aliás, a indicação a melhor filme também é questionável), principalmente porque o ignorado Jacob Tremblay é soberbo em O Quarto de jack e porque não seria ruim ver Samuel L. Jackson, por exemplo, lembrado por seu ótimo desempenho em Os Oito Odiados (viu só como basta deixar a preguiça de lado para encontrar atuações de atores negros dignas de indicação, Academia?).

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MELHOR ATOR COADJUVANTE

O carinho como alternativa

Sylvester Stallone deu muita, mas muita sorte este ano. Comemorando 40 anos de Rocky, o ator volta ao seu papel mais emblemático dessa vez como coadjuvante em Creed: Nascido Para Lutar. Desgosto profundamente do filme, que é um amontoado de clichês e reciclagens da clássica história envolvendo um lutador destemido e um treinador veterano (procurem Guerreiro, de 2011, e vejam o que, apesar de novelesco, consegue ser um filmaço cheio de emoção e adrenalina no gênero), e a presença de Stallone só tem algum impacto mesmo em função desse seu retorno ao papel de Rocky Balboa. Não é culpa necessariamente dele, e sim do roteiro de Aaron Covington e Ryan Coogler, que abusa demais dessa metáfora entre ator e personagem sobre como o tempo passa e derrota, mas mesmo assim não derruba uma história de glória. E que preguiça só de lembrar que tem doença no meio…

Mesmo solenemente ignorado pelo Screen Actors Guild Awards e pelo BAFTA, que premiaram Idris Elba (Beasts of No Nation) e Mark Rylance (Ponte dos Espiões), respectivamente, Stallone chega como favorito ao Oscar 2016 de ator coadjuvante justamente em função dessa lembrança de carinho que cultivou na indústria – e basta rever sua vitória no Globo de Ouro para reforçar a teoria da comoção. A categoria é a mais fraca entre as listagens de atuação, e é por isso que nem dá para reclamar tanto da vitória do ator. Vamos aos fatos: Mark Rylance adota a fórmula de menos é mais (algo raríssimo de ser valorizado pela Academia), Mark Ruffalo tem seu show em uma cena particular de Spotlight, mas esse é um filme de grupo, Christian Bale misteriosamente roubou uma vaga que era para ser de Steve Carell por A Grande Aposta e Tom Hardy, mesmo sendo ótimo em O Regresso, só foi lembrado pelo Oscar, algo que matematicamente desqualifica qualquer possibilidade de vitória. Ou seja, o Oscar não deve nada a ninguém e a seleção não traz nenhum grande desempenho. A saída é ir pelo coração, e nisso há certa razão: o desempenho de Stallone é o único da lista que segue mais a emoção do que a técnica.

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CATEGORIAS TÉCNICAS

O peso do nome e do espetáculo

O BAFTA já deu a dica e é bom ficar de olho: não será surpresa alguma ver Mad Max: Estrada da Fúria levando menos prêmios do que o esperado. Afinal, O Regresso vem crescendo tanto nos últimos tempos que já consolidou sua consagração na categoria de melhor fotografia (o histórico terceiro Oscar consecutivo para Emmanuel Lubezki!) e invadiu outras que pareciam certas para o filme de George Miller, como edição e mixagem de som. O que se percebe, no entanto, é a predileção do Oscar por grandes espetáculos nesta seleção de 2016. Tanto O Regresso quanto Mad Max são filmes indiscutivelmente grandiosos (e com o bônus de serem, cada um a sua forma, revolucionários ou marcantes em muitos aspectos), o que não abre qualquer espaço para que outras obras calcadas na sutileza triunfem aqui ou ali: Carol, por exemplo, deveria ser aposta fácil em melhor figurino, enquanto o mestre Roger Deakins merecia ser finalmente premiado por seu pequeno grande trabalho como diretor de fotografia no quase independente Sicario: Terra de Ninguém.

Em 2016, os votantes da Academia também parecem muito propensos a não discutir com grandes nomes do cinema e da música. Um exemplo disso é a categoria de melhor trilha sonora, que é uma das barbadas da noite com a provável vitória do mestre Ennio Morricone depois de cinco indicações sem vitórias. Seu talento é incontestável, claro, mas, no caso específico de Os Oito Odiados, a vitória vem apenas como compensação. Na lista, Carol novamente se sobressai com uma trilha muito mais narrativa e que expressa, de forma sutil e elegante, a viagem emocional das protagonistas. Já no caso de Morricone, o tema criado por ele é ótimo, mas, ao longo do filme, a trilha se revela como um dos elementos menos marcantes. Entre as canções originais, o Oscar ficou de mãos dadas com o Globo de Ouro e resolveu celebrar tudo o que é estrela do momento: Sam Smith, The Weeknd e Lady Gaga. A última é a favorita para ganhar a estatueta, e me abstenho de comentar porque não vi o filme, mas, no caso de Sam Smith e The Weeknd, as lembranças são absurdas, pois as duas músicas não tem qualquer função no filme e surgem completamente avulsas nos respectivos contextos. Música em cinema precisa conversar com a obra em questão, o que é feito com perfeição pela ópera “Simple Song #3”, do belíssimo Juventude, outra indicação menor que corre totalmente por fora.

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 1

inarrituoscar16Não existe diretor mais poderoso atualmente do que Alejandro González Iñárritu. Prestes a entrar também no mundo da TV (ele atua em todas as frentes de The One Percent, drama estrelado por Hilary Swank e Ed Harris), o mexicano desbancou o favoritíssimo Boyhood no Oscar 2015 levando as estatuetas de filme, direção e roteiro para casa com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Agora, em 2016, ele tem tudo para fazer história como o primeiro diretor em 88 anos de Oscar a vencer consecutivamente as categorias de melhor filme e direção com O Regresso. Mas, afinal, de onde vem esse poder? Ora, em qualquer tempo ou espaço, um filme como O Regresso seria amplamente celebrado: a produção em grande escala é invejável, a ambição técnica dispensa comentários e toda a logística das filmagens é puro chamarisco que carrega a ideia de que excelência cinematográfica está diretamente associada a sofrimento nos bastidores. Não tenha dúvidas: filmes que rendem matérias como “rodado todo com luz natural” e “Leonardo DiCaprio comeu carne mesmo sendo vegetariano” são certeiros para fisgar mídia, público e votantes. Boyhood, de certa forma, bebeu dessa mesma fonte ano passado ao ganhar praticamente todas as premiações televisionadas com sua manchete de produção gravada ao longo de 12 anos. No entanto, o filme de Richard Linklater mas não foi páreo para os longos planos-sequências de Birdman no Oscar. Afinal, independente da fórmula, os votantes da Academia não são afeitos a dramas naturalistas.

Já que Boyhood papou quase todas as listas anteriores ao Oscar no ano passado e que Iñárritu está de volta em 2016 com um filme certeiro para consagrações, prêmios como Globo de Ouro e BAFTA resolveram não ficar atrás e compensaram a esnobada passada no mexicano. Vejam que poder: Iñárritu ganha o Oscar e ainda retorna para conquistar todas as estatuetas que não venceu por Birdman! Nessa “reparação” dos prêmios, obviamente se criou o buzz de que o diretor tem tudo para fazer dobradinha esse ano. E será mesmo que a previsão vinga? O que parece mais provável até aqui é o Oscar confirmar a lógica que se instalou em basicamente todos os anos na era pós-Crash: deixar as surpresas de lado para evitar polêmicas, baixar a cabeça, seguir a matemática e concordar com todo mundo. Mas não custa sonhar que a Academia seja milagrosamente autêntica e prove que não deve nada ao diretor, abrindo espaço para filmes como A Grande Aposta (vencedor do Producers Guild Awards) e, em um grau bem menor, Spotlight – Segredos Revelados (que tem na bagagem o Critics’ Choice Awards e o Screen Actors Guild Awards). Agora, por que não Mad Max: Estrada da Fúria, que vem com 10 indicações, carrega uma unanimidade incomparável e tem uma escala de produção tão digna quanto a de O Regresso? Muito simples: Mad Max é ficção, filme de “entretenimento”, e isso não é levado a sério na hora do voto. No entanto, se o Oscar quisesse fazer a sua melhor manobra em décadas, o longa de George Miller seria a escolha perfeita para trazer de volta ao prêmio um amor de público e crítica que há tempos lhe está muito, mas muito distante.

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MELHOR ATRIZ

O reinado absoluto de Charlotte Rampling

Vamos ser francos: Charlotte Rampling disse bobagem – e não foi só ela. Com a história de que os brancos estavam sofrendo “racismo inverso”, a veterana britânica afundou as poucas chances que já tinha na categoria de melhor atriz com seu desempenho em 45 Anos. Ela tentou ser esperta e corrigir o que disse, mas já era tarde demais. O que só realmente não vale é diminuir seu magnífico desempenho no filme de Andrew Haigh em função dessa declaração estapafúrdia (sempre gosto de acreditar que a humanidade sabe separar o que está dentro ou fora das telas). Sabe-se lá como apenas o Oscar, em um surto repentino de inteligência, lembrou de sua atuação, que é, disparada, a melhor entre as indicadas. Protagonista absoluta de 45 Anos, Rampling tem a difícil missão de externalizar apenas em olhares os sentimentos sufocados de uma mulher assombrada pelo passado e em pleno sofrimento interno.

A concorrência de Rampling é relativamente boa, já que Saoirse Ronan brilha do início ao fim em Brooklin e Cate Blanchett é novamente deslumbrante e cheia de nuances em Carol. As três são superiores à favorita Brie Larson, que, em O Quarto de Jack, tem seu show quase ofuscado pelo brilhante Jacob Tremblay, que sequer está indicado a qualquer coisa – e talvez seja por isso que considero o futuro Oscar de Brie questionável: todo o filme se sustenta, em emoção e narrativa, na figura do garotinho. A pisada na bola dessa seleção é mesmo a injustificável indicação de Jennifer Lawrence, uma vez que nem as premiações compraram direito o mediano Joy: O Nome do Sucesso. Volto a dizer que a garota é boa, mas, no novo filme de David O. Russell, não existe nada que ela já não tenha nos mostrado antes. É preciso parar com essa superexposição da moça, afinal, existia uma Charlize Theron emblemática na fila para conquistar uma lembrança por Mad Max: Estrada da Fúria.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Os extremos das fraudes

Tudo bem que a temporada de premiações não passa de uma corrida movida a ego na indústria e que os estúdios praticamente se digladiam para conquistar qualquer estatueta no Oscar, mas esse ano abusaram do nosso bom senso. Pior ainda: chega a ser desestimulante ver que tanta gente embarca em qualquer fraude vendida por aí. Não há o que ser contestado: Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) simplesmente não são coadjuvantes em seus respectivos filmes – e talvez tenham até mais tempo em cena do que seus colegas indicados a protagonistas. Por isso, em uma análise qualitativa da categoria, a balança fica distorcida, pois é de uma injustiça absurda comparar verdadeiras coadjuvantes a protagonistas que têm muito mais tempo e chances em cena para brilhar. Não só Vikander e Mara foram indicadas como a primeira está na dianteira para levar o prêmio.

Se é para consideramos as fraudes, Rooney deveria ser a unanimidade. Vikander é excelente em A Garota Dinamarquesa, mas o trabalho de Mara é muito mais complicado e menos novelesco. Como Therese Belivet, uma jovem que abre os olhos para o mundo ao se apaixonar por uma mulher madura, ela capta com grande excelência a transição de uma menina apaixonada para uma mulher consciente de todos os seus atos e sentimentos. Já entre as verdadeiras coadjuvantes, Jennifer Jason Leigh tem o papel mais marcante com Os Oito Odiados, enquanto Kate Winslet, que vem coladinha em Vikander na disputa pelo prêmio, dá a volta por cima na sua carreira inexpressiva dos últimos anos com um ótimo desempenho em Steve Jobs. O que não dá para entender na seleção é o nome de Rachel McAdams entre as indicadas, afinal, nem se quisesse ela teria material para brilhar em Spotlight. Querer a lembrança de Kristen Stewart (Acima das Nuvens) seria ter fé demais no bom gosto dos votantes, mas não é difícil pensar em outras prováveis candidatas melhores do que a eterna Regina George de Meninas Malvadas

Ator certo, Oscar errado – parte 2

Esta é a segunda parte do nosso especial sobre atores certos que ganharam Oscar pelo papel errado. Cabe reforçar e esclarecer aqui a proposta do post. Não estamos falando da probabilidade de outra pessoa ter vencido em determinado ano, questionando a qualidade do desempenho vencedor ou muito menos nos atendo apenas aos desempenhos indicados ao Oscar de determinado ator para julgar um prêmio equivocado. A lógica é simples: tudo parte do nosso gosto pessoal, da nossa escala de preferência em uma categoria e do quanto achamos que o Oscar em questão realmente simboliza algo para a carreira de um ator. Portanto, nessa seleção em particular, você pode dizer que o Oscar de George Clooney era inevitável (era mesmo, sem dúvida) ou que Morgan Freeman é ótimo ator e está bem em Menina de Ouro (as duas afirmações estão corretas), mas isso não quer dizer que, na nossa avaliação, ambos eram realmente merecedores de festa por esses papeis, seja qual for a “desculpa”. O que conta única e exclusivamente para o Cinema e Argumento nessa série de posts é a excelência dos desempenhos no ano em questão.

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clooneyoscarGeorge Clooney (Syriana – A Indústria do Petróleo, 2006): Como não premiar um astro que começava a dar rumos completamente diferentes para sua carreira? O problema é que, em 2006, George Clooney merecia um Oscar não por sua atuação no complicadíssimo Syriana – A Indústria do Petróleo, e sim pelo auge de sua sofisticação como diretor em Boa Noite, e Boa Sorte. No entanto, ele não tinha chances contra Ang Lee por O Segredo de Brokeback Mountain, e acabou levando a estatueta, como compensação, pelo filme de Stephen Gaghan. A pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição: além do tempo ter mostrado que, de fato, Syriana não é nem de longe um dos momentos mais memoráveis do ator, Clooney teve chances muito mais dignas ao longo dos próximos anos. Mesmo que tenha vencido o prêmio como produtor por Argo, o galã poderia ter facilmente levado para casa uma estatueta de melhor ator por seu trabalho em Os Descendentes (Jean DuJardin só ganhou por O Artista justamente em função de Clooney já ter sido consagrado como intérprete) ou até mesmo como roteirista pelo inteligente Tudo Pelo Poder. Roubou o Oscar de: Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança), considerando que Jake Gyllenhaal não é coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

judidenchoscarJudi Dench (Shakespeare Apaixonado, 1999): Sou defensor de praticamente todo e qualquer prêmio para Judi Dench, mas não dos que recebeu por Shakespeare Apaixonado. Embalada pelo sucesso do filme, a veterana recebeu a estatueta em mais um daqueles momentos em que o Oscar resolve consagrar, com atraso, uma grande atriz, custe o que custar. Não é exatamente um problema ela ser coroada por um desempenho de oito minutos em um filme de 123 (Viola Davis tem mais ou menos isso em Dúvida e me assombra até hoje), só que sua aparição em Shakespeare Apaixonado parece mais uma curiosidade do que algo fundamental para a construção da história. A própria atriz brincou, ao receber o Oscar, que merecia apenas um pedacinho da estatueta – e com toda razão. Entre tantos papeis diferenciados e dignos do prêmio, merecia ter na estante uma estatueta por um momento mais marcante, seja como a complexa professora de história Barbara Covett de Notas Sobre Um Escândalo (era minha favorita em um ano fortíssimo para as atrizes) ou pela transgressora Laura Henderson, a protagonista de Senhora Henderson Apresenta, que, nos anos 1930, choca toda Londres ao abrir um teatro com espetáculos de nudez (se fosse para perder, que pelo menos Felicity Huffman tivesse a honra de ser derrotada por um ícone como Judi Dench e não por Reese Witherspoon). Roubou o Oscar de: Rachel Griffiths (Hilary & Jackie), a única candidata que conferi e que, mesmo assim, já merecia mais a lembrança.

freemanoscarMorgan Freeman (Menina de Ouro, 2005): Talvez não seja o caso de colocá-lo em uma lista de grandes injustiças do Oscar, mas aí quando você pensa em papeis marcantes de Morgan Freeman, certamente não é Menina de Ouro que a memória puxa. Muito antes, tem Conduzindo Miss DaisyUm Sonho de LiberdadeSeven: Os Sete Crimes Capitais, só para começo de conversa. Nem no próprio Menina de Ouro o ator é um dos aspectos que reverberam até hoje: o que fica mesmo com o espectador é a direção minuciosa de Clint Eastwood, a força emocional do trágico drama da protagonista e o desempenho excepcional de Hilary Swank. Novamente, lá atrás, vem a lembrança de Morgan Freeman. Por mais que a matemática apontasse uma vitória de Clive Owen por Closer – Perto Demais (ele levou o Globo de Ouro e o BAFTA por sua performance), a aposta em Freeman era uma das mais fáceis daquele ano, já que era uma nova oportunidade dos votantes finalmente darem atenção a um veterano há muito tempo querido pelo público e também pelo próprio Oscar (ele estava na quinta indicação). O ator faz muito bem o feijão com arroz em Menina de Ouro e não é possível dizer que sua performance é sem inspiração (especialmente em um ano não tão forte para a categoria), mas, verdade seja dita, em um filme de emoções complicadíssimas para qualquer um dos intérpretes, seu personagem basicamente não demanda maiores complexidades. Roubou o Oscar de: Clive Owen, que tem a árdua missão de encarnar o personagem mais antipático de Closer.

bridgesoscarJeff Bridges (Coração Louco, 2010): Pouco conheço a carreira de Jeff Bridges (tanto que não conferi nenhuma de suas outras indicações ao Oscar), mas reservo esse espaço para falar de um crime inafiançável que me bate de forma muito particular. Não é difícil constatar que Jeff Bridges ganhou o Oscar por ser um veterano que veio com o papel certo no momento certo para agradar os votantes, mas tanto o papel quanto o momento são altamente discutíveis. Primeiro porque não há novidade alguma no cantor decadente e alcoolista que resolve retomar as rédeas de sua vida, e segundo porque, independente do que a Academia supostamente devia a Jeff Bridges, não existia atuação mais indefectível naquele ano do que a de Colin Firth em Direito de Amar. Dilacerante, o filme representa até hoje o auge da maturidade de Firth como ator, que mergulha com perfeição na generosidade e na camuflada dor de um homem que raramente se mostra de verdade, seja pela sua própria sexualidade em uma época preconceituosa ou pela dor que julga ter que superar em silêncio. Não há correção de injustiça com qualquer ator que justifique a derrota do britânico, simples assim – e, por isso, nem preciso dizer de quem Jeff Bridges roubou o Oscar, certo?