Cinema e Argumento

44º Festival de Cinema de Gramado #1: os curtas-metragens brasileiros em competição

ComissaoCMBrasil_Credito Edison Vara_Pressphoto

Evento serrano, que realiza sua 44ª edição de 26 de agosto a 03 de setembro, seleciona 14 títulos para a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Janela fundamental para a celebração de novos talentos e para o reconhecimento do exercício estético e narrativo de cineastas experientes, a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros tem espaço nobre no Festival de Cinema de Gramado com sessões noturnas no Palácio dos Festivais e premiação em dinheiro para todas as suas categorias. Para este ano, 574 produções de diversos pontos do Brasil se inscreveram para tentar uma vaga na disputa pelo tão sonhado Kikito.

A avaliação dos curtas foi feita por uma comissão formada por seis profissionais: Alexandre Cunha (gerente de programação e aquisição do Canal Brasil), Fatimarlei Lunardelli (jornalista e professora), Flávia Guerra (jornalista e documentarista), Ivonete Pinto (jornalista e professora), Jeferson De (cineasta) e Marcos Verza (ator). Ao todo, são 14 filmes em competição na mostra de curtas brasileiros, onde São Paulo lidera a lista com cinco títulos. Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro também marcam presença na seleção. 

Confira os curtas-metragens brasileiros em competição:

A Página (SP), de Guilherme Andrade
Aqueles Cinco Segundos (MG), de Felipe Saleme
Black Out (PE), de Adalmir da Silva, Felipe Peres Calheiros, Francisco Mendes, Jocicleide Valdeci de Oliveira, Jocilene Valdeci de Oliveira, Martinho Mendes, Paulo Sano e Sérgio Santos
Crônicas do Meu Silêncio (SP), de Beatriz Pessoa
Deusa (SP), de Bruno Callegari
Horas (RS), de Boca Migotto
Ingrid (MG), de Maick Hannder
Lúcida (SP), de Fabio Rodrigo
Memória da Pedra (BA), de Luciana Lemos
O Ex-Mágico (PE), de Mauricio Nunes e Olimpio Costa
O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico (RJ), de Gugu Seppi e Allan Souza Lima
Rosinha (DF), de Gui Campos
Sesmaria (RS), de Gabriela Richter Lamas
Super Oldboy (SP), de Eliane Coster

O Brasil desacomodado em Cannes

Aquarius Cannes

Hoje acordei pensando no Festival de Cannes porque a programação do evento prometia. Primeiro pela a exibição de Julieta, filme cujas expectativas ficavam em torno do retorno de Pedro Almodóvar ao universo feminino depois de A Pele Que Habito e Os Amantes Passageiros, obras claramente distantes dessa temática. Almodóvar, no entanto, fez questão de avisar: Julieta, baseado no livro “Runaway”, da canadense vencedora do Nobel de literatura Alice Munro, não é um “almodrama”. Pena. E, apesar da aprovação, a crítica não se entusiasmou muito com o longa, chegando a considerá-lo, inclusive, um dos mais convencionais já feitos pelo diretor.

Depois desse certo banho de água fria, veio a recompensa, já que a segunda expectativa para o dia de hoje em Cannes era a primeira projeção de Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho. Ativamente político nas redes sociais, o crítico de cinema agora aposentado da profissão chegou ao evento para exibir seu segundo longa-metragem. A ansiedade é livre: além de ter uma bela carreira como curta-metragista, Kleber fez sucesso mundial com O Som ao Redor, longa que chegou a ser elencado pelo New York Times em 2012 como um dos melhores do ano e que abriu precedentes para uma série de outros trabalhos que buscam fazer uma radiografia do Brasil contemporâneo em suas particularidades sócio-políticas, como Casa Grande e o mais recente Que Horas Ela Volta?.

O pernambucano chegou fazendo bonito: no Tapete Vermelho, junto com sua equipe, empunhou pequenos cartazes denunciando o que é acertadamente defendido por uma expressiva parcela da população como um golpe político no presidencialismo brasileiro. “Misóginos, racistas e impostores como ministros”, “O mundo não pode aceitar um governo ilegítimo”, entre outros dizeres, colocaram mais uma vez a conturbada e equivocada situação política do Brasil na imprensa internacional . Bravo. É papel da arte se posicionar em tempos que ministérios como o da Cultura são extintos no Brasil. Afinal, como já dizia Glauber Rocha, sem liberdade e democracia, não existe cinema. Desde já, uma das imagens mais emblemáticas do ano.

No entanto, as alegrias trazidas por Aquarius, filme sobre uma jornalista aposentada que mora no último prédio modelo antigo da orla de Boa Viagem e resiste às tentativas dos novos planos de uma construtora para o terreno, não ficaram apenas no Tapete Vermelho. Após estampar capa da Variety e ser considerado pelo Los Angeles Time como um dos trabalhos mais aguardados da seleção deste ano, o longa pernambucano foi aclamado pela crítica, e recebeu um veredito para lá de expressivo: se Sônia Braga não levar o prêmio de melhor atriz, testemunharemos a maior injustiça da premiação deste ano.

Só que minha curiosidade com Aquarius vem antes desse estouro em Cannes ou do inegável prestígio e talento de Kleber Mendonça Filho como realizador. O que mais comove no projeto é a sensibilidade do diretor em tê-lo oferecido para uma atriz como Sônia Braga. Não tem nada a ver com talento, mas sim com oportunidade. Todos nós sabemos que Sônia é uma das nossas grandes atrizes, mas o tempo não é justo com os atores, especialmente com as mulheres. Enquanto nos Estados Unidos ótimas atrizes como Dianne Wiest e Susan Sarandon precisam se submeter a papeis bobocas em dramas inexpressivos ou comédias de gosto duvidoso só para pagar as contas e se manter na indústria, o cinema brasileiro sequer dá chances para suas divas.

Sônia Braga, indicada três vezes para o Globo de Ouro (entre elas por seu desempenho em O Beijo da Mulher-Aranha), firmou uma certa carreira no exterior, mas no Brasil se via reduzida a novelas e minisséries. Não vamos longe: a agora saudosa e igualmente talentosa Marília Pêra só atuava em seus últimos anos em função de seu fiel escudeiro Miguel Falabella, que lhe deu papeis no cinema, no teatro e na TV (antes disso, sua última aparição na telona havia sido em 2007 com o documentário Jogo de Cena). Grandes mulheres. Intérpretes superlativas. Todas lutando contra o tempo.

Por isso mesmo é tão bonito ver nossa Sônia Braga protagonizando Aquarius. Ela diz ter se sentido honrada por Kleber ter pensado em seu nome para um roteiro como esse. Com toda razão: afinal, são poucas, quase inexistentes, as atrizes de seu calibre e idade que recebem tamanho prestígio de um diretor em franca ascensão e reconhecimento. Kleber merece todos os aplausos do mundo por voltar a dar espaço para um talento assim, principalmente porque tal chance sublinha a representatividade feminina em tempos que as mulheres só precisam ser belas, recatadas e do lar. Aquarius arrasou em Cannes, e nos deu um alento em tempos tão conturbados por aqui. Que o filme venha logo para as nossas telas!

43º Festival de Cinema de Gramado #13: um balanço dos vencedores e da edição deste ano

gramado15vencedores

O tradicional registro dos vencedores do Festival de Cinema de Gramado. Ausência, de Chico Teixeira, foi o grande vencedor da 43ª edição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Em maior ou menor grau, a desestruturação familiar foi o tema que norteou todos os longas brasileiros exibidos na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Por isso a vitória de Ausência como o melhor filme da edição é tão simbólica, já que o filme de Chico Teixeira é justamente o desolador retrato de um jovem menino abandonado pelo pai e que precisa ser o ponto de equilíbrio em uma família fragilizada. Além do prêmio principal, Ausência faturou ainda as categorias de direção, roteiro e trilha musical, quebrando o padrão dos últimos anos de distributivismo nas categorias principais. Isso é resultado direto de uma escolha mais cuidadosa do júri, que, entre recentes descobertas (Rita Carelli, atriz de Permanência) e grandes mestres (o compositor Jaques Morelembaum) na sua formação, compensou bem as escolhas desgovernadas do ano passado.

Gosto muito de Ausência, mas a minha preferência era toda – sem qualquer bairrismo – do gaúcho Ponto Zero, de José Pedro Goulart. Impecável em sua técnica (esse parece ser, conforme comentaram nos debates, o filme mais caro da história do Rio Grande do Sul), o longa é um sensorial mergulho nas angústias e fantasias de um jovem de 14 anos que, solitário, é agredido fisicamente pelos colegas e, por que não, emocionalmente em casa pelos pais, que, quando não ignoram sua existência, usam o menino para achar alguma solução para profundos problemas matrimoniais. É um estupendo trabalho que comentaremos futuramente aqui e que foi subavaliado pela premiação, onde saiu vitorioso apenas nos prêmios técnicos de desenho de som e montagem, quando merecia, na realidade, inquestionavelmente, os Kikitos de melhor trilha musical e fotografia – no mínimo. Também teria sido para lá de justo que o jovem Sandro Aliprandini fosse coroado por seu difícil desempenho em um filme onde quase não há falas para ele. A lembrança seria especial para um ano onde os pequenos e adolescentes roubaram a cena (ainda tínhamos as boas surpresas de Matheus Fagundes em Ausência e Davi Galdeano em O Outro Lado do Paraíso).

gramado15atores

Mariana Ximenes e Breno Nina foram os melhores atores por Um Homem Só e O Último Cine Drive-In, respectivamente. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Outros destaques entre os brasileiros foram O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho, e Um Homem Só, de Cláudia Jouvin. O primeiro, uma obra pra lá de carinhosa, ganhou os prêmios de ator (Breno Nina), atriz coadjuvante (Fernanda Rocha) e direção de arte, além do troféu Cidade de Gramado entregue pelo júri da crítica. Um pouco demais, talvez, para uma obra que pega mais pelo afetivo do que necessariamente por sua força cinematográfica. Já o segundo não agradou a crítica presente em Gramado, o que é bastante lamentável. Muitos questionaram sua presença no evento (“isso não é filme de Festival!”), e o que chateia é que passe quase despercebido o fato de Jouvin fazer um filme de gênero e totalmente diferente do que estamos acostumados a ver. A própria diretora comentou que a ideia era fazer uma estranha história de amor, algo que a crítica parece não ter comprado. A vitória de Mariana Ximenes como melhor atriz também não repercutiu bem (vale lembrar que este não foi um grande ano mesmo para os desempenhos femininos), mas soa mais como uma implicância com a obra que, conforme já comentamos, seria saudada como um sopro contemporâneo de originalidade caso fosse realizada por nossos hermanos argentinos. O gramado do vizinho sempre parece mais verde.

Por falar em implicância, já estão ficando chatos e repetitivos os questionamentos envolvendo o ineditismo no Festival de Cinema de Gramado. A curadoria se posicionou diversas vezes: não vão deixar de exibir filmes bons só porque já passaram em outros Festivais. O trio formado por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho também afirma que ineditismo não é sinônimo de qualidade, o que está refletido, inclusive, na seleção deste ano com o duvidoso Introdução à Música do Sangue. Em entrevistas e declarações em coletivas, a imprensa questiona o esquecimento de filmes como Beira-Mar, por exemplo, exibido em Berlim este ano – mas basta pesquisar um pouco para ver que o filme da dupla gaúcha Filipe Matzembacher e Márcio Reolon simplesmente não esteve presente em qualquer festival brasileiro. Quem sabe a dupla optou apenas por uma carreira internacional em tempos que quase todos os festivais exigem ineditismo? Por falar nisso, fica mais uma reflexão: o que será de nosso circuito se os filmes tiverem que optar por apenas um evento? Outro detalhe: um festival, ao contrário do Oscar, só pode selecionar filmes inscritos e não os que estiveram em cartaz, o que diminui consideravelmente o universo de possibilidades. A discussão é complexa, mas o drama parece ser debatido por público e crítica de forma displicente e pouco fundamentada.

Voltando à premiação, as escolhas entre os longas latinos seguiam dentro do esperado até a última categoria. A vitória de La Salada, da Argentina, como o melhor filme da edição deste ano foi um choque, já que o filme conquistou somente esta categoria (é até pior que a situação A Estrada 47, ano passado, entre os brasileiros) e foi unanimemente a produção menos expressiva da mostra. Nos curtas-metragens, uma distribuição sem maiores injustiças para uma seleção pouco surpreendente. O Corpo, o grande vencedor, não é um trabalho que me agrada, mas reconheço o apelo e sua boa execução técnica. Meu favorito, o transgressor Virgindade, não convenceu os votantes e até mesmo o público, que deu risadas de constrangimento ao se deparar com o franco e explícito relato de um homem sobre as suas fantasias sexuais como um garoto gay ainda virgem. Se não fosse para esse filme pernambucano, que tivessem dado mais atenção para o dinâmico e contemporâneo Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, que levou merecidamente os prêmios de roteiro e ator para Matheus Nachtergaele. Enfim, os júris, no geral, acertaram nas escolhas, fazendo realmente um resumo das obras que mais agradaram e se destacaram nesta edição. É sempre impossível agradar gregos e troianos, mas este ano, pelo menos, os crimes foram quase inexistentes. Até 2016, Gramado!

Confira aqui lista completa de vencedores.

43º Festival de Cinema de Gramado #12: Sandro Aliprandini, um viajante em outras vidas

43º Festival de Cinema de Gramado - O ator Sandro Aliprandini. Foto: Igor Pires/Agência PressPhoto www.edisonvara.com.br

Aos 16 anos de idade, Sandro Aliprandini apresenta no Festival de Cinema de Gramado o denso Ponto Zero, um dos filmes mais marcantes da seleção deste ano. Foto: Igor Pires/Pressphoto

Foi uma pequena peça de teatro em um colégio de Passo Fundo que trouxe o gaúcho Sandro Aliprandini para o Palácio dos Festivais. Protagonista do longa Ponto Zero, em competição nesta 43ª edição do evento, o jovem ator nunca imaginou que o papel coadjuvante de um mordomo na peça Zastras lhe levaria para tão longe… e tão cedo! Aos 16 anos, Aliprandini concorre em Gramado como protagonista do primeiro longa-metragem do consagrado diretor gaúcho José Pedro Goulart (O Dia em Que Dourival Encarou a Guarda). O encontro se deu por puro acaso: ao ver a notícia que o jovem estudante havia recebido o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival Intercolegial de Teatro Notre Dame, no Rio de Janeiro, Goulart teve a intuição de chamá-lo para um teste. Não demorou muito para que o diretor tivesse a certeza de aquele era Ênio, o personagem protagonista de seu aguardado primeiro longa-metragem.

Ator desde os sete anos de idade, quando começou a frequentar o grupo de teatro de colégio, Aliprandini, que hoje está terminando o ensino médio e tem planos de sair de Passo Fundo para estudar teatro em Porto Alegre, passou primeiro por uma minuciosa preparação física: teve que esperar um ano para ter a idade exata do personagem (14 anos), deixou o cabelo crescer ao longo desse tempo a pedido do diretor e ainda passou por uma maratona de trabalhos vocais e preparações físicas para as longas cenas de corrida presentes em Ponto Zero. “Enquanto o cabelo crescia, comecei a absorver toda a energia do Ênio, que se esconde de tudo e de todos com esse visual. Também fui preparado pela Ligia Motta, que realizava exercícios vocais comigo até por Skype. Mas tenho pouco do Ênio, até porque minha relação com meus pais é completamente diferente. Talvez me identifique apenas com essa vontade de crescer logo e ser adulto, mas isso é o legal de ser ator: viajar em vidas completamente diferentes”.

A construção de Ponto Zero foi estratégica: todos os atores só leram as cenas minutos antes de gravá-las. Até mesmo o envolvimento com o projeto foi cercado de expectativas, conforme lembra Aliprandini: “Quando fui chamado para o projeto, eu só sabia o que estava na sinopse, que não é muito reveladora. Mas o Zé [Pedro Goulart] sempre me passou muita segurança e ajuda o fato de termos visões muito parecidas sobre cinema”. Apesar do conceito aparentemente amedrontador, o jovem ator não se intimidou com o desafio. “Confesso que ficaria mais nervoso se tivesse um roteiro para ficar me preparando, decorando textos, ensaiando muitas vezes. Não saber previamente como seria cada cena me trouxe adrenalina, e eu gostei disso”, conta.

Filmado quase inteiramente em ordem cronológica, Ponto Zero, por ambientar boa parte de sua trama em uma noite chuvosa, exigiu dos atores um cronograma completamente diferente. Ou seja, Aliprandini, além de viajar a Porto Alegre em tempos de aula, precisou também adaptar seu relógio biológico para cerca de 30 diárias noturnas de gravação. “Mas isso não foi algo sofrido, e sempre tive o apoio da minha família e do meu colégio – afinal, eu estava lá por causa de um projeto deles, o que também os deixava orgulhosos”, avalia. Fã do cinema de Stanley Kubrick e Ingmar Bergman, o gaúcho viu Ponto Zero finalizado pela primeira vez aqui no Festival de Cinema de Gramado. Ele conta que, no princípio, ainda estava muito ligado às memórias dos bastidores durante a sessão, mas que, aos poucos, foi se tornando um espectador comum, embarcando na viagem de Ênio em uma experiência que, segundo ele, não imaginava ter ficado tão “surrealista”.

Sobre a possibilidade de vencer o Kikito aos 16 anos de idade por seu primeiro trabalho no cinema, Sandro Aliprandini não esconde o nervosismo: “Não sei se mereço, mas sem dúvida será mais um importante incentivo para a minha carreira”. Ele prefere não criar expectativas para a noite de hoje e só o que deseja, por enquanto, é agradecer à equipe de Ponto Zero e ao diretor José Pedro Goulart. Assim como Ênio, Sandro Aliprandini ainda tem muito pela frente. E ele, apaixonado por seu ofício, já está pronto para navegar em outras vidas.

* matéria produzida originalmente para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado

43º Festival de Cinema de Gramado #11: Karen Akerman, a montadora de histórias

43º Festival de Cinema de Gramado – Karen Akerman, jurada dos longas latinos. Foto: Edson Vara/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Com mais de 40 filmes no currículo, incluindo o recente e celebrado O Lobo Atrás da Porta, a montadora Karen Akerman fala sobre sua trajetória durante passagem por Gramado, onde integra o júri de longas latinos. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O diretor Quentin Tarantino, em uma de suas mais célebres declarações, disse que nunca foi à escola de cinema, mas que foi ao cinema em si. Tal afirmação poderia ser feita também pela montadora carioca Karen Akerman, que está em Gramado integrando o júri de longas-metragens latinos. Formada em Jornalismo, não exerceu a profissão e, ao conhecer os bastidores do cinema em estágios na área de produção, acabou se apaixonando pela arte de montar filmes. “Com o cinema foi amor desde sempre. Eu via filmes e ficava curiosa em saber como eles eram feitos. Já com a montagem, foi quando percebi, nas minhas experiências em produção, que os montadores eram mais solitários e concentrados em construir linguagens”, lembra Akerman.

Observando o trabalho de outros montadores de quem foi assistente como Idê Lacreta, Diane Vasconcelos e João Paulo de Carvalho, Karen foi aprendendo os segredos da profissão até, por acaso, montar o seu primeiro filme, Gaijin 2, em substituição a outra profissional. Hoje, já são 40 filmes no currículo e uma certeza: “diretor tem estilo, montador não”. Para ela, o trabalho de montagem está diretamente ligado à visão do diretor, e a troca precisa ser despida de preconceitos. “Os montadores são psicólogos dos diretores”, brinca, “e precisamos buscar o que o diretor quer e o que material exige”. O método da carioca se baseia nessa relação: Karen Akerman mergulha em todas as referências apontadas pelo diretor, sejam elas fílmicas, musicais ou até mesmo textuais. “Só compreendendo o universo do diretor conseguimos contribuir”, aponta a montadora.

Entre os trabalhos mais célebres da carioca está O Lobo Atrás da Porta, que realizou ao lado do amigo e diretor Fernando Coimbra. Ela destaca a experiência especialmente pela proximidade com ele e o envolvimento no projeto. “Foi uma bela experiência porque me envolvi desde o primeiro tratamento do roteiro. Por isso, quando fui montar o longa do Fernando, com quem já havia trabalhado em curtas-metragens, tudo já estava muito bem afinado”, recorda. Ela diz ter inúmeras referências quando chega a hora de montar um novo filme, mas que todas variam muito a cada época. “O que tento é trazer à tona a mise en scène, que tem papel fundamental nas ficções”, avalia. Apesar das inspirações, a carioca faz questão de lembrar que um montador pode se inspirar em métodos, mas que criação cada um precisa ter a sua.

Finalizando o longa-metragem Talvez Deserto, Talvez Universo, documentário que se passa no hospital psiquiátrico Julio de Matos, na Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense, e que dirige e monta em parceria com Miguel Seabra Lopes, Karen Akerman volta a Gramado depois de mais de 14 anos. A primeira vez que esteve na serra gaúcha foi em 2001, quando participou com o filme Breve de uma mostra paralela que exibia produções em Super 8. Agora jurada de longas latinos, Karen está feliz com o retorno ao Festival e conta que as trocas com seus colegas de júri rendem grandes debates. “Temos debates de altíssimo nível e conversas diárias sobre o que assistimos. Temos visto obras latinas muito diferentes entre si e é uma boa oportunidade para vermos um tipo de cinema que não costuma chegar no Brasil. Espero que essa mostra latina continue para sempre na programação!”, torce.

* matéria produzida originalmente para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado