Cinema e Argumento

Profecias para as premiações #2

Não sei bem se chega a ser uma “profecia” minha ou mais um desejo mesmo. Adoro Annette Bening e, inclusive, acho que ela tem uma cena muito especial em Minhas Mães e Meu Pai (aquela em que ela canta uma música de Joni Mitchell na hora do jantar). Mas, sinceramente, não sei o porquê de tanta badalação em torno da atriz. Pode parecer implicância minha, mas ela nem é a protagonista da história, aparece tanto quanto os outros (e, em certos momentos, chega, inclusive, a aparecer apenas de forma superficial) e está tão bem quanto a sua subestimada colega Julianne Moore. Também não ajuda o fato de que considero o filme bem fraco.

As últimas atrizes que venceram o Oscar de melhor atriz por um filme de comédia foram Cher, por Feitiço da Lua, na década de 80 e Helen Hunt, por Melhor é Impossível, em 1997. Portanto, lá se vão vários anos desde que uma profissional ganhou na categoria por um filme desse gênero. Era esperado que Meryl Streep tivesse quebrado esse jejum ano passado com Julie & Julia, mas, inexplicavelmente, foi derrotada por uma insossa Sandra Bullock. Se Meryl não conseguiu quebrar essa “regra”, fico meio desapontado de pensar que Annette pode conseguir esse feito com um filme tão sem inspiração e com uma interpretação que nem chega a ser tão especial assim. Contudo, já começo a me preparar psicologicamente para uma possível vitória de Bening.

Ela sempre foi uma candidata em potencial e, de uns tempos pra cá, sua força aumentou. Mas algo ainda me diz que ela não será a vitoriosa da categoria. As possibilidades existem (até porque a Academia tem débito com ela), mas, por tudo que já citei nesse texto, acredito que ela não vencerá – apesar da grande maioria pensar diferente de mim e adorar a performance da atriz. Se fosse para ela ter algum tipo de reconhecimento, então, que fosse como Susan Sarandon e Geena Davis por Thelma & Louise. Em Minhas Mães e Meu Pai é Annette Bening e Julianne Moore que merecem ser mencionadas, não apenas Bening. É injusto apenas uma ser reconhecida.

Profecias para as premiações #1

Se muita gente gosta de ficar prevendo quem serão os vencedores ou indicados, tenho a diversão de prever quem não vai ser celebrado na temporada de premiações apesar de todo o buzz. Portanto, começo essa série de posts sobre aqueles nomes que estão sendo muito cotados, mas que não figuram nas minhas apostas. Se ano passado falei por aí que Nine seria um tiro no pé e que, no ano retrasado, O Leitor seria celebrado no Oscar no lugar de BatmanO Cavaleiro das Trevas e WALL-E, esse ano me dou o direito de seguir os meus instintos novamente só que em uma lista mais elaborada. Se queimarei ou não a língua, isso veremos nos próximos meses. Mas, por enquanto, vamos nos divertindo com essas profecias infundadas.

Adoro Nicole Kidman. De verdade. Mas também sou pessimista em relação a ela. Desde As Horas – que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz – ela não conseguiu emplacar mais nenhum filme que seja abraçado pela crítica/público e celebrado por sua atuação. Ou seja, ela até podia estar bem nos longas, mas o filme sempre era um fracasso de público e crítica ou não superava as expectativas. Foi assim com Reencarnação, A Pele, Austrália e Nine (esses dois últimos, inclusive, antes de seus respectivos lançamentos, foram esperados ansiosamente como o retorno definitivo da atriz).

Então, ao menos para mim, por mais que Rabbit Hole seja um bom filme e que Nicole esteja bem, ela ainda precisa vencer preconceitos. O resultado vai ter que ser extraordinário para que os votantes voltem a apostar nessa atriz que, hoje, não tem mais aquela imensa credibilidade que tinha nos tempos de Moulin Rouge, Os Outros e As Horas. Claro que ela está a milhas de distância de se tornar uma Renée Zellweger da vida, mas ela já precisa vencer algumas barreiras criadas na sua irregular vida cinematográfica dos últimos anos. Eu, que vou contra a maré, tambpem não vi nada demais no trailer de Rabbit Hole e acredito que ainda não vai ser dessa vez que Nicole retornará com força ao circuito de premiações.

Rabbit Hole é dirigido por John Cameron Mitchell (do ótimo Hedwig – Rock, Amor e Traição). O enredo é centrado em Becca (Nicole Kidman) e Howie Corbett (Aaron Eckhart), um casal feliz, cuja vida é mudada para sempre quando seu pequeno filho, Danny, é morto em um acidente de carro. Becca tenta redefinir sua existência com a família bem-intencionada e com amigos, enquanto Howie mergulha no passado, buscando refúgio em estranhos que lhe oferecem algo que Becca é incapaz de dar. Os Corbetts, à deriva, fazem surpreendentes e perigosas escolhas enquanto decidem por um caminho que vai determinar seus destinos. O elenco também conta com a vencedora do Oscar Dianne Wiest.

O ano das coadjuvantes

Tenho mais facilidade em apreciar desempenhos femininos do que masculinos. Não sei bem a razão disso, mas consigo me cativar muito mais com as mulheres do que com os homens. Esse ano, várias atrizes conseguiram se destacar como coadjuvantes. Quando fui fazer um balanço das atrizes nesse setor, percebi que temos muitas atuações notáveis em 2010. Abaixo, fiz uma lista com onze das minhas atrizes coadjuvantes favoritas até agora. A ordem é aleatória. E, só de pensar que, no fim do ano, terei que escolher apenas cinco para a minha lista de melhores de 2010, já fico com o coração na mão. E para vocês, quem são as coadjuvantes do ano?

Tenho um fraco por papéis de mães. Com ÁUREA BAPTISTA não foi diferente. Humana e sensível como a sentimental mãe do protagonista de Os Famosos e os Duendes da Morte, ela brilhava toda a vez que aparecia. Além de proporcionar os melhores momentos do filme, Áurea conquista o coração dos espectadores com sua representação cheia de gestos e olhares significativos.

 

Poucos minutos em cena foram o suficiente para que JULIANNE MOORE fosse um dos grandes destaques em Direito de Amar. No auge de sua beleza (e vale lembrar sua impressionante idade: 50 anos em dezembro), a atriz teve uma presença magnética no filme de Tom Ford. Foi um prazer vê-la ao lado de Colin Firth, em uma das melhores cenas do ano.

 

Em seus últimos trabalhos, MARION COTILLARD deu um tapa na cara daqueles que diziam que ela seria para sempre apenas Édith Piaf. Em A Origem, ela une beleza e talento no marcante papel de Mal, a falecida esposa de Don Cobb (Leonardo DiCaprio). Com um quê de vilanismo e paixão, Cotillard encontrou o tom certo da personagem. Mais uma prova do talento da francesa.

 

PAULA PATTON é a atriz mais subestimada do elenco de Preciosa – Uma História de Esperança. Mas, ao meu ver, é uma das melhores. Ela é o alívio da história, um sopro de  esperança em um filme cheio de desgraças. Patton captou toda a importância da personagem e fez um retrato verdadeiro de uma mulher que está disposta a melhorar o mundo.

 

Junto com George Clooney, VERA FARMIGA formou um dos melhores casais dos últimos anos. Mas, além de combinar perfeitamente com Clooney, Farmiga teve um desempenho individual exemplar. Esbanjando maturidade, ela foi um dos pontos altos de Amor Sem Escalas. Pena que não teve chance na época de premiações para receber um merecido reconhecimento.

 

Se não fosse por MARION COTILLARD, Nine não seria nem metade do pouco que já é. Difícil compreender como Penélope Cruz recebeu reconhecimento pelo musical se é Marion a verdadeira estrela. Sedutora e sentimental, tem os melhores números musicais, a personagem que mais se destaca e a storyline que é o coração do enredo. Um trabalho sublime.

 

Não sei se Mo’Nique tem a melhor atuação coadjuvante do ano como a maioria diz, mas, sem dúvida, tem o papel mais difícil de todos. A atriz se destaca pela crueldade que passa para a sua personagem, mas também chama atenção exatamente por conseguir, de certa forma, humanizar uma figura tão perversa e cruel. Sua Mary fica com o espectador após o filme.

 

ANNA KENDRICK não só foi o papel “engaçadinho” de Amor Sem Escalas como também trouxe algumas reflexões e outros momentos dramáticos. A jovem foi certeira no tom de sua interpretação: leve e descontraída, mas nunca adotando um tom superficial ou sequer caricatural. Ela foi além de um personagem simpático e que se difere dos outros na trama.

 

No estilo formulaico, tanto em termos narrativos quanto em interpretações, Chico Xavier teve uma interpretação que conseguiu se sobressair. CHRISTIANE TORLONI, em sua limitada aparição, estava emocionante. Como a mãe que perdeu um filho e procura a ajuda de Chico para se comunicar com o falecido, Torloni iluminava o filme em cada minuto que aparecia.

 

Sabe aquele tipo de atuação que, com apenas uma cena, consegue passar todo um encantamento que, muitas vezes, um desempenho não consegue passar em um filme inteiro? Pois é, PATRICIA CLARKSON conseguiu isso em Ilha do Medo. Sua importância no longa é quase inexistente e justamente por sua aparição meio avulsa foi preterida por muitos. Pura injustiça.

 

Novamente SAMANTHA MORTON dá outra prova de seu inquestionável talento em O Mensageiro. Como a esposa que acaba de perder o marido mas não deixa transparecer a dor que sente, Morton era outra atriz que merecia ter sido lembrada na temporada de premiações, bem como o seu colega de cena, o subestimado Ben Foster.

Opinião – Lula e o Oscar

Dias atrás, li em um Twitter por aí que Lula está formando uma espécie de dinastia no Brasil. Além dele “eleger” os sucessores de sua presidência – e os anti-petistas que me perdoem, mas temos que aceitar o fato que, após Lula, é bem provável que o Partido dos Trabalhadores continue por muitas décadas comandando o país – agora também tem influência sobre outros assuntos. Todo mundo levou um susto quando Lula – O Filho do Brasil foi anunciado como o representante brasileiro para batalhar por uma vaga na categoria de filme estrangeiro no próximo Oscar.

O susto se deve ao fato que ninguém esperava que a comissão fosse se render à figura mais poderosa do país e fazer uma escolha dessas. Como Rubens Ewald Filho comentou, isso pode soar como ditadura lá fora: um país que seleciona o filme do seu próprio presidente para representar a nação. Será que os votantes vão realmente enxergar essa escolha como algo positivo ou podem interpretar como um jogo político para favorecer a imagem de Lula mundialmente?

A verdade é que os atributos cinematográficos não foram levados em conta na hora da escolha. Não sou fã de Lula e muito menos vou votar em Dilma Rousseff para presidente. Mas, nem por isso analiso o filme cegamente. É uma pena que a comissão tenha o péssimo princípio de que precisam escolher aquele filme que mais tem chances, e não o que foi melhor produzido e que alcançou melhor resultado. É por essa e por outras que estamos sem Oscar até hoje. Lula pode até apontar a próxima presidente, mas nunca vai ser poderoso o suficiente para conseguir um Oscar.

Conhecido ele é. Mas isso não é o suficiente para conseguir uma estatueta. Não sei se os votantes brasileiros realmente pensaram que os membros da Academia vão selecionar uma biografia (gênero que raramente se vê entre os indicados da categoria) que celebra o atual presidente de um país. Oscar é político, mas nem tanto assim. A propaganda para o presidente pode até dar certo aqui, mas eu diria que é impossível que eles abracem essa ideia lá fora. Uma mancada completamente desnecessária.

Mas, vamos ao filme. Todo mundo sabe que Lula – O Filho do Brasil não deu certo: não fez a bilheteria pretendida, foi recebido de forma muito morna por crítica e público e ainda teve pouco destaque na época de lançamento porque o diretor Fábio Barreto caiu e bateu com a cabeça. O acidente do diretor teve mais repercussão que o longa-metragem em si. Todos esses fatores me deixam ainda mais incrédulo com a escolha de Lula como representante. Além de ser propaganda política, o filme foi de mal a pior. Um tiro no pé.

Na realidade, Lula – O Filho do Brasil parece um filme brasileiro dos anos 80 que foi remasterizado. Filmado de forma simples (para não dizer amadora, em determinados momentos) é uma história que abrange de forma simplória a velha questão do pobre cheio de dificuldades que conseguiu ser alguém na vida. Ou seja, cinematograficamente falando, é uma versão piorada de 2 Filhos de Francisco (esse sim comercial, mas muito válido como cinema). São dramas e questionamentos que já vimos milhares de vezes.

Alguns me perguntam: então, era pra mudar o que aconteceu na vida do Lula? Não. Para isso serve um diretor. Se Barreto tivesse realmente ambições artísticas e não comerciais, ele teria orquestrado o longa de forma diferente. Não, foi para o estilo clássico e não fez questão de esconder a cafonice em diversos momentos. Estamos diante de um produto cafona e que não parece representar uma época, mas sim estar preso cinematograficamente ao modo de fazer cinema da época que retrata.

O roteiro também tem seus problemas, tanto na trajetória profissional de Lula quanto na vida pessoal.  A luta dele pelos trabalhadores é banal e, ao menos para os mais leigos, não fica muito claro o porquê de um simples batalhador sindical ter sido eleito presidente da República. E aí temos um grande tropeço. O roteiro não trabalha a trajetória do protagonista até a presidência. Ele narra a vida profissional do protagonista quando ainda nem era político de fato, o filme termina, e logo acompanhamos imagens reais de Lula tomando posse como presidente. O que ele fez para justificar essa celebração? O filme não mostra isso.

Além de tirar a política da pauta e não definir direito as posições de Lula (em certo momento, o próprio personagem afirma isso, ao comentar que não tem lados e muito menos se define como de esquerda ou de direita), a vida amorosa dele é tratada com um grande descaso. O primeiro amor do protagonista mostrado na tela é o seguinte: em aproximadamente 20 minutos ele conhece a moça (participação de Cléo Pires), se declara, namora, pede em casamento, compra uma casa, descobre que vai ser pai e em seguida a moça desaparece de cena por uma fatalidade do destino. Tudo rápido e superficial.

Lula – O Filho do Brasil não arriscou e fugiu de polêmicas, o que terminou por tirar a personalidade dos amores e dos trabalhos do político. No entanto, temos sorte em ter, ao menos, uma figura que é o coração da história. Glória Pires é a humanização do longa-metragem. Sua Lindu é sofrida, mas sempre acreditando na vida e no próprio filho. Dá gosto de ver a atriz entrando no personagem e transborando emoção (a cena em que ela aplaude a conquista do diploma do filho é notável de tão verdadeira).

Pena que ela, aos poucos, vá perdando o seu tempo em cena. Ela merecia destaque o tempo inteiro. Se Milhem Cortaz peca pelo exagero ao cair no estereótipo de pai bêbado que bate nos filhos, o ator que interpreta Lula, Rui Ricardo Dias, cumpre bem a sua missão de caracterizar. No entanto, é difícil não ver a imitação com um enfoque cômico involuntário depois que a figura de Lula foi tantas vezes parodiada em programas de humor como Casseta e Planeta. Mas, repito: Dias alcança bom resultado.

No final das contas, Lula – O Filho do Brasil não chegou a me deixar a sensação de péssimo filme. É certo que existem momentos lastimáveis (a cena, no final, em que Lula se lembra da mãe em flashbacks com toscos efeitos de fade in e fade out saídos do Windows Movie Maker são de doer), mas nada que rebaixe o resultado para o nível do desastre. Fiquei com duas sensações ao término do filme. Primeiro, assisti um produto parado no tempo e cafona, derivado do estilo cinematográfico de anos atrás.

Agora, a segunda e mais importante de todas: o que Lula realmente significa para nós brasileiros? A sua influência está indo além da presidência. Agora ele tem a dádiva de influenciar votações de cinema. Visões políticas à parte, não seria puxa-saquismo demais? Eu, sinceramente, acho que a escolha desse filme para representar o Brasil não vai trazer boa reputação para nós. Lula, é um x do Brasil. Tudo ele pode, tudo ele influencia. Serve para qualquer coisa. Até para cinema. Só que eu não concordo com tudo isso…

In Memoriam

He saved me… in every way that a person can be saved. I don’t even have a picture of him. He exists now… only in my memory.

GLORIA STUART

1910 – 2010