Cinema e Argumento

So long, farewell, 2011!

Dizem que 2011 não foi um grande ano para o cinema. Bom, eu vi Almodóvar em alto estilo, Lars Von Trier apresentando sua obra-prima, Harry Potter encerrando a série com chave de ouro, Coutinho emocionando mais uma vez, Aronofsky criando momentos antológicos… Estou satisfeito!

Mais do que tudo isso, também vi o Cinema e Argumento amadurecer muito. Não só por alcançar uma média diária de visitas que me deixa muito orgulhoso (um recorde foi batido: 1.057 em um único dia!), mas também por conquistar boa quantidade de posts, leitores cativos e exclusividades, como os inéditos filmes do Festival de Cinema de Gramado.

Entre posts sobre estreias, Oscar, trilhas e desabafos, encerro 2011 comemorando tudo o que alcancei com o blog e também com tantas outras vitórias profissionais e pessoais que tive ao longo desse ano. Que 2012 tenha tudo isso e muito mais!

Espero contar com a presença de vocês para essa nova etapa.

Um abraço a todos,

Matheus Pannebecker

Os piores de 2011

A fórmula infalível da desgraça: Nicolas Cage + Joel Schumacher

1. Reféns, de Joel Schumacher: O horror! Dá dor de cabeça só de lembrar da tortura daqueles 90 minutos. Reféns junta tudo o que existe de pior em Hollywood. Tudo isso, claro, vindo de uma dupla implacável nesse assunto: Nicolas Cage e Joel Schumacher, ambos profissionais decadentes e que são sempre sinais de bombas. Mas, dessa vez, teve até espaço para a Nicole Kidman dar uma ajudinha! O filme não tem ritmo, é carente de história, não cria suspense, irrita a cada cena e é filmado de uma forma incrivelmente cafona. Não deseje nem para o seu pior inimigo! SOS!

2. A Garota da Capa Vermelha, de Catherine Hardwicke: Se não fosse pela obra-prima do mal gosto chamada Reféns, esse filme de Catherine Hardwicke seria o pior de 2011. A diretora, que um dia chegou a nos enganar com Aos Treze, apresenta uma história completamente insossa, com personagens caricatos e inertes, bem como uma trama sem qualquer suspense ou envolvimento. Lamentável ver ótimos atores como Julie Christie e Gary Oldman numa produção tão monótona como essa – que, além de tudo, tenta ser mais um hit adolescente. E, no final, fica só na tentativa mesmo.

3. Como Você Sabe, de James L. Brooks: Não consigo perdoar filmes chatos. Principalmente quando eles vêm acompanhados de pessoas que poderiam fazer tudo dar certo. James L. Brooks, que dirigiu o ótimo Melhor é Impossível, cria uma comédia romântica completamente tediosa – que, pasmem, consegue tirar até mesmo a graça de Jack Nicholson. Incrivelmente longo para o gênero, Como Você Sabe é desprovido de carisma, entregando algo totalmente diferente do que sugeria. Até mesmo a mais disposta das almas precisa de um energético para não cair no sono.

4. Sem Saída, de John Singleton: Esse foi uma grande decepção porque tinha tudo para ser uma bobagem bem divertida. Porém, parece que Hollywood desaprendeu a fazer filmes assim. Sem Saída, além de mostrar que Taylor Lautner é pura enganação na saga Crepúsculo, nunca empolga, usando desculpas esfarrapadas para criar ação e um fiapo de história que é amarrado de forma muito desleixada no final. De brinde, atores interessantes em papeis ingratos – só de lembrar da cena em que Sigourney Weaver diz odiar balões já fico com vergonha por ela. Fraquíssimo até o último minuto.

5. A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1, de Bill Condon: Já nem me estresso tanto quanto antes. Na realidade, acho que virou moda humilhar a série. Mas, gente, não adianta, ela não vai mudar. Por isso mesmo, acabo até me divertindo com o humor involuntário de algumas partes desse filme. Impressionante como vários diretores entram e saem da saga e tudo continua a mesma coisa: atores inexpressivos, trama que não sai do lugar e abordagens baratas de romance. No final, nem chega a ser essa tragédia toda que dizem. Só é mais uma bobagem como qualquer outro filme anterior.

6. Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola: Prêmio Filme Pedante do Ano para esse. Aguentei a Coppolinha por bastante tempo, mas dessa vez não deu. Não vejo sentido ou sequer graça em tomadas de intermináveis mostrando uma mesma coisa com uma trilha legal no fundo. Sério que isso é ser cult? Para mim, isso tem outro nome: pretensão. Um Lugar Qualquer tem o desejo de discutir muitas coisas e de ser um retrato da solidão e da imcompletude, mas é uma espécie de sonífero. Nem a presença de iluminada Elle Fanning muda a situação desse longa que sai do nada para chegar em lugar nenhum.

7. Esposa de Mentirinha, de Dennis Dugan: Gostava de Adam Sandler quando era criança e não tinha bom senso. Hoje, só a presença dele já me incomoda. É o mesmo papel de sempre, exageros repetidos e, pior de tudo, fazendo um filme ruim atrás do outro. Ele, que já não é mais novinho e deveria criar vergonha na cara por passar anos fazendo tudo igual, é o principal defeito de Esposa de Mentirinha – um longa que por si só já seria problemático, mas que, com os ares de Sandler, torna-se constantemente incômodo. Se alguma coisa vale a pena é o sotaque da menininha Bailee Madison e a pequena participação de Nicole Kidman. De resto, pffff…

8. Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, de Paul Weitz: De novo, gente? De novo? Daqui a pouco vai ser Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família, o Papagaio e os ET’s. E um de novo com o mesmo assunto de sempre. Não sei como atores do calibre de Robert De Niro e Blythe Danner ainda se submetem a filmes como esse. A série, que só foi engraça de verdade no primeiro volume, não precisa ser mais detalhada, já que a redundância de todas as continuações provam que a história não tem potencial o suficiente para ser tão explorada.

9. Sexo Sem Compromisso, de Ivan Reitman: Esse foi o ano dos amigos fazerem sexo sem qualquer envolvimento emocional. Por mais que Amizade Colorida e Amor e Outras Drogas fossem medianos, traziam ótimas químicas entre os seus protagonistas. Só que nem isso Sexo Sem Compromisso conseguiu trazer. Ashton Kutcher, com a mesma cara de sempre, e Natalie Portman, visivelmente deslocada, não conseguem fazer essa história parecer verdadeira – principalmente porque o roteiro não ajuda com sua narrativa pouco atraente e previsível. Nem a promessa de cenas mais “à vontade” entre os dois foi cumprida. Pura decepção

10. Além da Vida, de Clint Eastwood: Minha relação com Clint Eastwood já é problemática faz bastante tempo: Gran Torino, A Troca e Invictus, para mim, são produções sem personalidade, onde o diretor não consegue empolgar em momento algum. Além da Vida é mais ou menos assim, mas aqui a inexpressividade de Clint alcança um nível, digamos, preocupante. É o tipo de história onde ficamos aguardando um grande momento a cada nova cena e, no final… esse momento nunca acontece! Uma montagem preguiçosa também estraga a festa, além do final de Matt Damon e Cécile de France, que ultrapassa o nível do cafona.

As indicações ao Oscar de… Amy Adams

Atendendo a pedidos, o Cinema e Argumento retoma essa série de posts que tem como objetivo analisar as indicações ao Oscar de profissionais do cinema… Recomeçamos, então, com uma atriz que tem cara de novinha, como se fosse uma revelação adolescente. Só que Amy Adams está longe de ser uma novata: aos 37 anos de idade: já atuou em mais de 40 trabalhos, além de já ter marcado presença em séries como Smallville, The West Wing e The Office. A popularidade de Adams começou mais especificamente com Retratos de Família, que rendeu sua primeira indicação ao Oscar. Hoje, a atriz já trabalhou com importantes nomes do cinema como Mike Nichols, Susan Sarandon e Meryl Streep. Conhecida por sempre fazer papel de pessoa doce e quase ingênua (o que também lhe rende muitas críticas), Adams já acumula três indicações ao Oscar. Abaixo, comentários sobre as passagens dela como concorrente na Academia:

2006 – Melhor Atriz Coadjuvante

Michelle Williams (O Segredo de Brokeback Mountain)

Rachel Weisz (O Jardineiro Fiel)

Amy Adams (Retratos de Família)

Frances McDormand (Terra Fria)

Catherine Keener (Capote)

Não era um grande ano para as coadjuvantes. Só isso para explicar as absurdas inclusões de Frances McDormand e Catherine Keener nessa lista – ambas completamente neutras e sem presença nos seus respectivos filmes. Amy Adams, então, poderia ser considerada uma dessas garotas que surgem do nada entre as finalistas só para completar a lista. Mas a verdade é que a primeira indicação da atriz foi extremamente merecida. Não só por ser uma interpretação realmente digna de estar entre as finalistas, mas também por conseguir ser o principal destaque de um filme irregular. Retratos de Família, com seu caráter independente, é todo dela, que conquista justamente com o seu tão conhecido jeito de simpática e querida – que, posteriormente, viraria sua marca. Ela não tinha como vencer esse ano – tanto por razões políticas (uma recém chegada precisa estar um estouro pra vencer logo de cara) e porque não era melhor que Michelle Williams e Rachel Weisz. A primeira deveria ter vencido (é o grande destaque de um filme que não tem dois protagonistas tão brilhantes como apontam), mas a vitória da segunda por O Jardineiro Fiel foi merecida. A esquecida deste ano foi Thandie Newton (que chegou a vencer o BAFTA), responsável por um dos grandes momentos de Crash – No Limite.

2009 – Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis (Dúvida)

Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)

Amy Adams (Dúvida)

Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button)

Marisa Tomei (O Lutador)

Em sua segunda indicação ao Oscar, Adams já mostrou o quanto cresceu como atriz. Contracenando com Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em Dúvida, ela parece não ter se intimidado com o gigante talento de seus companheiros de cena: chega a estar, inclusive, tão eficiente e interessante quanto eles. Uma pena, portanto, constatar que Adams tenha vindo com esse papel logo num ano tão disputado na categoria. Além de rivalizar com uma outra atriz de seu filme (Viola Davis, a melhor das concorrentes, cuja interpretação permanece poderosa até hoje), também não tinha condições de vencer o furacão de Penélope Cruz, a vencedora da categoria. A espanhola, que recém havia conquistado a confiança de todos após Volver, era a sensação do momento – tanto que, no ano seguinte, recebeu uma indicação muito injusta por sua atuação em Nine. No dia da cerimônia, uma falsa lista vazou horas antes da premiação e, no documento, Adams era supostamente a atriz que seria coroada. Não foi difícil acreditar que existia essa possibilidade. Porém, apesar da excelente atuação em Dúvida, não tinha um papel marcante como o de Viola e Penélope. Enquanto isso, as outras duas concorrentes, Taraji P. Henson e Marisa Tomei, estavam ali sem chances reais de ganhar.

2011 – Melhor Atriz Coadjuvante

Amy Adams (O Lutador)

Melissa Leo (O Lutador)

Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)

Jacki Weaver (Reino Animal)

Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)

Quebrando sua imagem de moça frágil que cultivou durante bom tempo (e que, recentemente também esteve presente em Os Muppets), Amy Adams apresenta, em O Vencedor, a composição mais diferente de sua carreira – e, consequentemente, de suas indicações ao Oscar. Mais uma vez sofrendo por rivalizar com uma companheira de cena que tinha personagem mais chamativo (Melissa Leo era mais alegórica do que, de fato, interessante), a atriz foi injustamente deixada de lado. O que é interessante no trabalho dela é como consegue quebrar seu estereótipo e interpretar uma mulher forte e decidida sem nunca partir para apelações. Adams está ali: com o mesmo rosto de sempre e o mesmo tom de voz, mas, trabalhando mínimos detalhes, apresenta algo diferente e que se afasta do estilo de Christian Bale e Melissa Leo. Talvez esse tivesse sido o momento ideal para celebrar Adams – já que, caso vencesse, nenhuma injustiça estaria sendo feita, pois a categoria estava fraquíssima. Num ano que indicam Hailee Steinfeld como coadjuvante (claramente a protagonista de Bravura Indômita) só por ela ser criança e Helena Bonham Carter só para puxar o saco de O Discurso do Rei, nada mais justo, então, do que homenagear uma atriz que já chega em sua terceira e merecida indicação ao Oscar. Melissa Leo, que arrebentou em Rio Congelado e não em O Vencedor, poderia ter esperado mais um pouco.

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No próximo post: Alexandre Desplat.

Os altos e baixos de 2011

Falta pouco para 2011 acabar. Por isso, o Cinema e Argumento fez uma breve lista do que aconteceu no cinema neste ano que está prestes a acabar. Confira o que consideramos de melhor e pior em 2011:

– Apesar de demasiado longo e quase desinteressante, Biutiful se salvou em função do magnífico desempenho de Javier Bardem que, se não estivesse disputando o Oscar com Colin Firth, poderia muito bem ter vencido sua segunda estatueta.

O Discurso do Rei ganhou o Oscar e foi vítima de iras descontroladas. O fato é que, mesmo que convencional, o filme de Tom Hooper está muito longe de ser o horror que os haters apontam. Sem falar que sua consagração nas premiações já era esperada.

Cisne Negro trouxe o Oscar para Natalie Portman, mas, acima de tudo, apresentou outro trabalho espetacular de direção de Darren Aronofsky. Ainda que não seja de quinta grandeza, o filme tem grandes méritos e um ato final impecável.

– A Árvore da Vida ganhou a Palma de Ouro em Cannes, mas foi um dos filmes mais controversos de 2011. O longa de Terrence Malick é curioso, transitando entre a beleza estética, poesia e monotonia com muita frequência. Difícil fazer definições.

– Todas as promessas foram cumpridas em Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2: um grande evento não apenas para os fãs da saga, que receberam o melhor desfecho possível, mas para os próprios cinéfilos, que conferiram o longa de maior êxito da série.

– A Pixar caiu na armadilha de continuações desnecessárias, perdeu seu posto em 2011 de melhor animação e deu espaço para outros trabalhos. Assim, Rio, de Carlos Saldanha, fez um grande sucesso e O Ursinho Pooh conquistou com sua nostalgia.

Planeta dos Macacos: A Origem pode ser um filme de verão qualquer, mas Andy Serkins faz a experiência valer muito a pena. Mais uma prova do grande talento desse subestimado ator que revoluciona o mundo da atuação.

– Lars Von Trier foi banido de Cannes, mas os cinéfilos de verdade deixaram as polêmicas do diretor de lado e reconheceram a excelência de Melancolia, o melhor filme de Lars, onde ele não apresenta sua habitual vontade de querer sempre chocar ou polemizar.

– Também foi o ano dos amigos que fazem sexo sem qualquer compromisso sentimental. Amor e Outras Drogas, Sexo Sem Compromisso e Amizade Colorida falam sobre esse assunto. Eles tentaram, mas não conseguiram escapar de obviedades – todos os filmes são previsíveis e repetitivos.

– A tragédia tem nome e ela vem de uma dupla especialista nesse assunto. Em Reféns, Nicolas Cage e Joel Schumacher superaram o limite da bagunça nesse filme que também tem a ajuda de Nicole Kidman, saída de uma indicação ao Oscar para uma completa bomba.

– Depois do mediano Abraços Partidos, Pedro Almodóvar voltou em grande estilo com o maravilhoso A Pele Que Habito. Ousado, original e surpreendente, o filme do espanhol se encaixa facilmente entre os melhores do ano.

– Mais sucesso para o cinema argentino. Não apenas no que se refere ao novo de Ricardo Darín, Um Conto Chinês, mas também ao excelente Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual, um filme dinâmico, atual e cheio de bons destaques.

– O ano dos filmes que não precisavam ser exibidos em 3D. No meio de tantas produções que só quiseram arrancar dinheiro do espectador com a tecnologia, a cantora Kylie Minogue se destaca por ter feito uso magnífico do 3D com sua impressionante turnê de Aphrodite: Les Folies, exibida em circuito limitado nos cinemas brasileiros.

Pooh e o resgate da inocência

Com a evolução técnica das animações e maior complexidade de conteúdo originados pela Pixar, o antigo jeito de fazer animações parece ter desaparecido. Se Sylvain Chomet ganha pontos justamente por apostar na humildade técnica em longas como As Bicicletas de Belleville e o recente O Mágico, podemos dizer que obras assim já não são mais populares. Chomet, por adotar esse estilo, é considerado alternativo e suas animações não ganham maior repercussão – até porque não são dirigidas ao público infantil. Nesse sentido, O Ursinho Pooh é uma verdadeira surpresa por trazer de volta o antigo clima dos desenhos animados comerciais que faziam sucesso.

É no mínimo arriscado resgatar um personagem famoso e apresentá-lo nos mesmos moldes que foi concebido. A questão é: será que ainda existe público para personagens inocentes, história construída sem ambições e humor literalmente infantil? Minha resposta é negativa, mas isso não significa que não tenho enorme satisfação em assistir a longas assim. Só o trailer de O Ursinho Pooh (que tem a maravilhosa canção Somewhere Only We Know) já é o suficiente para qualquer espectador notar que a animação é um resgate. No filme, está toda a pureza e inocência tão esquecida pela infância dos dias de hoje…

Dirigida pela dupla Stephen J. Anderson e Don Hall, essa produção causa uma incrível nostalgia: impossível não lembrar dos desenhos de nossa infância, que estavam longe de alcançar perfeição técnica mas que tinham personagens dignos de nossa afeição. Pouco importa a história, mas sim o carisma dessas figuras, a pureza das mensagens e a simplicidade explícita durante todo o tempo. Claramente dirigo para crianças – e também para aqueles que tiverem disposição para entrar no clima – O Ursinho Pooh é um verdadeiro sopro de positividade numa época em que até a Pixar resolveu cair no óbvio fazer continuações… E você, ainda sente saudade das antigas animações?

NA PREMIAÇÃO ‘MELHORES DE 2011’ DO CINEMA E ARGUMENTO: