A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2
Forever isn’t as long as I’d hoped.

Direção: Bill Condon
Roteiro: Melissa Rosenberg, baseado no romance homônimo de Stephenie Meyer
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Sheen, Dakota Fanning, Kellan Lutz, Peter Facinelli, Billy Burke, Joe Anderson, Ashley Greene, Nikki Reed, Jamie Campbell Bower, Lee Pace, Cameron Bright
The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2, Aventura, 115 minutos
Sinopse: Após dar a luz a Renesmee (Mackenzie Foy), Bella Swan (Kristen Stewart) desperta já vampira. Ela agora precisa aprender a lidar com seus novos poderes, assim como absorver a ideia de que Jake (Taylor Lautner), seu melhor amigo, teve um imprinting com a filha. Devido ao elo existente entre eles, Jake passa a acompanhar com bastante atenção o rápido desenvolvimento de Renesmee, o que faz com que se aproxime cada vez mais dos Cullen. Paralelamente, Aro (Michael Sheen) é informado por Irina (Maggie Grace) da existência de Renesmee e de seus raros poderes. Acreditando que ela seja uma ameaça em potencial para o futuro dos Volturi, ele passa a elaborar um plano para atacar os Cullen e eliminar a garota de uma vez por todas. (Adoro Cinema)

Foram necessários cinco filmes para que um diretor finalmente compreendesse por completo a essência da saga Crepúsculo. No caso, Bill Condon, que já havia dirigido Amanhecer – Parte 1, mas que só agora conseguiu reunir, de forma escancarada, os elementos que tanto “enlouquecem” as fãs: o romance idealizado sem medo de ser cafona, a trilha sonora pensada exatamente para exaltar os momentos apaixonados dos protagonistas, as cenas que nem precisariam existir se não fosse… a necessidade de fisgar ainda mais o público-alvo. A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 certamente merece reconhecimento por não tentar ser mais do que realmente é. Só que se esse desfecho cai com uma luva em níveis açucarados para atender as expectativas das fãs, por outro lado também deixa sempre evidentes as maiores fragilidades de Crepúsculo: do roteiro frouxo a pequenos detalhes muito questionáveis do ponto de vista dramático, Amanhecer – Parte 2 continua a decepcionar quem não aprecia a obra de Stephenie Meyer.
Mas Bill Condon estava certo em fazer um desfecho devidamente “apelativo” para o público-alvo. Não faria sentido, nessa altura do campeonato, tentar realizar algo diferente. Seria tempo perdido. Até porque vários diretores de perfis bem distintos já passaram pela saga e nunca conseguiram dar um perfil mais autoral ou ousado para a história de amor de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson). Então vamos aos fatos: primeiramente, impressiona o fato de Crepúsculo ser uma saga de forte sucesso nas bilheterias e ainda ter efeitos visuais tão desleixados. Só investem o dinheiro arrecadado no salário dos atores? E antes o problema fosse apenas os lobos mal concebidos: o verdadeiro horror aqui é Renesmée, filha do casal protagonista, que parece ter saído diretamente do clássico jogo The Sims de tão explicitamente computadorizada. É um atentado ao espectador de bom senso, que pode muito bem se constranger com a criança. A corrida de Bella e Edward na floresta, logo no início, também é lamentável. Sem falar da maquiagem, que continua péssima, a ponto de deformar alguns atores – como Kellan Lutz, sempre irreconhecível. Já em termos de história, podemos confirmar o que sempre foi muito claro: não existe razão – além da financeira, claro – para Amanhecer ser narrado em dois capítulos.
Ao contrário de Harry Potter e as Relíquias da Morte, que, a princípio, tinha uma divisão muito duvidosa mas que, depois, revelou-se uma grata surpresa, em Amanhecer não existe qualquer fator novidade: os dois filmes poderiam sim ser apenas um. Com isso, a trama seria mais enxuta e o arco dramático (do casamento até o desfecho) não deixaria margens para prolongamentos desnecessários que, claro, sucumbem a verdadeiras bobagens. Mas se existe uma surpresa no segundo longa da série dirigido por Bill Condon, essa é a própria Bella. A partir do momento em que se torna vampira, ela muda completamente: não só por se tornar uma espécie de guerreira e dona do próprio nariz, mas por estar melhor fotografada e sem suas eternas caretas de desamparada incompreendida. E isso prova que, quando quer, Kristen Stewart sabe ser diferente. Já Robert Pattinson continua engessado e apático, murchando frente a nova abordagem de seu par. Enquanto isso, Taylor Lautner está meio de escanteio no grande conflito da trama. O único que parece rir secretamente de tudo, como se revelasse de forma sutil que está ali só para ganhar dinheiro, é Michael Sheen, ator que cada vez mais se torna um expert em construir personagens divertidos de tão exagerados e caricatos.
Caindo no velho esquema do filme que é praticamente todo sobre uma preparação para um grande momento, Amanhecer – Parte 2 ainda revela uma surpresa para os seus últimos momentos: a cena da batalha na neve. Só que esse clímax é uma faca de dois gumes, e se você não quiser ler spoilers, abandone o texto. De um lado, a melhor cena de toda a série (com restrições ao padrão da saga, claro), que consegue ser movimentada e bem fluida. De outro, uma mudança brusca: essa cena não existe. É a previsão de um futuro que não acontece na história. Ou seja: com essa cena, Amanhecer – Parte 2 irrita por fazer o espectador de bobo. E não é nem em relação a enganação em si, mas como ela brinca com as emoções do espectador, visto que, nela, inclusive, um personagem do elenco fixo chega a morrer. Porém, sem a cena, o filme de Bill Condon seria ainda mais frouxo, com uma resolução totalmente desestimulante e fácil, reafirmando que uma divisão de filmes não era necessária. Cabe a você decidir se o filme ficaria melhor ou pior sem a tal batalha na neve.
Muito se foi dito que Amanhecer – Parte 2 é o “melhor” filme da saga Crepúsculo e que, inclusive, ele chega a surpreender positivamente. Não vejo dessa forma. Comparado aos outros longas, ele é, repetindo, o que melhor compreende para quem está falando: seja quando conduz o romance de forma bastante idealizada ou quando encerra a história com uma retrospectiva (homenagem?) de todos os personagens que passaram pela história de Stephenie Meyer. Não tenho dúvidas que Bill Condon se saiu bem nesse sentido. No entanto, o resultado não é nada além disso: Crepúsculo continua sem um roteiro consistente, um enredo que justifique tanta mobilização dos personagens e motivações convincentes. É mais do mesmo, apenas com a diferença de que um longa da série nunca foi tão endereçado às fãs. Para elas, deve ter sido o desfecho perfeito. Já eu, cinéfilo isento de qualquer amor por Bella e Edward, ainda fiquei por ver um longa realmente interessante sobre essa história de amor.
FILME: 5.5

Holy Motors
Who were we when we were who we were back then?

Direção: Leos Carax
Roteiro: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Kylie Minogue, Eva Mendes, Michel Piccoli, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Annabelle Dexter-Jones, Elise Caron, Corinne Yam
França/Alemanha, Drama, 115 minutos
Sinopse: Oscar (Denis Lavant) transita solitário em vidas paralelas, atuando como chefe, assassino, mendigo, monstro, pai… Mergulha profundamente em cada um dos papéis e é transportado por Paris e arredores em uma luxuosa limusine, comandada pela loira Céline (Edith Scob). Ele é um homem em busca da beleza do movimento, da força motriz, das mulheres e dos fantasmas de sua vida. (Adoro Cinema)

Louco. Complexo. Desafiador. Intrigante. Incompreensível. É bom, de vez em quando, assistir a um filme que ultrapassa todas barreiras do convencional e convida o espectador a entrar em uma viagem totalmente nova e diferente de tudo aquilo que estamos acostumados a ver nos cinemas. Holy Motors é um desses exemplares que uns amam, outros odeiam. Não existe meio termo. Talvez todo esse caráter polêmico tenha lhe tirado maiores chances no último Festival de Cannes, onde perdeu a coroação máxima para o elogiado Amour, de Michael Haneke. Porém, assim como o filme vencedor da Palma de Ouro, o novo trabalho de Leos Carax tem tudo para se tornar um clássico “cult”, para quem gosta desse tipo de definição. Bom ou ruim, Holy Motors não causa indiferença. E isso é algo a ser considerado.
Nunca eu indicarei Holy Motors a alguém. Nunca. Isso porque corro o sério risco de irritar aqueles que comprarem o conselho. Mas é bem provável que, de repente, acerte em cheio o gosto de alguns (raros) interessados. É uma experiência atípica, um delírio que deixa a lógica de lado, onde o espectador precisa de tempo para se acostumar com o universo do longa de Leos Carax. Mas a verdade é que não é necessário compreender todo o filme para entrar no clima. Quem se propor a embarcar nessa viagem maluca e bizarra certamente sairá recompensado da sessão. Alguns podem dizer que Holy Motors é mais um experimento do que propriamente cinema – e existe certa razão nessa afirmativa – mas é impossível não reconhecer o brilhantismo de Carax ao manipular signos e metáforas sem nunca se distanciar de uma narrativa cinematográfica bem orquestrada e instigante.
Explorando o lado mais metropolitano e menos a abordagem sonhadora e cartão-postal de Paris, o diretor cria um clima eficiente: os movimentos de câmera, a fotografia e o clima sombrio constroem uma narrativa extremamente intrigante, que varia do drama ao mistério. Afinal, quem é o protagonista interpretado por Denis Lavant? O que ele faz? O que significa cada uma de suas “tarefas”? Quais são as suas motivações? É um filme que desafia o espectador a juntar as peças e achar as respostas sozinho. Explicações são quase nulas em Holy Motors. Há quem ache isso um demérito e um empecilho para se criar qualquer conexão com aquele universo, mas é aí que reside uma das maiores qualidades do trabalho de Carax: nem todo filme precisa de respostas. Ok, não dá para evitar a sensação de que muitas situações estão ali só tornar a experiencia “experimental” e underground. Contudo, o diretor não perde o equilíbrio porque, apesar desses momentos, consegue realizar outros muito sensíveis, especialmente os mais dramáticos.
Importante notar que Holy Motors tem uma estrutura episódica: o que importa é cada personalidade assumida pelo protagonista, a situação em que ela está inserida e o que ela de fato representa. E a boa notícia é que o filme não se torna cansativo em função das nove identidades do personagem principal. Para driblar a mesmice que seria tão comum em um formato como esse, o diretor se vale de muitas abordagens: drama, crime, nudez, cemitérios, mortes e relações mal resolvidas. Quem obviamente se beneficia dessa variedade é o ator Denis Lavant, que impressiona com a sua total entrega ao personagem. Do homem convencional ao mendigo repugnante, ele se despe (literalmente) de vaidades para lidar com uma figura extremamente desafiadora. E seu resultado não é menos que louvável.
Quando se encaminha para o final, Holy Motors ainda nos reserva outra grata surpresa: a participação da cantora pop Kylie, naquele que é, sem dúvida o momento mais interessante de todo o filme. A australiana, que começou sua carreira como atriz de TV, estava afastada das telas desde que fez uma ponta no musical Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Aqui, ela afastou-se do seu marcante guarda-roupa e de qualquer vaidade para dar vida a uma personagem que é o coração de Holy Motors e que também é uma viagem ao passado para o protagonista. Soltando a voz com Who Were We? (canção originalmente escrita para o filme e interpretada em uma cena musical muito bem pontuada), ela segura tudo com notável segurança e sensibilidade, não fazendo feio ao lado do impecável Denis Lavant. Holy Motors certamente é um filme incômodo e que precisa de revisões para ser devidamente mastigado. Mas, como bem apontou o crítico Tim Robey, do The Telegraph, você dificilmente vai conseguir tirá-lo da cabeça (fazendo referência a Can’t Get You Out of My Head, outro hit de Kylie parte da trilha sonora). E vamos ser sinceros: poucos filmes conseguem esse feito.
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Curvas da Vida
You are my sunshine, my only sunshine…

Direção: Robert Lorenz
Roteiro: Randy Brown
Elenco: Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake, John Goodman, Chelcie Ross, Ed Lauter, Clifton Guterman, Raymond Anthony Thomas, Robert Patrick, Matthew Lillard, Scott Eastwood, Nathan Wright, Jack Gilpin
Trouble With the Curve, EUA, 2012, Drama, 111 minutos
Sinopse: Gus Lobel (Clint Eastwood) é um veterano olheiro de baseball, daqueles que se recusam a trabalhar usando o computador e apostam todas as fichas em seu feeling sobre os jogadores. Restando apenas três meses para o fim de seu contrato, ele começa a ter problemas de visão devido a um glaucoma. Escondendo a doença de todos, Gus é enviado para analisar Bo Gentry (Joe Massingill), um promissor rebatedor que pode ser a escolha de sua equipe no próximo draft. Entretanto, ao desconfiar que há algo errado com o velho amigo, Pete Klein (John Goodman) pede à filha dele, Mickey (Amy Adams), que o acompanhe na viagem. Mickey trabalha como advogada e está prestes a se tornar sócia na empresa em que trabalha, mas passa por cima dos compromissos profissionais para acompanhar o pai, apesar deles terem um relacionamento problemático. Juntos, eles avaliam o potencial de Gentry e encontram Johnny Flanagan (Justin Timberlake), um ex-jogador de baseball que é agora olheiro de outra equipe. (Adoro Cinema)

Frankie Dunn, o treinador mal humorado vivido por Clint Eastwood em Menina de Ouro, tinha problemas com uma filha distante que nunca aparecia em cena. Está certo que Clint já viveu mil vezes esse papel rabugento, mas, em Curvas da Vida, parece que, além de acompanharmos mais uma vez esse estereótipo, também vemos uma extensão do conflito secundário apresentado em Menina de Ouro. É uma espécie de spinoff que ainda traz um elemento importante para os estadunidenses: o beisebol (não à toa, o singelo resultado faturou mais de 30 milhões no seu país de origem). A diferença é que, aqui, o veterano diretor está apenas na frente das câmeras, contrariando a sua (falsa) promessa de que o superestimado Gran Torino seria seu último trabalho como ator. Porém, se Clint consegue repetir o tal papel com uma composição sempre despojada, o mesmo não se pode dizer de Curvas da Vida, filme excessivamente convencional e frequentemente monótono.
Talvez seja nobre o motivo de Clint Eastwood ter voltado atrás de sua promessa de se dedicar apenas à direção. Aqui, ele é comandado por um amigo de longa data: Robert Lorenz, seu assistente de direção/produtor desde o belíssimo As Pontes de Madison. Os dois teoricamente saem ganhando com a ideia de Curvas da Vida: Clint, que tem a oportunidade de fazer um trabalho de “férias”, e o próprio Lorenz, que ganhou a confiança do Dirty Harry logo no seu debut como diretor. O veterano não atuava em um filme de outro diretor desde 1993, quando fez Na Linha de Fogo, de Wolfang Petersen, e podemos dizer que a amizade deve ter falado mais alto do que seu real interesse por Curvas da Vida. O longa de Robert Lorenz, entre tantas previsibilidades, ainda consegue repetir, em maior dimensão, o principal erro de O Homem Que Mudou o Jogo: falar de beisebol como se ele fosse o esporte mais interessante do mundo. Basta a modalidade entrar em cena para que Curvas da Vida se torne tedioso, enrolado e repetitivo.
Já quando fala sobre a vida pessoal do protagonista, o cenário muda um pouco. E aí surge aquela que é a luz de Curvas da Vida: Amy Adams. Não dá para dizer que o roteiro de Randy Brown trata a complicada relação pai-filha com qualquer originalidade (pelo contrário: qualquer espectador fã desse tipo de história conseguiria escrever aqueles dilemas), mas os dois atores são tão naturais que conseguem fisgar o espectador. Clint não precisa de comentários, e Amy não se intimida diante de sua figura emblemática: apesar de continuar sem receber o papel forte e contundente que tanto merece, ela está muito bem como a mulher contemporânea obcecada pela carreira que deseja se conectar com o pai distante e difícil. É só Amy aparecer e contracenar com Clint para que Curvas da Vida se torne ligeiramente mais interessante. Méritos exclusivamente dos dois, já que o texto pouco ajuda na dramaticidade, a exemplo da figura simbólica do cavalo que parece ser uma dica para algo maior, mas logo se revela outra decepção do roteiro de Brown.
Claramente, muitos elementos de Curvas da Vida estão ali para dar algum tipo de gás para trama e aliviar a sensação de que o filme não é exclusivamente sobre beisebol (de novo, a parte mais desinteressante de todas). Entre eles, a participação de Justin Timberlake – só que o tiro sai pela culatra: o personagem é chato e qualquer investida dele, seja cômica ou romântica, é apenas enrolação. Os próprios jovens jogadores de beisebol que aparecem com cenas exclusivas também são excessos. Tudo isso deixa Curvas da Vida muito lento e sem ritmo, já que falta originalidade e até mesmo maior desenvoltura (ou seria personalidade?) do diretor para deixar o filme mais agradável. Lorenz deve ter aprendido mais com Clint, e é de se esperar que, nos seus próximos trabalhos, ele demonstre que tantos anos convivendo profissionalmente com o diretor não foram em vão. Porque, a julgar por Curvas da Vida, temos mais um diretor destinado a fazer trabalhos sustentados apenas por bons atores. Nesse caso, quem mais sai ganhando é Amy Adams.
FILME: 5.5

O que passou…

APENAS O FIM (idem, 2009, de Matheus Souza): Apenas o Fim é de uma naturalidade que assusta. Os diálogos são cheios de boas sacadas, versam sobre relacionamentos com extrema verossimilhança e abordam os mais variados assuntos sem qualquer momento mais forçado. Todos os méritos, claro, não seriam possíveis sem os desempenhos dos ótimos Gregório Duvivier e Érika Mader, cuja desenvoltura é um dos pontos altos do filme. E se Matheus Souza leva tudo mais para o lado teatral (câmera parada em quase todos as conversas dos protagonistas, ação nos diálogos e não nos acontecimentos), tal escolha não afeta o filme. O problema é que o conflito que move a história não convence. As motivações da menina que decide ir embora e acabar um relacionamento de anos nunca ficam muito convincentes. Assim, fica meio complicado se empolgar com essa história que parece sempre estar perto de ser desmentida por ser um tanto mal explicada.
PELA VIDA DE MEU FILHO (…First Do No Harm, 1997, de Jim Abrahams): Imaginem Meryl Streep como uma sofrida mãe lidando com a epilepsia do filho. O plano de saúde não ajuda, ela resolve procurar outras alternativas e abraça o bem estar de seu filho como uma questão de vida. O que poderia ser uma chance de ouro para a atriz, acabou como algo passageiro e extremamente formulaico. O telefilme Pela Vida de Meu Filho até trouxe indicações de melhor atriz no Emmy e no Globo de Ouro para Meryl, mas ela não tem muito o que fazer nessa história médica batida onde os protagonistas lidam com uma doença desconhecida e começam, aos poucos, a investigar sobre o assunto com os mais variados médicos e livros especializados. Nada muito inspirado e que ainda desperdiça o ótimo elenco de suporte que traz nomes como Margo Martindale e Allison Janney.
RUBY SPARKS – A NAMORADA PERFEITA (Ruby Sparks, 2012, de Jonathan Dayton e Valerie Faris): É um filme decepcionante, especialmente por vir da dupla de diretores que comandou o impecável Pequena Miss Sunshine. Quem já conferiu Mais Estranho Que a Ficção sabe que essa história de um escritor comandando a vida de uma pessoa real não é novidade, mas parece que o novo longa da dupla não sabe muito bem o que quer. É para ser, no geral, uma comédia romântica, mas nunca chega necessariamente a funcionar de forma exemplar ou original nesse sentido. As participações de Antonio Banderas e Annette Bening também estão ali de forma bastante avulsa. Digamos que Ruby Sparks é aquele tipo de filme queridinho, bonitinho, mas “inho” demais para se sobressair. Sem falar que, assim como em (500) Dias Com Ela, o filme de Dayton e Faris se rende às formalidades do gênero só para agradar o grande público.
TEMPLE GRANDIN (idem, 2010, de Mick Jackson): Foi com esse telefilme da HBO que Claire Danes alcançou um outro patamar. Antes dele, a atriz não era lá muito inspirada, mesmo contracenando com grandes nomes (em As Horas, foi a filha de Meryl Streep, por exemplo). Mas como a autista Temple Grandin, Danes deu uma total virada em sua carreira, o que também foi confirmado no seriado Homeland. O longa de Mick Jackson é uma cinebiografia convencional, mas que consegue ser bem agradável por não ter maiores pretensões. Temple Grandin é o velho produto motivacional produzido e direcionado aos estadunidenses, mas a boa notícia é que o filme lida muito bem com a questão da deficiência (o foco é mais na superação da protagonista do que nas suas lamúrias) e que traz um excelente desempenho da atriz. Ela não tem qualquer problema em segurar o filme e orquestra toda a sua caracterização com uma notável precisão. Previsível? Sim. Só que bem feito e na medida.
OS VINGADORES (The Avengers, 2012, de Joss Whedon): O lançamento de Os Vingadores foi um dos grandes eventos cinematográficos de 2012. Cercado de expectativas, o público respondeu à altura e o filme conseguiu uma bilheteria astronômica e grande repercussão também fora das telas. Passado o calor do momento, fui conferir o longa de Joss Whedon muito tempo depois. E digamos que, se comparado aos filmes de heróis que vemos hoje em dia, Os Vingadores é sim diferenciado pelo perfil espirituoso e bem humorado com que aborda tantas figuras de quadrinhos. A ação também é boa e os efeitos, claro, dispensam comentários. Por outro lado, é menos instigante do que prometia, principalmente no que se refere ao tão esperado encontro de todos aqueles heróis. Culpa da história que, apesar de bem mastigada, nunca é tão curiosa quanto a reunião dos personagens.
As cores de Mylo Xyloto

Mylo Xyloto foi, segundo o próprio Coldplay, a melhor turnê da banda. Já são 16 anos de carreira, mas desde 2003 o quarteto britânico não lançava um registro de uma apresentação ao vivo. Depois de tanto tempo, eles reparam esse erro em grande estilo: Coldplay Live 2012 foi exibido nas salas de cinema de diversas cidades do mundo. Trazendo o grupo para a tela grande com uma compilação dos grandes momentos da turnê Mylo Xyloto, o registro é ilustrado por passagens em países como França, Espanha e Inglaterra. A variada paleta de cores em neon e o repertório recente mas já cheio de hits prometiam um grande espetáculo. E, em certos aspectos, Coldplay Live 2012 realmente impressiona. O problema é que a estrutura desse documentário-musical não ajuda o ritmo do “longa”.
Vamos usar dois exemplos recentes para falar sobre o formato de Coldplay Live 2012. O primeiro é Aphrodite: Les Folies, show de Kylie Minogue exibido em 2011 nos cinemas brasileiros. No registro, a cantora australiana trouxe às telas um show de sua turnê na íntegra, onde, durante mais de duas horas, fomos brindados com um repertório muito bem escolhido e um excepcional uso do 3D. O segundo exemplo é Katy Perry: Part of Me, que, apesar de trazer várias apresentações ao vivo da cantora pop, tinha o objetivo de falar sobre a vida de Katy, mostrando a mulher por trás da fama. E o “filme” do Coldplay tem um pouco de cada um dessas duas experiências. Se, por um lado, empolga com as músicas ao vivo, por outro, peca por inserir, mais ou menos a cada 20 minutos, depoimentos do grupo sobre sua história e mais especificamente sobre a turnê. Ou seja, quando o espectador entra no ritmo do show, logo tem sua empolgação interrompida por declarações que estão longe de revelar novidades sobre a banda.
Produzido por Jim Parsons (sim, o Sheldon do seriado The Big Bang Theory), Coldplay Live 2012 se beneficia, óbvio, por ser o registro de uma banda muito boa. Ao longo de 16 anos de carreira, o Coldplay nunca decepcionou: alguns álbuns podem ser bem inferiores a outros, mas é fato que eles sempre lançam canções de sucesso que conseguem agregar novos fãs. O foco do “filme” é, claro, sucessos do álbum Mylo Xyloto, mas também há espaço para clássicos indispensáveis, como Fix You (possivelmente, a melhor música deles), Clocks e In My Place – a ressalva fica com o esquecimento imperdoável de The Scientist, uma das mais marcantes. Por se tratar de Coldplay, é óbvio que a experiência é muito válida. Não só pelo excelente repertório (das mais recentes, destaque para Every Teardrop is a Waterfall e Paradise), mas também pelo visual da turnê, onde o grupo, além de usar luzes e tintas coloridas para iluminar o ambiente, distribui pulseiras brilhantes para o público, tornando tudo um espetáculo de encher os olhos.
Entretanto, voltemos à questão que quase estraga Coldplay Live 2012: o desnecessário uso de depoimentos da banda para mostrar os bastidores da turnê. Além de, como mencionado, interromper a empolgação com o show, o formato também dá um tom muito quadrado ao resultado. E o pior: constantemente, os integrantes da banda só falam obviedades que até caem no clichê, como no momento em que um deles lamenta como é difícil estar longe da família durante as turnês. A participação de Rihanna em Princess of China é outro ponto decepcionante: a cantora deixa a sensação de que só estava ali para cumprir uma formalidade. Como fã de Coldplay, fico feliz que o grupo tenha quebrado esse jejum de nove anos sem registrar suas apresentações ao vivo, principalmente porque muitos hits surgiram desde então. Em contrapartida, também não consigo esconder esse incômodo sentimento de decepção. Teria sido bem melhor se o Coldplay tivesse apresentado um show completo, sem cortes. O visual e as músicas falariam por eles.