O Quarteto
Why do we have to get old?

Direção: Dustin Hoffman
Roteiro: Ronald Harwood, baseado em peça homônima de autoria própria
Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Michael Gambon, Pauline Collins, Billy Connolly, Sheridan Smith, Andrew Sachs, Eline Powell, Luke Newberry, Ronnie Fox, Patricia Loveland, David Ryall, Gwyneth Jones
Quartet, Inglaterra, 2012, Comédia, 98 minutos
Sinopse: Cissy (Pauline Collins), Reggie (Tom Courtenay) e Wilfred (Billy Connolly) vivem em um lar para músicos aposentados. Diversas personalidades famosas, hoje aposentadas, convivem juntas, treinando seus dotes musicais e relembrando os tempos de sucesso. Todos os anos a casa realiza um concerto para recolher fundos que permitem a sobrevivência da instituição. A celebração, claro, é feita com apresentações musicais. Porém, quando Jean (Maggie Smith), ex-esposa de Reggie, integra a casa de repouso, a harmonia do local é quebrada. Enquanto os organizadores da festa vêem na presença de Jean uma oportunidade única de refazer o famoso quarteto que interpretou Rigoletto, com Cissy, Reggie e Wilfred, a nova habitante recusa-se a cantar. As amizades e os amores de antigamente são questionados na tentativa de convencê-la. (Adoro Cinema)

Aos 79 anos, Maggie Smith parece estar vivendo o momento de uma jovem estrela: concorrendo (e vencendo) vários prêmios por trabalhos em TV e cinema, a veterana britânica tem participado de muitos projetos nos últimos anos. O momento de Maggie nos remete muito bem ao que ela viveu nos anos 1970, quando chegou a ganhar dois Oscars e reconhecimento incontestável por filmes como A Primavera de Uma Solteirona e California Suite. E esse momento é gratificante não só para os fãs da atriz, mas também para qualquer espectador. Afinal, o cinema está precisando de grandes intérpretes com currículos respeitáveis em produções que lhe proporcionem o devido destaque. Eles não podem cair no esquecimento. Por isso mesmo, O Quarteto é um agradável passatempo que pede que o espectador esqueça por um momento as jovens estrelas de hoje para perceber que os intérpretes de gerações passadas ainda são a melhor referência.
Em sua estreia atrás das câmeras, Dustin Hoffman parece ter levado ao pé da letra essa proposta de entregar totalmente um filme a quem realmente merece. Se, em O Exótico Hotel Marigold, o diretor John Madden esqueceu o poder dos intérpretes que tinha em mãos para pensar primeiro em uma história que não levaria a grandes resoluções para depois deixá-los dominar o texto, o mesmo não acontece com O Quarteto, que, mesmo previsível e até mesmo raso, sabe de suas limitações e deixa que o talento dos atores seja o principal atrativo. E não é menos que prazeroso ver Maggie Smith encabeçando o elenco com um merecido destaque. Dizem por aí que ela tem se repetido (o que tem um fundo de verdade, já que no seriado Downton Abbey e nos filmes O Exótico Hotel Marigold e, agora, O Quarteto, suas personagens possuem basicamente o mesmo perfil e humor), mas isso de forma alguma é um problema. Humana, divertida e até mesmo reflexiva, Maggie tem, no filme de Dustin Hoffman, a melhor chance entre as produções já citadas, realizando tudo com a elegância que só uma atriz de seu calibre poderia ter.
Ela é, sem dúvida, a principal razão de O Quarteto valer a pena. O filme, no geral, é aquele que podemos chamar de agradável, inofensivo, leve… É um trabalho que Dustin Hoffman parece ter feito de forma muito descontraída enquanto tirava férias (e isso não é depreciativo), não querendo de fato explorar vontades pessoais e profissionais na obra. Isso fica perceptível porque O Quarteto nunca se superestima. Ao invés de aprofundar questões que não teria tanto cacife para abordar (como foi o caso de O Exótico Hotel Marigold, frequentemente sem ritmo por detalhar desnecessariamente algumas histórias), o filme resolve se entregar à simplicidade e mais especificamente ao carisma de seus intérpretes. Por isso mesmo, podemos relevar problemas básicos do roteiro, já perceptíveis na própria premissa: em tese, o tal asilo para músicos aposentados está precisando de dinheiro, mas todos as velhinhas se vestem com elegância, os funcionários trabalham tranquilamente como se recebessem o salário em dia e os cafés-da-manhã são fartos.
Assim, o tal conflito é apenas pretexto para que O Quarteto seja mais divertido do que reflexivo. As piadas, que envolvem basicamente a velhice, são adequadas ao clima proposto e, ainda que uma vez ou outra sejam quase sabotadas por personagens estereotipados (a senhora esquecida e engraçada, o velhinho piadista que flerta com a enfermeira), funcionam pela sua sinceridade e simplicidade. Esse clima inofensivo – e quase ingênuo – também se reflete na direção de Dustin Hoffman, que nunca deixa escapar a chance de fazer uma conversa emotiva ao pôr-do-sol, por exemplo. Por falar em emoções, o longa tem a sua parcela de pequenos dramas, especialmente aquela que envolve o conturbado relacionamento entre Jean (Smith) e Reggie (Tom Courtenay) – figuras que resumem bem questões delicadas sobre a velhice, como a força para lidar com arrependimentos, a capacidade de deixar o orgulho de lado para perdoar e a sensibilidade para finalmente esquecer o passado.
É perfeitamente compreensível a situação de quem não consegue se envolver com os conflitos previsíveis de O Quarteto, até porque todos nós sabemos que, se um personagem passa o filme inteiro dizendo não mesmo contra a opinião dos outros, ele irá eventualmente ceder e concordar com a maioria. No entanto, além de aproveitar a ilustre presença de Maggie e do resto do elenco (todos com algum passado musical), é necessário um olhar menos exigente com essa obra pequena, talvez até mesmo esquecível e que acaba um tanto abruptamente, mas que entende bem o que está contando, sem medo de assumir que o resultado é todos dos atores. Em tempos que grandes atrizes parecem ser esquecidas pelos diretores, é um alento ver uma veterana de 79 anos encabeçando um elenco com grande simpatia. Como o próprio pôster de O Quarteto indica, toda diva merece um bis. E que Maggie tenha muitos outros!
FILME: 7.5
No
¡Chile, la alegría ya viene!

Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Pedro Peirrano, baseado na peça “El Pebliscito”, de Antonio Skármeta
Elenco: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Alfredo Castro, Jaime Vadell, Alejandro Goic, Sergio Hernández, Amparo Noguera, Diego Muñoz, Pascal Montero, Roberto Farías
Chile/França/EUA, 2012, Drama, 118 minutos
Sinopse: Chile, 1988. Pressionado pela comunidade internacional, o ditador Augusto Pinochet aceita realizar um plebiscito nacional para definir sua continuidade ou não no poder. Acreditando que esta seja uma oportunidade única de pôr fim à ditadura, os líderes do governo resolvem contratar René Saavedra (Gael García Bernal) para coordenar a campanha contra a manutenção de Pinochet. Com poucos recursos e sob a constante observação dos agentes do governo, Saavedra consegue criar uma campanha consistente que ajuda o país a se ver livre da opressão governamental. (Adoro Cinema)

Sim e não. Duas palavras que colocaram em jogo o rumo do Chile em 1988, quando o ditador Augusto Pinochet cedeu às pressões nacionais e mundiais para realizar um plebiscito que tinha como objetivo decidir sua permanência no poder. O que vemos, então, é o que hoje também está em campanhas políticas: lados opostos tentando conquistar eleitores na televisão. No caso, o sim para a permanência de Pinochet ou o não para a sua remoção do poder. É com esse enfoque que No fala sobre a ditadura no Chile: nada de torturas ou abordagens tão corriqueiras em filmes desse tema. O filme de Pablo Larraín é sobre os bastidores da comunicação, das ideias e das decisões que fizeram Pinochet perder a eleição – escolha que tira completamente o resultado da normalidade encontrada em histórias sobre ditadura (formato que assombrou o cinema brasileiro durante anos).
Narrando todo o processo de criação publicitária da campanha do não para Pinochet, o roteiro de Pedro Leirrano, baseado na peça El Pebliscito, de Antonio Skármeta, nunca se restringe a ser exclusivo para quem trabalha e estuda comunicação. Mesmo que seja essencialmente trabalhado em cima dessa abordagem, No consegue ser suficientemente interessante para qualquer público, especialmente porque mostra com consistência detalhes fundamentais: como convencer aqueles que não querem votar? De que forma desmascarar a ditadura sem correr riscos pessoais? Como lutar contra a total manipulação daquela época? Porém, nada mostrado de forma didática ou quadrada, pois No se desenvolve com muita naturalidade, fazendo com que o espectador se importe e torça pela equipe do não.
Se o roteiro de Peirano nos ambienta com precisão nesse recorte da história chilena, a direção de Pablo Larraín também surpreende em vários sentidos, começando pela decisão de usar os recursos técnicos que existiam na época. O sistema de Video U-Matic dá uma sensação bastante realista e documental ao filme (mesmo que este nunca se pareça narrativamente com um) e o visual só contribui para todo o desenvolvimento de No, que não tem uma essência necessariamente nova (afinal, quem já não viu vários filmes sobre minorias tentando conquistar espaço politicamente?), mas que, no caso do longa de Larraín, está longe de parecer uma reciclagem.
A tal campanha pelo não também nunca perde o fôlego, até porque as propagandas televisivas e os jingles são o ponto alto do longa (quem não sai cantarolando ¡Chile, la alegría ya viene!?). Vale ressaltar ainda a forma como o roteiro trabalha com segurança a figura do protagonista René Saavedra (Gael García Bernal): sua vida pessoal é explorada na medida exata, o trabalho como publicitário convence o espectador e, por mais que o filme não seja necessariamente sobre ele, é fácil torcer pelo não para que René também se saia vitorioso. Por isso, o estiloso No é, por exemplo, uma bela lição para o recente Lincoln, filme prejudicado por ser tão destinado ao povo estadunidense. Não é por mostrar a vida chilena na era Pinochet que No tem o seu charme voltado apenas ao país. Fronteiras não o elevam nem o minimizam.
FILME: 8.5
O Lado Bom da Vida
I opened up to you. And you judged me.

Direção: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell, baseado no romance “The Silver Linings Playbook”, de Matthew Quick
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, John Ortiz, Julia Stiles, Anupam Kher, Shea Whigham, Paul Herman, Dash Mihok, Brea Bee, Matthew Russell, Cheryl Williams
Silver Linings Playbook, EUA, 2012, Comédia, 122 minutos
Sinopse: Por conta de algumas atitudes erradas que deixaram as pessoas de seu trabalho assustadas, Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) perdeu quase tudo na vida: sua casa, o emprego e o casamento. Depois de passar um tempo internado em um sanatório, ele acaba saindo de lá para voltar a morar com os pais. Decidido a reconstruir sua vida, ele acredita ser possível passar por cima de todos os problemas do passado recente e até reconquistar a ex-esposa. Embora seu temperamento ainda inspire cuidados, um casal amigo o convida para jantar e nesta noite ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher também problemática que poderá provocar mudanças significativas em seus planos futuros.

A comédia dramática é um dos gêneros mais difíceis: fácil engraçar demais uma história séria ou dramatizar momentos que precisavam de um tratamento descontraído. Vejam O Lado Bom da Vida, por exemplo, que, ao longo de seus 122 minutos, consegue se perder frequentemente nos tons que emprega aos seus personagens e acontecimentos… Flertando bastante com a bipolaridade do protagonista Pat (Bradley Cooper), o novo filme do superestimado David O. Russell segue essa nova linha adotada por ele de dramas naturalistas e familiares. Porém, se O Vencedor conseguia se sair relativamente bem ao desenvolver protagonistas e coadjuvantes, O Lado Bom da Vida não administra com êxito as belas chances que tem em mãos.
Representando a comédia de circuito independente no Oscar 2013 (foram inexplicáveis oito indicações, claramente uma jogada do sempre esperto Harvey Weinstein), esse longa é exatamente um desses exemplares menores, queridinhos e bem intencionados que caem no gosto popular. Mas, pelo menos para mim, foi uma experiência completamente indiferente, especialmente porque, nos últimos anos, esse “formato” se tornou mais um estilo a ser copiado do que algo genuíno. O Lado Bom da Vida não escapa dessa fórmula, perdendo a mão em vários momentos importantes: um deles é aquele em que o Pat de Bradley Cooper agride os pais durante uma crise. A cena é um exemplo desse mal balanceamento entre drama e comédia, uma vez que não dá para saber se toda a confusão física entre os personagens é para chocar ou ser uma cena dramática amortecida com humor involuntário.
Sendo um pouco mais drástico, tal confusão ainda se reflete na própria proposta do filme, que nunca chega a ser um retrato eficiente da bipolaridade ou sequer da complementariedade entre duas pessoas perdidas na vida que, ao se encontrarem, acham uma razão de viver. Se o distúrbio de Pat é mais um alívio cômico do que um elemento narrativo para adquirir o âmago do espectador, sua relação com a jovem Tiffany (Jennifer Lawrence) serve apenas para construir um arco muito raso de libertação individual e, claro, amizade colorida. No meio disso tudo, o roteiro de David O. Russell ainda encontra espaço para previsibilidades mais explícitas (a carta de uma personagem apresentada na metade do filme), pequenos atritos familiares pouco aprofundados e aquela dinâmica um tanto mal executada entre o quanto a comédia deve invadir o drama.
Em contrapartida, quem tira tudo de letra, surpreendendo a todos, é Bradley Cooper, no desempenho mais importante de sua carreira. Reproduzindo com grande segurança não apenas a fala rápida e atrapalhada de um personagem ainda iludido com uma vida que não existe mais, ele funciona como protagonista. O Lado Bom da Vida é praticamente carregado por ele, já que Robert De Niro e especialmente Jacki Weaver não vão além do básico como coadjuvantes. A jovem Jennifer Lawrence – a única ovacionada em premiações, vencedora do Oscar de melhor atriz – já teve momentos mais marcantes (Inverno da Alma), mas até que defende com dignidade uma figura bastante simpática. E uma curiosidade é que o elenco teve todos os atores indicados ao Oscar, fazendo história: desde Reds, em 1981, um filme não concorria em todas as categorias de atuação. Porém, um importante feito no mínimo questionável.
Ainda que bastante decepcionante por sua abordagem convencional em todos os sentidos, O Lado Bom da Vida não deixa de ter a sua graça – até porque se não conseguisse ser bem sucedido com o homor aqui ou ali depois de tantas investidas, David O. Russell deveria se aposentar. É fácil torcer pela figura de Pat (muito pela interpretação de Cooper) e seus momentos com Tiffany são os pontos altos do longa. Isso quer dizer que, para um público mais abrangente, o filme é eficiente e, dentre os filmes em cartaz nesse início de ano, deve ser o que tem a melhor média de aprovação entre as plateias. Não dá para questionar, pois O Lado Bom da Vida se divide entre o básico e a complexidade, nunca se tornando segmentado. Porém, para todos os efeitos, nem sempre essa é uma boa escolha. Às vezes, é melhor abraçar decisivamente um perfil para não correr o risco de se tornar esquecível.
FILME: 6.0
Hitchcock
That, my dear, is why they call me the master of suspense.

Direção: Sacha Gervasi
Roteiro: John J. McLaughlin, baseado no romance “Alfred Hitchcock and the Making of Psycho”, de Stephen Rebello
Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Jessica Biel, Danny Huston, James D’Arcy, Michael Stuhlberg, Michael Wincott, Richard Portnow, Kai Lennox, Kurtwood Smith, Ralph Macchio
EUA, 2012, Drama, 98 minutos
Sinopse: Baseado no livro de mesmo nome, o filme vai mostrar como foram os bastidores do clássico Psicose, de Alfred Hitchcock. Na época, mesmo estando no auge de sua carreira, o cineasta não conseguiu apoio para realizar a obra porque os estúdios não queriam investir no gênero. O resultado foi uma produção praticamente independente, de baixo orçamento, rodada em preto e branco, que se tornou uma referência no cinema mundial. (Adoro Cinema)

Se é pra fazer, melhor fazer bem feito. Esse bordão pode muito bem servir de lição para Hitchcock, filme que, baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, propõe-se a narrar todo o processo criativo do filme Psicose e, claro, os bastidores profissionais e pessoais do diretor Alfred Hitchcock – considerado, até hoje, o imbatível mestre do suspense. O responsável por Hitchcock pode até ser desconhecido (Sacha Gervasi, cujo trabalho mais relevante foi o roteiro que fez para O Terminal, aquela comédia insossa com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones), mas os protagonistas são de respeito (Anthony Hopkins e Helen Mirren), a impressionante maquiagem fez o maior barulho na internet quando a primeira imagem foi divulgada e logo o filme cercou-se de expectativas. Só que bastou entrar em cartaz lá fora para que ninguém se entusiasmasse com o resultado. Na temporada de premiações, Hopkins foi ignorado e, estranhamente, Helen Mirren foi a única lembrada com indicações ao BAFTA, Globo de Ouro e SAG. A dura verdade é que, infelizmente, nada em Hitchcock merece aplausos: é basicamente um filme superficial e até mesmo com alma de caça-níquel. Se era prazer um filme homenageando uma figura tão icônica como Hitchcock, que se fizesse algo realmente bom… E não esse longa que poderia muito bem ser lançado diretamente em home video.
É sempre perigoso mexer com fatos reais, principalmente quando eles envolvem uma figura tão influente e quando o filme está se propondo a falar também sobre o cinema em si. E, afinal, o protagonista não é qualquer um: estamos falando de Alfred Hitchcock! Por isso, é de se lamentar que o trabalho já comece errado na própria construção técnica do personagem: a maquiagem, apesar de impecável ao transformar Anthony Hopkins no diretor, logo se mostra exagerada e incômoda. Serviria para uma estátua em um museu de cera, mas para um filme é um verdadeiro empecilho. Ao contrário do extraordinário trabalho feito com Meryl Streep em A Dama de Ferro, onde a maquiagem retratava anos na vida da personagem e, na velhice, casava-se com o trabalho corporal impecável de Meryl, em Hitchcock o resultado é sempre o mesmo – o que é, claro, compreensível, já que o longa narra um recorte da vida do protagonista. Porém, Anthony Hopkins parece ter a mesma expressão engessada o filme inteiro e ele não tem muito o que fazer ali. Ele tenta, mas termina exagerando nos movimentos com a boca e no próprio tom de voz, como se quisesse ultrapassar esse obstáculo que lhe foi imposto. Ou seja, quase toda culpa é da maquiagem e não necessariamente do ator.
Aliado a tudo isso, vem o roteiro de John J. McLaughlin, que ainda não dá tantas chances para Hopkins. A adaptação pode até ser bastante comportada, longe de ser polêmica, questionar verdades ou fazer barulho com o nome de Hitchcock, mas, por isso mesmo, termina linear demais, quase inexpressiva. Apesar de conhecermos não apenas os bastidores de Psicose mas também da própria vida pessoal de seu diretor, pouco sabemos como ele realmente era, uma vez que o texto deixa claro que somente o que Hitchcock representa basta, como se nada mais precisasse ser dramatizado ou intensificado. O máximo que faz é, volta e meia, apostar na comédia ou em excentricidades para explorar outras facetas do protagonista – o que não é necessariamente sinônimo de acerto ou eficiência. O próprio processo de produção de Psicose ainda é bastante raso: uma cena gravada aqui, outra ali (e sempre as clássicas, claro)… Uma curiosidade dos bastidores (Hitchcock não queria trilha no filme!) para chamar a atenção… E, de repente, já temos a primeira exibição.
É durante o processo de criação de Psicose que Hitchcock patina (no início e no final se segura bem nas formalidades de uma cinebiografia): ao invés de entrar nos detalhes do fazer cinematográfico desse gênio do cinema ou de mostrar como de fato ele e a obra em questão foram um marco para a época (o filme só mostra uma premiére bem sucedida ou o próprio diretor proclamando que o chamam de “o mestre do suspense”!), prefere falar sobre a neurose de Hitchcock com a sua esposa que, de repente, cansada do marido obcecado por trabalho, deixa de se importar com ele e resolve fazer algo que realmente lhe dê uma ocupação própria. Só que ela, interpretada por Helen Mirren com seu costumeiro talento, começa a se encontrar todos os dias com um escritor para trabalhar. Aí, de repente, Hitchcock se torna um filme sobre um homem que desconfia de traição! E essa pauta deve ser o centro do filme durante mais ou menos meia hora (sendo que a duração é de 93 minutos).
Não por acaso, lembrei de Marion Cotillard em Nine, que também fazia o papel de uma sofrida esposa que não conseguia ser feliz ao lado do marido diretor obcecado por cinema… Ela própria cantava lamentando: “Como ele precisa de mim! E ele vai ser o último a saber. Meu marido faz filmes. Para fazê-los, ele fica um pouco obcecado. Ele trabalha durante semanas a fio sem um pouco de descanso”. E, estranhamente, a pequena storyline de Marion (uma pérola dentro daquele fraquíssimo filme) conseguiu ser ainda mais eficiente e emotiva nessa proposta do que Hitchcock, um filme que tem boa parte de minhas lembranças dirigidas a uma história de… possível traição! O resultado, que balança entre o drama e a comédia, decepcionou em todos os sentidos e, não fosse cercado por tantos nomes importantes (ainda no elenco, nomes como Scarlett Johansson e Toni Collette), teria sido completamente esquecido. Não é uma produção ambiciosa, de mau gosto ou sequer ruim, mas talvez um pouco indiferente demais ao que está contando e até mesmo acomodada diante do verdadeiro acontecimento que foi Psicose e Alfred Hitchcock.
FILME: 6.0
As Sessões
I believe in a God with a sense of humor. I would find it absolutely intolerable not to be able to blame someone for all this.

Direção: Ben Lewin
Roteiro: Ben Lewin, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate”, de Mark O’Brien
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Annika Marks, Adam Arkin, Moond Bloodgood, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Tobias Forrest, Jarrod Bailey, Blake Lindsley, Rhea Perlman
Sinopse: Mark O’Brien (John Hawkes) é um escritor e poeta que, ainda criança, contraiu poliomielite. Devido à doença ele perdeu os movimentos do corpo, com exceção da cabeça, e precisa passar boa parte do dia dentro de um aparelho apelidado de “pulmão de aço”. Mark passa os dias entre o trabalho e as visitas à igreja, onde conversa com o padre Brendan (William H. Macy), seu amigo pessoal. Sentindo-se incompleto por desconhecer o sexo, Mark passa a frequentar uma terapeuta sexual. Ela lhe indica os serviços de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt), uma especialista em exercícios de consciência corporal, que o inicia no sexo. (Adoro Cinema)

Jornalista e poeta, Mark O’Brien teve poliomelite quando criança e ficou com o corpo paralisado do pescoço para baixo. Sua vida já havia sido retratada em um documentário de curta-metragem, Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien, de Jessica Yu, que chegou a vencer o Oscar em sua respectiva categoria em 1997. Agora, a vida de O’Brien recebe um enfoque diferente, dessa vez dramatizado, em um filme muito bem sucedido chamado As Sessões. Dirigido pelo polonês Ben Lewis, o longa estrelado por John Hawkes e Helen Hunt começou sua trajetória de sucesso no Festival de Sundance, onde ganhou merecidamente o prêmio especial do júri e do público. As Sessões é um filme que lida muito bem com a circunstância física do protagonista e com a trajetória emocional não só dele mas também de Cohen (Hunt), uma mulher especialista em “exercícios de consciência corporal”. Um pequeno grande acerto repleto de características que diferenciam sua abordagem de tantos outros relatos sobre um personagem como O’Brien.
As Sessões é, basicamente, sobre a descoberta sexual – mas também afetiva – do jornalista e poeta que, com mais de 30 anos, ainda era virgem. Lembro particularmente dessa temática em uma história secundária de Livre Para Voar, onde a personagem de Helena Bonham Carter queria saciar o seu desejo nunca realizado (devido a sua deficiência) de ter uma experiência sexual. É sempre muito humano ver histórias como essa (o recente Ferrugem e Osso também fala bastante do assunto), já que, normalmente, o cinema se preocupa muito mais em reproduzir as deficiências físicas para dar grandes chances a um ator do que de fato fugir do lugar-comum e fazer algo mais humano e menos apelativo. Por isso, é gratificante ver um longa como As Sessões, que pouco se preocupa em mostrar as lamúrias de um personagem que não consegue mover o corpo: o que interessa aqui é a sua humanidade e suas necessidades tão básicas como a de qualquer outro ser humano. Para isso, o diretor Ben Lewis traz uma visão espirituosa e leve da vida de O’Brien. Mas um espirituoso diferente de Intocáveis, por exemplo, que ficava constantemente fazendo humor com a condição de um de seus protagonistas.
Talvez o carisma do filme também se deva muito ao do próprio O’Brien, sujeito que, mesmo com tantas inseguranças e algumas ingenuidades, tinha uma visão positiva da vida. Comunicativo e bem humorado, era uma figura cativante, o que é bem explorado pelo roteiro de As Sessões, baseado no artigo “On Seeing a Sex Surrogate” (publicado na revista Sun em 1990). Mas voltemos ao assunto que é o mote do filme: a relação dele com a especialista Cohen. Em seis sessões (número máximo definido por ela), ele aprenderá tudo sobre o ato sexual e sobre como fazê-lo em sua condição física. Ao longo das sessões, ele passa não apenas a desenvolver esses objetivos como também a conhecer melhor a própria Cohen. Surge, então, uma dinâmica genuína de cumplicidade, retratada por um diretor que retrata a questão sexual com naturalidade e que nunca se aproveita de toda a circunstância para se aproveitar do emocional. Na realidade, a emoção de As Sessões é resultado das próprias personalidades dos personagens e da relação um tanto inusitada à primeira vista estabelecida por eles.
John Hawkes dá um show de discrição como Mark O’Brien, em uma interpretação cheia de desenvoltura. Antes fosse apenas um trabalho corporal: o ator, que começou a ser reconhecido por Inverno da Alma está sempre em plena sintonia com a igualmente eficiente Helen Hunt – uma atriz que nunca conseguiu emplacar depois de Melhor é Impossível e que aqui tem o seu melhor momento em anos. Ambos demonstram plena entrega aos papeis, principalmente ela, que é frequentemente vista totalmente nua, sem qualquer preocupação com vaidades. Se As Sessões tem seus melhores momentos quando os dois estão juntos, a história também se sustenta muito bem narrando a vida separada dos dois. Só que o mais importante é como o resultado nunca chega à linha do previsível em qualquer aspecto: a história não é quadrada como uma biografia, não confunde seu clima espirituoso com comédia e não tem grandes pretensões de fazer algo genial. É um filme que tem um resultado certeiro dentro de sua estrutura linear e que conquista justamente por essa cativante simplicidade.
É uma excelente surpresa que, uma vez ou outra, parece flertar além da conta com o emotivo e com o melodrama mas que, ao invés de soar irritante, até consegue emocionar (principalmente nos minutos finais). Isso porque As Sessões está longe de querer ser uma lição de vida e de se preocupar em esmiuçar desnecessariamente alguns fatos, como o fato de Cohen ajudar pessoas com deficiência a desenvolver conhecimento prático sobre o ato sexual mesmo sendo casada e prestes a se converter ao judaísmo. A religião, por sinal, não é um dos pontos fortes do longa: o que se reflete na figura do padre vivido por William H. Macy, quase um “anexo” do que está sendo narrado. Entretanto, o importante do filme de Ben Lewis é a preocupação em falar sobre o ser humano, sobre os pequenos detalhes da vida… Um pequeno filme que coloca todos no mesmo patamar, onde a condição do protagonista é apenas pretexto para que se fale sobre sentimentos, frustrações e esperanças. Especial em sua humildade, As Sessões merece reconhecimento pela forma humana com que lida com questões tão delicadas.
FILME: 8.5


