A Morte do Demônio
You… have… to get me… out of here.

Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez e Rodo Sayagues, baseado no roteiro de Sam Raimi para o filme homônimo de 1981
Elenco: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Lou Taylor Pucci, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore, Sian Davis, Jim McLarty, Phoenix Connolly, Randal Wilson, Stephen Butterworth, Karl Willetts
Evil Dead, EUA, 2013, Terror, 91 minutos
Sinopse: Mia (Jane Levy) é uma garota viciada em drogas. Ela é levada pelos amigos Olivia (Jessica Lucas) e Eric (Lou Taylor Pucci) para uma cabana isolada na floresta, no intuito de realizarem uma longa cura de desintoxicação. Para a surpresa de todos, o irmão de Mia, David (Shiloh Fernandez), rapaz afastado dos amigos e familiares há tempos, também aparece, junto de sua namorada, Natalie (Elizabeth Blackmore). Entretanto, eles são surpreendidos ao descobrirem que a cabana havia sido invadida, e que o porão parece uma espécie de altar grotesco, repleto de animais mortos. Lá eles encontram um livro antigo, trancado. Atraído, Eric resolve abri-lo e lê-lo em voz alta, sem imaginar as consequências de seus atos. Mia começa a manifestar um comportamento estranho, interpretado no início como sintoma da abstinência. No entanto, aos poucos, todos percebem que uma força demoníaca se apoderou de seu corpo. (Adoro Cinema)

O cenário já é conhecido: a casa caindo aos pedaços no meio de uma floresta isolada de tudo e de todos. Mais conhecido ainda é quem protagoniza a história dentro dela: um grupo de jovens com diferentes personalidades. E é claro que, mesmo com situações que já assustariam qualquer pessoa sã, eles vão inventar uma desculpa para permanecer lá. E quando os jovens finalmente se dão conta que a situação ficou feia, surpresa! Uma enchente deixa a estrada submersa, impedindo-os de sair daquele lugar. Bom, em tempos que Mama nos lembra que o terror estadunidense nada mais faz do que reciclar elementos do gênero da forma mais desleixada possível, era no mínimo compreensível esperar que todas essas situações afundassem A Morte do Demônio, refilmagem do filme homônimo de 1981 dirigido por Sam Raimi. Mas como é bom ser surpreendido, não é mesmo? Mais do que isso: como é gratificante sentir um filme de terror! Isso mesmo: A Morte do Demônio fisga o espectador pela angústia, supera as expectativas e ainda consegue ser o melhor exemplar do gênero em anos.
Os fãs do filme original podem ficar tranquilos. Mesmo com o envolvimento de Sam Raimi na produção (o diretor agora é o uruguaio Fede Alvarez), A Morte do Demônio não dialoga diretamente com o filme original dos anos 1980. E é até meio injusto tecer comparações entre os dois, simplesmente porque a obra dirigida por Raimi – incluindo a continuação – hoje já não mete medo em ninguém e é mais lembrada em função de seu humor involuntário e de sua vertente “terrir”. Não é o que acontece com o filme de Fede Alvarez, que pode até ter um senso de diversão bastante apurado – ainda que nunca escancarado ou propositalmente elaborado para causar risadas – mas que tem as suas qualidades centradas justamente na habilidade de colocar o espectador em plena angústia. Por isso, é bom preparar os nervos: Alvarez faz jus à classificação etária máxima e não poupa ninguém ao mutilar personagens e banhar todos em sangue. O melhor de tudo é que todas essas situações nunca parecem exageradas para os padrões do gênero e muito menos descambam para o gore (ok, aqui ou ali sim, mas nada que prejudique) ou para o ridículo. Em termos de violência, A Morte do Demônio sabe até onde deve ir – o que, nos dias de hoje, é algo a ser bastante valorizado.
Sobrevivendo com louvor aos tais detalhes que poderiam minar a paciência de plateias mais exigentes, o longa também tem propostas muito simples em termos de história de terror (possessão, bruxaria, livro de profecias, uma morte a cada 15 minutos), mas o diretor uruguaio apresenta uma desenvoltura impressionante ao manipular todos os bons elementos que colocam enredos desse estilo em outro patamar. Nos primeiros momentos, A Morte de Demônio parece ser uma falsa promessa com suas introduções rasas de dramas e personagens. Porém, basta o tal espírito do mal possuir a personagem principal vivida por Jane Levy para que tudo se ajeite. E não demora muito para que o espectador se encontre em uma nervosa jornada, muito em função da facilidade com que Fede Alvarez torna a violência e o perigo bastante críveis. Dá para sentir que a morte é realmente algo a se temer – o que deveria ser a lógica de todo bom filme de terror. Ponto mais uma vez para o filme que, ainda aliado a um bom trabalho de produção, não deixa que o sangue, por exemplo, vire motivo de risadas como em Kill Bill. Aqui parece de verdade mesmo. Isso conta, e muito!
Com tantos pontos positivos, procurar aspectos para não curtir o filme só tira todo o entretenimento da experiência. Quem se entregar aos pregos, injeções, vômitos e serras elétricas certamente vai encontrar em A Morte do Demônio um dos mais interessantes filmes de terror do cinema recente. O diretor uruguaio sabe exatamente o que o espectador quer – e está precisando depois de uma enxurrada de exemplares falhos -, entregando um longa-metragem direto ao ponto. Ele compreende, acima de tudo, que damos uma chance ao terror porque todos nós temos um lado masoquista. Nós queremos sofrer no cinema, ter nossos limites testados. E, depois de um bom tempo sem ver um exemplar assim, o cinema encontra esse A Morte do Demônio apresentando subsídios para que o espectador saia mais do que satisfeito da sessão nesse sentido. Que bom que não são apenas os filmes de língua latina que ainda conseguem nos deixar tensos (para não citar apenas [REC], também sugiro A Casa). Assim, fica registrada aqui a nossa torcida para que façam outros filmes bem ambientados e executados certeiramente como esse A Morte do Demônio.
FILME: 8.5
Rapidamente

CINDERELA BAIANA (idem, 1998, de Conrado Sanchez): Hoje é visto como um clássico trash do cinema brasileiro, mas na época do lançamento não deve ter sido lá muito engraçado. E, mesmo hoje, tudo é muito sofrido: dá até para se divertir aqui ou ali com uma bobagem, mas, no geral, só testa a paciência do espectador. Renegado pela própria Carla Perez, o filme foi um verdadeiro fiasco de bilheteria, e dá para entender o porquê. Cinderela Baiana simplesmente não é cinema – e não se encaixa nesse universo porque nada faz sentido na história dirigida por Conrado Sanchez. Todos os personagens tem uma notável escalada social e profissional (o que anula a existência de qualquer conflito, já que todos vencem na vida) e é muito questionável a forma um como certas cenas são desenvolvidas: afinal, é drama ou comédia? Vamos também considerar o fato de que Cinderela Baiana dedica 80% de sua duração a acompanhar cenas de dança infinitas que nada acrescentam sequer ao mundo musical tão almejado pela protagonista. O elenco é também um destaque dos horrores: de Carla Perez a Alexandre Pires, todos são incrivelmente ruins. Mas o mistério mesmo é saber de onde Perry Sales tirou tanto fôlego para gritar o tempo inteiro como o vilão maquiavélico que, por ganância, marca dois shows para a protagonista em dois países diferentes no mesmo horário.
HOJE (idem, 2012, de Tata Amaral): Infelizmente, Denise Fraga é mais conhecida pelo quadro cômico Retrato Falado, do Fantástico, do que por seus atributos como atriz dramática. E Hoje é uma bela maneira de conhecer toda essa vertente da carioca que é pouco conhecida pelo grande público. O filme de Tata Amaral é quase que inteiramente encenado em um apartamento, apoiado na dinâmica entre Fraga e o uruguaio César Troncoso. Mesmo com uma breve duração (não são nem 90 minutos), Hoje é quase arrastado, muito em função de ser um filme bastante silencioso e construído apenas em cima de diálogos. Por falar em diálogos, o texto se sai bem ao lidar com várias questões, desde a forma como a ditadura afetou o casal principal aos acertos de contas dos dois com o passado e a vida. Mas a verdade é que Tata Amaral se sai muito melhor quando fala sobre sentimentos. A temática da ditadura aqui foge de discussões banais, mas é quando o filme resolve mostrar como essa terrível fase da história brasileira transformou emocionalmente os personagens durante os anos posteriores é que o filme ganha um fôlego diferenciado. E Denise Fraga, claro, aproveita cada minuto em uma interpretação que já deve figurar entre as mais importantes de sua carreira.
OBLIVION (idem, 2013, de Joseph Kosinski): Em Tron: O Legado, o diretor Joseph Kosinski já havia provado ter uma aptidão muito grande para filmes de ficção. E, com Oblivion, ele continua demonstrando esse talento. No entanto, Kosinski precisa urgentemente de roteiros melhores. Nessa nova produção estrelada por Tom Cruise, o diretor não tem muito o que fazer com um roteiro que não consegue casar uma abordagem mais contemplativa e “cabeça” com os momentos de ação. O resultado é um filme estranho, cansativo, quase tedioso, que, ao longo de 130 minutos, raramente empolga. A trilha de M83, o visual e as escolhas de Kosinski estão ali fazendo uma ótima ambientação, mas a história beira o desinteressante e a má execução de vários elementos da história impede que Oblivion seja sequer um esquecível filme-pipoca. Sem falar que os mais atentos vão perceber várias propostas escancaradamente copiadas, especialmente aquelas envolvendo o mundo de Lunar, exemplar filme de ficção dirigido por Duncan Jones. O trabalho de Kosinski é cheio de boas intenções, mas, infelizmente, o resultado é dos mais decepcionantes.
O SOM AO REDOR (idem, 2012, de Kleber Mendonça Filho): Começou sua trajetória no 40º Festival de Cinema de Gramado (onde levou melhor filme pelo júri popular e da crítica, entre outros) e, aos poucos, ganhou o Brasil e também o mundo – chegando a ficar no TOP 10 de melhores filmes do ano do New York Times. E as honrarias para O Som ao Redor são mesmo merecidas, especialmente porque poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma radiografia tão bem realizada sobre uma comunidade específica. Dirigido por Kleber Mendonça Filho – que fez carreira como crítico de cinema e hoje está atrás das câmeras – o filme é todo de personagens que dividem uma zona em comum, sem necessariamente destinar tramas isoladas a cada um deles. A simetria de O Som ao Redor é, possivelmente, o ponto alto do filme: aqui, ninguém sobra ou falta e impressiona a segurança com que Kleber conduz esse elemento tão importante, indo e voltando na vida dos personagens sem deixar pontas soltas. Ou seja, tudo que é mostrado tem alguma razão de estar ali. Não é o tipo de filme que desperta grandes sentimentos – aí cabe a você decidir até que ponto isso é bom ou ruim – mas, certamente, deve ser reconhecido por sua notável harmonia entre roteiro e direção.
Ferrugem e Osso

Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain, baseado em história de Craig Davidson
Elenco: Matthias Schoenaerts, Marion Cotillard, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero, Bouli Lanners, Jean-Michel Correia, Fred Menut, Mourad Frarema, Katia Chaperon, Yannick Choirat
De Rouille et d’os, França/Bélgica, 2012, Drama, 122 minutos
Sinopse: Ali (Matthias Schoenaerts) está desempregado e vive com o filho, de apenas cinco anos. Ele parte para a casa da irmã em busca de ajuda e logo consegue um emprego como segurança de boate. Um dia, ao apartar uma confusão, ele conhece Stéphanie (Marion Cotillard), uma bela treinadora de orcas. Alain a leva em casa e deixa seu cartão com ela, caso precise de algum serviço. O que eles não esperavam era que, pouco tempo depois, Stéphanie sofreria um grave acidente que mudaria sua vida para sempre. (Adoro Cinema)

A história de Ferrugem e Osso é essencialmente trágica: de um lado, Stéphanie (Marion Cotillard), uma treinadora de orcas que perde as duas pernas em um acidente de trabalho; de outro, Ali (Matthias Schoenaerts), sujeito solitário que veio da Bélgica com o filho pequeno e tenta se encontrar na vida, seja como pai ou como um simples trabalhador para conseguir sustentar o pequeno. Os mundos de Stéphanie e Ali se encontram e os dois passam a encarar a vida com uma outra percepção. Ferrugem e Osso, caso fosse produzido em solo estadunidense, teria grandes chances de ser um filme trabalhado em cima de melodramas. Mas em território francês, onde foi dirigido por Jacques Audiard (vencedor de vários prêmios por O Profeta), o resultado é justamente o oposto, onde a depressão é substituída por uma louvável sutileza, em um longa que utiliza a tragédia como pretexto para falar sobre esperança.
Acompanhamos, na realidade, a reconstrução de duas vidas, especialmente a de Stéphanie, cuja dolorosa situação é mostrada com muita naturalidade, sem maiores coitadismos. E Marion Cotillard também se desnuda de qualquer vaidade para mostrar com o máximo de verossimilhança a vida dessa mulher que antes, como ela mesmo aponta, era capaz de virar a cabeça de qualquer homem e que, hoje, está praticamente sozinha tentando simplesmente… viver. E a entrada de Ali em seu universo traz o que existe de mais belo em Ferrugem e Osso: ao contrário do que os críticos e o próprio filme (em cartazes e trailers) tentam vender, não estamos necessariamente diante de uma história de amor, mas sim de companheirismo. Convivendo com Stéphanie sem qualquer preconceito ou sentimento de pena, o personagem nos lembra que pessoas como ela não precisam apenas de ajuda física, de segurança, amizade e conforto emocional. Precisam de alguém presente. Sempre.
Selecionado para a mostra competitiva da 65ª edição do Festival de Cannes, Ferrugem e Osso é, em linhas gerais, um filme sobre redenção e segundas chances. Só que além de acertar nessa opção dramática, o longa de Jacques Audiard também é muito bem sucedido na estrutura: o resultado consegue ser certeiro ao trabalhar os personagens juntos ou individualmente. Nós torcemos por Ali e Stéphanie e queremos que eles vençam na vida, mesmo que isso não esteja atrelado ao foto do relacionamento dar certo. Ferrugem e Osso ainda leva a devida calma para desenvolvê-los, mostrando pequenos momentos do cotidiano de forma bastante naturalista – e, por isso mesmo, especial. Cada momento ou pequena felicidade mostrada pelo roteiro de Jacques Audiard e Thomas Bigedain diz um pouco mais sobre cada um deles.
Marion Cotillard (muito subestimada depois de Piaf – Um Hino ao Amor) e Matthias Schoenaerts realizam um trabalho admirável e em plena sintonia com a proposta de Ferrugem e Osso. Cotillard, em um belo momento, tem uma interpretação de minúcias. A francesa, que só tem uma cena mais “apelativa” do ponto de vista dramático, cria uma personagem toda trabalhada em detalhes: sua Stéphanie não precisa chorar ou sorrir a todo momento. E Cotillard, sempre muito expressiva com apenas um olhar, impressiona com a velha lógica de que menos é sempre mais. Schoenaerts não fica atrás e está muito humano ao lado de Cotillard. Seu papel não está em uma situação tão atípica quanto ao de Cotillard, mas mesmo assim conquista o espectador, especialmente em função de seu perfil sensível, mesmo que perdido.
Perto do desfecho, o longa parece seguir um caminho diferente, praticamente esquecendo Cotillard para dar mais destaque a Schoenaerts. Por um lado, é uma boa escolha, já que a angustiante cena no rio congelado é simplesmente exemplar em sua execução, mas, por outro, priva Ferrugem e Osso de ter um final mais contundente – e isso se reflete nos últimos minutos, que, ilustrados por uma narração em off, parecem apenas costurar formalmente a preterição da atriz. As falhas só ficam mais evidentes nesse ato final, mas, mesmo assim, Ferrugem e Osso nunca deixa de demonstrar plena sutileza no roteiro, nas atuações e na direção – o que certamente vai surpreender quem, por tantas razões e pelo lindíssimo trailer britânico, esperava algo mais lacrimoso. Tudo isso, aliado a uma excelente fotografia, torna a experiência no mínimo inspiradora. Afinal, até Firework, canção da cantora pop Katy Perry, consegue ter um valor simbólico aqui. O tom europeu fez toda a diferença para o que é contado em Ferrugem e Osso.
FILME: 8.5

Anna Karenina
Anna isn’t a criminal, but she broke the rules.

Direção: Joe Wright
Roteiro: Tom Stoppard, baseado no romance homônimo de Leo Tolstoy
Elenco: Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Jude Law, Kelly Macdonald, Matthew Macfayden, Michelle Dockery, Marinne Batier, Olivia Williams, Emily Watson, Ruth Wilson, David Wilmot, Henry Lloyd-Hughes, Pip Torrens
Inglaterra, 2012, Drama, 129 minutos
Sinopse: Século XIX. Anna Karenina (Keira Knightley) é casada com Alexei Karenin (Jude Law), um rico funcionário do governo. Ao viajar para consolar a cunhada, que vive uma crise no casamento devido à infidelidade do marido, ela conhece o conde Vronsky (Aaron Johnson), que passa a cortejá-la. Apesar da atração que sente, Anna o repele e decide voltar para sua cidade. Entretanto, Vronsky a encontra na estação do trem, onde confessa seu amor. Anna resolve se separar de Karenin, só que o marido se recusa a lhe conceder o divórcio e ainda a impede de ver o filho deles. (Adoro Cinema)

Com apenas cinco longa-metragens no currículo, o britânico Joe Wright já consolidou um estilo muito claro. Por mais que, de vez em quando, insista em comandar histórias contemporâneas, o seu forte mesmo é o universo das produções de época. Filmes como O Solista e Hanna murcham frente a toda elegância e sentimento que podemos ver em Orgulho e Preconceito e, principalmente, Desejo e Reparação. Seu mais recente trabalho, Anna Karenina, não está à altura do que já realizou de mais precioso, mas consegue, pelo menos, reafirmar todo o estilo e firmeza de Wright para filmes de época. Na terceira parceria com Keira Knightley como musa, o diretor nunca esteve tão seguro de seus talentos como realizador de obras do gênero, apresentando uma estética cada vez mais minuciosa e uma linguagem técnica que chega ao nível do incomparável. A obra, porém, em termos de dramaturgia, não engrena – o que, infelizmente, tira as chances de Anna Karenina se tornar uma experiência transcendente.
Todo o apuro visual visto nessa mais recente adaptação do clássico romance homônimo de Leo Tolstoy também é resultado de grandes parcerias que Joe Wirght veio firmando nos últimos anos. Aqui, repete-se o trabalho de trilha com o italiano Dario Marianelli, a elaboração de figurinos com Jaqueline Durran (vencedora do Oscar 2013 pelo que realizou aqui) e a concepção de fotografia com Seamus McGarvey. É o auge do requinte em toda a filmografia do britânico, principalmente porque, em Anna Karenina, tais elementos estão a serviço de uma proposta muito mais ousada: das liberdades narrativas proporcionadas por encenações em ambientes teatrais a todas as escolhas pensadas exclusivamente para trazer um ar mais do que clássico para o filme, a técnica se consolida junto a um impressionante trabalho de cenografia. Mais ainda: tudo o que existe de teatral em Anna Karenina funciona também cinematograficamente porque só tem a acrescentar ao clima proposto e ao que está sendo contado (vale destacar a belíssima cena do baile, o ponto alto do filme). É uma opção de estilo perigosa, mas que Wright soube conduzir com grande precisão.
Conforme Anna Karenina se desenvolve, é possível pensar que toda essa meticulosa e inigualável técnica está caminhando lado a lado com uma história igualmente interessante. Não existe nada de muito novo na história da mulher que, contra todos as “regras” da época que vive, resolve trair o marido com um garoto mais jovem. Mas o objetivo do roteiro de Tom Stoppard não é surpreender e sim recontar a história de um jeito tradicional. E se, durante um bom tempo, o texto conversa diretamente com a linguagem estética de Joe Wright, envolvendo o espectador na atração proibida de Anna (Keira Knightley) por Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), logo tudo vira um chororô enjoado quando se encaminha para a segunda parte já conhecida da história: aquela em que a protagonista resolve se entregar à paixão. Aí, a indefectível técnica fica apenas com a missão de dar um toque especial a uma história que, mal conduzida, vira praticamente uma novela repetitiva, suscetível a poucas análises e compaixões do espectador. O roteiro de Stoppard divide Anna Karenina: de um lado, um filme promissor em todos os sentidos; de outro, uma experiência frustrante por não manter um diálogo harmônico entre todos os aspectos
O deslumbre – que nunca sufoca o filme – merecia uma conclusão melhor e, principalmente, um elenco mais apropriado. Não podemos dizer que os atores de Anna Karenina estão em um mau momento, mas eles simplesmente não dão a devida força para seus personagens – o que se torna ainda mais evidente na segunda parte da história, onde o enredo exige muito mais deles. Keira Knightley sustenta vestidos de época como ninguém, mas repete papel, dificilmente convence por completo e não dá a dimensão ideal para uma personagem que poderia se tornar clássica nas mãos de uma atriz mais competente. Jude Law, que só murchou nos últimos anos, surge novamente inexpressivo como o marido traído da protagonista, nunca o construindo como uma figura forte ou frágil, amedrontadora ou alentadora. Completando o triângulo amoroso, vem o jovem Aaron Taylor-Johnson, o menor dos problemas, mas também igualmente indiferente. Entre os coadjuvantes que surgem apenas para dar o ar da graça, encontramos: Emily Watson, precisando de um papel digno há horas, e Michelle Dockery, a iluminada lady Mary Crawley do seriado Downton Abbey. Ou seja, Anna Karenina não é um filme de elenco.
Retomando a conversa sobre Joe Wright, acredito que seja importante analisar Anna Karenina de uma maneira bastante específica: existe o diretor e o resto. Se em Desejo e Reparação praticamente tudo se ligava em uma história que tinha visual arrebatador e um coração grandioso, aqui o resultado é muito mais racional. A refilmagem flerta com a frieza – e só não assume tal característica de vez porque todo o estilo cria uma atmosfera de encantamento que é difícil ficar indiferente. O que acontece é que toda essa visceralidade magnificamente apresentada em elementos como trilha (outro trabalho grandioso de Marianelli!), fotografia, figurino e direção de arte nunca se repercute no texto de Tom Stoppard. A direção orquestra tudo com precisão, mas a “música” do roteiro não é lá tão interessante. Portanto, o que fica mesmo desse elegante Anna Karenina é a prova de que Joe Wright é um cara que sabe o que faz e que sempre merece toda a atenção do mundo para o seu desempenho atrás das câmeras. Vendo dessa forma, talvez Anna Karenina baste.
FILME: 7.0
Mama

Direção: Andrés Muschetti
Roteiro: Neil Cross, Andrés Muschetti e Barbara Muschetti, baseado em história de Andrés Muschetti e Barbara Muschetti
EUA, 2013, Terror, 100 minutos
Sinopse: Quando o pai de Victoria e Lilly mata a mãe das garotas, as crianças fogem assustadas para uma floresta. Durante cinco anos, ninguém tem notícia do paradeiro delas, até o dia em que elas reaparecerem, sem explicarem como sobreviveram sozinhas. Os tios das duas, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) e Annabel (Jessica Chastain) adotam Victoria e Lilly e tentam dar uma vida tranquila às duas, mas logo eles percebem que existe algo errado. As duas conversam frequentemente com uma entidade invisível, que chamam de “Mama”. Lucas e Annabel não sabem se acreditam nas meninas, ou se devem culpá-las pelos estranhos acontecimentos na casa. (Adoro Cinema)

Vou fazer uma confissão: não tenho o costume de me familiarizar com o gênero terror, seja por nunca ter me interessado de fato por sofrer na sala de cinema ou por ter visto exemplares suficientemente empolgantes. Sim, é um pouco de cada, mas me distancio cada vez mais do terror porque, nos últimos, tornou-se inacreditável a quantidade de filmes ruins do gênero que são produzidos. No cinema estadunidense, então, nem se fala. O último exemplar que realmente me deu medo veio, na realidade, da Espanha, com o excelente [REC]. Entretanto, por alguma razão que não consigo explicar, resolvi dar uma chance para esse tal de Mama. Não, não foi para ver Jessica Chastain de roqueira com camiseta do Misfits – até porque nem ela se salva aqui. De qualquer forma, paguei caro por essa insistência descabida: nem bem transcorridos 20 minutos, eu já me perguntava o que estava fazendo frente ao longa.
Sim, o trabalho do diretor Andrés Muschietti é mais um do gênero que falha em criar tensão, elaborar uma história decente e prender o espectador. Tudo o que acontece é justamente o oposto: não demorou muito – pelo menos na minha sessão – para que a plateia começasse a rir das situações apresentadas. Rir não de nervoso, mas de humor involuntário mesmo. Pois verdade seja dita, Mama é um filme mal contado e repleto de clichês. Tolo, para ser mais preciso. E, ainda que tenha o nome de Guillermo Del Toro na produção executiva, a participação do diretor em nada é um bom indício visto que, recentemente, ele integrou a equipe de outro terror aborrecido: Não Tenha Medo do Escuro.
Dito isso, vamos ao filme. Adaptado do curta Mamá, do próprio Andrés Muschietti, essa versão em longa-metragem sofre do problema mais corriqueiro em adaptações do tipo: a história não se sustenta em um formato maior. Se, no curta, a ideia das garotinhas que foram criadas por “Mama”, um fantasma egoísta e maquiavélico que não quer humanos perto de suas “filhas”, já parecia algo não muito instigante, em um formato mais ambicioso a situação só piora. Nada em Mama chama a atenção, principalmente porque todas as desculpas e motivações apresentadas pelo roteiro escrito por Neill Cross, André Muschietti e Barbara Muschietti são completamente esfarrapadas. A disputa pela guarda das crianças é rasa, os coadjuvantes são nada mais que mera formalidades e todo o contexto é frouxo – especialmente quando a protagonista se vê obrigada a ficar sozinha em casa com as menininhas.
O pior de tudo, no entanto, é acompanhar um terror cuja tensão nunca se consolida. Já não bastasse a trilha de Fernando Velázquez ser praticamente nula de tão previsível (o que é uma pena, visto que, recentemente, ele foi certeiro ao transbordar emoção em O Impossível), os sustos são praticamente inexistentes (quando não presentes pelas maneiras óbvias com um vaso quebrando ou algo do gênero) e a figura da Mama nunca causa medo. E eis, aí, uma das armadilhas mais comuns que o filme não escapar: ao invés de apostar na sempre certeira lógica de deixar o espectador imaginar como seria uma figura desconhecida, Mama logo entrega de bandeja a forma do tal fantasma, anulando qualquer chance de tensão com o personagem excessivamente computadorizado que parece vindo diretamente de um videogame. O diretor, portanto, erra nas circunstâncias e no terror em si – e assim fica difícil ter boa vontade para relevar as demais fragilidades.
Misturando previsíveis elementos de criancinhas, casa na floresta e fantasmas, Mama é dispersivo e não deixa o espectador muito convencido de qual o principal conflito da história. Afinal, o que move o suspense? E como ficar curioso por uma resolução se não nos importamos nem pelo seu desenvolvimento? A direção frouxa, o roteiro mal elaborados e os efeitos pouco imaginativos afundam esse filme que fez sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Curiosamente, na época de seu lançamento, Mama dividiu as atenções com o drama A Hora Mais Escura. Ou seja, Jessica Chastain liderava duplamente as bilheterias. Ponto positivo com um e vergonha desnecessária com outro. É um mistério o envolvimento dela com esse “terror”: Chastain não combina com Mama e pouco ameniza o resultado desse filme esquecível que, para os mais exigentes como eu, é uma completa bobagem – a maior do ano até agora, arrisco dizer.
FILME: 2.0

