41º Festival de Cinema de Gramado: Os Amigos, de Lina Chamie

Uma águia vive, em média, 70 anos. Quando chega aos 40, renova o bico e as asas, preparando-se, de certa forma, para viver os 30 anos restantes. Isso se aplica ao protagonista de Os Amigos que, como bem explica um personagem coadjuvante, pode estar muito bem entrando nessa mesma fase. O tal sujeito em transformação é Theo (Marco Ricca), arquiteto que que parece estar chegando aos 40 anos da águia. Essa transição de sua vida fica mais evidente no dia em que ele precisa, pela manhã, ir ao velório de um amigo de infância – o que vai lhe trazer muitas reflexões e lembranças ao longo dessas próximas horas cinzentas e chuvosas. Lembrando uma conhecida proposta que já vimos em longas como As Horas, Os Amigos narra, assim, um único dia na vida de um homem. E, nesse dia, toda a sua vida.
Para começo de conversa, já se deve salientar que o novo trabalho da diretora Lina Chamie (que dirigiu filmes como A Via Láctea, selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes, em 2007) nunca abraça por completo um determinado perfil. Não tão complexo quanto deveria ser mas também nada necessariamente superficial para classificar como esquecível, Os Amigos opta frequentemente por inventividades (como as crianças encenando a mitologia de Ulisses no teatro) para logo depois se apoiar em dramas mais convencionais. Em certos casos, alcançar um meio termo é saudável, mas, aqui, essa história em cima do muro deixa o filme sempre no quase.
Muito em função de suas variações de intensidade, Os Amigos não só perde a chance de ser marcante como também de ser um belo estudo sobre as amizades como a família que escolhemos. Mas o filme tem sua sensibilidade – e não reconhecê-la é no mínimo uma injustiça com o perceptível carinho com que a diretora realizou essa obra. Tem sensibilidade especialmente porque é fácil gostar do protagonista, consequência direta do ótimo desempenho de Marco Ricca, um ator que não chega a trazer entusiasmo mas que nesse filme tem uma bela chance. É difícil lembrar outro momento seu em que esteve tão bem, conseguindo misturar com naturalidade a humanidade, a melancolia e o pessimismo de um protagonista.
Ricca tem suas chances porque Os Amigos se revela um filme mais sobre seu personagem do que sobre as amizades que ele estabelece. É sobre suas angústias, questionamentos e frustrações. O elenco de suporte ainda é um destaque, mais pelos rostos conhecidos do que necessariamente por chances particulares. Com exceção de Dira Paes (que é sempre bem-vinda e tem sua importância no enredo), outros aparecem apenas para dar o ar da graça, como Sandra Corveloni, Alice Braga e Caio Blat. Todos esses personagens estão em uma São Paulo exatamente como ela é: trânsito caótico, constante movimento, arquiteturas grandiosas… E ainda uma certa dose de isolamento no meio de tanto fluxo.
Se fosse um estudo específico de seu protagonista, Os Amigos ganharia mais. O que acontece é que vários elementos elementos esporádicos não chegam a acrescentar muito para a trama apesar das tentativas, com destaque para aqueles que envolvem o elenco infantil. A encenação da odisseia de Ulisses em um teatro e outros diálogos com os atores mirins são um tanto inconvincentes porque é difícil acreditar que pessoas tão novas possam fazer comparações e metáforas adultas. Ainda em relação as crianças, uma cena em particular perde a chance de ter sua devida dose de emoção em função da insistência em mostrar o protagonista se vendo criança: aquela em que Theo reencontra o amigo no reflexo do espelho, dizendo que sente muito a sua falta.
Os Amigos é, enfim, uma história que tem seus momentos (as reflexões e os questionamentos desse homem solitário em uma grande metrópole nunca soam forçados) e que conta com um ótimo protagonista, mas faltou uma pegada, uma decisão de escolher ser totalmente complexo ou definitivamente mais leve. Esse impasse não liquida os méritos de Os Amigos e muito menos impede o filme de ter o seu público. No entanto, para todos os efeitos, o título indicava algo diferente… Talvez mais saudosista e nostálgico? No que vimos, tivemos apenas um bom retrato de um homem de meia-idade em busca de si mesmo.
FILME: 7.5
* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado
Flores Raras
Lose something every day.

Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Carolina Kotscho, Julie Sayres e Matthew Chapman, baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Lucia de Oliveira
Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Treat Williams, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Anna Bella, Marcio Ehrlich, Griffin Addison
Brasil, 2013, Drama, 118 minutos
Sinopse: A história de amor entre Elisabeth Bishop (poeta americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956) e Lota de Macedo Soares (“arquiteta” carioca que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo). Ambientado no Brasil dos anos 50 e 60, quando a Bossa Nova explodia e Brasília era construída e inaugurada, o longa acompanha a história dessas duas grandes mulheres e suas trajetórias inversas.

As armadilhas envolvendo Flores Raras não eram poucas. Além de contar uma história de amor entre duas mulheres (alguém lembra do tema ser tratado com a devida dignidade pelo cinema nacional?), o filme de Bruno Barreto também é baseado em figuras reais – sendo uma delas Elizabeth Bishop (Miranda Otto), marcante poeta do século XX. Por isso, era perfeitamente compreensível se o longa ficasse abaixo da média, caísse em estereótipos de uma relação homossexual ou ficasse cansativo ao transpor para o cinema a poesia da nova iorquina. Felizmente, não é o que acontece com Flores Raras, um filme que surpreende pela maturidade e pela sutileza com que desenvolve temas tão complicados com o devido êxito (e, ao contrário do que aparenta, a homossexualidade está longe de ser a principal engrenagem).
Exibido na abertura do 41º Festival de Cinema de Gramado, Flores Raras escapa das armadilhas que tinham tudo para torná-lo um fracasso. No relacionamento entre as duas protagonistas, consegue universalizar o amor. No processo criativo da poeta Bishop, apresenta a obra da escritora com o devido interesse. Só que antes de amor homossexual ou poesia, o filme de Bruno Barreto é sobre duas pessoas desencontradas – e que talvez só tenham acertado os ponteiros no momento em que se apaixonaram. Lota (Glória Pires) e Bishop (Otto) eram de mundos completamente diferentes. Também não tinham as mesmas visões de mundo e se expressavam de maneiras distintas. Ainda faltava sintonia: quando uma dizia sim, a outra apostava no não. Quando a incapacidade de se expressar passava a ser tratada de um lado, de outro isso já não parecia mais importar.
Ao longo de quase duas horas, Flores Raras, então, mostra ao espectador as distintas trajetórias pessoais e profissionais dessas duas mulheres. E toda essa passagem de tempo – que acompanha desde a chegada de Elizabeth ao Brasil, passando por sua adaptação cultural e emotiva, até sua volta para Nova York 20 anos depois – é muito bem pontuada por Barreto. Muito além da maquiagem (não deixem de perceber como o cabelo de Glória pouco a pouco se torna grisalho), é o roteiro que consegue acompanhar com uma excelente dramaticidade os conflitos e as evoluções dessas duas mulheres. Elizabeth e Lota se amavam, mas estavam em constantes mudanças, e quase nunca andavam na mesma linha. Nós absorvemos essa distância das duas, mas também abraçamos o amor “opostos se atraem” delas – que é encenado de forma muito sincera e natural pelas duas atrizes.
Glória Pires, por sinal, consegue superar as barreiras entre o idioma (quase toda a história é falada em inglês) e sua interpretação – o que não é nada fácil, especialmente se considerarmos os últimos intérpretes estrangeiros que saíram de seus países de origem para ganhar a vida em Hollywood (das mais recentes, quem mais vem à cabeça entre as vitoriosas é Marion Cotillard). Porém, o show mesmo é da australiana Miranda Otto, atriz que já atuou em O Senhor dos Anéis e que recentemente finalizou The Homesman, ao lado de Meryl Streep e Tommy Lee Jones. Acertando muito mais do que a mera reprodução de trejeitos e sotaques de Bishop, ela é impecável ao construir uma personagem complexa e difícil. Otto não tem medo de abraçar toda timidez e antipatia da poeta, nunca facilitando sua aceitação para o espectador – e, por isso mesmo, sua trajetória como ser humano e profissional se torna tão natural, recompensadora e emocionante.
Outro achado de Flores Raras é a trilha sonora do brasileiro Marcelo Zarvos (que fez carreira lá fora trabalhando recentemente para a HBO, em Phil Spector, e para a Showtime, no seriado The Big C). Eficiente, a trilha inova por conseguir sublinhar diversos momentos dramáticos do filme sem exagerar ou irritar. E isso merece reconhecimento, pois o cinema brasileiro raramente acerta no uso de trilhas sonoras. Com duas atrizes que se entregam de corpo e alma ao projeto, Flores Raras pode trazer certo desconforto para os brasileiros (por melhor que Glória Pires seja no inglês, é estranho vê-la falando outro idioma), assim como também deve decepcionar um pouco com o final que deveria ser mais mastigado e algumas mudanças que parecem um tanto superficiais (principalmente as de Lota, que repentinamente se torna a frágil e problemática da história). Entretanto, o diretor Bruno Barreto supera tais detalhes e entrega um longa-metragem que, mesmo não sendo necessariamente empolgante, surpreende pelas pequenas escolhas, que vão da sensibilidade com temas difíceis (ainda temos alcoolismo!) à economia de emoções. Escolhas essas que, no final das contas, tornam a experiência mais do que válida.
FILME: 8.0

* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado
Amor Pleno
Life’s a dream. In dream, you can’t make mistakes. In dream, you can be whatever you want.

Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Javier Bardem, Rachel McAdams, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker, Marshall Bell, Casey Williams, Jack Hines, Paris Always
To the Wonder, EUA, 2013, Drama, 112 minutos
Sinopse: Um homem (Ben Affleck), descontente com a sua vida, viaja a Paris e inicia uma profunda relação amorosa com uma europeia (Olga Kurylenko). Ele volta para os Estados Unidos e se casa com esta mulher, para ajudá-la a ter a permissão de estadia americana. Mas após o casamento, a relação dos dois se degrada. Neste momento, ele encontra uma antiga namorada (Rachel McAdams), com quem inicia um novo romance. (Adoro Cinema)

Ter estilo é para poucos. Mais difícil ainda é criar um e ser celebrado por ele. Quentin Tarantino tem. Pedro Almodóvar também. Só que nem todos conseguem adotar um estilo e alcançar 100% de aproveitamento sempre. O próprio Almodóvar já se repetiu de forma pouco interessante (caso de Abraços Partidos, um filme preguiçoso). E é exatamente nessa armadilha de reciclagem de estilo que o diretor Terrence Malick cai em Amor Pleno, produção que marca o espaço mais curto de tempo entre dois de seus trabalhos (normalmente, esperam-se no mínimo quatro anos). Este lançamento está apenas um ano na frente de A Árvore da Vida, que dividiu opiniões mas que foi celebrado mundialmente, da Palma de Ouro em Cannes até a indicações ao Oscar – incluindo a de melhor direção para Malick. Talvez entusiasmado com tamanha repercussão, o diretor tenha tentado reproduzir tudo desse longa em Amor Pleno. O resultado, no entanto, é uma versão menor e mais desinteressante de A Árvore da Vida – filme que, para o escriba que vos fala, já não era lá tão empolgante.
O que mina a aceitação de Amor Pleno é a falta de novidades, já que, aqui, pouco se cria. Tal repetição poderia ser interessante futuramente, mas não agora, quando A Árvore da Vida foi realizado há tão pouco tempo. Por estar tão próximo deste longa, o novo trabalho de Malick é duplamente cansativo – e isso não se refere apenas ao ritmo pausado, mas a própria insistência do diretor em querer ser contemplativo durante cada minuto da projeção. Por isso, prepare-se: novamente vamos ter pessoas girando incansavelmente entre árvores, folhas caindo, muitas correntezas, vento movimentando cabelos, e por aí vai… Se você foi um daqueles que se sentiu incomodado com isso em A Árvore da Vida, não pense duas vezes: passe longe de Amor Pleno, longa onde a reciclagem é acentuada e excessiva – mas também com uma história menos complexa e com atores que não chegam a instigar. Também pudera: os diálogos são praticamente inexistentes, onde o protagonista entra mudo e sai calado e tudo é construído por meio de breves narrações em off. Eles só precisam girar, correr e se abraçar…
Amor Pleno, claro, é muito bonito. Até porque se, nessa repetição, não fosse certeiro aí seria mesmo de cortar os pulsos. Temos novamente a parceria com o brilhante Emmanuel Lubezki (e o resultado, óbvio, é espetacular), uma bela trilha sonora (sai Alexandre Desplat, entra o igualmente competente Hanan Townshend) e imagens de encher os olhos. Fora os elementos técnicos, outro ponto interessantíssimo do filme é a storyline do personagem vivido por Javier Bardem. Como um padre em plena crise espiritual, seu papel se destaca por duas razões: primeiro porque seus dilemas são, de fato, interessantes (e aqui sim o tom contemplativo é aplicado efetivamente), e segundo porque Javier é um grande ator, cujas expressões por si só já tornam o personagem atraente. Ele quase nos faz esquecer que sua história está quase deslocada e avulsa diante de todo o conjunto. Ainda em relação à história, para um filme que deseja falar de relacionamentos, falta coração em Amor Pleno, que é frio e seco. Sentimos o visual, mas não a história.
Cansativo e restrito em sua totalidade (seja pelo ritmo da trama ou pelo exaustivo jogo de imagens), Amor Pleno é um exercício acomodado que não precisava existir – o que se reflete na sua própria recepção: até mesmo alguns entusiastas de A Árvore da Vida desaprovaram essa mais recente investida de Terrence Malick. Sem falar, ainda, do fracasso de bilheteria e de um suposto processo de investidores que querem de volta o dinheiro. Para 2014, o diretor tem nada menos que mais três (!) projetos: Knight of Cups, com Christian Bale e Natalie Portman, já em pós-produção; Voyage of Time, com Brad Pitt e Emma Thompson, também em finalização; e um projeto ainda sem título, que reúne um elenco simplesmente absurdo: Ryan Gosling, Cate Blanchett, Michael Fassbender, Rooney Mara, etc. Que todos esses projetos devolvam a fé por Malick e que não sejam, como esse Amor Pleno, um projeto monótono e deveras pretensioso.
FILME: 5.5
Obsessão

Direção: Lee Daniels
Roteiro: Lee Daniels e Pete Dexter, baseado no romance “The Paperboy”, de Pete Dexter
Elenco: Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, Macy Gray, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Nealla Gordon, Peter Murnik, Kevin Waterman, Danny Hanemann, Adam Sibley, Gary Clarke
The Paperboy, EUA, 2012, Drama, 107 minutos
Sinopse: Ward (Matthew McConaughey) é jornalista de um grande jornal e precisa retornar para sua pequena cidade para fazer a cobertura da prisão de Hillary Van Wetter (John Cusack), acusado e condenado à morte pelo assassinato do xerife local. Os problemas começam quando Jack (Zac Efron), seu irmão mais novo, começa a se envolver com Charlotte (Nicole Kidman), mulher misteriosa e mais velha, que mantinha contato com o prisioneiro. (Adoro Cinema)

“Erotizado? É impossível evitar isso se tratando de Zac Efron. A câmera não resiste. E eu sou gay!”, defendeu o diretor Lee Daniels, em uma entrevista após a exibição de seu mais novo longa-metragem, Obsessão, no 65º Festival de Cannes. O diretor rebatia os comentários sobre a excessiva fetichização de Zac no filme em questão, onde o ator volta e meia transita descamisado ou apenas de cueca em cenas que não tinham muita relevância para a trama ou para a contextualização da época. A justificativa de Lee Daniels para o fato da câmera não resistir ao corpo de Efron só é uma pequena prova da sua total incapacidade de saber discernir o que é fetiche pessoal e o que é dar personalidade a uma obra cinematográfica. E Zac em si é o menor dos problemas: em Obsessão, o diretor quer, a todo custo, mostrar que tem algum estilo. Com isso, ele se descontrola em cenas onde a erotização se confunde com o mau gosto e as rimas visuais só tornam o filme ainda mais sujo e bagunçado.
Já não é lá muito original contar uma trama a partir da narração de alguém relembrando o passado. Essa ferramenta raramente amplia a dramaticidade da história e é frequentemente mal conduzida, sendo esquecida ao longo do filme ou inconveniente ao verbalizar situações e sentimentos que ficariam melhores no silêncio ou na subjetividade. Obsessão é mais um caso onde a narração não serve para nada. E ela também não ajuda o espectador a descobrir sobre o que é o filme roteirizado por Lee Daniels e Pete Dexter (com base no livro homônimo do segundo). Quando começa, dá a impressão de ser sobre o dia-a-dia e as descobertas de um adolescente com hormônios em ebulição (Jack, vivido por Efron). Minutos depois, apresenta uma trama de investigação envolvendo um crime mal resolvido. Logo, preocupa-se mais em mostrar as loucuras da excêntrica Charlotte (Nicole Kidman). E, finalmente, no meio disso tudo, faz um rascunho do racismo na década de 1960, traz pitadas de dramas familiares e desenvolve a paixonite de Jack por Charlotte. Obsessão, porém, é ineficiente em todas as suas investidas. O roteiro atira para todos os lados e não acerta em nada, sendo sempre muito superficial e bagunçado.
Digamos que o roteiro pode até ter grande parcela de culpa nesse caráter inconstante e disléxico de Obsessão, mas nada se compara ao pavoroso trabalho de Lee Daniels como diretor. Se Tom Ford fez um belo trabalho ao homoerotizar Direito de Amar com elegância e sutileza, Daniels, em contrapartida, já se mostra completamente incapaz de fazer o mesmo – ou de ser, no mínimo, apenas previsível. O sexo é sempre sujo – em Preciosa – Uma História de Esperança fazia sentido, aqui não – e a história parece apenas um pretexto para que o diretor explore suas fantasias técnicas e sexuais. Pelo menos dois momentos marcam essas terríveis investidas de Daniels. Primeiro, a cena em que Nicole Kidman se masturba na frente de quatro homens para satisfazer o seu “namorado” que está preso e não pode ter qualquer contato físico com ela. Marca porque não é uma cena que apenas sugere: ela faz questão de mostrar pequenos detalhes sórdidos, como Matthew McConaughey, por exemplo, ajeitando a calça para esconder sua ereção. Segundo, a já famosa cena da praia, onde Zac Efron, após ser queimado por várias águas-vivas no mar, é milagrosamente salvo pela urina de Nicole Kidman que é colocada em contato com o seu corpo. O mais preocupante no segundo exemplo é como o momento não diz absolutamente nada: é um devaneio avulso do diretor.
Trazendo e retomando personagens quando bem entende sem qualquer preocupação com uma continuidade, Obsessão falha até em fazer o retrato de um local e de uma época. Como é a cidade onde o filme é passado? Qual o perfil da população? Quais são os hábitos daquela época? Como se dá a tão comentada profissão de jornalista? Mas se o filme não consegue nem se decidir sobre o que vai contar ao longo de toda a sua cansativa duração, como podemos exigir que ele faça um recorte como esse? Tão preocupado em desenvolver mais seus cacoetes do que uma história propriamente dita, o roteiro de Daniels e Dexter, muitas vezes, ainda chega a brincar com o bom senso do espectador: é particularmente absurdo o momento em que um personagem, após a salvar a vida de seu irmão que acabara de ser torturado (incluindo com um rosto mutilado), resolve transar, na cena seguinte, com a maior facilidade, alegria e excitação, anulando completamente o choque, as lágrimas e o trauma de segundos antes.
O que existe de melhor em Obsessão é, sem dúvida, a presença de Nicole Kidman. A atriz, que, possivelmente, nunca esteve tão linda no cinema, é o destaque do longa com a personagem que construiu, seja pelo visual estonteante, pelo discreto sotaque ou por todas as suas excentricidades. Mas arrisco a dizer que ela não vai além dessa composição curiosa, inclusive porque o filme não lhe dá muitas chances com uma personagem que oscila entre extremos de relevância e não tem tantas variações. Dentro das limitações, entretanto, ela se sai bem. Quanto ao resto do elenco: continuo colocando fé em Zac Efron, ator que ainda precisa provar ser mais que um rosto bonito, mas que já é melhor que um Robert Pattinson da vida; John Cusack, achando que estar descabelado é sinônimo de parecer louco, está exagerado e aparece pouco para conseguir fazer um trabalho melhor; e Matthew McConaughey tem um personagem tão bagunçado que nem dá para avaliar muito bem sua performance. Só que a culpa toda mesmo é de Lee Daniels, diretor que precisa urgentemente rever seus conceitos sobre como desenvolver uma trama – o que está bem resumido no desfecho de Obsessão: com o cafona barquinho que se distancia da câmera em um rio com a luz do pôr-do sol ao fundo, já nem sabemos mais o que foi encerrado… A não ser, claro, a nossa tortura de ver um filme tão perdido.
FILME: 3.0
Rapidamente

DEPOIS DE LÚCIA (Déspues de Lucía, de Michel Franco): Recebeu relativo reconhecimento no circuito alternativo, e a discussão que levanta justifica esse barulho. Abordando o cotidiano de uma garota que, após transar com um colega logo no primeiro encontro, passa a sofrer bullying na escola, Depois de Lúcia narra uma verdadeira viagem ao inferno: o simples cotidiano da protagonista pouco a pouco se torna cada vez mais insuportável. Assim como o próprio bullying, esse filme pode causar divergências: quais são as atitudes que precisam ser tomadas? Qual a punição mais justa? Como a vítima deve enfrentar essa situação? Mas o filme de Michel Franco não se preocupa em tomar partido quando abre tais questões. Ele apenas apresenta uma circunstância para que posteriormente o espectador tire suas próprias conclusões. Depois de Lúcia é incômodo, às vezes quase samba de uma nota só (e por isso mesmo retumbante), mas nunca indiferente – o que pode ser constatado no desfecho cru e impactante.
JORGE MAUTNER: O FILHO DO HOLOCAUSTO (idem, 2012, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt): Ganhou vários prêmios no 40º Festival de Cinema de Gramado (incluindo um Kikito absurdo para o roteiro escrito por Pedro Bial) e tal comoção com esse documentário pode ser considerada inexplicável. Para quem não é fã ou muito familiarizado com a obra do cantor-título, Jorge Mautner: O Filho do Holocausto tem pouco para encantar. A parte musical é boa, os entrevistados são de peso e Bial, em parceria com Heitor D’Alincourt na direção, realiza um longa bem mastigado. Só que o resultado não chega a ser necessariamente original ou empolgante para quem procura um documentário que vá além da obra de Mautner. Porém, mesmo quem se entusiasma com o filme há de reconhecer a preciosidade que é a cena em que o cantor conversa com a filha Amora Mautner em uma espécie de entrevista. A dinâmica dos dois é tão cheia de desenvoltura e a conversa é tão sincera que o momento se torna incontestavelmente o auge do longa.
PÉRFIDA (The Little Foxes, 1941, de William Wyler): Regina Giddens deve ser uma das malvadas mais clássicas da carreira de Bette Davis. O filme de Willyam Wyler pode até não dar total destaque a ela no filme como um todo (pelo menos na primeira parte, Pérfida é um filme de vários personagens), mas, quando recebe o devido destaque, a atriz simplesmente arrasa como a ambiciosa esposa que quer fazer o que bem entende com os negócios da família quando o marido fica doente. Indicado a nove categorias do Oscar (incluindo melhor filme e a sexta nomeação para Bette), Pérfida cresce quando se encaminha para o final. Não só porque Regina Giddens recebe mais atenção, mas porque o filme em si passa a trazer vários acontecimentos, descobertas e intrigas familiares que dão sentido e interesse a uma história que até então parecia um tanto simplista para a equipe envolvida. Essa foi, portanto, mais uma parceria de sucesso entre o diretor Willyam Wyler e Davis, que, anteriormente, realizaram Jezebel e A Carta juntos.
UPSIDE DOWN (idem, 2012, de Juan Solanas): O trailer dava a impressão de que seria um desses blockbusters esquecíveis mas divertidos e de bilheteria expressiva, mas Upside Down não fez sucesso e, até agora, não tem sequer previsão de ser lançado no Brasil. Já roda o mundo desde agosto de 2012, só que não conseguiu fazer barulho. Se, por um lado, é um tanto incompreensível esse silêncio (tecnicamente, o filme tem todos os elementos para encher as salas de cinema), por outro dá para assinar embaixo de seu esquecimento, já que a estética diferenciada instiga, mas a história é fraca e frequentemente cafona, com uma última cena particularmente enjoativa). O filme de Juan Solanas ainda tem contra si o fato de poder deixar os mais sensíveis completamente enjoados, poia o enredo é sobre dois mundos que convivem de ponta cabeça (você olha para o céu e lá existe outro universo). As brincadeiras com as questões da gravidade e o uso de efeitos são frequentes, o que tem tudo para confundir o espectador e dar essa sensação de mal estar. No mais, não há muito para se reclamar – ou para se esperar – uma vez que Upside Down nada mais é que uma ficção passageira que não oferece nada além de seu curioso universo.


