Cinema e Argumento

TIFF 2024, #10: “Disclaimer”, de Alfonso Cuarón

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Trançando literatura com audiovisual, o mexicano Alfonso Cuarón escreveu e dirigiu todos os episódios da minissérie Disclaimer com certo apavoramento — afinal, quando recebeu o convite da Apple TV para comandar esse projeto, o cineasta deixou muito claro que não sabia dirigir séries e trabalharia a adaptação do livro homônimo de René Knight com a mesma lógica de um longa-metragem. É um tipo de abordagem que traz complicações, visto, por exemplo, Crisis in Six Scenes, série dirigida por Woody Allen para o Prime Video que ele próprio diz ter sido uma das experiências mais traumáticas da sua carreira. Não por acaso, ninguém assistiu — e o resultado foi solenemente ignorado até por críticos e premiações.

Embarquei em Disclaimer, portanto, com grande receio. Seria Cuarón capaz de não fazer apenas um longa-metragem visivelmente picotado em sete partes? Conseguiria ele trazer uma atmosfera seriada para a história, sem deixar os episódios indistinguíveis entre si? Pois o diretor é exitoso nesse desafio lançado a si próprio, a começar pela decisão de absorver bastante da essência literária da trama para transportá-la ao seu sempre admirável esmero técnico como realizador. O que quero dizer com isso é que, entre outras coisas, Disclaimer conta sua história a partir de múltiplas vozes que ganham vida nas narrações em off. Isso evoca tanto a amplitude com que a narrativa literária destrincha entrelinhas para desenvolver personagens quanto ao ritmo particular de uma obra escrita.

Não há, contudo, obviedades no uso das narrações. Pelo contrário, há personalidade, como acontece com o Stephen Bridgestocke de Kevin Kline, que desafia constantemente o espectador com as suas observações ácidas e sem amarras, ainda mais quando o alvo em questão é toda a família da jornalista Catherine Ravenscroft (Cate Blanchett). Ao se utilizar das melhores ferramentas de um exercício literário, Cuarón termina por driblar o seu pavor de não dominar uma narrativa seriada. Ainda que alguns episódios sejam melhor lapidados do que outros em termos de estrutura, existe raciocínio interno em cada um deles. Não é como se eles ficassem incompletos quando vistos de forma independente – e, quando porventura ficam, é porque deixam instigantes ganchos para os próximos capítulos, algo sempre bem-vindo em séries.

Sem pressa alguma, Disclaimer vai revelando as peças de um quebra-cabeça cujo grande conflito se concentra no pânico de Catherine ao receber um livro que estaria revelando erros gravíssimos de seu passado — erros esses que ela sempre tentou guardar a sete chaves, inclusive da sua própria família. Há um quê de Animais Noturnos na proposta, mas as semelhanças param por aí. Disclaimer, intitulada no Brasil como Difamação, reencenará passagens do livro em questão ao mesmo tempo em que criará uma ciranda de (re)ações acerca do passado da protagonista. Se a famosa lei do retorno dá conta de nos devolver tudo o que entregamos ao universo, sejam elas coisas boas ou ruins, a minissérie não se atém apenas a isso: até o último episódio, o roteiro será prismático e questionará como cada um impõe as suas verdades e faz os seus próprios julgamentos, incluindo nós, espectadores. 

Tento ser o mais subjetivo possível sobre a trama porque ultrapassar essa fronteira é entregar boa parte das maneiras com que ela avança e recompensa. O público feminino, em particular, terá boas análises para fazer do conjunto final. Ainda assim, sem revelar detalhes e o desfecho, sobram outros elogios que eu não poderia deixar de registrar, todos em dose dupla: para Emmanuel Lubezki e Bruno Delbonell, que fotografam uma Londres cinzenta e uma Itália ensolarada como poucos; para Finneas O’Connell e o Atticus Quartet, que, nessa ordem, compõem e performam a sublime trilha sonora; e, claro, para Cate Blanchett, mas, especificamente, para Kevin Kline, que há muito tempo não recebia um papel à altura de seus repertório e que, por diversos momentos, me lembrou a Barbara Covett de Judi Dench em Notas Sobre Um Escândalo. Um time ímpar a serviço de uma das melhores minisséries do ano.

 

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TIFF 2024, #9: “Babygirl”, de Halina Reijn

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“As pessoas chamam de bravura quando uma atriz se desnuda, se atira no desconhecido e mergulha nas partes mais sombrias do que significa ser humano, mas eu não acho que seja bravura. Acho que é amor. Acho que ela ama isso. E acredito que essa é a maior qualidade que um ator pode ter: uma mistura de apetite, curiosidade e atrevimento.”, disse Meryl Streep ao entregar o AFI Lifetime Achievement Award em abril deste ano para a colega Nicole Kidman.

A descrição é perfeita porque, afinal, desde sempre, Nicole foi uma atriz muito instintiva na hora de escolher projetos diferentes e arrojados, mesmo quando eles, ao saírem do papel, não estivessem à altura do prometido. Entre erros e acertos, sua carreira foi tudo, menos previsível. E Babygirl, que lhe rendeu a Volpi Cup de melhor atriz na última edição do Festival de Veneza, é mais uma adição interessante à sua múltipla e extensa lista de papéis. 

Como Romy, a renomada CEO de uma grande empresa que começa a ter um caso com seu mais novo estagiário, Nicole mostra, outra vez, a sua total e sempre bem-vinda falta de julgamento acerca das suas personagens. Ela abraça as contradições e complexidades de uma mulher às voltas com seus ímpetos sexuais reprimidos sem cerimônias, seja se ajoelhando para tomar leite em um potinho como uma completa submissa ou navegando nos sentimentos mistos de uma profissional dividida entre a autoridade e a fragilidade.

Seja pela performance isolada ou pelo que ela representa dentro de seu rol de personagens, a atriz é quem captura o interesse do espectador por um filme cujas discussões não são exatamente novas se relembrarmos, por exemplo, o drama Secretária, de 2003, em que Maggie Gyllenhaal interpreta uma jovem que, trabalhando com o dono de um escritório de advocacia, passa ter com ele relações sexuais em que os limites de dominação e submissão são testados.

Quando assisti ao filme em uma sessão para a imprensa no TIFF, ouvi muitos colegas se referindo a Babygirl como “intenso” ou “corajoso”, especialmente quando queriam fazer alusão ao teor sexual do longa. Lembro de retrucar — e eles acabarem concordando: para os padrões norte-americanos de cinema, sim, o filme da holandesa Halina Reijn (Morte Morte Morte) pode ser visto dessa forma, mas só por quem não é familiarizado com a crueza da filmografia de uma atriz como a francesa Isabelle Huppert — que, aliás, presidiu o júri responsável por conceder à Nicole o prêmio de melhor atriz em Veneza. 

Como um thriller erótico, Babygirl entretém nesse samba de quase uma nota só, onde a protagonista tenta manter em segredo o seu envolvimento sexual com o novo estagiário. Também tem bons insights ao trazer à tona a reflexão sempre importante sobre como as mulheres são reprimidas sexualmente pela sociedade. Porém, o roteiro é menos arrojado do que o esperado, e a recompensa do desfecho se revela comportada eaté previsível. Se não fosse por Nicole e sua entrega, Babygirl seria apenas um filme trivial.


BABYGIRL REVIEW

“People call it bravery when an actress bares all and leaps off into the unknown, she dives deep into the darker parts of what it is to be a human being. But I don’t think it’s bravery. I think it’s love. I think she just loves it. And I think that’s the greatest attribute an actor can have, is that blend of appetite and curiosity and recklessness.”, said Meryl Streep when presenting the AFI Lifetime Achievement Award this April to her colleague Nicole Kidman.

The description is perfect because, after all, Nicole has always been an instinctive actress in choosing daring and unique projects, even when the end result might not live up to its promise. With hits and misses, her career has been anything but predictable or conventional. Babygirl, which won her the Volpi Cup for Best Actress at the latest Venice Film Festival, is yet another fascinating addition to her diverse and expansive range of roles.

As Romy, the esteemed CEO of a major company who begins an affair with her new intern, Nicole once again displays her refreshing and complete lack of judgment toward her characters. She embraces the contradictions and complexities of a woman struggling with her repressed sexual impulses unreservedly, whether by crawling on all fours to drink milk from a bowl as a submissive or by navigating the mixed emotions of a professional torn between authority and vulnerability.

Whether for the performance itself or what it signifies within her repertoire, Nicole captures the audience’s interest in a film whose themes aren’t entirely new. For instance, consider the 2003 drama Secretary, where Maggie Gyllenhaal plays a young woman who enters a BDSM relationship with her boss, testing boundaries of domination and submission.

At the TIFF press screening, I overheard many colleagues describing Babygirl as “intense” or “brave,” especially when referring to its sexual content. I recall countering them — and they agreed: by American cinema standards, the Dutch director Halina Reijn’s (Bodies Bodies Bodies) film could indeed be seen this way, but only by those unfamiliar with the rawness of an actress like France’s Isabelle Huppert—who, incidentally, chaired the jury that awarded Nicole Best Actress at Venice.

As an erotic thriller, Babygirl entertains in its nearly one-note plot, where the protagonist attempts to keep her relationship with the intern a secret. It also offers valuable insights, particularly through its thought-provoking reflections on how women are still sexually repressed by society. However, the script isn’t as clever as one might hope, and the ending’s payoff is rather tame, directed in a somewhat predictable way. If not for Nicole, Babygirl would be a trivial film.

TIFF 2024, #8: “Saturday Night”, de Jason Reitman

Saturday Night não tem a intenção de ser um filme sobre o programa Saturday Night Live propriamente dito. Para o diretor e roteirista Jason Reitman (Juno, Obrigado Por Fumar, Amor Sem Escalas), o objetivo sempre foi lançar um olhar sobre a efervescência de ideias e imprevistos que antecederam os minutos da estreia desse clássico da televisão norte-americana. E haja efervescência nisso: em quase duas horas de duração, Saturday Night traz incontáveis personagens, situações e dilemas para remontar o nascimento de um programa que, de 1975 até os dias de hoje, molda boa parte da forma como o público estadunidense enxerga o humor e o entretenimento.

Roteirista de mão cheia, Reitman encena o caos, mas não o controla. Tudo em Saturday Night é hiperbólico, com uma enxurrada de referências e piadas que parecem não caber em um roteiro já verborrágico por natureza. Muito se deve ao fato de que o filme tenta emular a essência do programa, o que não chega a ser uma justificativa. O grande empecilho está no quanto ele é autocentrado, fascinado consigo mesmo. Reitman quer impressionar a todo custo como diretor, seja com as longas sequências pensadas para explorar a esmerada reconstituição de época e cenários ou com o infinito desfile de personagens que entram e saem de cena. Tudo em alta velocidade, ao mesmo tempo.

O desejo de deslumbrar o espectador é tanto que Saturday Night torna excessivo até mesmo o uso da ótima trilha sonora de Jean Batiste, que improvisou seu trabalho in loco, fazendo as composições conforme as filmagens se desenrolavam. A mesmíssima lógica se aplica ao elenco, pois, não bastasse o extenso número de personagens em cena, Reitman ainda garante que haja a maior quantidade possível de rostos famosos os interpretando, mesmo em papéis minúsculos. Com isso, nomes como Willem Dafoe, J.K. Simmons, Rachel Sennott, Matthew Rhys, Nicholas Braun (com dois papéis!), Dylan O’Brien, Tracy Letts e Cooper Hoffman se transformam em praticamente distrações revezadas.

Imagino que, para os familiarizados com os bastidores do Saturday Night Live, a experiência é das mais divertidas, já que o longa se apropria bem do formato do programa para traduzi-lo em personagens e na imaginação do que teria acontecido naqueles momentos antes de uma estreia histórica. Um dos acertos do longa, aliás, é conseguir emular a urgência e o suspense que acometeram a equipe através de uma narrativa quase em tempo real, mérito mais do formato do que do roteiro em si. Em contraponto, para os leigos como eu, acredito que Saturday Night é pouco interessante e orgânico, quando não aborrecido mesmo.


SATURDAY NIGHT REVIEW

Saturday Night doesn’t aim to be a movie about Saturday Night Live itself. For director and screenwriter Jason Reitman (Juno, Thank You for Smoking, Up in the Air), the goal was always to take a look at the whirlwind of ideas and unpredictability that preceded the minutes before the premiere of this classic American TV show. And there’s a lot of whirlwind: in almost two hours, Saturday Night brings countless characters, situations, and dilemmas to recreate the show that, from 1975 until today, has shaped much of how the American public views humor and entertainment. 

A skilled screenwriter, Reitman stages the chaos but doesn’t control it. Everything in Saturday Night is hyperbolic, with a flood of references and jokes that seem too much for an already verbose script. This is partly due to the fact that the film tries to emulate the essence of the show, which isn’t quite a justification. The major obstacle is how self-centered it is, fascinated with itself. Reitman is eager to impress as a director at any cost, whether through the long sequences designed to explore the painstaking period reconstruction and sets, or through the endless parade of characters entering and exiting scenes. Everything happens at high speed, all at once.

The desire to dazzle the viewer is so overwhelming that Saturday Night even makes excessive use of Jean Batiste’s excellent soundtrack, which was improvised on-site, with compositions created as the filming unfolded. The same logic applies to the cast; despite the already large number of characters on screen, Reitman still ensures that as many famous faces as possible portray them, even in minor roles. As a result, actors like Willem Dafoe, J.K. Simmons, Rachel Sennott, Matthew Rhys, Nicholas Braun (in two roles!), Dylan O’Brien, Tracy Letts, and Cooper Hoffman become practically rotating distractions.

I imagine that for those familiar with the behind-the-scenes of Saturday Night Live, the experience is highly enjoyable, as the film effectively captures the format of the show to translate it into characters and the imagination of what might have happened in those moments before a historic premiere. One of the film’s strengths, in fact, is its ability to emulate the urgency and suspense that gripped the crew through an almost real-time narrative, a credit more to the format than the script itself. On the other hand, for outsiders like me, I believe Saturday Night is less interesting and organic, if not downright boring at times.

TIFF 2024, #7: “Emilia Pérez”, de Jacques Audiard

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E se um diretor francês resolvesse misturar, em um musical ambientado no México, diferentes histórias envolvendo dramas familiares, crimes de cartel, dilemas da transgeneridade e reflexões sobre a avassaladora mutilação causada pela banalização da criminalidade em uma sociedade? E se ele resolvesse também colocar quatro atrizes, entre elas uma jovem estrela da música pop e uma atriz trans sem experiência musical, para soltarem a voz em espanhol nos cenários mais inusitados, como em um consultório médico ou em cima das mesas de um luxuoso jantar de gala? Como bem costuma acontecer, a mistura de tantas ideias e tantos pontos fora da curva poderia resultar em um filme esquizofrênico, fora do tom e que, ao tentar ser muitas coisas, acaba não sendo coisa alguma. É uma estatística que não se aplica a Emilia Pérez, um verdadeiro acontecimento por escapar habilidosamente de todos os riscos que assumiu e por trazer um diretor já consagrado — Jacques Audiard, de O Profeta, Ferrugem e Osso e Dheepan: O Refúgio — brilhando no tipo de reinvenção que marca uma carreira.

Como um representante do gênero musical, o longa é uma verdadeira oxigenação, a começar pelo fato de ser ambientado totalmente fora do eixo Hollywoodiano, indústria onde o gênero se popularizou por excelência. Por melhores que sejam, nem juntos e somados os musicais norte-americanos mais recentes se aproximam do esmero estético e narrativo de Emilia Pérez. A partir das canções compostas pela dupla Camille Dalmais e Clémont Ducol (ela, aliás, escreveu e deu voz à bela Le Festin, de Ratatouille), Jacques Audiard é ambicioso ao criar os números musicais do filme, que acontecem em situações aparentemente inusitadas, mas logo cobertas de sentido. Não lhe falta assertividade para incorporar esses momentos à trama de maneira orgânica, sem que eles pareçam clipes avulsos na trama. As músicas de Emilia Pérez, todas afeitas à narrativa e não às meras rimas chicletes, dizem muito sobre suas personagens, ao mesmo tempo em que lançam a história para frente com ritmo, interesse e deslumbre técnico. Dirigir musicais não é pra qualquer um e, às vezes, nem para os mais talentosos, o que só aumenta os méritos de Audiard nessa complexa costura.

Escrito pelo próprio diretor, o longa começa de um jeito, modifica-se nas subtramas e se ramifica em várias personagens, mas encontra mesmo o seu cerne afetivo e dramático na figura, claro, da protagonista, vivida por Karla Sofia Gascón. O tocante do roteiro está em como Audiard não faz da transgeneridade de Emilia uma curiosidade ou a única razão do filme existir. Se, por um lado, inevitavelmente, há todo o processo da personagem transicionando para sua nova identidade, por outro, Emilia Pérez se utiliza dessa jornada particular para contar uma história de redenção, tanto da personagem com ela própria quanto dela perante seus incontáveis erros do passado que destruíram vidas e mais vidas. Não se trata de uma visão idealizada ou poliana de recomeço: Audiard constrói uma personagem com camadas conflitantes e, através delas, promove um olhar específico sobre o próprio México, terra em que o tráfico deixa incontáveis mães sem a possibilidade de encontrar os corpos de seus filhos desaparecidos. É uma dignidade que Emilia Pérez traz, em grande escala, para um tema pouco visibilizado mundialmente.

Inclusive, Gascón é maravilhosa como a personagem-título, do deslumbre causado por sua inegável presença até as próprias variações de uma mulher às voltas com uma nova vida ainda muito conectada ao passado. Com outras três atrizes do filme, ela venceu um prêmio merecidíssimo de interpretação feminina no último Festival de Cannes. Dividiram a láurea: Zoe Saldaña, que, dona dos melhores números musicais, apresenta uma vitalidade e uma versatilidade talvez nunca antes vistas em sua filmografia; Selena Gomez, cada vez mais comprometida como atriz e excelente ao nunca tornar sua personagem o clichê da garota aparentemente frágil, mas com outras facetas a serem descobertas; e Adriana Paz, que, com tempo consideravelmente menor em cena, chega no terço final da trama trazendo uma sensibilidade muito bonita para a jornada da protagonista. As quatro, com diferentes estilos de interpretação e instintos complementares para a questão musical, solidificam todas as qualidades da produção.

Emilia Pérez desenha um grande novelão mexicano — aliás, franco-mexicano — no melhor sentido dessa comparação. O terço final, especificamente, leva todas as personagens às últimas consequências após uma série de erros, mentiras, traições e disputas de poder. Não teria como ser diferente. Pelo menos não no universo de Emilia Pérez. E isso está longe de ser um problema porque o filme tem, repito, um notável domínio das tantas coisas que poderiam sair do controle, inclusive do ponto de vista musical, como privilegiar Selena Gomez, a cantora pop do elenco, no número de canções, o que definitivamente não acontece. Com orçamento e escalas maiores do que as de qualquer outro título de sua carreira, Audiard não sucumbe à avidez para impressionar. Trata-se do oposto: Emilia Pérez impressiona, justamente, por ter um diretor que compreende como criatividade, foco e rigor, quando combinados, nunca estarão a mercê de qualquer outra distração ou vaidade que o cinema possa oferecer pelo caminho.


EMILIA PÉREZ REVIEW

What if a French director decided to mix, in a musical set in Mexico, different stories involving family dramas, cartel crimes, transgender dilemmas, and reflections on the overwhelming mutilation caused by the trivialization of criminality in society? And what if he also chose to have four actresses, including a young pop star and a trans actress with no musical experience, sing in Spanish in the most unexpected settings, like in a doctor’s office or on top of tables at a lavish gala dinner? As often happens, the blend of so many ideas and such out-of-the-box elements could result in a schizophrenic, off-key film that, in trying to be many things, ends up being nothing at all. However, this is a statistic that does not apply to Emilia Pérez, a true cinematic event for skillfully escaping all the risks it took, and for showcasing an already established director – Jacques Audiard, of A Prophet, Rust and Bone, and Dheepan – shining through the kind of reinvention that defines a career.

As a representative of the musical genre, the film is a breath of fresh air, starting with the fact that it is entirely set outside the Hollywood axis, the industry where the genre gained its excellence. As good as they are, even combined, recent North American musicals don’t come close to the aesthetic and narrative refinement of Emilia Pérez. With songs composed by the duo Camille Dalmais and Clément Ducol (she, by the way, wrote and voiced the beautiful “Le Festin” from Ratatouille), Jacques Audiard ambitiously creates the film’s musical numbers, which occur in seemingly unusual situations but soon become full of meaning. He deftly incorporates these moments into the plot in an organic way, ensuring they don’t feel like random music videos within the narrative. The songs in Emilia Pérez, all tied to the story rather than catchy rhymes, speak volumes about the characters, while also driving the plot forward with rhythm, intrigue, and technical brilliance. Directing musicals isn’t for everyone, and sometimes not even for the most talented, which only heightens Audiard’s merits in this complex craft.

Written by the director himself, the film starts in one way, shifts with subplots, and branches out into various characters, but ultimately finds its emotional and dramatic core in the figure of the protagonist, of course, played by Karla Sofia Gascón. The touching aspect of the script lies in how Audiard does not make Emilia’s transgender journey a mere curiosity or the sole reason for the film’s existence. While, on one hand, there is inevitably the process of the character transitioning to her new identity, Emilia Pérez uses this personal journey to tell a broader story of redemption – both of the character with herself and of her reconciling with the countless mistakes of her past that destroyed lives. This is not an idealized or naive vision of starting over: Audiard constructs a layered character, and through her, offers a specific perspective on Mexico itself, a land where trafficking leaves countless mothers without the possibility of finding the bodies of their missing children. Emilia Pérez brings dignity, on a grand scale, to a topic that is largely underrepresented globally.

Gascón, by the way, is wonderful as the title character, from the awe inspired by her undeniable presence to the personal struggles of a woman entangled in a new life still very connected to the past. Alongside the film’s other three actresses, she won a well-deserved Best Actress award at the last Cannes Film Festival. Sharing the prize were: Zoe Saldaña, who, with the best musical numbers, shows a vitality and versatility perhaps never before seen in her career; Selena Gomez, increasingly committed as an actress and excellent at never turning her character into the cliché of the seemingly fragile girl with hidden facets waiting to be discovered; and Adriana Paz, who, with considerably less screen time, arrives in the final third of the film bringing a beautiful sensitivity to the protagonist’s journey. The four actresses, with different acting styles and complementary instincts for the musical elements, solidify all the strengths of the production.

Emilia Pérez paints a grand Mexican – or rather, Franco-Mexican – melodrama, in the best sense of the comparison. The final third, in particular, drives all the characters to the ultimate consequences after a series of mistakes, lies, betrayals, and power struggles. It couldn’t be any other way. At least not in the world of Emilia Pérez. And this is far from being a problem because the film, as mentioned before, has a remarkable command of all the elements that could have spiraled out of control, including the musical aspect, such as favoring Selena Gomez, the pop singer in the cast, with more songs, which definitely does not happen. With a larger budget and scope than any other film in his career, Audiard does not succumb to the temptation to impress. Quite the opposite: Emilia Pérez impresses precisely because it has a director who understands how creativity, focus, and precision, when combined, are never at the mercy of any other distractions or vanities that cinema might offer along the way.

TIFF 2024, #6: “Conclave”, de Edward Berger

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Há mais de oito séculos, a igreja católica escolhe o seu papa por meio de um ritual chamado conclave. Trata-se de uma eleição praticamente inalterada em regras e processos desde meados dos anos 1200, quando o Papa Gregório X usou pela primeira vez esse nome para definir o ritual. Atravessando eras e fatos históricos, o conclave, entretanto, ainda é uma formalidade cercada de mistérios, uma vez que segue sendo realizada a portas fechadas e com o máximo de sigilo. Em linhas gerais, o novo papa é eleito através de uma votação supostamente secreta entre os cardeais e deve ser citado por pelo menos dois terços das cédulas. A votação se repete até que o resultado seja alcançado, mesmo que ele demore apenas algumas horas ou até mais de dois anos para acontecer, como registrado nos conclaves mais curto e mais longo já registrados, respectivamente.

Particularmente, me escapa à memória alguma vez em que o cinema tenha investigado esse ritual de moto tão detalhado como em Conclave, novo filme do diretor alemão Edward Berger, amplamente reconhecido nos últimos anos com a nova versão que dirigiu de Nada de Novo Front, premiada com quatro Oscars, incluindo o de melhor filme internacional. Para imaginar o que acontece a portas fechadas no Vaticano durante a eleição do novo papa, Berger toma como base o best seller homônimo de Robert Harris, lançado em 2016. Transposto para o cinema, o texto se permite (re)criar conspirações, dilemas, dramas e até situações cômicas envolvendo a eleição papal, o que, ironicamente, acaba sendo o que não deixa Conclave alçar voos maiores diante de uma esmerada e suntuosa produção.

Assim como aconteceu em Nada de Novo no Front, o cineasta reúne um time talentosíssimo na criação técnica – e aqui podemos citar como exemplo desde alguns dos seus colaboradores frequentes, o compositor Volker Bertelmann, um mestre na criação de temas fortes e marcantes, ou novos que se juntam ao time, como Suzie Davis, que faz um trabalho imponente e requintado no design de produção. Conclave enche aos olhos, claro, pelo sofisticado trabalho coletivo, mas, principalmente, pela maneira como tecnicamente cria a atmosfera perfeita para que nós, fiquemos tão intrigados quanto deslumbrados com os cenários e rituais que a igreja católica tenta deixar longe do olhar público. A ostentação de tantas instalações grandiosas e figurinos meticulosos contribui para essa sensação de que há muita coisa acobertada — afinal, de onde uma instituição religiosa tira recursos para manter uma vida tão sofisticada e magnificamente emoldurada? Eis o mistério da fé.

No centro da trama está o cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), a quem é confiada a missão de organizar e intermediar um novo conclave. Não exatamente um ingênuo, ele traz a perspectiva mais apropriada para o longa porque se dá ao benefício da dúvida quando precisa administrar o meio de campo entre outros cardeais cujas crenças oscilam entre o conservadorismo intolerante e à busca por igualdade que desafia séculos de posicionamentos problemáticos da igreja católica. Se a religião é o pano de fundo, Conclave, por outro lado, entende que ela nada mais é do que um jogo político, no final das contas. À medida em que descortina passado e presente dos mais cotados para o posto de papa, Lawrence passa a compreender que, como diz o liberal cardeal Bellini (Stanley Tucci), tudo não passa de uma guerra em que é impossível não tomar lado. E mais: entre descobertas e traições, ele ainda se depara com a quebra da sua expectativa de que há uma pessoa ideal para o cargo. Assim como na vida real, todos carregam consigo erros, histórias acobertadas e fragilidades a serem atacadas como em uma campanha política.

Conclave arma seu tabuleiro de xadrez com admirável habilidade, mas, talvez seguindo à risca o livro no qual se baseia, peca na construção de diversos momentos que movimentam a trama. Não é lá muito natural como o longa encena a sucessão de revelações que dará cabo de vários nomes favoritos à eleição. Se os próprios acontecimentos já parecem desenhados apenas para trazer reviravoltas ao invés de aprofundar os personagens, o humor pontual de certas passagens também tira bastante da urgência almejada pelo longa, reforçando a impressão de que, vez ou outra, derrubar um outro cardeal está mais para a brincadeira do que para a plausibilidade. Por sorte, como o grande ator que é, Ralph Fiennes dá um show ao navegar pelas constantes transformações de um homem em conflito com a fé e com ele próprio. Se Conclave cambaleia, ele está ali para abrilhantar o dia — e para nos lembrar que, apesar das fragilidades nas resoluções, o filme de Edward Berger envolve e entretém.


CONCLAVE REVIEW

For more than eight centuries, the Catholic Church has chosen its pope through a ritual called the conclave. This election process has remained practically unchanged in its rules and procedures since the mid-1200s, when Pope Gregory X first used the term to define the ritual. Spanning eras and historical events, the conclave remains a formality shrouded in mystery, as it continues to be conducted behind closed doors and with the utmost secrecy. In general, the new pope is elected through a supposedly secret ballot among the cardinals, and he must be mentioned on at least two-thirds of the ballots. Voting is repeated until a result is reached, whether it takes just a few hours or over two years, as was recorded in the shortest and longest conclaves in history, respectively.

I can’t recall any other film that has explored this ritual in such detail as Conclave, the new film by German director Edward Berger, who has gained widespread recognition in recent years for his adaptation of All Quiet on the Western Front, which won four Oscars, including Best International Feature Film. To imagine what happens behind the closed doors of the Vatican during the election of a new pope, Berger bases his film on Robert Harris’ 2016 bestseller of the same name. Adapted for the screen, the story indulges in (re)creating conspiracies, dilemmas, dramas, and even comic situations surrounding the papal election. Ironically, it’s this element that prevents Conclave from reaching greater heights, despite its meticulous and lavish production.

As with All Quiet on the Western Front, the director has assembled a highly talented technical team. Among them are frequent collaborators, such as composer Volker Bertelmann, a master of creating powerful and memorable themes, and new members like Suzie Davies, who delivers an imposing and refined production design. Conclave is visually striking, thanks to this sophisticated collective effort, but even more so because of how the film skillfully creates the perfect atmosphere for us to feel both intrigued and dazzled by the settings and rituals the Catholic Church strives to keep hidden from public view. The opulence of the grand sets and meticulous costumes adds to the sense that much is being covered up – after all, where does a religious institution find the resources to maintain such a sophisticated and magnificently framed lifestyle? This is the mystery of faith.

At the heart of the story is Cardinal Lawrence (Ralph Fiennes), who is entrusted with the task of organizing and mediating the new conclave. Not exactly naive, he provides the most appropriate perspective for the film, as he harbors doubts while trying to navigate between other cardinals, whose beliefs range from intolerant conservatism to a quest for equality that challenges centuries of problematic stances within the Catholic Church. Though religion serves as the backdrop, Conclave sees it as nothing more than a political game, in the end. As Lawrence uncovers the past and present of the top contenders for the papacy, he begins to understand, as the liberal Cardinal Bellini (Stanley Tucci) puts it, that it’s all just a war in which it’s impossible not to take sides. Moreover, through discoveries and betrayals, Lawrence is forced to confront the fact that there is no ideal candidate for the role. As in real life, everyone carries with them mistakes, hidden stories, and vulnerabilities to be attacked, much like in a political campaign. 

Conclave sets its chessboard with admirable skill, but perhaps by sticking too closely to the book on which it’s based, it falters in the construction of several key plot points. The way the film stages the succession of revelations that eliminate several frontrunners in the election doesn’t feel entirely natural. The events seem designed more to create twists than to deepen the characters. Furthermore, the occasional humor in certain scenes detracts from the film’s sense of urgency, reinforcing the impression that, at times, taking down a cardinal feels more like a game than something believable. Fortunately, Ralph Fiennes, as the brilliant actor he is, shines as he navigates the constant transformations of a man in conflict with his faith and himself. If Conclave stumbles, Fiennes is there to elevate it – and to remind us that, despite some weaknesses in its resolutions, Edward Berger’s film is engaging and entertaining.