Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado #2: filmes concorrentes e homenagens

Seleção de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado traz O Matador, primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil.

Julgando pelos títulos selecionados para a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros, o Festival de Cinema de Gramado tem tudo para fazer uma festa à altura de seus 45 anos. Formada inteiramente por títulos inéditos, a seleção traz estreias mundiais (A Fera na SelvaBioO Matador) e outras obras brasileiras que, até então, viajaram apenas por festivais internacionais (Pela JanelaNão Devore Meu Coração!As Duas IrenesComo Nossos Pais). É uma lista de respeito para um evento que, em 2017, mostrou ser a tela preferida tanto de veteranos diretores quanto de novos realizadores.

Mais do que isso, o evento reflete tendências mundiais: a discussão instalada em Cannes sobre a exibição de Okja, um filme produzido originalmente para Netflix, agora desembarca na Serra Gaúcha, pois é em Gramado que será realizada a primeira exibição de O Matador, o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Já entre os longas latinos, um recorde: dez países têm sua cinematografia representada na mostra. Para quem gosta das homenagens, o quarteto de 2017 é formado por Dira Paes (troféu Oscarito), Otto Guerra (troféu Eduardo Abelin), Soledad Villamil (Kikito de Cristal) e Antônio Pitanga (troféu Cidade de Gramado).

Agora só esperando o evento para saber se, na prática, ele será tão grandioso quanto promete. Confira abaixo, a lista de filmes selecionados em todas as categorias do 45º Festival de Cinema de Gramado:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Fera na Selva (RJ), de Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel

As Duas Irenes (SP), de Fábio Meira
Bio (RS), de Carlos Gerbase
Como Nossos Pais (SP), de Laís Bodanzky
O Matador (PE), de Marcelo Galvão
Não Devore Meu Coração! (RJ), de Felipe Bragança
Pela Janela (Brasil/Argentina), de Caroline Leone

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Los Niños (Chile/Colômbia/Holanda/França), de Maite Alberdi

Pinamar (Argentina), de Federico Godfrid
El Sereno (Uruguai), de Oscar Estévez & Joaquín Mauad
Sinfonía para Ana (Argentina), de Virna Molina e Ernesto Ardito
El Sonido de las Cosas (Costa Rica), de Ariel Escalante
La Ultima Tarde (Peru), de Joel Calero
X500 (Colômbia/Canadá/México), de Juan Andrés Arango

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
#feique (RJ), de Alexandre Mandarino

A Gis (SP), de Thiago Carvalhaes
Cabelo Bom (RJ), de Swahili Vidal
Caminho dos Gigantes (SP), de Alois Di Leo
Mãe dos Monstros (RS), de Julia Zanin de Paula
Médico de Monstro (SP), de Gustavo Teixeira
O Espírito do Bosque (SP), de Carla Saavedra Brychcy
O Quebra-cabeça de Sara (RJ), de Allan Ribeiro
O Violeiro Fantasma (GO), de Wesley Rodrigues
Objeto/Sujeito (SP), de Bruno Autran
Postergados (SP), de Carolina Markowicz
Sal (SP), de Diego Freitas
Tailor (RJ), de Calí dos Anjos
Telentrega (RS), de Roberto Burd

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (Prêmio Assembleia Legislativa)
10 Segundos (Canoas), de Thiago Massimino

1947 (Porto Alegre), de Giordano Gio
Através de Ti (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Bicha Camelô (Pelotas), de Wagner Previtali
Cores de Bissau (Porto Alegre), de Maurício Canterle
Gestos (Porto Alegre), de Alberto Goldim e Júlia Cazarré
Kátharsis (Caxias do Sul), de Mirela Kruel
Luna 13 (Porto Alegre), de Filipe Barros
Mãe dos Monstros (Porto Alegre), de Julia Zanin de Paula
Secundas (Porto Alegre), de Cacá Nazario
Sena, Os Fios em Prosa (Porto Alegre), de Marcelo da Rosa Costa e Cacá Sena
Sob Águas Claras e Inocentes (Porto Alegre), de Emiliano Cunha
Solito (Porto Alegre), de Eduardo Reis
Telentrega (Porto Alegre), de Roberto Burd

Rapidamente: “Laerte-se”, “Loving”, “Other People” e “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

Disponível no catálogo da Netflix, Other People fez sua estreia no Festival de Sundance e chegou a vencer o Independent Spirit Awards de melhor atriz coadjuvante para Molly Shannon.

LAERTE-SE (idem, 2017, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva): É realizado quase de forma caseira esse documentário extremamente singelo que se engrandece, na verdade, em função de sua personagem, a cartunista Laerte. Colaboradora de importantes publicações brasileiras como Istoé, Folha de São Paulo e Estadão, Laerte, homem até então, colocou a transexualidade em pauta quando, no ano de 2004, assumiu a sua identidade feminina publicamente, tornando-se uma figura fundamental no ativismo desse tema que, até hoje, é tão renegado pela sociedade. O filme lança um olhar para o mundo particular de Laerte ao discutir desde os efeitos que a morte precoce do filho em um acidente de carro trouxe para sua vida a tudo o que observa e pensa em relação ao conturbado momento político do Brasil. Claro que o desabrochar público da identidade feminina e a própria homossexualidade de Laerte ocupam boa parte do documentário dirigido de forma muito jornalística por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, mas Laerte-se tem o mérito tornar a personagem uma figura próxima do espectador justamente por contemplá-la como um todo, e não pela mera curiosidade de sua identidade sexual. Afinal, Laerte tem muito mais a dizer: sensível, inteligente e de grande retidão de caráter, ela realmente é maior do que o próprio documentário (o primeiro produzido originalmente pela Netflix no Brasil), especialmente ao abrir mão de qualquer vaidade para (literalmente) se desnudar frente às câmeras.  

LOVING: UMA HISTÓRIA DE AMOR (Loving, 2016, de Jeff Nichols): O que o casal Richard (Joel Edgerton) e Mildred Loving (Ruth Negga) viveu nos anos 1960 foi realmente barra pesada: ele, branco, e ela, negra, travaram uma batalha legal contra o estado de Virginia, nos Estados Unidos, quando decidiram se casar. Naquela época, o casamento interracial era proibido por lei e, até conseguirem provar nos tribunais que tal lei era inconstitucional, sofreram perseguições diárias por todos os lados imagináveis. O material era riquíssimo para um filme impactante e grandioso, mas Loving: Uma História de Amor não está à altura do pioneirismo de seus personagens. É compreensível a decisão do diretor Jeff Nichols de comandar o relato com uma pegada mais branda, o que imediatamente o livra de qualquer estereótipo ou do risco de cair na tentação da panfletagem. No entanto, a baixa fervura não traz impacto ou emoção: toda e qualquer reflexão trazida por Loving vem da história em si e não necessariamente do filme que, arrastado e beirando o monótono, não consegue nem engrandecer o desempenho quase monocórdico de Ruth Negga, que, de última hora, chegou até a disputar o Oscar 2017 de melhor atriz. O relato é importante, o filme tem boas intenções e todo o projeto as trabalha com os conceitos certos, mas Nichols, ao contrário do que realizou em O Abrigo, jamais faz com que Loving, de alguma forma, maximize toda sua discrição e sobriedade. 

OTHER PEOPLE (idem, 2016, de Chris Kelly): A quantidade de conflitos dramáticos poderia facilmente fazer com que um diretor de mão pesada transformasse Other People em um verdadeiro dramalhão. Felizmente, com a experiência do diretor Chris Kelly como roteirista (até agora, já são seis indicações ao Emmy de roteiro pelo programa Saturday Night Live), esse filme que estreou no Festival de Sundance em 2016 jamais descamba para o melodrama. Ao invés disso, Other People trilha o caminho da sobriedade e da ideia de que, muitas vezes, a vida por si só já é o suficiente para ficção. Reproduzindo aquela que é melhor característica do cinema norte-americano independente (a capacidade de dosar, com muita refinação, o drama e a comédia), o filme não fala sobre câncer, homossexualidade, relacionamentos falidos e carreiras profissionais com qualquer desespero ou afetação, o que é uma sábia decisão. Parte fundamental desse acerto se amplia na personalidade do protagonista David (Jesse Plemons), um roteirista gay que, ao ter que voltar para casa com o objetivo de ajudar no tratamento da mãe enferma, se vê impossibilitado de falar sobre as próprias angústias com a família porque o pai não aceita a sua homossexualidade mesmo depois de nove anos e a mãe enfrenta um tipo raro de câncer. A emoção de Other People, seja ela relacionada ao drama ou à comédia, é muito bem regulada, especialmente em função do impecável elenco, cujo maior destaque é a ótima Molly Shannon, que brilha não somente por ser a personagem que faz quimioterapia ou raspa cabeça, mas por, assim como o filme em si, encontrar total força na delicadeza dos pequenos momentos. 

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS (The Immortal Life of Henrietta Lacks, 2017, de George C. Wolfe): Depois de uma superestimada aparição no péssimo O Mordomo da Casa Branca e de um pequeno papel em Selma: Uma Luta Pela Igualdade, Oprah Winfrey finalmente tem uma chance à altura de sua presença em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, filme produzido pela HBO que, desde já, coloca Oprah entre as favoritas para conseguir uma vaga na disputada categoria do Emmy 2017 de melhor atriz em telefilme/minissérie. Ao contrário do que o título pode indicar, ela não interpreta Henrietta Lacks, mulher negra que, entre a década de 1940 e 1950 descobriu ter um tumor cervical cujas células produziam metástases anormalmente rápidas e se reproduziam infinitamente. Oprah, na verdade, dá vida à Deborah, filhe de Henrietta, que, buscando justiça pela mãe, cujas células foram usadas pela medicina no estudo pioneiro de doenças como a AIDS e a tuberculose sem consentimento algum, seja moral ou financeiro da família, é procurada por uma jornalista (Rose Byrne) que deseja fazer justiça à história de sua mãe através de um livro que está escrevendo. A história é verídica e, apesar de eventuais caricaturas e leituras muitos simplistas, retrata a vida de Henrietta pelo eficiente ponto de vista que adota: o da busca traçada por Deborah ao lado da jornalista. É a partir da palavra dos outros que descobrimos quem foi a personagem-título, o que se revela um relato muito mais carinhoso e respeitoso. É também o melhor momento de Oprah em anos, principalmente porque ela vence um desafio dificílimo: o de fugir de sua persona forte e marcante para criar uma personagem crível, que, apesar da total instabilidade emocional, conquista nossa torcida e até nos comove.

Okja

And most importantly… They need to taste fucking good!

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Jon Ronson, baseado em história de Bong Joon-ho

Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Paul Dano, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Lily Collins, Byun Hee-Bong, Jungeun Lee, Steven Yeun, Shirley Henderson, Devon Bostick, Jose Carias

EUA/Coréia do Sul, 2017, Drama/Aventura, 118 minutos

Sinopse: Nova York, 2007. Lucy Mirando (Tilda Swinton), a CEO de uma poderosa empresa, apresenta ao mundo uma nova espécie animal que foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, de forma que cada fazenda que o receba possa apresentá-lo à sua própria cultura local. A ideia é que os animais permaneçam espalhados ao redor do planeta por 10 anos, sendo que após este período participarão de um concurso que escolherá o melhor super porco. Uma década depois, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn) convive desde a infância com Okja, o super porco fêmea criado pelo avô. Prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, custe o que custar. (Adoro Cinema)

Quando meio mundo resolveu alimentar a mal interpretada polêmica de que Okja, um filme produzido originalmente pela Netflix e sem lançamento previsto para as telas de cinema, talvez não devesse integrar a mostra competitiva no Festival de Cannes por não ser uma obra pensada para a tela grande, a atriz Tilda Swinton deu o argumento definitivo para encerrar qualquer discussão: nem todo filme que ganha as telas da Riviera Francesa durante o célebre evento chegam aos cinemas mundiais, o que, na realidade, deveria fazer com que o público fosse grato à Netflix por disponibilizar Okja menos de dois meses após a premiação de Cannes e ao alcance de um clique. Tilda está certíssima, mas prefiro levar a discussão também para o plano criativo: como espectador, é mais gratificante ver, nem que seja em casa, um filme onde o resultado final é fiel ao que foi idealizado no papel do que conferir, na sala de cinema, uma obra que, para ganhar distribuição de grandes dimensões, precisou ser transformada e reconfigurada por uma série de produtores mais preocupados em garantir a bilheteria do que dar vida a um projeto autoral. Por isso – e pelo argumento de Tilda, claro – é tão bom ver Okja levando o selo da Netflix, uma vez que, para viajar o mundo nas telonas, o filme do sul-coreano Bong Joon-ho certamente passaria por uma série de modificações que, sem dúvida, não foram solicitadas pela plataforma on demand.  

Com uma clara denúncia em pauta (às vezes até explícita e didática demais, diga-se de passagem), Okja reafirma o talento de Bong Joon-ho de criar alegorias para falar sobre temas muito próximos da realidade. É bem provável que o pouco visto Expresso do Amanhã tenha naufragado comercialmente justamente por essa proposta de negar o óbvio e de não fazer apenas o entretenimento pelo entretenimento. A situação se repete com Okja, que, entre as tantas coisas que traz à tona, a última é ser uma mera história de monstro. A reflexão que a história faz em cima do abate animal na indústria alimentícia norteia o roteiro escrito por Joon-ho em parceria com Jon Ronson, cujo maior mérito reside na escolha do ponto de partida para a comovente denúncia. Inteligentemente, Okja opta por dispensar uma leitura macro da indústria para propôr um olhar muito mais íntimo. Ao acompanhar tudo pelo percepção da pequena Mija (Seo-Hyun Ahn), é muito mais fácil e natural se afeiçoar aos personagens, em especial ao super porco que, no terço final da projeção, terá protagonismo fundamental. É isso o que compensa o claro problema estrutural do texto que, no irregular segundo ato, se dilui em discursos fáceis, caricaturas um tanto descontroladas (o que também se estende ao elenco) e cenas perfeitamente dispensáveis. 

Ao retomar a abordagem particular de sua protagonista e o quão fundamental é para ela salvar a vida do animal que lhe acompanha há tantos anos, Okja recupera a força emocional perdida em seu miolo. Aliás, ela só é ampliada na medida em que o filme se encaminha para os momentos derradeiros, já que a crítica em relação ao modo ostensivo como o mundo industrializado é impiedoso com os animais se torna muito mais comovente visto todo o laço emocional que criamos com os personagens. Do ponto de vista técnico, o longa é de uma eficiência envolvente e funcional: dos dias desbravando as montanhas da Coreia às eletrizantes perseguições em movimentadas rodovias dos Estados Unidos, Okja impressiona pela qualidade com que torna cada situação crível, sem que o super porco pareça artificial esteticamente ou incoerente com o mundo real. A fotografia de Darius Khondji, que já trabalhou com diretores do calibre de Woody Allen, David Fincher, Michael Haneke e Wong Kar-Wai, ainda cria com precisão o tom bucólico das montanhas coreanas ao passo em que rebusca a sujeira e a palidez de uma Nova York sem alma. Em seu melhor, Okja é uma contundente reflexão que poderá comover até o mais carnívoro dos espectadores. E, no final das contas, o fato do filme ter sido concebido ou não para a tela grande é o que menos interessa.

Mulher-Maravilha

It’s about what you believe.

Direção: Patty Jenkins

Roteiro: Allan Heinberg, baseado em história dele próprio com Jason Fuchs e Zack Snyder e na personagem criada por William Moulton Marston

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, David Thewlis, Elena Anaya, Robin Wright, Danny Huston, Connie Nielsen, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Lucy Davis, Lisa Loven Kongsli, Ann Ogbomo, Eugene Brave Rock

Wonder Woman, EUA, 2017, Aventura, 141 minutos

Sinopse: Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, Diana Prince (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha em que é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e decide deixar seu lar certa de que pode parar o conflito. Lutando para acabar com todas as lutas, Diana percebe o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra. (Adoro Cinema)

Não deixe ninguém dizer o contrário: é importante e altamente gratificante que Mulher-Maravilha, um filme protagonizado e dirigido por mulheres a partir de uma história em quadrinhos, tenha finalmente chegado aos cinemas. Em tempos que a representatividade é pauta cada vez mais prioritária na indústria do entretenimento, a configuração do projeto se apresenta, no mínimo, como um reflexo histórico e pioneiro não apenas da evolução de um gênero mais dominado por homens do que a média, mas até mesmo do próprio cinema. Por outro lado, também é preciso achar um meio termo e ponderar muita coisa: ainda que catártico em sua representatividade, Mulher-Maravilha é, em termos criativos, um filme de super-herói como qualquer outro, inclusive no que se refere a problemas e vícios. A diretora Patty Jenkins, que não trabalhava com cinema desde 2003, quando fez Monster – Desejo Assassino, lapida e reajusta o que quase 100% dos homens faria, como objetificar a personagem a partir da forma como são capturados os detalhes do figurino, mas ainda está claramente de mãos atadas ao lidar com um filme dessa dimensão e com um estúdio que a obriga a usar a mesma paleta de cores dessaturadas de sempre e a infinidade de cenas de ação em slow motion que o diretor Zack Snyder tanto “consagrou” em suas adaptações de quadrinhos.

Totalmente independente do ponto de vista emocional e sexual, a protagonista Diana (Gal Gadot) acredita que os homens podem muito bem servir apenas para reprodução, trilhando o seu próprio caminho sem depender de ninguém. Seja em alto-mar ou entre os disparos de uma batalha de exército, ela é o que pode existir de mais simbólico para toda uma geração que precisa se ver representada na tela grande – e, nesse sentido, é inspirador observar crianças segurando hoje uma boneca da personagem com um orgulho inconsciente que, durante décadas, foi simplesmente impossível para gerações anteriores. É essa personagem forte que dá uma tônica diferenciada para Mulher-Maravilha, onde a israelense Gal Gadot, apesar de suas evidentes limitações como atriz dramática, defende a personagem à altura do que ela merece, respondendo tanto ao empenho físico exigido por um filme como esse quanto à personalidade decidida e tão fundamental para que a produção funcione em termos de representatividade. Fotogênica, Gadot também é estonteante com sua inegável beleza que, graças ao fato do filme ter uma mulher na cadeira de direção, jamais se torna uma muleta narrativa. Se a protagonista impressiona, não é por ser linda, mas por tudo que é e simboliza como uma figura feminina independente, algo que intimida quase todo homem hétero na vida real. É realmente importante que Diana esteja na tela dessa forma e chegando a tantas pessoas em nível mundial.

Obviamente é injusto aumentar as exigências em torno de um filme dessa natureza só por ele ser dirigido e protagonizado por mulheres, mas também é preciso reconhecer que não é por ele se configurar dessa maneira que seja deselegante falar sobre seus problemas, especialmente quando o roteiro não corresponde à relevância da produção como um todo. Escrito por Allan Heinberg, que nunca nunca havia trabalho com cinema e tem apenas séries populares de TV na bagagem (The O.C.Sex and the CityGrey’s Anatomy), Mulher-Maravilha começa muitíssimo bem ao encenar a vida da protagonista em uma ilha habitada apenas por Amazonas. Quando faz com que Diana saia de lá para desbravar uma Inglaterra em plena guerra com a Alemanha, a situação desanda, reforçando a ideia de que presença da personagem é muito maior do que o filme em si. Há algo de pouco instigante na relação entre o universo da heroína e a vida real, o que resulta ou em piadas datadas (Diana confundindo uma lingerie com uma perigosa armadilha e perguntando o que significa a palavra secretária é algo que já vimos centenas de vezes até em comédias desastrosas de Tim Burton como Sombras da Noite) ou em meras caricaturas, a exemplo do maquiavélico e unidimensional ditador alemão de sotaque pesadíssimo que precisa ser combatido. Ainda é um problema que o roteiro demore tanto para fazer a protagonista viver a sua própria história e não a do espião Steve Trevor (Chris Pine), que, lá pelo miolo do filme, ocupa um espaço bastante desproporcional em termos de tempo e destaque. Inexperiência por inexperiência em roteiros para o cinema, por que não dar essa chance também a uma mulher?

De ação limpa (Diana sequer sofre um arranhão em inúmeros confrontos violentos), clímax atrapalhado como o de quase todos os filmes de herói (é sempre a mesma megalomania onde os personagem precisam apresentar tudo que é tipo de poder e artimanha) e até motivações duvidosas (o que impulsiona a protagonista a arranjar forças para derrotar o grande vilão do filme pode muito bem ser interpretado como uma decisão machista do roteiro), Mulher-Maravilha volta a trazer a reflexão de que, sim, queremos histórias contadas e protagonizadas por mulheres, negros, gays e todo tipo de parcela da sociedade que a indústria subestima, não reconhece ou ignora. Da mesma maneira, queremos também histórias sofisticadas, diferentes, bem contadas, pois uma coisa não exclui a outra. Em maior e menor grau, tivemos excelentes exemplares recentes que comprovam como isso é possível (o feminismo ferrenho de Mad Max: Estrada da Fúria ou a completa catarse de Moonlight: Sob a Luz do Luar pelo menos em seus dois primeiros capítulos), enquanto Mulher-Maravilha fica no meio do caminho, acertando demais ao construir a força e a personalidade de uma personagem que já se torna marcante, mas perdendo muitos pontos no rasteiro conceito que emula de diversos outros filmes de herói. São problemas que surgem no vácuo? Não. A origem é clara: a diretora Patty Jenkins dançou conforme a música do estúdio, que já deve ter considerado a ideia de colocar uma mulher na direção algo suficientemente ousado para um produto dessa magnitude, o que deve explicar também a escolha de um homem inexperiente em cinema para escrever o roteiro. De qualquer forma, o primeiro passo importante foi dado. Por ora, celebremos!

Baywatch: S.O.S Malibu

I’m oceanic, motherfucker!

Direção: Seth Gordon

Roteiro: Damian Shannon e Mark Swift, baseado em história de David Ronn, Jay Scherick, Robert Ben Garant e Thomas Lennon, e na série criada por Douglas Schwartz, Gregory J. Bonann e Michael Berk

Elenco: Dwayne Johnson, Zac Efron, Priyanka Chopra, Alexandra Daddario, Kelly Rohrbach, Ilfenesh Hadera,  Jon Bass, Yahya Abdul-Mateen II, Hannibal Buress, Rob Huebel, Amin Joseph, Jack Kesy

Baywatch, EUA, 2017, Comédia, 116 minutos

Sinopse: Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) é um devoto salva-vidas, orgulhoso do seu trabalho. Enquanto está treinando o novo e exibido recruta Matt Brody (Zac Efron), os dois descobrem uma conspiração criminosa no local que pode ameaçar o futuro da baía. (Adoro Cinema)

Quer provocar polêmica em uma conversa sobre cinema? Então é só propor uma discussão sobre comédias para o assunto se tornar repleto de discordâncias e debates inconclusivos. Por ser algo muito particular, o humor é imediatamente decisivo na hora de julgar um filme do gênero. Ou vai dizer que é tarefa fácil desassociar o que você acha engraçado daquilo que uma comédia de pegada oposta propõe? Há, por exemplo, quem ache As Branquelas um guilty pleasure divertidíssimo enquanto meio mundo considera uma tremenda bobagem de mau gosto. Tem também que julgue um absurdo gostar de seriados como The OfficeExtras ou Getting On por eles rirem de coisas sérias como terceira idade, deficiência e homossexualidade, sendo que, na realidade, podem ser considerados até corajosos pelo humor politicamente incorreto. Já comédias como Baywatch: S.O.S. Malibu chegam ao cinema cercadas de preconceitos: afinal, será mesmo que algo de bom pode sair de um besteirol com homens que parecem praticar halterofilismo em seu maior grau, mulheres que desfilam na praia com maiôs cavadíssimos e brincadeiras envolvendo ereções, pelos pubianos e líquidos expelidos por cadáveres? A lógica da identificação com o humor se aplica aqui: quase nada é engraçado ou digno de reconhecimento em Baywatch se você não consegue rir do que está na tela, mas, na realidade, o problema se revela mais amplo, já que é muito tortuosa a forma com que o diretor Seth Gordon tenta construir alguma graça para o filme.

A crítica Isabela Boscov escreveu e dá perfeitamente para assinar embaixo: é preciso certo talento para fazer uma comédia ruim ao ponto de ela se tornar boa. Certamente não é o que acontece com Baywatch, que, no geral, é mesmo um besteirol, mas que frequentemente acredita envolver o espectador com uma trama de investigação quando, na verdade, ela é apenas desinteressante, ineficiente e enrolada. Ao invés de simplesmente deixar os personagens salva-vidas vivendo mil e uma besteiras na beira da praia, o filme prefere colocá-los como investigadores de um grande esquema de tráfico de drogas. Toda a função não é divertida porque o roteiro escrito pela dupla Damian Shannon e Mark Swift falha em tirar graça da investigação e prefere despertar algum tipo de curiosidade no espectador, como se alguém estivesse realmente interessado por aquela situação. Com isso, Baywatch se vê obrigado a tirar humor de qualquer outro lugar, e é exatamente aí que o filme se mostra incrivelmente frágil. O problema não é ter piada envolvendo sexo, ereções e vômitos, mas sim a inserção aleatória de cada uma dessas piadas. Sem talento para criar uma história divertida de tão absurda, a dupla de roteiristas resolve espalhar tudo que é tipo de situação constrangedora no filme para formar alguma identidade cômica. O resultado é um desastre: além do longa não se assumir como uma comédia de baixaria, sequer dá para dizer que ele debocha de si próprio ou se inspira na cafonice do seriado homônimo criado nos anos 1980 em que se baseia (e as participações rapidíssimas de Pamela Anderson e David Hasselhoff sequer imprimem alguma nostalgia, reforçando o espírito mal resolvido do filme).

Uma bela solução para comédias problemáticas como Baywatch pode ser a escolha de um elenco afiado e em plena sintonia para amortecer a situação. E não é errada a ideia de escalar Zac Efron para o papel do jovem gostoso, acéfalo e cheio de si, mas o ator há muito tempo deixou de ter qualquer carisma, preocupando-se apenas em ter braços cada vez mais estourados para aparecer descamisado em comédias que parecem todas iguais. Limitadíssimo, Zac não impressiona nem com atributos físicos (sua forma muscular já é desproporcional, quase ao ponto de deformá-lo e engessá-lo), abrindo espaço para que Dwayne Johnson, também interpretando a si mesmo como o brutamontes fitness de sempre, seja o responsável por dar leveza à história, muito pela brincadeira que seu personagem adota ao nunca chamar o Matt Brody de Zac Efron pelo nome, e sim por referências envolvendo sucessos teens como o próprio High School Musical estrelado por Efron. De resto, as meninas de decotes protuberantes fazem um esforço danado para completar qualquer frase, enquanto entre os coadjuvantes ainda há espaço para o gordinho cujas piadas envolvem apenas o tamanho de seu corpo e o fato de ele, um garoto que o roteiro trata escancaradamente como uma figura nada desejável frente aos corpos “esculturais” da praia, desejar a mulher mais linda da vizinhança – e é fácil deduzir como essa paixão aparentemente impossível irá se desenrolar. Após a onda de críticas negativas, Dwayne Johnson saiu na defensiva e disse que esse não é um filme para “críticos”. Pois bem, será, então, que o grande público soube apreciar devidamente a experiência? Não deixem de me contar.