Cinema e Argumento

“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida

The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell

Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland

Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos

Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.

Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.

Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.

Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele a ama por quem ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.

Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.

Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.

Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos conflitos das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.

Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.

Os indicados ao The Actor Awards 2026

Com sete indicações, Uma Batalha Após a Outra se torna o filme mais indicado na história do The Actor Awards.

Aconteceu o esperado, mas não deixa de ser frustrante: o Screen Actors Guild Awards — agora renomeado The Actor Awards — decidiu ignorar todas as atuações em língua não-inglesa desta temporada. É um dado que trabalha contra a premiação porque são muitos os títulos internacionais cotados por sindicatos, associações e outros prêmios. Como explicar, por exemplo, a ausência absoluta de Valor Sentimental, que tem quatro interpretações individuais reconhecidas por outros grupos? Ou, então, qualquer lembrança para O Agente SecretoFoi Apenas um Acidente, dois títulos facilmente dignos de figurarem na categoria de melhor elenco?

Não é de hoje que o The Actor Awards pretere interpretações celebradas como a de Isabelle Huppert em Elle ou a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui. Acontece que todas as premiações passam por um assumido processo de internacionalização, então, das duas uma: ou o The Actor Awards precisa urgentemente de uma reformulação para não ficar parado no tempo ou deve assumir um critério de seleção que seja restrito a interpretações em língua-inglesa. Do jeito que está, fica ruim para a imagem do prestigiado sindicato de atores.

Com tantos desfalques, os substitutos acabam não sendo escolhas necessariamente fora da curva (caso de Emma Stone, lembrada na categoria de melhor atriz pelo pueril Bugonia) ou de grande influência para a temporada (acho difícil que Miles Caton em ator coadjuvante por Pecadores seja uma tendência a ser seguida daqui para a frente). Se há algo que nós, como brasileiros, podemos comemorar é que, com a ausência de Wagner Moura em melhor ator por O Agente Secreto, os votantes optaram por Jesse Plemons (Bugonia). A notícia é boa porque estancou o crescimento de Joel Edgerton (Sonhos de Trem), que vinha figurando como favorito para emplacar uma vaga que ainda está em aberto e que, eventualmente, poderia prejudicar as chances de Wagner.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Missão: Impossível — O Acerto Final
Pecadores

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Jacob Elordi (Frankenstein)
Miles Caton (Pecadores)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Landman
The Diplomat
The Pitt
Severance
The White Lotus

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
The Studio
Only Murders in the Building

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
Andor
Landman
The Last of Us
Stranger Things
Round 6

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Aime Lou Wood (The White Lotus)
Britt Lower (Severance)
Keri Russell (The Diplomat)
Parker Posey (The White Lotus)
Rhea Seehorn (Pluribus)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Gary Oldman (Slow Horses)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)
Walton Goggins (The White Lotus)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (The Studio)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kathryn Hahn (The Studio)
Kristen Wiig (Palm Royale)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Ike Barinholtz (The Studio)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Christine Tremarco (Adolescência)
Claire Danes (O Monstro em Mim)
Erin Doherty (Adolescência)
Michelle Williams (Dying for Sex)
Sarah Snook (All Her Fault)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monster: The Ed Gein Story)

Jason Bateman (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Owen Cooper (Adolescência)
Stephen Graham (Adolescência)

Rapidamente: “Avatar: Fogo e Cinzas”, “O Filho de Mil Homens”, “Sorry, Baby” e “Wicked: Parte 2”

Eva Victor dirige, escreve e protagoniza Sorry, Baby.

AVATAR: FOGO E CINZAS (Avatar: Fire and Ash, 2025, de James Cameron): Ninguém duvida de que Avatar marcou época e promoveu inúmeras revoluções tecnológicas. Contudo, passados 16 anos desde o lançamento do primeiro filme, a impressão é de que, para o bem e para o mal, estamos falando as mesmas coisas sobre a franquia. Trata-se de algo positivo considerando a verve sempre inquieta de Cameron para criar os grandes espetáculos que hoje Hollywood parece incapaz de produzir, mas também de algo negativo, visto que roteiro nunca foi o forte do diretor — e tanto tempo dedicado a um mesmo universo só reforça essa tese. Em termos de história propriamente dita, as quase dez horas somadas de Avatar soam redundantes, muito mais agora em Fogo e Cinzas, que, por ser o terceiro capítulo, invariavelmente sofre com a ausência de novas ideias. É exaustivo, por exemplo, que tenhamos passado quase duas décadas com um antagonista — o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang — perseguindo o herói Jake Sully (Sam Worthington) de todos os jeitos possíveis, quando ele poderia ter facilmente saído de cena no segundo filme. Ao mesmo tempo em que introduz algumas novidades, como a entrada de outra vilã que traz uma ótima nuance para o mundo dos Na’vi, Fogo e Cinzas segue repetindo os discursos anticolonialistas já tão solidificados nos longas anteriores, assim como somente amplia a escala de sequências de ação muito similares entre os três volumes da saga. Nunca vi nenhum Avatar em casa, apenas nas salas de cinema, o que me deixa com a pulga atrás da orelha: será que, à parte a grandiosidade técnica e estética que vemos na tela grande, a trilogia formada até aqui sustenta parte de sua magia fora no sofá de casa? Ao contrário de outros trabalhos de Cameron, Avatar não me estimula tanto a uma revisão. Mau sinal?

O FILHO DE MIL HOMENS (idem, 2025, de Daniel Rezende): Outrora exímio montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, o paulista Daniel Rezende agora vem se firmando como um dos diretores brasileiros mais inspirados em atividade. Da irreverência de Bingo: O Rei das Manhãs à sofisticada doçura das duas adaptações de Turma da Mônica, ele navega em diferentes gêneros com o mesmo interesse e afinco. Ele não escapa à regra com O Filho de Mil Homens, em que se lança na complicada missão de levar às telas a literatura bela e poética de Valter Hugo Mãe. Falo em desafio porque a narrativa do autor é muito particular, seja na forma ou no conteúdo, e traduzir em imagens suas reticentes reflexões exige grande sensibilidade. Pois Daniel Rezende acerta outra vez, construindo um longa reverente à obra original, mas, ao mesmo tempo, livre para fazer suas próprias escolhas, inclusive do ponto de vista estético, já que esse se trata de seu trabalho mais apurado tecnicamente. Apesar de começar centrado no calado pescador vivido por Rodrigo Santoro, O Filho de Mil Homens se ramifica em outros personagens com o intuito de, eventualmente, entrelaçá-los e, assim, falar sobre a vida de figuras vistas aos olhos da sociedade como desajustadas, pecaminosas ou problemáticas. Em que pese os dramas genuínos e palpáveis de cada um deles, é a partir do momento em que suas histórias se cruzam que o filme fica ainda mais bonito, afinal, a generosidade é uma das maiores qualidades que qualquer ser humano pode ter hoje em dia. No acolhimento e na compreensão, o longa acentua a delicadeza do texto de Valter Hugo Mãe, e o faz sem ceder a convenções comerciais, evitando que o longa, produzido originalmente pela Netflix, flerte com mensagens rasteiras de autoajuda. O Filho de Mil Homens é bonito de ver e de sentir, além de acenar a todo momento para a literatura com os pés firmes no cinema.

SORRY, BABY (idem, 2025, de Eva Victor): A atriz, diretora e roteirista Eva Victor faz pelo menos duas coisas milagrosas em Sorry, Baby. A primeira é conseguir navegar nas diferentes fases de um trauma profundo com sobriedade, economia e até mesmo humor, sem perder de vista o pulso de uma história encenada em diferentes anos na vida da protagonista. Já a segunda é se despir completamente de vaidades para nunca fazer de seu trabalho uma egotrip. Não há deslumbre com as inúmeras diferentes possibilidades da história, sejam elas dramáticas ou cômicas. Tudo está a favor do filme, não do umbigo de sua realizadora. É um feito e tanto para uma cineasta que entrega o seu primeiro longa-metragem e que, a cada minuto dele, prova seu lugar de fala e a maturidade envolvida na construção do roteiro. Gosto, particularmente, da concepção da protagonista, uma acadêmica com senso de humor muito próprio e com plena consciência de que ela não tem as respostas certas para lidar com o que lhe assombra — e será mesmo que elas existem em experiências traumáticas? Aí está outro aspecto fascinante de Sorry, Baby: por meio de Agnes, Eva Victor mostra que cada história é uma história e que, nesta vida, nós administramos as dores a partir do que temos de repertórios ou (in)capacidades. Nada falta ou sobra também em termos de interpretação, visto que é fácil nos solidarizarmos com Agnes e ficarmos do seu lado seja qual for a sua reação diante do que lhe aconteceu.  Concentrando-se no peso do dia-a-dia, assim como nos momentos e nas relações que revigoram o passar do tempo, o filme conversa com o espectador da forma mais orgânica possível, o que só enfatiza a grata surpresa que é conhecer uma contadora de histórias tão sagaz e sensível.

WICKED: PARTE 2 (Wicked: For Good, 2025, de Jon M. Chu): Os aficionados pelo espetáculo original defendem a tese de que, nos palcos, Wicked já tem um segundo ato menos interessante do que o primeiro e que, portanto, não é nenhuma surpresa o fato da versão cinematográfica também ficar aquém do esperado. Bobagem. Adaptações também servem para propor novos olhares e leituras, assim como para mitigar escolhas não tão bem sucedidas. O que falta mesmo a Wicked é um diretor inspirado. A primeira parte, levada às telas com a mesma criatividade técnica e artística que qualquer outra aventura banalíssima da Marvel ou da DC, conseguia ser um entretenimento agradável muito em função de Cynthia Erivo e Ariana Grande, cujo frescor elevava o resultado junto às boas canções, culminando na clássica “Defying Gravity”. Por outro lado, Wicked: Parte 2, rodado simultaneamente com o primeiro filme, apenas deixa evidente a falta de um bom contador de histórias atrás das câmeras. Ao ter comandado os dois longas em um mesmo período, Jon M. Chu de fato concebe a parte 2 como apenas uma extensão da parte 1, sem elaborar absolutamente nada de novo. Não há um elemento ou uma identidade que dê qualquer tipo de vida própria à continuação. Nem mesmo a dupla protagonista, antes tão cintilante, consegue dar algum brilho ao material. De fato, a história decai na reta final, tanto do ponto de vista narrativo quanto musical, e o ritmo oscila entre o arrastado e acelerado, mas, quando os envolvidos não se esforçam para entregar algo minimamente novo, não há mesmo o que ser feito, muito menos quando decisões mercadológicas se impõem e já sugerem a produção de novas obras ambientadas no universo de Wicked.

 

Em “Morra, Amor”, depressão, loucura e maternidade são vistas pela ótica sempre inquietante de Lynne Ramsay

I’m stuck between wanting to do something and not wanting to do anything at all.

Direção: Lynne Ramsay

Roteiro: Alice Birch, Enda Walsh e Lynne Ramsay, baseado no romance homônimo de Ariana Harwicz

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, Nick Nolte, LaKeith Stanfield, Gabrielle Rose, Clare Coulter, Saylor McPherson, Kasmere Trice Stanfield, Sarah Lind, Zoe Cross, Luke Camilleri

Die My Love, Reino Unido/Canadá/Estados Unidos, 2025, Drama, 119 minutos

Sinopse: Grace (Jennifer Lawrence) acaba de ser mãe pela primeira vez. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda com a família para a antiga casa de infância do marido (Robert Pattinson), numa zona rural de Montana. Aos poucos, começa a enfrentar sentimentos de isolamento e sofrimento psicológico. Com a saúde mental em declínio no período de pós-parto, a realidade vai levando o casamento a um território inquietante e imprevisível.

Morra, Amor nos apresenta a Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) quando ambos chegam à casa que será seu novo lar. Idílico, ensolarado e silencioso, o cenário é perfeito para duas pessoas em busca de autorrealizações. Enquanto ele quer gravar um álbum, ela tem planos de escrever um romance. Mais para frente, o filme revela que a casa em questão pertencia ao tio falecido de Jackson — um sujeito sempre tido como feliz pela família e que veio a óbito porque cometeu suicídio. A triste dicotomia é notada apenas por Grace, e isso não é mera coincidência. Talvez ela reconheça nessa história algo do seu íntimo, não por presságios, agouros ou fantasmas, mas pela sensação de ver o seu próprio eu desaparecer na desesperadora imensidão do nada.

Perita em capturar o que existe de mais incômodo em estados de espírito muito particulares, a diretora Lynne Ramsay volta a pisar no terreno da maternidade após o assombroso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Com Morra, Amor ela novamente tem um material literário em mãos, no caso, o romance homônimo publicado por Ariana Harwicz em 2012. As duas adaptações de Ramsay, contudo, não se sobrepõem: ao passo em que Precisamos Falar Sobre o Kevin desvendava a protagonista por meio da relação disfuncional estabelecida entre ela e um filho — para dizer o mínimo — problemático, Morra, Amor acompanha o íntimo de uma mulher que, antes, durante e depois do nascimento do bebê, permanece em conflito consigo e com o mundo. Não há problema algum de conexão com o filho, diz Grace, a certa altura. O inferno, na verdade, é todo o resto.

Quando o silêncio bucólico dá lugar ao vazio, Morra, Amor passa a desconstruir a vida a dois. Há uma desconexão entre o casal, da maneira com que ambos passam a ter apetites muito distintos por sexo à falta de assunto ou interesse em estabelecer uma conversa banal por telefone quando um dos dois viaja a trabalho. O incômodo tão característico da filmografia de Lynne Ramsay toma forma com a estratégia da repetição, emulando, em situações corriqueiras, o desgaste emocional especialmente da protagonista. É de enlouquecer, por exemplo, que ela precise lidar com o cachorro recém adotado por Jackson. O animal tem papel importante porque representa o total descaso da figura masculina com o que acontece naquela casa. Afinal, o cão chega àquele ambiente sem o consentimento de Grace e vira mais uma “tarefa” para ela, já que Jackson pouco contribui para as tarefas domésticas.

O acúmulo dessas situações amplifica os dilemas de uma mulher em gradativa desintegração e cujo desespero está em não conseguir diagnosticar o que tanto lhe desconstrói. No roteiro escrito por Ramsay em parceria com Alice Birch e Enda Walsh, ecoam, claro, as inseguranças inerentes à maternidade — uma mãe de verdade precisa fazer ela mesma o bolo de aniversário do filho? — a ponto de elas se tornarem pequenas paranoias, como quando um choro inexistente do bebê soa bastante real mesmo no mais absoluto silêncio. Para completar, os alienados ou bem intencionados à volta também acabam contribuindo para a profunda depressão de Grace, afinal, a depressão costuma ser exatamente assim: incompreendida, subestimada ou vista apenas como falta de esforço, quando não passível de ser resolvida com uma aula de ioga e uma ida ao cabeleireiro.

Lynne Ramsay emoldura a trama com um aspecto de imagem 1:1 (o famoso formato “quadrado”), escolha que, por óbvio, “comprime” os sentimentos de uma personagem já presa entre a vontade de fazer alguma coisa da vida e não conseguir fazer absolutamente nada. Ninguém olha para Grace com compreensão — e muito menos consegue lhe dar um abraço ou algo do gênero. O resultado? Ela começa a se tornar um perigo para si, mais do que para os outros, tentando, no subconsciente, provar sua existência através da autodestruição, inclusive física. Sem flertar com o mero sadismo, a diretora filma tal processo com crueza, ainda que daí venha a sua fama de cineasta “controversa” ou que “divide opiniões”, classificações usadas para prevenir o público, mas que, neste mundo estranhamente comportado de hoje em dia, são necessárias e estimulantes.

Entre os produtores de Morra, Amor, está ninguém menos do que Martin Scorsese, que, informações dão conta, foi o responsável por escolher Jennifer Lawrence para o papel principal após assistir à sua performance em Mãe!. Gosto dessa informação porque ela valoriza uma fase da carreira de Lawrence que vem sendo subavaliada por público e crítica. Ainda que Lawrence tenha sido multipremiada mundo afora pelos filmes duvidosos de David O. Russell, suas escolhas mais interessantes e equilibradas se deram após a superexposição ao lado do diretor. Além de Mãe!, há o delicado Passagem, por exemplo, assim como o divertido Que Horas Eu Te Pego?, onde ela exercita sua verve cômica. Morra, Amor se soma aos ótimos projetos que a atriz vem escolhendo em um recorte mais desacelerado de sua filmografia. Destemida, ela brilha em cena ao, ironicamente, dar vida a alguém que está se apagando. Não é para todo mundo, como já foi possível constatar nas reações mistas ao filme desde a estreia mundial no último Festival de Cannes. Entretanto, mais uma vez, fico ao lado de Lynne Ramsay e seus incômodos, sempre potencializados por atores escolhidos com grande precisão.

Rapidamente: “Casa de Dinamite”, “Os Roses”, “Salve Rosa” e “A Vizinha Perfeita”

A Vizinha Perfeita venceu o prêmio de melhor direção em documentário no último Festival de Sundance e o Critics’ Choice Awards em cinco categorias do gênero.

CASA DE DINAMITE (A House of Dynamite, 2025, de Kathryn Bigelow): O poeta americano W. H. Auden escreveu que o prazer é o guia crítico menos falível de todos, o que explica minha relação com Casa de Dinamite, um filme de várias fragilidades, mas que, em última instância, conseguiu me deixar grudado nele do início ao fim. Trata-se do mais novo trabalho de Kathryn Bigelow cujo cinema, no geral, nunca chegou a me causar maiores comoções, e que agora assina a sua obra mais comercial, mesmo sem abandonar o estilo que lhe rendeu, inclusive, o primeiro Oscar de direção entregue a uma mulher com Guerra ao Terror. A diferença é que as discussões geopolíticas dão espaço muito mais amplo ao thriller e ao suspense, o que serve bem ao resultado de Casa de Dinamite, longa estruturado em três capítulos que mostram diferentes perspectivas para um mesmo espaço de tempo — no caso, os curtíssimos minutos quando o serviço de inteligência dos Estados Unidos percebe que está prestes a sofrer um misterioso ataque nuclear. Ninguém sabe de onde vem ou quem exatamente ordenou o movimento, restando apenas uma contagem regressiva das mais nervosas em que autoridades precisam tomar uma decisão, seja ela qual for. O primeiro ato é magnífico na construção da tensão, enquanto o segundo se sai admiravelmente bem ao manter a tração diante da reencenação dos fatos — e é aí que Bigelow imprime com destreza seu olhar quase documental em prol da imersão. Já o terceiro, centrado no personagem de Idris Elba, falha em praticamente todos os aspectos, da conclusão que não tem a devida pungência na falta proposital de respostas à própria ausência de atmosfera, onde fica evidente, por exemplo, o trabalho surpreendentemente preguiçoso de Volker Bertelmann em uma trilha sonora que parece apenas um copia-e-cola de seu trabalho em Conclave. Ainda assim, tal frustração não foi o suficiente para abalar a minha impressão positiva de Casa de Dinamite, que acompanhei com bastante interesse — e, portanto, com o guia crítico menos falível proposto por W.H. Auden.

OS ROSES: ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE (The Roses, 2025, de Jay Roach): Com Olivia Colman e Benedict Cumberbatch nos papéis principais, Os Roses: Até Que a Morte os Separa é uma refilmagem de A Guerra dos Roses, comédia de 1989 estrelada por Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, que, por sua vez, é baseado no romance homônimo de Warren Adler. Há atualizações que justificam esse retorno ao clássico, vingativo e venenoso embate de um casal diante de um complicado divórcio, como o enfoque dado à mediocridade e à masculinidade frágil de um pai de família que, repentinamente, deixa de ser o provedor da família e se vê às voltas com o desmoronamento da própria carreira. Já a mulher, antes uma cozinheira que abandonou a profissão para cuidar dos filhos, volta para a gastronomia com imenso êxito e sucesso, o que passa a acentuar uma série de conflitos no então pacífico matrimônio. Atento aos novos tempos, o roteiro escrito por Tony McNamara (A Favorita, Pobres Criaturas) transita com bom humor pelos meandros de um mundo em que os homens ainda têm imensa dificuldade em admitir fracassos e fragilidades — especialmente quando em contraste com gloriosos protagonismos femininos. Ao propor leituras como essa, Os Roses escapa de ser uma mera refilmagem caça-níquel, como já vemos aos montes no cinema norte-americano, e entrega divertidas observações sobre matrimônios que acabam ruindo mais por questões individuais de cada parceiro do que pelo casamento propriamente dito. Acontece que, tratando-se de um remake, é inevitável a expectativa em torno de como serão reproduzidos os elementos que consagraram a obra original, coisa que Os Roses até trabalha em seus materiais promocionais, mas falha em entregar na tela: a explosiva guerra do filme original e suprimida do título atual fica restrita a uma mínima fatia dos 121 minutos de duração e, quando entregue, soa como um clímax apressado, protocolar e pouco convincente mesmo dentro do espectro cômico construído até ali. O que era para ser o grande deleite de Os Roses acaba por ser, na verdade, uma inesperada frustração.  

SALVE ROSA (idem, 2025, de Susanna Lira): Comecei gostando do tom camp e artificial empregado a tudo — dos cenários perfeitinhos e coloridos em que Rosa (Klara Castanho) grava seus vídeos para a internet ao modo comercial de margarina com que Dora (Karine Teles) cria a filha, tudo parece perfeito demais para ser verdade, sinal desses nossos tempos cada vez mais obcecados com a aparência e com o olhar dos outros. A atmosfera se dissipa quando Salve Rosa revela a intenção de ser um The Act brasileiro, mas sem a mesma potência e criatividade da perturbadora minissérie estrelada por Joey King e Patricia Arquette. Não é apenas questão de propostas similares: na realidade, todo o desenvolvimento do roteiro escrito por Ângela Hirata Fabri dá a impressão de ser uma mera transposição da bem-sucedida produção estadunidense – que, por sua vez, adapta uma terrível história verídica. Ou seja, se você já viu The Act, automaticamente, você já viu Salve Rosa, cujo título, a certa altura, também já antecipa mais do que deveria para qualquer espectador atento. Outro problema é o filme estar tão empenhado em fazer uma denúncia, como se a exposição do problema central — no caso, os atos no mínimo criminosos de uma mãe que não quer perder os privilégios trazidos pela vida famosa da filha na internet – ditasse o funcionamento de tudo, seja ele do encadeamento dos fatos até o próprio tom das interpretações orbitantes às protagonistas. O terceiro ato, em particular, carimba a falta de sutilezas e de um olhar mais complexo para a confecção da dramaturgia. É nele que Salve Rosa, precisando dar vazão às catarses e resoluções inerentes a um thriller, corre rápido demais rumo à mensagem que deseja passar, sem se preocupar exatamente com a verossimilhança dos acontecimentos. A esta altura, Klara Castanho (vencedora do prêmio de melhor atriz no último Festival do Rio por sua performance) e Karine Teles estão meio que por elas próprias, carregando, cada uma à sua maneira, o interesse que, infelizmente, Salve Rosa desperta ao início, mas perde pouco a pouco ao longo do caminho.

A VIZINHA PERFEITA (The Perfect Neighbor, 2025, de Geeta Gandbhir): Ganhou o prêmio de melhor direção na mostra de documentários do último Festival de Sundance, além de ter vencido as categorias de melhor documentário, direção, montagem, documentário de arquivo e true crime da edição do Critics’ Choice Awards dedicada ao gênero. Todos os reconhecimentos são merecidos para este filme impactante de Geeta Gandbhir sobre o homicídio de Ajike Owens, morta pela vizinha Susan Loricz em 2023 após uma série de disputas envolvendo um grupo de crianças que brincava nas redondezas da vizinhança. Cerca de 90% do que se vê em A Vizinha Perfeita é constituído de câmeras acopladas aos uniformes dos policiais ao longo de todo o conflito, o que traz uma eficiência angustiante ao resultado, uma vez que acompanhamos todo o desenrolar dos fatos como se de fato estivéssemos em campo com as autoridades. Com o mínimo de interferência em cima dos acontecimentos, o documentário examina as controvérsias envolvendo a lei conhecida como “Stand Your Ground” nos Estados Unidos, que, basicamente, legitima ataques até mesmo letais caso seja comprovada a defesa do que se entende como território físico de cada pessoa. Obviamente, a lei é mais uma porta de entrada para a perpetuação do racismo sistêmico, já que estatísticas comprovam que a população negra sempre é a mais penalizada na aplicação dos efeitos da Stand Your Ground, principalmente em casos como o de Ajike Owens e Susan Loricz, sem provas concretas do crime, apenas a palavra de uma pessoa sobre o ocorrido. São questões que lançam luz sobre tantas outras definidoras da sociedade estadunidense — o porte de armas, a violência urbana, a desigualdade social — e que A Vizinha Perfeita conduz sem sensacionalismo, mesmo tendo um lado muito bem definido sobre toda a situação. Condenada a 25 anos de prisão, Susan Loricz sempre alegou inocência, mas conclusões de sobra podem ser tiradas a partir do documentário sobre como ela encapsula a maneira elástica e relapsa com que os Estados Unidos administram leis tão suscetíveis a relativizar o caos e a letalidade.