Mamma Mia!

Direção: Phyllida Lloyd
Elenco: Meryl Streep, Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Christine Baranski, Julie Walters, Colin Firth, Stellan Skarsgard, Dominic Cooper
EUA, 2008, Musical, 95 minutos, Livre.
Sinopse: Na ilha grega de Kalokairi, a menina Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a se casar quando resolve enviar três convites da cerimônia para três homens – Sam Carmichael (Pierce Brosnan), Bill Anderson (Stellan Skarsgard) e Harry Bright (Colin Firth) –, acreditando que um deles é seu pai. De diferentes partes do mundo, os três resolvem voltar à ilha. Quando chegam, a mãe de Sophie, Donna (Meryl Streep), se surpreende ao ficar cara-a-cara com os ex-namorados que nunca conseguiu esquecer. E, enquanto eles inventam desculpas por estar ali, ela se pergunta qual deles é, realmente, o pai de Sophie.

Muito se fala sobre a expansão dos musicais no mundo cinematográfico, devido ao inúmero sucesso deles nos últimos tempos, mas é fato que até hoje não é um gênero que se consolidou e que muito menos garante sucesso. Todavia, não podemos negar que esses filmes têm os seus fãs garantidos, e Mamma Mia! vem aos cinemas não só com o público dos musicais garantido reconhecimento ao longa, mas também com os fãs do ABBA. Ambos encontram no tom bastante teatral adotado pela direção de Phyllida Lloyd uma sensação de improviso e espontaneidade que só faz bem ao filme. Assim como o já citado longa de Adam Shankman, Mamma Mia! não tem particularidades que saltem aos olhos como muitos dos musicais marcantes de diferentes gerações, mas é justamente com a sua simplicidade que ele irradia.
Minha maior preocupação era que as músicas ficassem desconexas com o filme. Realmente, algumas delas ficam um pouco avulsas e perdidas, como é o caso de Voulez-Vous, Souper Trouper e Gimme! Gimme! Gimme!. Contudo, é fácil perdoar esses deslizes quando vemos Meryl Streep entoando a canção-tema e The Winner Takes It All (a parte mais emocionante). É esse lado musical de Mamma Mia! que define se o espectador vai gostar ou não do resultado – o longa é inteiramente musicalizado e são poucos os minutos sem algum número. Inseridas em praticamente todas as situações, as canções podem ser o ponto alto assim como também podem atrapalhar. Depende de como você curte o gênero.
Como sempre, fui conquistado pelo elenco. A escolha da jovem Amanda Seyfried para ser a noiva é um acerto, assim como Christine Baranski é divertidíssima em cena. Porém, como era de se esperar, é Meryl Streep quem rouba a cena. Não por suas tiradinhas engraçadas que eram constantemente realçadas em todos os trailers, mas pela sua impressionante vitalidade. Prestes a completar sessenta anos de idade (!), ela mostra um vigor assustador em momentos que exigem total empenho vocal, como no momento de The Winner Takes It All. Cena essa, em que Meryl gravou em uma única tomada, sem qualquer interrupção. É a verdadeira estrela do musical.
Por outro lado, Mamma Mia! carece de um roteiro mais interessante e de conflitos consistentes, defeitos esses que são compensados por todas as qualidades citadas nesse texto. Não chega a ser um espetáculo de primeira classe, culpa em parte do fato de Phyllida Lloyd ser uma profissional dos palcos e não ter carreira no cinema, o que limita suas escolhas criativas na telona. Entretanto, duvido que alguém não saia do cinema com um sorriso querendo ouvir logo as canções do longa novamente. Inofensivamente Mamma Mia! faz rir, além de contagiar com um elenco que, aqui ou ali desafine, parece, assim como boa parte do público, se divertir à beça.
FILME: 8.0

Violência Gratuita

Direção: Michael Haneke
Elenco: Naomi Watts, Michael Pitt, Tim Roth, Brady Corset, Devon Gearhart, Boyd Gaines, Robert LuPone, Linda Moran
Funny Games, EUA, 2008, Suspense, 107 minutos, 16 anos.
Sinopse: Casal rico (Naomi Watts e Tim Roth) curte o início das férias com seu filho em uma casa à beira de um lago. Enquanto o marido e o menino cuidam do barco, a esposa recebe a visita de um educado vizinho (Michael Pitt) que pede ovos emprestados. Ele e outro sujeito, que chega logo depois, não irão mais sair da casa. A família é mantida em cativeiro pelos dois invasores, que executam jogos sádicos e violentos.

“Violência Gratuita é um filme que vai desagradar muita gente por conta de seu estranho jeito de contar uma sádica história. Felizmente, é difícil resistir diante tamanha tensão do roteiro, que usa a insanidade como principal fonte para causar medo e nervosismo no espectador.”
Sempre tive mais medo dos loucos do que dos mortos; e sempre achei que o cinema de suspense nunca se deu conta do poder da insanidade. Depois de uma terrível onda de filmes de terror com pessoas mortas, como O Chamado e O Grito, a indústria de Hollywood parece finalmente ter aberto a porta da loucura para o público. Não é a toa que até Batman – O Cavaleiro das Trevas, uma grandiosa produção, usa esse artifício para criar um vilão fascinante. Insanidade é a base de Violência Gratuita; é através dela que vamos acompanhar uma história tensa sobre os limites da mente do ser humano, e quais conseqüências isso pode acarretar para quem é vitíma de tais mentes perturbadas.
Michael Haneke não é um diretor que me motiva – sempre acho que suas direções não utilizam da forma mais instigante os temas que podiam render bons momentos. É o caso do estranho Caché, longa que possui inúmeras portas, mas que na minha visão ficou apenas no mediano. Em Violência Gratuita, refilmagem do seu longa de 1997, ele continua tendo aquela velha mania de sua “câmera observadora”: são intermináveis minutos num mesmo foco para mostrar a ação do local. O fato é que Haneke não se deixou levar por esses seus truques e construiu um longa tenso e que consegue ser muito mais interessante do que inúmeros filmes por aí, como o já saturado Jogos Mortais. O título pode atrapalhar um pouco o sucesso do filme. Tanto para o bem quanto para o mal. Ao mesmo tempo em que atrai o público, afasta alguns mais conservadores. Mas o filme não tem litros de sangue ou massacres de tapar os olhos – é uma violência realista e calculista, feita para chocar mas nunca descambando para o absurdo do inaceitável.
Difícil imaginar que aquele casal feliz do início do longa vai se devastar tanto durante a história. Tendo isso em vista, o roteiro apostou em narrar a degradação do casal diante da insanidade de dois jovens que não apresentam razões lógicas para suas atitudes irracionais. Na figura de Michael Pitt não enxergamos um vilão perverso com intuito de espalhar terror, mas sim uma mente completamente perdida. Acabamos sentido pena dele, mas é justamente a imprevisibilidade de seu personagem que mais apavora, já que nunca sabemos o que ele fará em seguida. Agride sem razão, muda de opinião toda hora e faz tudo sem motivo aparente. Já Naomi Watts e Tim Roth têm o difícil papel de demonstrar para o público todo o desespero das vítimas. Ambos estão excelentes, mas é Naomi que se destaca. Despindo-se (quase que literalmente) de clichês que a personagem poderia trazer, ela é a figura mais realista do longa. Presente de uma ótima atriz.
A fotografia nebulosa e a direção de arte ajudam o espectador a entrar completamente no clima de Violência Gratuita. É como se estivéssemos lá, junto com eles, passando por toda aquela agonia. Limitando-se apenas a um cenário, o longa se beneficia justamente por causa disso, uma vez que o clima de claustrofobia fica presente a cada minuto de projeção. Se tem um fator técnico que me desagradou foi a a inexistência de uma trilha sonora instrumental. Eu sei que essa escolha agrada muita gente e que em certas tomadas realmente funciona. Porém, acredito que a jornada dos personagens teria mais impacto emocional se tivéssemos uma trilha. Depois de uma hora de duração, o longa perde bastante de sua força e isso afeta o julgamento final. O final é previsível de certa forma e deixa uma sensação desagradável, pois eu esperava um outro desfecho. Violência Gratuita vai desapontar muita gente, principalmente aqueles que estão sedentos por uma história violenta. O longa não é sobre isso. É um estudo da alma humana. E constrói seu suspense baseado nisso. O que, para mim, é algo fenomenal.
FILME: 8.5

Bernard and Doris
Direção: Bob Babalan
Elenco: Susan Sarandon, Ralph Fiennes, Peter Asher, Don Harvey, Chris Bauer, Monique Curnen, Nick Rolfe, James Rebhorn
EUA, 2008, Drama, 107 minutos, 14 anos.
Sinopse: Bernard Lafferty (Ralph Fiennes) e Doris Duke (Susan Sarandon) pertencem a dois mundos muito distintos. Ela é uma bilionária da indústria do fumo. Ele, seu mordomo homossexual. Apesar das diferenças, ambos estabelecem laços muito estreitos, a ponto de Doris deixar parte de sua fortuna para ele.
10 INDICAÇÕES AO EMMY 2008
(nas categorias referentes a “Filme Feito Para TV”)
Melhor Filme, Direção, Atriz (Susan Sarandon), Ator (Ralph Fiennes), Roteiro, Trilha Sonora, Figurino, Fotografia, Main Title Design, Hairstyling.

“A produção requintada e os dois protagonistas validam uma conferida em Bernard And Doris, telefilme da HBO com 10 indicações ao Emmy que não chega a ser um trabalho muito original, mas que ainda sim tem pontos interessantes.”
Miss Daisy Werthan é uma mulher rica que necessita de um ajudante. Ao contratar Hoke Colburn, ela fica relutante a fazer algum tipo de contato social com seu mais novo empregado. Mas, com o passar do tempo, acabou criando um laço afetivo com ele e no final das contas viu que sempre foi somente ele quem esteve ao seu lado quando ela precisou. Todo mundo sabe que essa é a sinopse do ótimo Conduzindo Miss Daisy, vencedor de diversos Oscar. Entretanto, é praticamente sobre isso que Bernard And Doris se trata. Temos aqui a bilionária Doris Duke (Susan Sarandon, vencedora do Oscar por Os Últimos Passos de Um Homem) que pouco a pouco vai construindo uma relação de cumplicidade com seu mais novo mordono, Bernard Lafferty (Ralph Fiennes). A diferença entre o recente telefilme e o longa de Bruce Beresford, é que o primeiro tem personagens muito mais complexos.
A relação entre Doris e Bernard não é simples. Ela dorme com garotos de programa e tem problemas de alcoolismo. Ele é homossexual e como mesmo diz, vive a vida de quem paga seu salário. Não é instantaneamente que vamos simpatizar com a amizade que surge entre eles, tamanha a complexidade existente no relacionamento. Em determinado ponto, até mesmo Doris questiona o que existe entre eles: “O que você realmente quer de mim? Você não quer dormir comigo. Você não rouba meu dinheiro. Você não se aproveita do meu status. O que você quer de mim?“. O que permanece, no final do filme, é a certeza de que apesar de tudo, existiu um afeto muito significativo para ambos. E somente o olhar de Doris para Bernard ao receber alguns remédios quando está debilitada comprova isso.
Mesmo com personagens tão difíceis e interessantes dramaticamente, o roteiro não acertou ao trabalha-los, limitando-se apenas a narrar o dia-a-dia entre eles. Não dá maior amplitude ao relacionamento ou detalha os intrínsecos dos sentimentos. Fica só assistindo as coisas acontecerem, assim como nós. Acho que faltou um pouco mais de humanidade ali. Sem falar que essa passividade narrativa faz com que o longa fique repetivo e desinteressante em alguns momentos. Sorte que temos dois atores competentes no comando para contornar esses problemas da história. Susan Sarandon, depois de uma desastrosa participação na desgraça chamada Identidade Roubada e uma emocionante aparição em No Vale das Sombras, tem aqui um excelente desempenho como Doris. Indicada ao Emmy de Melhor Atriz esse ano por seu trabalho, voltou a apresentar sua grande qualidade que andava meio escondida nos últimos tempos. Já Fiennes segue a mesma excelência, em papel ainda mais complexo que o dela.
Bernard And Doris é dirigido pelo ator Bob Balaban. Para um iniciante nesse cargo, ele realiza um trabalho competente, sabendo suprir bem os deslizes de seu filme com outros pontos. Se o roteiro não ajuda, ele ao menos sabe usar bem os atores que tem e tudo o que o lado técnico pode lhe proporcionar. Fiquei particularmente satisfeito com os figurinos e com a direção de arte, que exaltam toda a classe e poder de Doris Duke. Bernard And Doris recebeu dez indicações ao Emmy desse ano. Mesmo que não merecesse concorrer em categorias principais, como filme e roteiro, mereceu todas as outras, principalmente as relacionadas aos atores. O filme não tem nada de marcante ou sequer especial, mas merece uma conferida por causa dos atores.
FILME: 6.5

Batman – O Cavaleiro das Trevas

Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Gary Oldman, Michael Caine, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Cillian Murphy
The Dark Knight, EUA, 2008, Ação, 155 minutos, 14 anos.
Sinopse: Após dois anos desde o surgimento do Batman (Christian Bale), os criminosos de Gothan City têm muito o que temer. Com a ajuda do tenente James Gordon (Gary Oldman) e do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), Batman luta contra o crime organizado comandado pelo Coringa (Heath Ledger), um lunático sem identidade e nada a perder.

“Batman – O Cavaleiro das Trevas é muito mais do que apenas a presença do marcante Heath Ledger como Coringa. É um aperfeiçoamento do volume anterior, em um longa adulto e que não tem praticamente nada de histórias em quadrinhos.”
Definir O Cavaleiro das Trevas como um blockbuster é um erro; ao menos é o que eu acho. É difícil defini-lo, só quem o assistir vai entender porquê. Não é nem bem uma aventura – tem toques de política, clima de investigação, tratamento de filme policial, situações cômicas e diálogos inteligentes. Unido a isso, temos o longa-metragem mais bem produzido na história das produções baseadas em quadrinhos. Tudo é muito sério e real, em todos os sentidos. Acreditamos no cenário (até porque Gothan City foi filmada em uma cidade de verdade, não em locações cenográficas), na ação e, principalmente, nos personagens. Uma coisa óbvia é que a morte de Heath Ledger serviu de válvula de escape para que o filme atraísse a atenção do mundo inteiro. Todavia, o longa é muito mais do que apenas a participação do ator. O Cavaleiro das Trevas tem muito mais a oferecer.
Pra começo de conversa eu quero fazer uma defesa ao Coringa de Jack Nicholson. Ultimamente, um bom número de fontes têm criticado o trabalho do veterano ator, alegando que o personagem criado mesmo nem se compara com o de Heath Ledger (falecido em janeiro desse ano). O que eu quero dizer é que são situações completamente distintas. Quase vinte anos se passaram e o tratamento do Batman mudou. Por isso não concordo com comparações, que não são cabíveis. Deixando isso de lado, tudo o que se falou de Heath Ledger é mesmo verdade. Eu, que nunca fui admirador do ator (nem no seu trabalho em O Segredo de Brokeback Mountain vejo alguma genialidade) não vou sequer ter a oportunidade de poder gostar dele. Quando ele fez Não Estou Lá, adquiriu minha total simpatia. E agora com O Cavaleiro das Trevas, vi seu verdadeiro talento. Durante o filme, fica difícil compreender como ele foi se matar – aqui está seu melhor trabalho, totalmente marcante. Ainda que seu Coringa seja essencialmente cômico, recita frases bem elaboradas (“insanidade é como gravidade, só é preciso um empurrãozinho”) e traduz toda a força da insanidade. Desde já um dos melhores vilões na história do gênero. Em momento algum o diretor Christopher Nolan deixa o personagem se sobrepor ao verdadeiro teor do filme, fazendo com que Ledger seja um coadjuvante nato e muito valioso – mas não o meu favorito do ano, ainda fico com Javier Bardem e seu impressionante Anton Chigurh.
Ledger é a grande estrela do filme, mas é heresia dizer que é a estrela absoluta. Christian Bale se prejudica um pouco por conta do vilão, que acaba sendo muito mais interessante e motivador que o próprio Batman e seus dilemas existenciais. Mesmo assim, ele continua sendo um grande acerto da série, distante de qualquer defeito. Michael Caine e Morgan Freeman continuam aproveitando o espaço reduzido que lhes é proporcionado da menor maneira possível. Quem eu achei que teve uma boa evolução desde Batman Begins foi Gary Oldman. Seu personagem tem mais espaço e toma até contornos dramáticos. Aaron Eckhart foi outra aparição bem-vinda. No elenco, quem me decepcionou foi a Maggie Gyllenhaal. Substituindo a Katie Holmes, ela aparece sem brilho e com pouco a acrescentar. Nada negativo, apenas algo completamente neutro.
Quem viu e aprovou o resultado de Batman Begins, com certeza também vai aprovar o desse. Como O Cavaleiro das Trevas é um filme mais badalado, vai levar muito mais gente ao cinema (infelizmente vai ser difícil escapar de sessões lotadas e com gente inconveniente). E esse pessoal leigo pode estranhar o longa. Mesmo eu, que vi o longa anterior, fiquei um pouco surpreso com a estrutura dessa continuação – de quadrinhos só tempos os personagens, já que o resto é real. Não assistimos heróis lutando contra vilões em lutas mirabolantes ou sequencias absurdas de ação, O Cavaleiro das Trevas constrói sua aventura em torno de questões políticas banhadas a uma investigação. Isso pode cansar quem espera algo acelerado, e realmente cansa. Não é um longa parado ou lento, mas estica demais a sua história. É aquele tipo de filme que quando pensamos que vai acabar em determinado momento, prossegue em mais uma cena. Isso estraga um pouco o resultado, desmotivando-nos com a história e deixando o espectador até mesmo um pouco perdido diante de tantos fatos.
O lado sonoro é um dos pontos que mais impressiona no filme de Christopher Nolan, e não falo apenas da soberba trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard (que traz a melhor composição já feita para um filme de ação: Introduce a Little Anarchy), mas também a mixagem e a edição de som. Então, ver o longa em um cinema de boa qualidade é indispensável para admirar esses quesitos. Mas o maior mérito e do diretor Nolan, amadurecido e seguro em toda a condução da produção, sem falar na bela montagem. Agora, os fatos que me incomodaram. Como já citado, a esticada história é um deles. Mas a repentina mudança de personalidade do personagem de Aaron Eckhart foi mal elaborada. Concordo que com a situação que ele passou poderiam ser acarretadas diversas coisas, mas não algo tão insano e brusco como aconteceu. Seu desfecho foi insatisfatório, assim como o do próprio Coringa. Se o roteiro tem várias surpresas, poderia ter caprichado no final também.
O Cavaleiro das Trevas não é o melhor filme do ano, mas certamente fica entre os melhores. Não é inovador nem original, só incrivelmente bem produzido por pessoas mais do que competentes. O filme é sobre o herói e o vilão que existe dentro de cada um de nós. Sobre o que podemos nos tornar diante de situações extremas e de nossos desejos cegos. É, O Cavaleiro das Trevas além de ser entretenimento, também deixa inúmeras reflexões. Pena que o público não enxergue isso, só os verdadeiros cinéfilos.
FILME: 8.5
O Escafandro e a Borboleta

Direção: Julian Schnabel
Elenco: Mathieu Almaric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Patrick Chesnais, Niels Arestrup, Max Von Sydow
Le Scaphandre Et Le Papillon, França, 2007, Drama, 115 minutos, 14 anos.
Sinopse: Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) tem 43 anos, é editor da revista Elle e um apaixonado pela vida. Mas, subitamente, tem um derrame cerebral. Vinte dias depois, ele acorda. Ainda está lúcido, mas sofre de uma rara paralisia: o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo. Bauby se recusa a aceitar seu destino. Aprende a se comunicar piscando letras do alfabeto, e forma palavras, frases e até parágrafos. Cria um mundo próprio, contando com aquilo que não se paralisou: sua imaginação e sua memória.
4 INDICAÇÕES AO OSCAR:
Melhor Diretor, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem

“O Escafandro e a Borboleta é um filme cheio de inventividades em sua narrativa, tornando-se um filme curioso e instigante do ponto de visto técnico. Competente em suas emoções, dá um excelente tratamento a uma história triste – mas que, infelizmente, não conseguiu me conquistar.”
Em uma ligação para seu filho, Papinou (Max Von Sydow) diz que ambos estão na mesma situação, alegando que cada um deles está preso a algum tipo de lugar. Por essa cena, podemos ver que o pai não tem a mínima noção da situação de seu filho, que recém foi vítima de derrame e não pode mover nada em seu corpo além do olho esquerdo. É praticamente impossível fazer comparações com uma situação trágica como essa. O diretor Julian Schnabel quis que o espectador sentisse toda a tristeza e agonia do protagonista; tendo isso em mente, resolveu realizar um artifício narrativo ousado – narrar boa parte da história pela visão do protagonista. Ou seja, durante um longo tempo sequer enxergamos a vítima do derrame, apenas sentimos e, durante algum tempo, sentimos na pele como é estar naquela situação. Uma jogada inteligente que, junto com a maravilhosa fotografia (talvez a melhor do ano) e a esplêndida montagem, torna-se o maior atrativo do longa-metragem.
As inovações param ficam aí. Ao contrário de todo o resto, o roteiro é que permanece como o único fator do filme que é previsível. Limitamo-nos a assistir os dias do protagonista e a construção de seu livro, enquanto outros fatores mais interessantes dramaticamente (como seus arrependimentos e relações mal sucedidas) poderiam ser muito mais explorados. A relação do nosso protagonista Jean-Dominique (Matthieu Almaric) com seu pai, o descaso com os filhos e a interação com suas mulheres poderiam ter dado mais espaço ao constante e desnecessário número de cenas em que Jean-Dominique fica “soletrando” frases. Por isso, os 115 minutos do longa acabam se tornando bem longos. Porém, as emoções do filme são competentes e esperadas para um longo desse estilo.
Normalmente esse tipo de história me agrada bastante e tende a me emocionar, mas não foi o que aconteceu com O Escafandro e a Borboleta. Reconheço que é um filme cheio de analogias, bons momentos de reflexão e alguns bem emotivos – mas simplesmente não consegui mergulhar no sentimentalismo. O Escafandro e a Borboleta venceu o Globo de Ouro de Melhor Diretor e Filme Estrangeiro, além de ter conseguido obter quatro indicações ao prêmio da Academia (Diretor, Roteiro Adaptado, Fotografia e Edição). Reconhecimento merecido, já que o longa francês vale bastante pelo seu setor técnico. As emoções e o conteúdo foram secundários para mim. Seria eu um insensível?
FILME: 7.0
