Up – Altas Aventuras

Direção: Pete Docter e Bob Peterson
Com as vozes originais de: Edward Asner, Christopher Plummer, John Ratzenberg, Jordan Nagai, Jerome Ranft
Up, EUA, 2009, Animação, 103 minutos, Livre
Sinopse: Carl Fredricksen é um vendedor de balões de 78 anos que finalmente realiza o sonho de uma vida inteira partindo em uma grande aventura depois de prender milhares de balões à sua casa e voar para as florestas da América do Sul. Mas ele descobre – tarde demais – que seu pior pesadelo embarcou com ele na viagem: um menino de 8 anos, excessivamente otimista e explorador da natureza, chamado Russell. Numa jornada emocionante, esses parceiros improváveis encontram uma paisagem inóspita, vilões inesperados e criaturas selvagens.

Já virou evento cinematográfico. Todo ano, quando a Pixar lança alguma animação nova, os cinéfilos já se preparam para assistir um dos grandes filmes do ano. Foi assim com Ratatouille e com WALL-E. E, agora, o feito se repete com Up – Altas Aventuras. A mais nova produção do estúdio pode até não ser superior aos últimos trabalhos apresentados. Mas, sem dúvida, é o mais emotivo – conseguindo, com muita facilidade, emocionar e divertir na medida perfeita.
Claro que não dá pra levar as situações de Up – Altas Aventuras ao pé da letra. Tudo é muito improvável e surreal, mas a Pixar sabe lidar tão bem com os seus próprios exageros (em alguns momentos, parece não existir senso de gravidade ou peso na animação), que isso quase passa despercebido. A história é relativamente fraca e sem muito conteúdo. Entretanto, graças a um excelente tratamento narrativo, ganhou contornos muito agradáveis e, principalmente, sensíveis.
Temos aqui uma animação que percorre diversos caminhos emocionais. Amizade, amor e companheirismo se unem para causar no espectador diversas reflexões. Isso fica particularmente evidente em uma linda sequência logo no início do filme, onde acompanhamos toda a vida do personagem com sua esposa. Mais do que isso, Up – Altas Aventuras ainda constrói uma ótima relação de parceria entre o protagonista rabugento e o garotinho chato. Tudo isso sem soar piegas ou clichê. Como é de hábito na Pixar.
Falar sobre a parte técnica é cair no lugar comum, já que a produtora é impecável nesse assunto. Mas carimbo aqui a minha grande satisfação com a trilha do Michael Giacchino. O filme é o primeiro a ser rodado em 3D no estúdio e o que vale ressaltar é que esse formato é de total indiferença para a qualidade da história. O que mais importa é o elenco de personagens, todos simpáticos e engraçados – ainda que óbvios.
Up – Altas Aventuras não é uma animação espetacular ou exatamente marcante, mas é com muita firmeza que se estabelece como uma das melhores produções do ano. Isso prova que, mesmo quando não alcança o brilhantismo, a Pixar consegue deixar muita gente comendo poeira. E, no final das contas, a caricatura do vilão e os destinos óbvios da trama não comprometem em nada o resultado. Fruto de um estúdio que sabe o que está fazendo.
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:

A Partida

Direção: Yôjirô Takita
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomo Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano
Okuribito, Japão, 2008, Drama, 130 minutos, 12 anos
Sinopse: Depois que a orquestra onde toca é dissolvida, um modesto violoncelista (Masahiro Motoki) volta à cidade natal com a esposa. Lá ele começa a trabalhar como funcionário funerário e fica extremamente orgulhoso de sua nova profissão, apesar das críticas dos que o rodeiam.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar alguma temporada do seriado Six Feet Under não vai encontrar nenhuma novidade nos dramas apresentados por A Partida, filme vencedor do Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro. Mas, isso não quer dizer que não se pode entrar no clima do longa-metragem. Muito pelo contrário. O diretor Yôjirô Takita arquitetou um filme muito melancólico e com interessantes tons dramáticos.
Por mais que A Partida tenha um passo lento – por vezes monótono – e um ritmo arrastado, consegue contornar esses defeitos e moldar um retrato competente sobre a morte. Ou, mais especificamente, sobre o ritual feito para homenagear o falecido em seus últimos momentos com os familiares. O que se destaca nesse contexto é a beleza desse ritual, que no Japão ganha uma abordagem ainda mais bonita, já que a cerimônia é muito emblemática e de uma grande estética visual.
A Partida consegue, também, ser emocionante com grande frequência. Parte desse feito se deve ao lindo trabalho na trilha sonora – a parte sonora aqui é bastante valorizada, sendo peça fundamental para construir a atsmofera dramática do filme. O elenco, claro, também valoriza esses momentos – unindo drama e comédia (sim, a história também tem toques cômicos) com bom balanceamento.
Encontramos aqui um filme singelo, mas que ganha maiores proporções em função de sua humildade ao tratar de forma acessível uma temática tão difícil. A Partida não vai mudar a vida de ninguém e nem é um filme diferenciado, mas ao menos pode dizer que cumpriu a sua missão: atingiu a emoção do espectador e teve bom resultado como cinema.
FILME: 8.0

Intrigas de Estado

Direção: Kevin MacDonald
Elenco: Russel Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Jeff Daniels, Robin Wright Penn, Jason Bateman
State of Play, EUA, 2009, Drama, 117 minutos, 14 anos
Sinopse: O ambicioso congressista americano Stephen Collins (Ben Affleck) é o futuro de seu partido – até que sua assistente morre tragicamente, e segredos começam a ser elucidados. Cal McAffrey (Russell Crowe), repórter veterano de Washington D.C., tem uma antiga amizade com Collins, mas, seguindo ordens de sua editora, Cameron Lynne (Helen Mirren), precisa investigar a história. Na medida em que ele e sua parceira novata Della Frye (Rachel McAdams) tentam desvendar a identidade do assassino, se deparam com uma conspiração envolvendo algumas das mais promissoras figuras políticas e corporativas dos Estados Unidos.

“Com bom resultado, mas com estrutura previsível, Intrigas de Estado vale como um entretenimento passageiro.”
Não se engane, Intrigas de Estado não é o que parece. A sinopse pode sugerir um filme complexo e difícil, mas não é. O roteiro é bem claro, objetivo – característica já marcante do diretor Kevin MacDonald (do ótimo O Último Rei da Escócia). No entanto, o longa se dedica demais ao fácil entendimento e o conjunto geral acaba soando muito correto e, pior ainda, formulaico. Fica aquela sensação de filme noturno de televisão sobre determinado jornalista fazendo papel de policial para desvendar um caso de assassinato.
Uma jogada esperta do roteiro foi esconder a figura de Ben Affleck (que é um péssimo ator e que sempre corre o risco de colocar tudo a perder) e centrar a trama na figura de Russell Crowe. Ainda temos nomes talentosos como a jovem Rachel McAdams e a vencedora do Oscar Helen Mirren. Eles estão longe de apresentar algo louvável no longa, porém, são o que sustentam o filme – junto com o bom roteiro.
Num balanço, Intrigas de Estado tem bom diretor, elenco e roteiro. Mas, não cativa. É simplista demais, pouco ousado ou sequer original. Esse é o grande mal dos filmes que carregam bons nomes na equipe. O espectador acaba aguardando demais. E, na maioria das vezes, o resultado não corresponde. É o caso aqui. Se não tivessemos esses nomes no filme, talvez ele pudesse ser mais interessante.
Apesar de tudo isso, é um bom filme. A película de MacDonald prende a atenção e, como já citado, é objetiva, não enrola. São quase duas horas de bom entretenimento. Nada mais do que isso. Intrigas de Estado tem saldo positivo, só não é aquilo que poderia ter sido. Mas, isso não quer dizer que não mereça uma conferida.
FILME: 7.5

Duplicidade

Direção: Tony Gilroy
Elenco: Clive Owen, Julia Roberts, Paul Giamatti, Tom Wilkinson
Duplicity, EUA, 2009, Comédia, 120 minutos
Sinopse: CIA e ele do MI6, que deixaram seus antigos empregos para lucrar com a guerra fria existente entre duas corporações rivais. O objetivo de ambos é encontrar a fórmula de um produto, que renderá uma fortuna a quem patenteá-lo antes. Para tanto eles buscam sempre enganar o outro, usando todos os truques possíveis.

Uma pena que Julia Roberts esteja envolvida nesse projeto. Ela vende o filme de forma errada. Quem pensa que Duplicidade vai trazer romance e comédia no estilo dos filmes que deram sucesso para Julia, vai se decepcionar. O longa de Tony Gilroy (um diretor difícil de engolir) não é simples: tem narrativa fragmentada, trama levemente complexa e inúmeras complicações para os personagens na história. Gilroy segue o mesmo estilo de Conduta de Risco e obtem um resultado bem parecido, só que dessa vez com um tom divertido – e até mesmo irônico.
O problema é que Duplicidade demora a engrenar. O enredo só começa a ter momentos de maior significância depois da metade. Até ali, o vai-e-vem narrativo incomoda e os personagens não trazem empatia. Porém, de uma hora pra outra, as coisas melhoram e o espectador pode perceber um roteiro mais dinâmico. O diretor e roteirista Gilroy parece ter se especializado nesse tipo de trama, onde acompanha-se os problemas internos e as falcatruas dentro de grandes empresas. Não é algo que necessariamente me atraia, mas aqui até que tem certo efeito.
Julia, mal fotografada e com a idade já marcando o seu rosto (meu momento Rubens Ewald Filho esse, não?!), Clive Owen, Paul Giamatti e Tom Wilkinson estão regulares. Falta, porém, um maior aprofundamento das figuras, que nunca são bem exploradas. Ora, fica difícil se envolver com personagens que não possuem maiores dimensões. Mais difícil ainda é torcer por eles. Portanto, Duplicidade peca ao não trazer um maior embasamento para as figuras que trabalham em cena. Centrou-se demais na narrativa truncada do que no desenvolvimento dos personagens.
O que se conclui, portanto, é que o filme é dirigido para o público que já conhece Tony Gilroy. Principalmente para aqueles que apreciam o estilo dele. Duplicidade não é nenhuma pérola e muito menos justifica todo o buzz envolvendo o diretor (que, por alguma razão, foi ovacionado por seu trabalho de estreia), mas diverte e tem bons momentos. Especialmente quando funciona, já que consegue alcançar passagens de puro entretenimento.
FILME: 7.5

Orações Para Bobby

Direção: Russell Mulcahy
Elenco: Sigourney Weaver, Ryan Kelley, Henry Czerny, Dan Butler, Austin Nichols, Carly Schroeder, Shannon Eagen
Prayers for Bobby, EUA, 2009, Drama, 88 minutos, 14 anos
Sinopse: Mary (Sigourney Weaver) é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho Bobby (Ryan Kelley) revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo”. No entanto, Bobby não suporta a pressão e se atira de uma ponte, encerrando sua vida aos 20 anos de idade. Depois desse fato, Mary descobre um diário do garoto e passa a conhecer melhor o mundo dos homossexuais, tornando-se, logo, uma ativista em prol dos diretos gays. Baseado em uma história real.

“Eu não vou ter um filho gay”. Essa é a última frase que Mary (Sigourney Weaver) disse para o seu filho, Bobby (Ryan Kelley). Ele pulou de uma ponte e acabou com sua jovem vida de 20 anos de idade. A mãe do garoto acredita que gays são pessoas que fazem sexo em banheiros públicos, depravados suscetíveis a qualquer tentação carnal e que são assim porque escolheram. Esse é o pensamento dela e também o de muitas pessoas. O cinema, ao meu ver, nunca conseguiu realizar um filme sobre esse tema com a devida sensibilidade. E nisso incluo, também, o cultuado O Segredo de Brokeback Mountain (pra mim, mais uma história de atração do que de amor) e o recente Milk – A Voz da Igualdade. Orações Para Bobby vem mudar esse cenário.
Pena que o filme de Russell Mulcahy tenha sido feito para TV – ou seja, destinado a não ter grande repercussão. É um trabalho que, certamente, merecia um reconhecimento mais amplo. Encontramos nele uma abordagem diferente sobre o mundo homossexual: trata puramente sobre as emoções, deixando de lado o tão explorado lado sexual. Aí que está o maior mérito de Orações Para Bobby; ele traz jornadas sentimentais muito interessantes. Tanto do garoto quanto da sua mãe. A primeira metade do filme é sobre como o garoto procura se aceitar e se inserir na família preconceituosa, sofrendo com discriminações e com o fato de ser “diferente”. Na segunda metade, acompanhamos o arrependimento da mãe, que começa a descobrir toda a sensibilidade que seu filho tinha ou como os gays são seres humanos providos de sentimentos como qualquer pessoa.
Todas as histórias, além de terem um cunho emocional fantástico, são representadas com grande excelência pelos atores. O jovem Ryan Kelley está excelente como Bobby e cumpre com precisão o papel do personagem. Mas, sem dúvida alguma, o show fica com Sigourney Weaver. Ela, que apareceu pouco nos últimos anos, tem aqui uma grande interpretação. É aquele tipo de personagem que vai evoluindo em cena, passando por uma grande transformação. Primeiro, a mãe de uma família perfeita. Depois, religiosa fervorosa tentando curar o filho. Por fim, mulher arrependida e tentando se redimir de sua ignorância perante a homossexualidade do filho. É uma atuação sublime, que vai desde minúcias até momentos de choros emocionantes.
Orações Para Bobby tem seus defeitos. A direção, por exemplo, é simplista, sem ousadias – com alguns maneirismos estéticos estranhos, principalmente em alguns enquadramentos. Com certeza, se esse aspecto fosse mais contundente e menos convencional, o longa teria ainda mais impacto. Todavia, o que se conclui é que os defeitos ficam pequenos perto de uma história tão certeira em suas emoções. Um filme essencial para quem é ou conhece alguém homossexual. Mas, é dirigido mais especificamente para as mães, especialmente aquelas que não aceitam seus filhos como eles são. Que elas tenham, ao final do filme, o mesmo pensamento de Mary: “Eu sei porque Deus não ‘curou’ o meu filho. Ele não o curou porque não havia nada de errado para ser curado”.
FILME: 9.0
