O que eu (não) absorvi de Anticristo

Não sei se já aconteceu com algum de vocês, mas sabe aquele tipo de filme em que simplesmente não dá pra absorver o que viu? Ou quando o filme parece complexo demais para a sua capacidade de percepção? Pois é, apesar da premissa absurdamente simples, Anticristo é um filme repleto de entrelinhas. É o longa mais estranho que Lars Von Trier já realizou na sua carreira e, possivelmente, o mais difícil.
Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg se entregam de corpo e alma para seus respectivos papéis; o prológo é uma das aberturas mais sencacionais dos últimos tempos; o drama aparece de forma contundente no princípio. Mas, em determinado momento, Anticristo começa a falar somente por imagens e tudo parece cabeça demais. É para o público que aceita desafios narrativos, que consegue enxergar muito além do que está sendo mostrado na tela.
Eu apreciei muitas coisas, mas não vou cometer o erro de fazer uma crítica para um filme que eu talvez nem tenha entendido. Bom ou não, Anticristo é um filme polêmico, que traz discussões. Quem vai para o cinema assistir tem que estar ciente de que estará diante de um cinema diferente e estranho. Vai depender do paladar do espectador se a experiência será ou não positiva. Eu não sei o que penso até agora.
Os Normais 2

Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Raia, Drica Moraes, Danielle Winits, Daniel Dantas, Alinne Moraes, Daniele Suzuki, Mayana Neiva
Brasil, 2009, Comédia, 75 minutos, 16 anos
Sinopse: Vani (Fernanda Torres) e Rui (Luiz Fernando Guimarães) estão diante da crise dos 13 anos e resolvem tomar uma atitude para apimentar a relação: realizar uma de suas fantasias mais loucas – um ménage à trois. Em sua busca na noite carioca por alguém que tope embarcar na aventura, eles encontram as mais diferentes figuras: uma prima de Vani, uma freqüentadora de karaokê, uma bicampeã de kickboxing, uma bissexual, uma francesa e uma garota de programa.

“Nem a dupla de protagonistas salva Os Normais 2 da tragédia. É um filme exagerado, sem noção e mal feito.”
O pôster era terrível e o trailer vergonhoso. Tudo anunciava que Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todos (pra quê esse subtítulo cretino?) seria uma tragédia. Não foi diferente. Praticamente tudo dá errado nessa continuação que, possivelmente, deve desapontar até mesmo quem é fã de carterinha do seriado. O primeiro filme já não era lá tão original, mas ao menos tinha mais graça, era menos grotesco do que esse.
É extremamente complicado entender como um filme desses foi produzido. Será que ninguém na produção se deu conta de que estava diante de algo péssimo? É de se admirar que uma atriz do calibre de Fernanda Torres tenha se metido em uma cilada dessas. Os Normais 2 começa bem (a cena de Vani fazendo um gráfico da vida sexual de várias mulheres no banheiro é ótima) e se mantem durante certo tempo.
No entanto, a falta de história começa a ficar visível e algumas piadas simplesmente não fazem sentido algum. Em determinados casos, inclusive, assistimos situações constrangedoras (a do hospital é terrível) que nos despertam a vontade de sair correndo da frente do filme. Pesaram demais no tom sexual, na abordagem do grotesco e nas piadas de mal gosto.
É uma história mal matizada, cheia de tropeços e sem propósito algum. Não dá pra levar a sério nem pra se divertir com situações tão sem noção. A direção parece descontrolada, dando um tratamento televisivo demais (mas vale lembrar que isso nunca iria ao ar na TV por ser tão bagaceiro e explícito). Os 75 minutos de filme parecem mais um episódio comprido e não existem traços cinematográficos na produção.
Agora, por que razão assistir Os Normais 2? Não existe justificativa plausível e que possa encobrir os defeitos. O único detalhe que merece grande crédito nesse filme de mal gosto é a perfeita sintonia de Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães. Ambos sabem conduzir seus personagens com perfeição. São eles que nos lembram que Rui e Vani são excepcionais e hilários. São eles que justificam os míseros quatro pontos que eu concedi ao filme. Somente eles.
FILME: 4.0

A Bela Junie

Direção: Chritophe Honoré
Elenco: Léa Seydoux, Louis Garrel, Grégoire Leprince-Ringuet, Esteban Carvajal-Alegria, Simon Truxillo, Jacob Lyon
La Belle Personne, França, 2008, Drama, 90 minutos, 14 anos
Sinopse: Após a morte de sua mãe, Junie (Léa Seydoux) muda-se para um novo colégio onde conhece Otto (Grégoire Leprince-Ringuet), um timído rapaz de quem vira amiga. Nesse tempo, ela se apaixona por seu professor de italiano, Nemours (Louis Garrel).

“Irregular em algumas histórias, mas bem sucedido em outras, A Bela Junie tem resultado mediano por ter problemas de roteiro.”
Já virou uma parceria do estilo Tim Burton + Johnny Depp. O diretor Christophe Honoré e o ator Louis Garrel estão constantemente trabalhando juntos. A Bela Junie representa mais um trabalho dos dois. Só que dessa vez, o resultado não passa do regular e o longa não consegue transmitir muita segurança ou interesse para o espectador. Na verdade, Louis Garrel é um personagem secundário da história – que foca a sua atenção no encantamento que a Junie (Léa Seydoux) do título causa nos personagens. Seja no seu tímido colega, no seu professor de italiano ou nos seus amigos. Mas, por um outro lado, a Junie é igualmente confusa e, no seu interior, é cheia de problemas.
O roteiro trabalha os conflitos emocionais muito superficialmente e a Junie, no final das contas, soa mais como uma garota sem vida do que como uma pessoa encantadora como a sinopse e o título indicam. Mas, isso não é empecilho para a triz Léa Seydoux, que tem bom desempenho aqui. Se, por um lado, A Bela Junie peca ao traçar a jornada da protagonista, acerta nas histórias secundárias. Especialmente nos casos amorosos de Nemours (Louise Garrel) com alunas e colegas de trabalho e nos relacionamentos adolescentes na escola da história (e nisso também se inclui uma relação homossexual que aparece timidamente).
Incluindo uma tomada onde um personagem começa a cantar para expressar seus sentimentos – exatamente como aconteceu em outro filme de Honoré, o Em Paris – o longa-metragem tem pontos positivos, mas, às vezes, se estima demais, achando que é intelectual e cult. Isso termina por tirar a simplicidade que poderia existir em A Bela Junie. Mais vale um filme simples e efetivo do que um filme complexo e sem muita eficiência. Contudo, vale ressaltar que é uma história boa. Só ficou devendo maior dinamismo.
FILME: 6.5

Up – Altas Aventuras

Direção: Pete Docter e Bob Peterson
Com as vozes originais de: Edward Asner, Christopher Plummer, John Ratzenberg, Jordan Nagai, Jerome Ranft
Up, EUA, 2009, Animação, 103 minutos, Livre
Sinopse: Carl Fredricksen é um vendedor de balões de 78 anos que finalmente realiza o sonho de uma vida inteira partindo em uma grande aventura depois de prender milhares de balões à sua casa e voar para as florestas da América do Sul. Mas ele descobre – tarde demais – que seu pior pesadelo embarcou com ele na viagem: um menino de 8 anos, excessivamente otimista e explorador da natureza, chamado Russell. Numa jornada emocionante, esses parceiros improváveis encontram uma paisagem inóspita, vilões inesperados e criaturas selvagens.

Já virou evento cinematográfico. Todo ano, quando a Pixar lança alguma animação nova, os cinéfilos já se preparam para assistir um dos grandes filmes do ano. Foi assim com Ratatouille e com WALL-E. E, agora, o feito se repete com Up – Altas Aventuras. A mais nova produção do estúdio pode até não ser superior aos últimos trabalhos apresentados. Mas, sem dúvida, é o mais emotivo – conseguindo, com muita facilidade, emocionar e divertir na medida perfeita.
Claro que não dá pra levar as situações de Up – Altas Aventuras ao pé da letra. Tudo é muito improvável e surreal, mas a Pixar sabe lidar tão bem com os seus próprios exageros (em alguns momentos, parece não existir senso de gravidade ou peso na animação), que isso quase passa despercebido. A história é relativamente fraca e sem muito conteúdo. Entretanto, graças a um excelente tratamento narrativo, ganhou contornos muito agradáveis e, principalmente, sensíveis.
Temos aqui uma animação que percorre diversos caminhos emocionais. Amizade, amor e companheirismo se unem para causar no espectador diversas reflexões. Isso fica particularmente evidente em uma linda sequência logo no início do filme, onde acompanhamos toda a vida do personagem com sua esposa. Mais do que isso, Up – Altas Aventuras ainda constrói uma ótima relação de parceria entre o protagonista rabugento e o garotinho chato. Tudo isso sem soar piegas ou clichê. Como é de hábito na Pixar.
Falar sobre a parte técnica é cair no lugar comum, já que a produtora é impecável nesse assunto. Mas carimbo aqui a minha grande satisfação com a trilha do Michael Giacchino. O filme é o primeiro a ser rodado em 3D no estúdio e o que vale ressaltar é que esse formato é de total indiferença para a qualidade da história. O que mais importa é o elenco de personagens, todos simpáticos e engraçados – ainda que óbvios.
Up – Altas Aventuras não é uma animação espetacular ou exatamente marcante, mas é com muita firmeza que se estabelece como uma das melhores produções do ano. Isso prova que, mesmo quando não alcança o brilhantismo, a Pixar consegue deixar muita gente comendo poeira. E, no final das contas, a caricatura do vilão e os destinos óbvios da trama não comprometem em nada o resultado. Fruto de um estúdio que sabe o que está fazendo.
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO DO CINEMA E ARGUMENTO:

A Partida

Direção: Yôjirô Takita
Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomo Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano
Okuribito, Japão, 2008, Drama, 130 minutos, 12 anos
Sinopse: Depois que a orquestra onde toca é dissolvida, um modesto violoncelista (Masahiro Motoki) volta à cidade natal com a esposa. Lá ele começa a trabalhar como funcionário funerário e fica extremamente orgulhoso de sua nova profissão, apesar das críticas dos que o rodeiam.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar alguma temporada do seriado Six Feet Under não vai encontrar nenhuma novidade nos dramas apresentados por A Partida, filme vencedor do Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro. Mas, isso não quer dizer que não se pode entrar no clima do longa-metragem. Muito pelo contrário. O diretor Yôjirô Takita arquitetou um filme muito melancólico e com interessantes tons dramáticos.
Por mais que A Partida tenha um passo lento – por vezes monótono – e um ritmo arrastado, consegue contornar esses defeitos e moldar um retrato competente sobre a morte. Ou, mais especificamente, sobre o ritual feito para homenagear o falecido em seus últimos momentos com os familiares. O que se destaca nesse contexto é a beleza desse ritual, que no Japão ganha uma abordagem ainda mais bonita, já que a cerimônia é muito emblemática e de uma grande estética visual.
A Partida consegue, também, ser emocionante com grande frequência. Parte desse feito se deve ao lindo trabalho na trilha sonora – a parte sonora aqui é bastante valorizada, sendo peça fundamental para construir a atsmofera dramática do filme. O elenco, claro, também valoriza esses momentos – unindo drama e comédia (sim, a história também tem toques cômicos) com bom balanceamento.
Encontramos aqui um filme singelo, mas que ganha maiores proporções em função de sua humildade ao tratar de forma acessível uma temática tão difícil. A Partida não vai mudar a vida de ninguém e nem é um filme diferenciado, mas ao menos pode dizer que cumpriu a sua missão: atingiu a emoção do espectador e teve bom resultado como cinema.
FILME: 8.0
