Cinema e Argumento

Pooh e o resgate da inocência

Com a evolução técnica das animações e maior complexidade de conteúdo originados pela Pixar, o antigo jeito de fazer animações parece ter desaparecido. Se Sylvain Chomet ganha pontos justamente por apostar na humildade técnica em longas como As Bicicletas de Belleville e o recente O Mágico, podemos dizer que obras assim já não são mais populares. Chomet, por adotar esse estilo, é considerado alternativo e suas animações não ganham maior repercussão – até porque não são dirigidas ao público infantil. Nesse sentido, O Ursinho Pooh é uma verdadeira surpresa por trazer de volta o antigo clima dos desenhos animados comerciais que faziam sucesso.

É no mínimo arriscado resgatar um personagem famoso e apresentá-lo nos mesmos moldes que foi concebido. A questão é: será que ainda existe público para personagens inocentes, história construída sem ambições e humor literalmente infantil? Minha resposta é negativa, mas isso não significa que não tenho enorme satisfação em assistir a longas assim. Só o trailer de O Ursinho Pooh (que tem a maravilhosa canção Somewhere Only We Know) já é o suficiente para qualquer espectador notar que a animação é um resgate. No filme, está toda a pureza e inocência tão esquecida pela infância dos dias de hoje…

Dirigida pela dupla Stephen J. Anderson e Don Hall, essa produção causa uma incrível nostalgia: impossível não lembrar dos desenhos de nossa infância, que estavam longe de alcançar perfeição técnica mas que tinham personagens dignos de nossa afeição. Pouco importa a história, mas sim o carisma dessas figuras, a pureza das mensagens e a simplicidade explícita durante todo o tempo. Claramente dirigo para crianças – e também para aqueles que tiverem disposição para entrar no clima – O Ursinho Pooh é um verdadeiro sopro de positividade numa época em que até a Pixar resolveu cair no óbvio fazer continuações… E você, ainda sente saudade das antigas animações?

NA PREMIAÇÃO ‘MELHORES DE 2011’ DO CINEMA E ARGUMENTO:

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Hogwarts is threatened! Man the boundaries. Protect us!

Direção: David Yates

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Jason Isaacs, Kelly Macdonald, Tom Felton, Jim Broadbent, Bonnie Wright, Julie Walters, David Thewlis, Emma Thompson, Gary Oldman, Robbie Coltrane

Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA, 2011, Aventura, 130 minutos

Sinopse: Harry Potter (Daniel Radcliffe) e seus amigos Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) seguem à procura das horcruxes. O objetivo do trio é encontrá-las e, em seguida, destruí-las, de forma a eliminar lorde Voldemort (Ralph Fiennes) de uma vez por todas. Com a ajuda do duende Grampo (Warwick Davis), eles entram no banco Gringotes de forma a invadir o cofre de Bellatrix Lestrange (Helena Bonham Carter). De lá retornam ao castelo de Hogwarts, onde precisam encontrar mais uma horcrux. Paralelamente, Voldemort prepara o ataque definitivo ao castelo.

David Yates não é qualquer diretor. Haja coragem para assumir uma saga mundialmente famosa, conduzi-la durante quatro filmes e também ser responsável pelo desfecho. Quando assumiu a cadeira de direção em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o britânico já mostrou habilidade ao conduzir um longa que compensava todas as deficiências da obra de J.K. Rowling. Yates construiu uma visão mais sombria (palavra inevitável, não?) do mundo do protagonista, adotou um estilo visual diferenciado e se firmou como um dos grandes nomes da franquia. Yates, posteriormente, tropeçou feio em O Enigma do Príncipe e se reergueu de maneira surpreendente em As Relíquias da Morte – Parte 1. Mas nada nos preparava para o que estava por vir no capítulo final de Harry Potter

Ao não escolher o caminho de se aproveitar da emoção dos fãs para criar dramas fáceis, Yates prova, mais uma vez, o seu amadurecimento como diretor. Mais do que uma revolução visual (é o filme mais impressionante do ponto de vista estético), Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 transparece a intensa vontade do diretor e do roteirista Steve Kloves de apresentar uma história bem narrada e que não deixa resoluções confusas. Se os leitores das obras de J.K. Rowling podem reclamar de pequenos detalhes mal desenvolvidos, talvez o mesmo não seja dito por quem tem apenas conhecimento cinematográfico da saga. É fácil, por exemplo, que até mesmo aqueles que mal se lembram do enredo (como eu, que li As Relíquias da Morte há quatro anos atrás), não fiquem incomodados com passagens meio difíceis de compreender. Tudo é facilmente digerível.

Só que toda essa excepcional qualidade do roteiro não teria o mesmo impacto se o trabalho do elenco não correspondesse. A boa notícia é que todos os atores estão em plena harmonia. Ao passo que, pela primeira vez em toda a saga, Daniel Radcliffe comanda o espetáculo sem qualquer momento que possa desapontar, o resto do elenco juvenil surge mais eficiente do que nunca – até porque, se nessa altura do campeonato não demonstrassem entrosamento, seria preocupante. A história é sim centrada neles, mas o grande destaque é das figuras secundárias. Se dame Maggie Smith aparece valente e representando os bons ideais que um dia fizeram Hogwarts ser palco de inspiração, Alan Rickman surge como uma figura extremamente emblemática. Smith e Rickman, por sinal, protagonizam um duelo (literalmente) de arrepiar.

Ainda assim, é Rickman que fica com o melhor show. Com um flashback simplesmente devastador (e filmado com uma sutileza quase poética), o ator encarna o caráter dúbio do personagem com uma precisão nunca vista antes. É certo que seu Severo Snape (assim com o Dumbledore de Michael Gambon ou a Minerva McGonagall de Maggie Smith) tem espaço muito limitado em cena. No entanto, poucos minutos são o suficiente para o filme e o ator conseguirem extrair passagens memoráveis de um personagem que, no final das contas, é a resposta para vários questionamentos de Harry. Assim, também vale mencionar o bom senso da produção, que não se aproveita de momentos de maior carga dramática desse personagem para forçar emoções.

É mais uma decisão sábia de Yates: apostar na simplicidade e não no melodramático. Portanto, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 é um filme que vai construindo sua carga emocional de forma muito natural – algo perceptível, inclusive, na excelente trilha de Alexandre Desplat, que se torna muito mais eficente no filme do que no seu pouco expressivo resultado fora. Desse jeito, no meio de tanta emoção, sejam elas em relação ao drama ou aos tensos momentos de confronto, a angústia vai acumulando e o espectador se enxerga numa verdadeira montanha-russa de emoções. Isso mesmo, As Relíquias da Morte – Parte 2 éum filme extremamente movimentado nos mais variados tipos de sensações. Mas, como mencionado, sem nunca ser piegas.

Contornando soluções simplórias ou momentos de fraco impacto no livro de J.K. Rowling, o longa é um verdadeiro presente – tanto para os fãs, que encontram nele o melhor momento da saga, quanto para os cinéfilos, que estão diante do grande blockbuster do verão norte-americano. As Relíquias da Morte – Parte 2 é grandioso sem se esquecer de emocionar e dramático sem ignorar a ação. A experiência é totalmente livre de defeitos, com um epílogo que é infinitamente melhor do que o esperado. A melancolia, que já era aguardada em função do desfecho, está presente de forma muito genuína na eterna sensação despedida que temos durante a sessão e no resgate das composições clássicas que John Williams fez para a série.

Enfim, As Relíquias da Morte – Parte 2, depois de ter arrepiado em diversos momentos, não poderia ter dado um golpe mais cruel nos momentos finais. Relembrando o primeiro ano de Harry Potter, quando o protagonista embarcava pela primeira vez no trem rumo a Hogwarts na plataforma 9 3/4, o filme vasculha as memórias mais profundas de quem acompanhou a saga desde o início. Com essas lembranças, As Relíquias da Morte – Parte 2 é a despedida perfeita para quem teve a infância marcada por Harry Potter. E só de lembrar que Hogwarts nunca mais se materializará no cinema ou em livros, já dá um aperto no coração. Os afortunados são aqueles que sempre acompanharam tudo com muita paixão e que sempre terão a escola de magia presente na imaginação. Sorte que sou um deles. Esse épico desfecho é para marcar gerações. Perfeito, perfeito, perfeito…

FILME: 10.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Desenrola

Direção: Rosane Svartman

Elenco: Olívia Torres, Kayky Brito, Lucas Salles, Vitor Thiré, Daniel Passi, Marcello Novaes, Letícia Spiller, Juliana Paiva, Pedro Bial, Juliana Paes

Brasil, 2011, Comédia, 95 minutos

Sinopse: Priscila (Olívia Torres) tem 16 anos e se acha uma garota normal demais, principalmente, quando repara em suas amigas. Quando sua mãe viaja a trabalho e ela fica sozinha em casa, decide que vai dar um jeito na sua caretice e vai fundo nessa ideia. Entre as muitas mudanças que pretende promover na sua vida, a virgindade parece ser uma das prioridades, mas sera que a hora certa é agora? Embora esteja decidida em investir no mais galinha da turma (Kayky Brito) para viver sua primeira experiência sexual, um trabalho em grupo na escola e uma viagem com amigos, podem mudar para sempre as suas expectativas porque ela descobre que nem tudo é exatamente como dizem e a verdade pode ser bem diferente da realidade.

O apresentador Pedro Bial resolveu dar uma de ator em Desenrola e, de tão emocionado que ficou com a experiência, comentou no Twitter: “Desenrola! Que realização! Filme impecável, sensível, emocionante! Cito meu filhinho: parece americano de tão bom”. Existem, pelo menos, duas afirmações absurdas nesse comentário de Bial. A primeira é: desde quando filme “americano” é sinônimo de qualidade? E a segunda e mais importante: seguindo os padrões dele, Desenrola não é bom para ser comparado com filme “americano”. Aliás, esse é um longa-metragem que não segue o padrão de uma excelente sequência de filmes sobre adolescentes que estava sendo apresentada pelo cinema nacional.

Antes Que o Mundo Acabe, As Melhores Coisas do Mundo e Os Famosos Duendes da Morte. Três filmes brasileiros que versam sobre as angústias do mundo adolescente. Claro que cada um a seu modo e com peculiaridades narrativas – em especial o último, dirigido por Esmir Filho. Desenrola é justamente tudo aquilo que esse trio (e também Morro do Céu, que foi exibido num circuito limitadíssimo) não é: óbvio, clichê e comercial. O longa de Rosane Svartman parece um capítulo da novela Malhação nos anos 90: a menina que é virgem mas tem medo de admitir, o garoto que é o “pegador” mas não tem compromisso com ninguém e o menino feio/gordinho que faz piada de todos.

Se esses personagens estereotipados fossem o único problema de Desenrola, até dava pra ser mais piedoso com o filme. O problema é que o roteiro dá margem para que essas limitações fiquem ainda mais evidentes. A história é centrada num único assunto (a sexualidade) e não faz questão alguma de abordar outros aspectos das vidas dos personagens. Ou seja, muito humor sobre quem é virgem ou não, hormônios à flor da pele e conquistar a garota certa. É uma produção sem personalidade – e nisso podemos incluir o elenco, que não chega a trazer uma interpretação mais especial…

No final, o que se pode constatar é que, apesar de Desenrola ficar muito longe da boa fase desse cinema adolescente do Brasil, não chega a ser um longa ofensivo ou sequer digno de ser apedrejado. Por um outro lado, merece, certamente o título de produção para Sessão da Tarde. Afinal, todos os elementos teens (tanto em relação ao humor quanto ao drama) dessa atração da rede Globo estão presentes ali. Só faltava, claro, o Bial ser o novo narrador e dizer em alto e bom tom: “Essa turminha do barulho vai aprontar altas aventuras com muita azaração no colégio”. Quem sabe aí sim não fica mais parecido com um filme americano…

FILME: 6.0

A Casa

Direção: Gustavo Hernández

Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso, María Salazar

La Casa Muda, Uruguai, 2010, Suspense, 75 minutos

Sinopse: Laura (Florencia Colucci) foi contratada junto com seu pai para dar uma limpada em uma casa abandonada, cujo proprietário gostaria de vender. Isolada de tudo e sem luz, os dois começam a se preparar para o trabalho, mas são subitamente interrompidos por um estranho ruído que vem do andar de cima. O dono havia avisado para que evitassem as escadas devido ao estado de conservação, porém o pânico toma conta de Laura, que sem saber se o que está acontecendo é fruto de sua imaginação ou realidade, resolve encarar seus medos.

Quem aprecia e leva filmes de terror a sério tem um certo prazer em sofrer. É aquele impasse: estamos lá agonizando, mas, ao mesmo tempo, gostamos dessa sensação que determinado filme nos provoca. Essa sensação, sejamos sinceros, está cada vez mais escassa no cinema atual. São raras as produções que conseguem causar verdadeira tensão no espectador. Esses exemplares, nos últimos anos, estão vindo de lugares bem diferentes. Se o espanhol [REC] foi uma verdadeira aula de como torturar (no bom sentido, claro) o público com suspense, o uruguaio A Casa tenta reproduzir esse mesmo efeito abordando um estilo de narrativa parecido.

É mais ou menos a mesma situação: existe um lugar onde pessoas ficam presas e, lá dentro, fatos misteriosos começam a acontecer. O lugar é escuro, ninguém consegue sair e tudo fica ainda mais perigoso com o passar dos minutos. Com uma admirável técnica de filmar tudo em tempo real (leia-se num take só, ainda que existam divergências quanto a isso), A Casa se torna desesperador exatamente por causa disso: não existe tempo para respirar. É tudo sequencial, sem qualquer trégua na tensão. Só por isso o longa-metragem já merece aplausos, uma vez que espanhóis e uruguaios parecem ter se especializado nessa habilidade tão escassa no cinema norte-americano.

Só que, infelizmente, existem dois problemas muito graves em A Casa. O primeiro é que o filme revela cedo demais o que supostamente “assombra” o tal imóvel em que a protagonista está presa. O maior mérito que uma obra de suspense pode ter é justamente brincar com o imaginário e deixar para o espectador imaginar o que causa tantos momentos de horror. A Casa segue esse parâmetro até certo ponto e, depois, entrega o jogo, diminuindo um pouco o impacto da situação. De maneira alguma isso acaba com a tensão, mas o ideal seria manter a torturante opção de não revelar ao espectador a origem do suspense. Incóginas são sempre muito mais eficientes.

E, se A Casa permanece inabalável em seu suspense mesmo com esse porém, eis que o diretor Gustavo Hernández comete um deslize ainda pior. No desfecho, cria resoluções decepcionantes, quebrando todo o excelente clima apresentado até então. Deixando o espectador com aquela sensação de ter sido feito de trouxa (e essa é a pior sensação ao se assistir a um filme), Hernández aposta em uma resolução que, a princípio, pode parecer incompreensível de tão boba e desestimulante, mas que, aos poucos, vai se consolidando até culminar nos créditos finais, onde os mais intolerantes já estarão com raiva de tudo. Essas pessoas, por sinal, podem muito bem dizer que A Casa é destruído por um final tão incoerente com  a qualidade do resto do longa.

Não entro no grupo dos mais radicais e afirmo que essa produção uruguaia sobrevive aos detalhes mencionados. É óbvio que o diretor poderia ter caprichado no encerramento (afinal, a história, que é baseada em fatos reais, foi construída apenas a partir de fotos tiradas pela protagonista na tal casa), mas não acho justo julgar o conjunto geral de um filme a partir de um péssimo desfecho. Porém, é possível entender quem acha que os pontos positivos de A Casa são invalidados em função dos rumos escolhidos. Só resta a você saber se é do grupo que, mesmo que acabe a sessão com frustrações, ainda consegue admirar o que existe de bom em um longa ou se é daquele tipo que sai revoltado xingando toda a equipe envolvida no filme…

FILME: 8.0

Meia-Noite em Paris

You’re a surrealist! I’m a normal guy!

Direção: Woody Allen

Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Michael Sheen, Carla Bruni, Adrien Brody, Alison Pill, Kurt Fuller, Mimi Kennedy

Midnight in Paris, EUA/França, 2011, Comédia, 94 minutos

Sinopse: Gil Pender (Owen Wilson) é um roteirista de filmes que, atualmente, está escrevendo um livro. Ele também está prestes a se casar com Inez (Rachel McAdams). Os dois estão passando uma temporada de férias em Paris junto com os pais dela. Na capital francesa, Gil começa a ter a inspiração que lhe faltava, especialmente quando descobre que, sempre à meia-noite, ele é capaz de visitar outras épocas de Paris numa espécie de viagem do tempo proporcionada por um veículo que o encontra numa esquina. Nessas viagens, ele conhece grandes celebridades como Pablo Picasso, Salvardor Dalí e Ernest Hemingway, que lhe ajudarão não apenas a ter ideias para seu novo livro, mas também a avaliar aspectos de sua vida.

Desde que abandonou Nova York para produzir seus filmes em outros lugares, Woody Allen já passou pela Inglaterra (Match Point), Espanha (Vicky Cristina Barcelona) e, futuramente, estará na Itália. Contudo, nenhuma outra obra recente de Woody Allen conseguiu transbordar tanto encantamento por um lugar como Meia-Noite em Paris. A abertura, mais longa do que poderia ser normalmente só para explorar as ruas da cidade-título, já detalha a beleza singular da capital francesa nas mais variadas locações. Só que Woody Allen não é limitado: Meia-Noite em Paris não chega nem perto de ser apenas um longa-metragem de cartão-postal. É também uma obra inteligente.

O que mais chama a atenção nesse novo filme do diretor é como o roteiro explora de forma eficiente uma eterna discussão: afinal, a geração anterior não era muito mais interessante? Partindo do pressuposto de que sempre achamos a nossa realidade monótona e de que as décadas passadas proporcionaram mais inspiração e satisfação do que a nossa, Woody Allen abre uma excelente reflexão sobre onde estaria de verdade a nossa felicidade. Agora ou no passado? Ele vai além: também deixa o espectador pensando sobre em que lugar somos realmente felizes. Será que não é necessário viver em outro país para encontrarmos plenitude em nossas vidas?

Se eu ainda espero aquela intensa complexidade emocional que Woody Allen apresentou em Interiores (o melhor filme do diretor, ainda que pouco conhecido), pelo menos foi extremamente gratificante ver um longa com maior frescor do que os trabalhos anteriores dele. Desde Vicky Cristina Barcelona, o diretor realizava apenas pequenas obras sem maiores atrativos. A situação foi revertida com Meia-Noite em Paris, um filme que é inteligente sem ser arrogante mas que ao mesmo tempo funciona de forma ainda mais prazerosa para os intelectuais que conhecem, por exemplo, Dalí, Picasso, Hemingway e afins.

Assim, com propostas interessantes, belíssimas imagens de Paris e seu habitual humor, Woody Allen realizou uma obra muito agradável e que deve ficar entre os mais satisfatórios de seus trabalhos contemporâneos. É fácil, por exemplo, relevar a personagem estereotipada de Rachel McAdams (a esposa desagradável e que não compartilha do lado sonhador do marido), a falta de ritmo entre algumas transições do filme ou, então, o desfecho super previsível. Meia-Noite em Paris merece ser assistido. Se não for para apreciar a mensagem bem executada, pelo menos para encher os olhos com Paris, que nunca esteve tão bem retratada pelo cinema nos últimos anos…

FILME: 8.0