A Condenação
There are forces greater than you. And you may not win.

Direção: Tony Goldwyn
Elenco: Hilary Swank, Sam Rockwell, Minnie Driver, Peter Gallagher, Juliette Lewis, Melissa Leo, Owen Campbell, Conor Donovan
Conviction, EUA, Drama, 107 minutos
Sinopse: Kenny (Sam Rockwell) foi acusado de um crime que não cometeu, mas a defensoria pública alega dificuldades para representá-lo e a condenação será iminente. Betty Anne (Hilary Swank) é mãe e trabalha, mas para livrar seu irmão da cadeia decide estudar Direito e enfrentar a promotoria. Baseado em fatos reais.

Toda a publicidade envolvendo A Condenação dava ênfase para uma “extraordinária” batalha da protagonista, Betty Anne Waters (Hilary Swank), que dedicou anos de sua vida aos estudos e ao exercício da advocacia para tirar o seu irmão, Kenny (Sam Rockwell), da prisão. O trailer tem aquela trilha emblemática, o pôster chama o espectador para a “incrível” história e, em todos os cantos, o filme foi vendido dessa maneira. Pena que A Condenação não chegue nem perto dessa “força” que tenta vender aos cinéfilos.
O primeiro erro desse longa-metragem dirigido por Tony Goldwyn é ser muito mais racional do que emocional. A história, que pretende ser, de certa forma, uma homenagem ao amor incondicional entre irmãos, não passa a emoção necessária e termina sendo um mero relato de busca de provas e processos judiciais. Falta sentimento em A Condenação. Essa carência banaliza o roteiro, que passa a tomar rumos óbvios, quando não fracos. Como é baseado em fatos reais, talvez os roteiristas não queriam mudar o que aconteceu de verdade – mas, do jeito que assistimos, tudo é datado. Ou seja, na vida real pode ter sido uma grande história. No cinema não ficou assim.
Dessa forma, Hilary Swank cumpre o seu papel de humanizar a protagonista – e, como sempre, ela consegue, mesmo que alcance um resultado apenas dentro do esperado e sem novidades para o gênero (bem como aconteceu em Amélia, filme que foi desnecessariamente massacrado). Assim como Swank, Sam Rockwell – um ator subestimado e que, ano passado, esteve excepcional em Lunar – também faz o que é necessário para o seu papel, bem como a coadjuvante Minnie Driver. A decepção surge na maneira desleixada como o roteiro subutiliza Melissa Leo. Sua personagem é altamente interessante e a atriz é expecional. Pena que amargou duas ou três cenas que poderiam ter mais impacto.
Resultando em uma daquelas histórias de motivação que estamos tão acostumados a ver, A Condenação faz apenas o óbvio, ficando distante daqueles adjetivos que a equipe usou para atrair o público no trailer e no pôster. Esse é um filme que não tem nada de incrível e que percorre caminhos narrativos comuns para uma história que poderia ter sido mais marcante e, acima de tudo, emocionante. Certinho demais, A Condenação teria ido além caso fosse comandado por um diretor mais sensível. Da forma que foi finalizado, é apenas um daqueles filmes didáticos onde o conflito maior é apenas a batalha para provar a inocência de alguém.
FILME: 6.0

Sem Saída

Direção: John Singleton
Elenco: Taylor Lautner, Lily Collins, Alfred Molina, Maria Bello, Jason Isaacs, Sigourney Weaver, Richard Cetrone, Ken Arnold, Steve Blass
Abduction, EUA, 2011, Aventura, 106 minutos
Sinopse: Nathan (Taylor Lautner) é um jovem que leva uma vida normal, ao lado dos pais Kevin (Jason Isaacs) e Mara (Maria Bello), e tem uma queda pela vizinha Karen (Lily Collins). Um dia, ao realizar um trabalho de sociologia com Karen, eles acessam um site de crianças desaparecidas. Nele Nathan encontra uma foto que lembra muito ele próprio, quando era criança. Nathan passa a investigar a situação e descobre que Kevin e Mara não são seus pais biológicos. Só que, antes mesmo que eles possam dar qualquer explicação, a casa onde moram é invadida e ambos são mortos. Nathan consegue fugir ao lado de Karen, só que eles são perseguidos pela CIA e também por Kozlow (Michael Nyqvist), um agente sérvio que deseja algo roubado pelo verdadeiro pai de Nathan.

Até pouco tempo atrás, não tinha qualquer receio em apostar numa possível carreira bem sucedida para o jovem Taylor Lautner. Ele, que é um sopro de vitalidade no mundo submerso em formol dos personagens da saga Crepúsculo, parecia ser um ator que, com o tempo, talvez se encontrasse em filmes de ação comerciais. Minha aposta para a carreira dele neste gênero não se baseava apenas em seus atributos físicos (Taylor pratica vários esportes e lutas, o que torna seu trabalho neste estilo de filme muito mais fácil), mas também num certo carisma que ele conseguia transparecer no seu limitado papel entre os pombinhos Edward Cullen e Bella Swan. Sem Saída, portanto, seria a prova de que Lautner conseguiria achar um caminho seguro para sua carreira. Lamentável, então, constatar que todas as minhas previsões para o jovem estavam erradas.
Talvez por estar contracenando com tantos atores horríveis na saga Crepúsculo, Taylor Lautner tenha dado a falsa impressão de que era, digamos, superior. Mas também não podemos culpar o rapaz, já que qualquer um que trouxer algo diferente da maquiagem branca dos vampiros consegue se sobressair. A verdade é que, com Sem Saída, Lautner prova que é um ator inexpressivo. O rapaz é esforçado, isso não podemos negar – ele próprio costuma sempre ressaltar sua vontade em ser mais do que realmente é, sonhando, inclusive, em ganhar um Oscar no futuro. Só que todos nós sabemos que de boas intenções o inferno está cheio. Em Sem Saída, ele prova que não pode lidar com papeis que exijam qualquer esforço dramático. Suas cenas mais “complexas” (se assim podemos chamá-las) são quase lastimáveis, tamanha a falta de talento do rapaz para até mesmo derramar uma lágrima. E não fica só nisso: nem em tomadas mais naturais consegue sustentar a situação sozinho. Lautner, portanto, não foi feito pra comandar um filme.
A ação, obviamente, está ali para o ator abusar de todas as artes marciais que pratica. E, nisso, ele parece se divertir, saindo-se competente – na medida do possível – nas tomadas fantasiosas de lutas onde todos parecem ter saído de algum campo de treinamento. O problema é que o espectador não se diverte com Sem Saída, que é um ultrapassado tipo de longa-metragem que não faz nada além do óbvio. Tanto as tomadas de ação quanto as fraquíssimas resoluções da história são completamente previsíveis e, inclusive, desinteressantes. É meio inconvicente acompanhar tanta correria quando o roteiro sequer deixa o espectador a par do porquê de tudo aquilo. É um corre-corre que não cria expectativa e que, no final, termina com explicações simplórias e preguiçosas. No meio disso tudo, Alfred Molina e Sigourney Weaver (essa com apenas três cenas numa participação desnecessária) tentam trazer algum tipo de interesse, mas nem suas presenças conseguem mudar muita coisa.
A verdade é que já não dava para se esperar muito de um filme como Sem Saída. A surpresa, na realidade, é ver como o filme não funciona nem como passatempo competente, tornando-se extremamente esquecível e, por que não, cafona em diversos momentos (o uso abusivo de zoom e da trilha sonora não ajudam). Talvez seja bobagem minha exigir algo de um filme que nunca prometeu ser relevante. O que me incomoda mesmo é ver o diretor John Singleton colocando fora a oportunidade de realizar uma aventura despretensiosa. O cinema está sofrendo crise de originalidade e histórias requentadas como essa podem até funcionar para as grandes plateias – não mais para mim. Por isso, apesar de tantos erros, nem consigo ser tão cruel a ponto de dizer que Sem Saída é um lixo. Só decepciona demais porque Hollywood parece ter desaprendido a realizar obras acéfalas mas divertidas. E me decepciona mais ainda ver um jovem ator que tinha a minha aprovação se tornar mais um desses péssimos astros que, definitivamente, não têm qualquer futuro a não ser estampar capas de revistas adolescentes.
FILME: 5.0

A árvore das divergências

De vez em quando, é bom aparecer uma polêmica envolvendo determinado filme. Assim, ficamos livres dessa mesmice do cinema contemporâneo. A Árvore da Vida não tem um diretor que diz entender Hitler e muito menos temáticas chocantes como as do A Serbian Film. No entanto, poucas vezes, nos últimos anos, vimos um longa que despertasse tantas opiniões contrárias. A incoerência já começou no Festival de Cannes, onde o filme foi vaiado em sua exibição mas depois coroado com a Palma de Ouro. Logo, bastou chegar aos cinemas para determinar extremos: A Árvore da Vida desperta amor ou ódio. Nunca indiferença.
Quando o filme acabou, não fiquei indeferente ao resultado, mas pude compreender ambas as sensações de amor e ódio. O que o filme tem de belo, tem de desgastante. Vamos começar, então, pelo amor. O visual do filme de Terrence Malick é simplesmente impressionante. Não no sentido de paisagens belas ou de efeitos, mas na forma como a fotografia, em parceria com a bela trilha do francês Alexandre Desplat, explora a dramaticidade do filme. As tonalidades e os enquadramentos nos deixam ainda mais próximos dos personagens e, principalmente, do que eles estão sentindo.
Agora, o ódio. Se formos analisar em linhas bem gerais a história de A Árvore da Vida, vamos concluir que, ao contrário do que o diretor quer convencer, nada existe de complicado nela. Para falar bem a verdade, o assunto não poderia ser mais batido: pai controlador e rígido, mãe submissa, filhos com infância limitada e por aí vai… Nada de novo. O problema é que o diretor faz questão de deixar tudo complexo – usando a estética para isso. Além de, muitas vezes, desviar a atenção do espectador da história, parece disfarçar uma falta de consistência de argumentos. O filme traz várias interpretações, mas não necessariamente uma discussão de seu conteúdo.
Esse é um filme que não seria muita coisa se não fosse tão cheio de alegorias. Toda cena é lindamente fotografada, os personagens dizem muito pouco (aquela velha história de silêncio = introspecção) e o ritmo… Ah, o ritmo! Incrivelmente arrastado. Com esse jeito de utilizar tanto a estética, o filme começa a se tornar repetitivo, aumentando ainda mais essa sensação de falta de consistência da história. Portanto, é fácil compreender as pessoas que abandonaram a sessão e que não tiveram paciência com imagens metafóricas demais. É um problema, também, de montagem. Bastava o filme não perder tanto tempo com essas tomadas que seria bem mais mastigável. Objetividade seria muito agradável.
Só que aí fica aquele questionamento: será mesmo que o diretor gostaria de ser mais abrangente ou ele apostou nesse formato de propósito para atingir apenas um público seleto? Difícil saber, uma vez que A Árvore da Vida é um filme muito difícil e tentar colocar num texto tudo o que ele pode significar ou tudo o que ele quer dizer através de imagens é pura ilusão. A proposta do Cinema e Argumento nunca foi analisar questões psicológicas ou metáforas de filmes. O que sempre trabalhei aqui foi a forma como um filme me atingiu e o que senti com ele. E A Árvore da Vida foi isso para mim: uma experiência cheia de belos momentos e de cenas que me arrepiaram, mas que é prejudicada por seu ritmo maçante e pela sua vontade de querer parecer mais do que realmente é. Se você não enxerga dessa maneira, compartilhe – afinal, o filme parece ter sido feito justamente para causar divergências e formar debates.
NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Contra o Tempo
Lily awoke in an evening dress and an opera cloak. In her hand were 5 playing cards.

Direção: Duncan Jones
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Michael Arden, Cas Anvar, Russell Peters, Brent Skagford, Gordon Masten
Source Code, EUA/França, 2011, Suspense, 93 minutos
Sinopse: O capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) faz parte de um projeto ultrasecreto denominado Source Code capaz de transportar um homem para o corpo de outro, assumindo a sua identidade nos oito minutos de vida restantes de cada alvo escolhido para a “ocupação”. Um atentado terrorista explodiu um trem nos arredores de Chicago, matando todos os passageiros e agora a sua missão é voltar no tempo, no corpo de uma das vítimas e tentar descobrir o autor do crime porque um novo ataque será realizado dentro de seis horas. Agora, ele precisa identificar o criminoso para evitar novas mortes, mas acaba se apaixonando por Christina (Michelle Monaghan), uma das vítimas do trem, e pretende mudar a história, alterando as regras do jogo e colocando o futuro em risco.

Em 2009, o diretor Duncan Jones realizou um pequeno grande filme chamado Lunar. No seu primeiro longa, o britânico conseguiu fazer uma notável mistura de drama e ficção, inclusive homenageando (mas sem nunca copiar) o clássico 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Lunar não fez muito sucesso (chegou diretamente em DVD aqui no Brasil), mas serviu para trazer um maravilhoso desempenho de Sam Rockwell e revelar o promissor Duncan Jones. Agora, com Contra o Tempo, o diretor está inserido no mundo norte-americano do cinema e ainda preserva algumas das carcaterísticas que apresentou em seu debut. No entano, é prejudicado justamente por ter que atender várias exigências comerciais para abranger mais espectadores.
Não, Duncan Jones não chega a se vender. Contra o Tempo ainda preserva a necessidade do diretor de contar histórias sobre sujeitos presos em lugares solitários e que querem, a todo cuso, voltar ao mundo real. A primeira hora do filme estrelado por Jake Gyllenhaal desenvolve muito bem essa proposta, apresentando de forma eficiente a quase desesperadora situação do personagem que precisa viajar no tempo contra a sua vontade e sem saber exatamente o porquê. Ele não sabe onde está nem porque precisa desempenhar uma missão que visa evitar um ataque terrorista. Assim, utilizando uma narrativa que vai e volta no tempo repetindo fatos, Contra o Tempo mostra-se bem executado ao transitar na linha do tempo – até porque Jones nunca aposta só no suspense ou só nas descobertas do personagem. É um balanço entre esses dois aspectos.
O problema vem depois – e nada relacionado ao acomodado e previsível desempenho de Jake Gyllenhaal. Resolvendo a trama principal cedo demais (e sem grandes surpresas), Contra o Tempo instala outra abordagem na história e, infelizmente, cai num quase imcompreensível tom açucarado. É o velho e batido heroísmo norte-americano: o personagem descobre algumas verdades sobre sua situação, resolve colocar o amor em prática e toma atitudes muito idealizadas. Tudo isso com uma trilha que enfatiza a “beleza” desses atos e com uma estética que faz questão de romantizar ainda mais a situação. Sem falar da personagem que fica contra o sistema e resolve colocar em risco seu emprego só para fazer a felicidade do próximo. Quanta ladainha!
Por sorte, Duncan Jones até que consegue disfarçar essas atitudes desnecessárias para o espectador menos exigente, que pode nem se incomodar com essa meia hora final que destoa do resto do filme… Só que existem o que percebem e esses podem achar que Contra o Tempo só cai a cada decisão romantizada do roteiro. O filme, que se sustentava tão bem até certo ponto, não precisava acabar dessa maneira. E se, anteriormente, apontei que Duncan Jones não chega a se vender com o filme, o final mostra que ele quase chegou a esse ponto. Ainda bem que o filme não durou mais, já que Contra o Tempo, talvez, pudesse alcançar o nível do insatisfatório se continuasse desenvolvendo por mais tempo essas escolhas comerciais.
FILME: 6.5

Cartas mal endereçadas

De todos os longas em competição no 39º Festival de Cinema de Gramado, O Carteiro era o que tinha maior apelo comercial. Dirigido por Reginaldo Faria, tinha qualidade de produção mais televisiva, nomes conhecidos e pretensões para alcançar o grande público. Só é uma pena que nenhum desses fatores conseguiu transformar O Carteiro numa opção interessante. Cheio de problemas narrativos, o filme decepciona não apenas por perder a chance de trazer diversão, mas, também, por desperdiçar atores que poderiam ser destaque.
O que estraga o ritmo e, consequentemente, o interesse do espectador na história é o roteiro. Focado em vários personagens, falta em Faria aquela agilidade na direção para tornar dinâmico um enredo cheio de abordagens. O que vemos é um verdadeiro tiro no pé: na tentativa de ligar várias histórias e personagens, o filme termina sendo frenético e até mesmo confuso em certas partes. Junte a isso personagens caricatos que quase não possuem qualquer diálogo com a realidade: todos são engraçadinhos ou vivem situações excêntricas.
Pelas razões citadas, percebe-se como Reginaldo Faria não tem dom para ser um contador de histórias. As plateias podem se divertir com O Carteiro, mas também é fácil encontrar aqueles que se decepcionaram com o filme e que, principalmente, não foram atraídas pelo tom caricato e quase exagerado de certas partes. Tratando tudo com um tom que beira o teatral (no sentido negativo), o longa não consegue se diferenciar exatamente por misturar uma narrativa mal construída com abordagens que imploram pela simpatia do espectador a todo custo.