Os indicados ao BAFTA 2026

Uma Batalha Após a Outra lidera lista do BAFTA com 14 indicações.
O BAFTA 2026 gravita entre os favoritismos de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, assim como repete o volume de indicações já dado a títulos como Hamnet e Valor Sentimental em outras premiações. Isso quer dizer que os britânicos pouco mexem no tabuleiro geral da corrida pelo Oscar, que, aliás, revelou seus indicados antes do BAFTA. Mesmo as indicações mais bairristas, como todas recebidas por I Swear, ou a de Carey Mulligan em melhor atriz coadjuvante por The Ballad of Wallis Island, são casos isolados e sem chances de levar estatuetas para casa. Como mais do mesmo, o BAFTA desempenhará apenas o papel de confirmar muito do que já sabemos e, eventualmente, o de iluminar favoritos em categorias técnicas ausentes em outros termômetros importantes da temporada. A cerimônia acontece no dia 22 de fevereiro.
Confira abaixo os indicados:
MELHOR FILME
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental
MELHOR FILME BRITÂNICO
The Ballad of Wallis Island
Bridget Jones: Louca pelo Garoto
Extermínio: A Evolução
H is for Hawk
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
I Swear
Morra, Amor
Mr. Burton
Pillion
Steve
MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)
Yorgos Lanthimos (Bugonia)
MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Robert Aramayo (I Swear)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Carey Mulligan (The Ballad of Wallis Island)
Emily Watson (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Peter Mullan (I Swear)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Agente Secreto
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Ballad of Wallis Island
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pillion
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente (França)
Valor Sentimental (Noruega)
Sirāt (Espanha)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
A 2000 Metros de Andriivka
Apocalipse nos Trópicos
Cover-Up
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita
MELHOR ANIMAÇÃO
Elio
A Pequena Amélie
Zootopia 2
MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA
Arco
Boong
Lilo & Stitch
Zootopia 2
MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
Casa de Dinamite
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR FIGURINO
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2
MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Tempo de Guerra
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
Como Treinar o Seu Dragão
F1: O Filme
Frankenstein
O Ônibus Perdido
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2
MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO
The Ceremony
My Father’s Shadow
Pillion
A Want In Her
Wasteman
MELHOR CURTA BRITÂNICO
Magid / Zafar
Nostalgie
Terence
This Is Endometriosis
Welcome Home Freckles
MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Cardboard
Solstice
Two Black Boys in Paradise
EE RISING STAR
Archie Madekwe
Chase Infiniti
Miles Caton
Posy Sterling
Robert Aramayo
Os indicados ao Oscar 2026

Lembrado em 16 categorias, Pecadores é o novo recordista de indicações ao Oscar.
Não são poucos os filmes do Oscar 2026 que concorrem em várias categorias, a começar por Pecadores, agora detentor do recorde absoluto de indicações ao prêmio da Academia em seus quase 100 anos de existência. O longa de Ryan Coogler disputa nada menos do que 16 estatuetas, ultrapassando as estatísticas de títulos como Titanic, A Malvada e La La Land: Cantando Estações. Ele é seguido de perto por Uma Batalha Após a Outra, indicado a 13. Já Marty Supreme, Frankenstein e Valor Sentimental aparecem com nove. Os números refletem um ano forte e, acima de tudo, diverso em gêneros e nacionalidades. Resta saber qual será a lógica do Oscar na hora de mapear seus vencedores diante dessa gama.
Para o Brasil, em termos de indicações, as notícias são excelentes. Pelo segundo ano consecutivo, estamos disputando a categoria principal de melhor filme, dessa vez, com O Agente Secreto, lembrado ainda em melhor ator para Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor escalação de elenco, a mais nova categoria criada pela Academia. O paulista Adolpho Veloso também nos representa com a indicação de melhor fotografia para Sonhos de Trem. A disputa é árdua — afinal, Valor Sentimental, que parecia ter perdido o fôlego com os resultados do Critics’ Choice e do Globo de Ouro, recobrou forças com expressivas nove indicações —, mas, tratando-se de Oscar, tudo pode acontecer até o último minuto antes da cerimônia, a ser realizada no dia 16 de março.
Abaixo, algumas outras considerações sobre a lista de indicados:
– Valor Sentimental emplaca, merecidamente, quatro indicações individuais para seus atores, mas fica de fora da categoria de melhor escalação de elenco. Difícil entender como um filme com interpretações tão celebradas não se configura automaticamente como um indicado da categoria estreante;
– Entre os reconhecimentos dados ao filme de Joachim Trier, fico feliz, em especial, pela lembrança à Elle Fanning em atriz coadjuvante, que já era praticamente dada como carta fora do baralho. Não deveria ser sua estreia no Oscar: no ano passado, em meio ao exagero de indicações para Um Completo Desconhecido, Fanning deveria ter concorrido ao lado de Monica Barbaro;
– É de se chatear que Paul Mescal tenha ficado de fora por sua performance em Hamnet, que concorre em oito categorias. Ao mesmo tempo, a entrada de Delroy Lindo (Pecadores) traz surpresa e frescor à categoria, além de ser justo o reconhecimento a um ótimo ator;
– De dez indicações pelo primeiro filme a zero pelo segundo, Wicked teve o pior desempenho entre todos os candidatos em potencial dessa temporada. Chega a ser até chocante que o Oscar tenha garimpado uma canção do documentário Viva Verdi! para não indicar qualquer uma das duas canções originais do musical de John M. Chu;
– Ainda fico surpreso com tanto amor depositado em Bugonia, finalista em melhor filme, atriz (Emma Stone), roteiro adaptado e trilha sonora. É um trabalho pueril, com discursos óbvios e que, assim como aconteceu em Tipos de Gentileza, mostra que, talvez, Yorgos Lanthimos esteja fazendo coisas demais em pouco tempo;
– Qual a razão de indicar mais uma vez Diane Warren a melhor canção? Azarada nata da categoria, concorreu 17 vezes ao longo da carreira e perdeu de todos os jeitos possíveis. Não à toa, a Academia já lhe outorgou um prêmio honorário. Precisa mesmo concorrer mais uma vez por uma canção esquecível?
– A vaga ocupada por F1: O Filme na categoria principal causou certo espanto, mas me parece coerente: com o declínio de Wicked e Avatar: Fogo e Cinzas na temporada, Hollywood tinha de encontrar algum blockbuster para representar o cinema comercial na seleção principal. Só é uma pena que isso tenha acontecido às custas do reconhecimento ao ótimo Foi Apenas Um Acidente;
– Kate Hudson entrou praticamente de última hora na categoria de melhor atriz pelo fraquíssimo Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, escanteando Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra). Não é só injustiça com Chase: outras interpretações reconhecidas na temporada mereciam muito mais, como as de Jennifer Lawrence (Morra, Amor), Julia Roberts (Depois da Caçada) e Tessa Thompson (Hedda).
Confira a lista completa de indicados:
MELHOR FILME
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
F1: O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
Valor Sentimental
MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)
MELHOR ATRIZ
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Wagner Moura (O Agente Secreto)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Delroy Lindo (Pecadores)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Moon
Foi Apenas um Acidente
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sonhos de Trem
MELHOR FILME INTERNACIONAL
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente (França)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
Alabama: Presos do Sistema
Cutting Through Rocks
Embaixo da Luz Neon
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita
MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Elio
Guerreiras do K-Pop
A Pequena Amélie
Zootopia 2
MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental
MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR FIGURINO
Avatar: Fogo e Cinzas
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
“Golden” (Guerreiras do K-Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)
MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Sirāt
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Jurassic World: Recomeço
O Ônibus Perdido
Pecadores
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
Coração de Lutador: The Smashing Machine
Frankenstein
Kokuho
A Meia-Irmã Feia
Pecadores
MELHOR CURTA-METRAGEM
Butcher’s Stain
A Friend of Dorothy
Jane Austen’s Period Drama
The Singers
Two People Exchanging Saliva
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Butterfly
Forevergreen
The Girl Who Cried Pearls
Retirement Plan
The Three Sisters
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
All the Empty Rooms
Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Children No More: Were and Are Gone
The Devil Is Busy
Perfectly a Strangeness
“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida
The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland
Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.
Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.
Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.
Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele a ama por quem ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.
Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.
Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.
Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos conflitos das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.
Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.
Os indicados ao The Actor Awards 2026

Com sete indicações, Uma Batalha Após a Outra se torna o filme mais indicado na história do The Actor Awards.
Aconteceu o esperado, mas não deixa de ser frustrante: o Screen Actors Guild Awards — agora renomeado The Actor Awards — decidiu ignorar todas as atuações em língua não-inglesa desta temporada. É um dado que trabalha contra a premiação porque são muitos os títulos internacionais cotados por sindicatos, associações e outros prêmios. Como explicar, por exemplo, a ausência absoluta de Valor Sentimental, que tem quatro interpretações individuais reconhecidas por outros grupos? Ou, então, qualquer lembrança para O Agente Secreto e Foi Apenas um Acidente, dois títulos facilmente dignos de figurarem na categoria de melhor elenco?
Não é de hoje que o The Actor Awards pretere interpretações celebradas como a de Isabelle Huppert em Elle ou a de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui. Acontece que todas as premiações passam por um assumido processo de internacionalização, então, das duas uma: ou o The Actor Awards precisa urgentemente de uma reformulação para não ficar parado no tempo ou deve assumir um critério de seleção que seja restrito a interpretações em língua-inglesa. Do jeito que está, fica ruim para a imagem do prestigiado sindicato de atores.
Com tantos desfalques, os substitutos acabam não sendo escolhas necessariamente fora da curva (caso de Emma Stone, lembrada na categoria de melhor atriz pelo pueril Bugonia) ou de grande influência para a temporada (acho difícil que Miles Caton em ator coadjuvante por Pecadores seja uma tendência a ser seguida daqui para a frente). Se há algo que nós, como brasileiros, podemos comemorar é que, com a ausência de Wagner Moura em melhor ator por O Agente Secreto, os votantes optaram por Jesse Plemons (Bugonia). A notícia é boa porque estancou o crescimento de Joel Edgerton (Sonhos de Trem), que vinha figurando como favorito para emplacar uma vaga que ainda está em aberto e que, eventualmente, poderia prejudicar as chances de Wagner.
Confira abaixo a lista completa de indicados:
CINEMA
MELHOR ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Missão: Impossível — O Acerto Final
Pecadores
MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Miles Caton (Pecadores)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked: Parte 2)
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)
SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES
MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Landman
The Diplomat
The Pitt
Severance
The White Lotus
MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
The Studio
Only Murders in the Building
MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
Andor
Landman
The Last of Us
Stranger Things
Round 6
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Aime Lou Wood (The White Lotus)
Britt Lower (Severance)
Keri Russell (The Diplomat)
Parker Posey (The White Lotus)
Rhea Seehorn (Pluribus)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Gary Oldman (Slow Horses)
Noah Wyle (The Pitt)
Sterling K. Brown (Paradise)
Walton Goggins (The White Lotus)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (The Studio)
Jean Smart (Hacks)
Jenna Ortega (Wandinha)
Kathryn Hahn (The Studio)
Kristen Wiig (Palm Royale)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Ike Barinholtz (The Studio)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Seth Rogen (The Studio)
Ted Danson (A Man on the Inside)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Christine Tremarco (Adolescência)
Claire Danes (O Monstro em Mim)
Erin Doherty (Adolescência)
Michelle Williams (Dying for Sex)
Sarah Snook (All Her Fault)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Charlie Hunnam (Monster: The Ed Gein Story)
Jason Bateman (Black Rabbit)
Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
Owen Cooper (Adolescência)
Stephen Graham (Adolescência)
Rapidamente: “Avatar: Fogo e Cinzas”, “O Filho de Mil Homens”, “Sorry, Baby” e “Wicked: Parte 2”

Eva Victor dirige, escreve e protagoniza Sorry, Baby.
AVATAR: FOGO E CINZAS (Avatar: Fire and Ash, 2025, de James Cameron): Ninguém duvida de que Avatar marcou época e promoveu inúmeras revoluções tecnológicas. Contudo, passados 16 anos desde o lançamento do primeiro filme, a impressão é de que, para o bem e para o mal, estamos falando as mesmas coisas sobre a franquia. Trata-se de algo positivo considerando a verve sempre inquieta de Cameron para criar os grandes espetáculos que hoje Hollywood parece incapaz de produzir, mas também de algo negativo, visto que roteiro nunca foi o forte do diretor — e tanto tempo dedicado a um mesmo universo só reforça essa tese. Em termos de história propriamente dita, as quase dez horas somadas de Avatar soam redundantes, muito mais agora em Fogo e Cinzas, que, por ser o terceiro capítulo, invariavelmente sofre com a ausência de novas ideias. É exaustivo, por exemplo, que tenhamos passado quase duas décadas com um antagonista — o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang — perseguindo o herói Jake Sully (Sam Worthington) de todos os jeitos possíveis, quando ele poderia ter facilmente saído de cena no segundo filme. Ao mesmo tempo em que introduz algumas novidades, como a entrada de outra vilã que traz uma ótima nuance para o mundo dos Na’vi, Fogo e Cinzas segue repetindo os discursos anticolonialistas já tão solidificados nos longas anteriores, assim como somente amplia a escala de sequências de ação muito similares entre os três volumes da saga. Nunca vi nenhum Avatar em casa, apenas nas salas de cinema, o que me deixa com a pulga atrás da orelha: será que, à parte a grandiosidade técnica e estética que vemos na tela grande, a trilogia formada até aqui sustenta parte de sua magia fora no sofá de casa? Ao contrário de outros trabalhos de Cameron, Avatar não me estimula tanto a uma revisão. Mau sinal?
O FILHO DE MIL HOMENS (idem, 2025, de Daniel Rezende): Outrora exímio montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, o paulista Daniel Rezende agora vem se firmando como um dos diretores brasileiros mais inspirados em atividade. Da irreverência de Bingo: O Rei das Manhãs à sofisticada doçura das duas adaptações de Turma da Mônica, ele navega em diferentes gêneros com o mesmo interesse e afinco. Ele não escapa à regra com O Filho de Mil Homens, em que se lança na complicada missão de levar às telas a literatura bela e poética de Valter Hugo Mãe. Falo em desafio porque a narrativa do autor é muito particular, seja na forma ou no conteúdo, e traduzir em imagens suas reticentes reflexões exige grande sensibilidade. Pois Daniel Rezende acerta outra vez, construindo um longa reverente à obra original, mas, ao mesmo tempo, livre para fazer suas próprias escolhas, inclusive do ponto de vista estético, já que esse se trata de seu trabalho mais apurado tecnicamente. Apesar de começar centrado no calado pescador vivido por Rodrigo Santoro, O Filho de Mil Homens se ramifica em outros personagens com o intuito de, eventualmente, entrelaçá-los e, assim, falar sobre a vida de figuras vistas aos olhos da sociedade como desajustadas, pecaminosas ou problemáticas. Em que pese os dramas genuínos e palpáveis de cada um deles, é a partir do momento em que suas histórias se cruzam que o filme fica ainda mais bonito, afinal, a generosidade é uma das maiores qualidades que qualquer ser humano pode ter hoje em dia. No acolhimento e na compreensão, o longa acentua a delicadeza do texto de Valter Hugo Mãe, e o faz sem ceder a convenções comerciais, evitando que o longa, produzido originalmente pela Netflix, flerte com mensagens rasteiras de autoajuda. O Filho de Mil Homens é bonito de ver e de sentir, além de acenar a todo momento para a literatura com os pés firmes no cinema.
SORRY, BABY (idem, 2025, de Eva Victor): A atriz, diretora e roteirista Eva Victor faz pelo menos duas coisas milagrosas em Sorry, Baby. A primeira é conseguir navegar nas diferentes fases de um trauma profundo com sobriedade, economia e até mesmo humor, sem perder de vista o pulso de uma história encenada em diferentes anos na vida da protagonista. Já a segunda é se despir completamente de vaidades para nunca fazer de seu trabalho uma egotrip. Não há deslumbre com as inúmeras diferentes possibilidades da história, sejam elas dramáticas ou cômicas. Tudo está a favor do filme, não do umbigo de sua realizadora. É um feito e tanto para uma cineasta que entrega o seu primeiro longa-metragem e que, a cada minuto dele, prova seu lugar de fala e a maturidade envolvida na construção do roteiro. Gosto, particularmente, da concepção da protagonista, uma acadêmica com senso de humor muito próprio e com plena consciência de que ela não tem as respostas certas para lidar com o que lhe assombra — e será mesmo que elas existem em experiências traumáticas? Aí está outro aspecto fascinante de Sorry, Baby: por meio de Agnes, Eva Victor mostra que cada história é uma história e que, nesta vida, nós administramos as dores a partir do que temos de repertórios ou (in)capacidades. Nada falta ou sobra também em termos de interpretação, visto que é fácil nos solidarizarmos com Agnes e ficarmos do seu lado seja qual for a sua reação diante do que lhe aconteceu. Concentrando-se no peso do dia-a-dia, assim como nos momentos e nas relações que revigoram o passar do tempo, o filme conversa com o espectador da forma mais orgânica possível, o que só enfatiza a grata surpresa que é conhecer uma contadora de histórias tão sagaz e sensível.
WICKED: PARTE 2 (Wicked: For Good, 2025, de Jon M. Chu): Os aficionados pelo espetáculo original defendem a tese de que, nos palcos, Wicked já tem um segundo ato menos interessante do que o primeiro e que, portanto, não é nenhuma surpresa o fato da versão cinematográfica também ficar aquém do esperado. Bobagem. Adaptações também servem para propor novos olhares e leituras, assim como para mitigar escolhas não tão bem sucedidas. O que falta mesmo a Wicked é um diretor inspirado. A primeira parte, levada às telas com a mesma criatividade técnica e artística que qualquer outra aventura banalíssima da Marvel ou da DC, conseguia ser um entretenimento agradável muito em função de Cynthia Erivo e Ariana Grande, cujo frescor elevava o resultado junto às boas canções, culminando na clássica “Defying Gravity”. Por outro lado, Wicked: Parte 2, rodado simultaneamente com o primeiro filme, apenas deixa evidente a falta de um bom contador de histórias atrás das câmeras. Ao ter comandado os dois longas em um mesmo período, Jon M. Chu de fato concebe a parte 2 como apenas uma extensão da parte 1, sem elaborar absolutamente nada de novo. Não há um elemento ou uma identidade que dê qualquer tipo de vida própria à continuação. Nem mesmo a dupla protagonista, antes tão cintilante, consegue dar algum brilho ao material. De fato, a história decai na reta final, tanto do ponto de vista narrativo quanto musical, e o ritmo oscila entre o arrastado e acelerado, mas, quando os envolvidos não se esforçam para entregar algo minimamente novo, não há mesmo o que ser feito, muito menos quando decisões mercadológicas se impõem e já sugerem a produção de novas obras ambientadas no universo de Wicked.