Cinema e Argumento

Apostas para o Oscar 2026

Hoje é dia de arriscar no bolão e ficar feliz em perder pontos. O motivo? Das categorias principais do Oscar 2026, somente duas têm seus favoritos plenamente posicionados: Paul Thomas Anderson em melhor direção com Uma Batalha Após a Outra e Jessie Buckley em melhor atriz com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Nas demais, abre-se espaço para diversas conjecturas, como em melhor ator e melhor atriz coadjuvante. Mesmo entre as categorias técnicas, fica no ar a possibilidade de Pecadores surpreender converter em vitórias o seu número recorde de indicações ao prêmio da Academia. E quanto ao Brasil? Vamos sorrir entre algumas das cinco possibilidades que temos de levar a estatueta para casa? A situação é mais difícil do que a do ano passado, mas podemos ter esperança, e deposito a minha em filme internacional.

Abaixo, minhas apostas para todas as categorias:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Amy Madigan (A Hora do Mal)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Delroy Lindo (Pecadores)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: Pecadores / alt: O Agente Secreto
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores / alt: Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

MELHOR FILME INTERNACIONAL: O Agente Secreto (Brasil) / alt: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: A Vizinha Perfeita / alt: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra / alt: F1: O Filme
MELHOR FOTOGRAFIA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR FIGURINO: Frankenstein / alt: Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)

MELHOR SOM: F1: O Filme / alt: Sirāt
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR CURTA-METRAGEM: Two People Exchanging Saliva / alt: The Singers
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Butterfly / alt: The Girl Who Cried Pearls

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: All the Empty Rooms / alt: Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud

Mais de duas décadas depois e agora em dose única, “Kill Bill” está de volta aos cinemas com sangue, adrenalina e… amor!

Sei que, pela proximidade do Oscar, eu deveria estar falando sobre o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deverá aprontar na cerimônia do próximo domingo (12), mas fui ver Kill Bill: The Whole Bloody Affair no cinema e veio uma vontade incontrolável de falar sobre essa versão unificada de Quentin Tarantino para os dois filmes — Kill Bill: Vol. 1 e Kill Bill: Vol. 2 — lançados em 2003 e 2004, respectivamente. À época, por pressões comerciais e exigências do famigerado produtor Harvey Weinstein, Tarantino precisou dividir em dois o seu longa-metragem então concebido como uma experiência única. A imposição do lançamento nesse formato nunca foi segredo e, agora, mais de 20 anos depois, quando vemos a versão em um só filme, dá para entender o porquê. Ainda que tenham sido aclamados com o mesmo entusiasmo, os dois capítulos de Kill Bill se engrandecem ainda mais quando condensados.

Há, no entanto, um adendo a ser feito: o marketing dá conta de que The Whole Bloody Affair seria uma experiência nova por ter cenas adicionais, o que não é exatamente uma verdade. Com exceção da versão estendida do anime envolvendo a origem da rainha do crime O-Ren Ishii (Lucy Liu), o que se acrescenta são apenas poucos segundos a algumas sequências, como pequenos alívios cômicos na batalha da Noiva (Uma Thurman) com os Crazy 88. A mudança mais significativa se dá em termos de estrutura: enquanto o Vol. 1 terminava com uma grande revelação — pensada, diga-se de passagem, exatamente para estimular o público a ver o Vol. 2 que seria lançado cerca de um ano depois —, The Whole Bloody Affair abre mão dessa sequência para deixar que o público ainda leigo na história descubra o tal segredo junto com a protagonista, somente no terço final, o que fortalece os traços essencialmente dramáticos que a história adota em seus momentos derradeiros.

Em síntese, Kill Bill é sobre uma ex-assassina profissional que, após acordar de um coma de quatro anos, decide se vingar do esquadrão responsável por sua quase-morte e liderado pelo Bill do título. Na divisão da obra, o primeiro volume se apresentava, inegavelmente, como uma obra mais violenta, pop e frenética, enquanto o segundo desacelerava em muitos aspectos, quase como uma antítese do que havíamos visto até então — não à toa, o clímax envolvendo o ato de, enfim, matar Bill (David Carradine) está envolto em diálogos e sentimentos, longe, por exemplo, da sanguinolência e da brutalidade com que todas as outras mortes se deram. A disparidade de estilos afetou, durante muitos anos, o meu envolvimento a saga da protagonista, pois nunca nutri pela segunda parte o mesmo entusiasmo que eu tinha pela primeira, algo que, hoje, ao me deparar com The Whole Bloody Affair, vejo que foi problema direto da decisão comercial que separou a obra como um todo.

Daqui para frente, contudo, o que ficará na minha memória é a experiência de ter assistido ao filme como ele foi concebido no papel. E é algo que faz toda a diferença, pois, tendo visto todos os acontecimentos de uma tacada só e sem a espera entre um lançamento e outro, os próprios descompassos que eu sentiam se torna uma qualidade. Toda a brutalidade vertiginosa da primeira parte vai gradativamente se tornando mais humana e ramificada em seus propósitos, culminando em uma série de relações interpessoais para lá de tortas e conflituosas, sejam as dos negócios mortais estabelecidos pelo Esquadrão Assassino de Víboras Mortais ou das relações afetivas, começando, claro, pela relação da Noiva com Bill. Em aproximadamente 4h30min, Tarantino desenha as transformações da trama com calma e criatividade, sem usar reviravoltas como meras muletas, mas sim como forma de trazer nuances para vários personagens que não chegamos a conhecer em meio aos deliciosos baldes de sangue e violência do primeiro ato. As horas de The Whole Bloody Affair não se fazem sentir e estão, a todo momento, trabalhando a favor de uma grande construção dramática.

Antes ou depois de Kill Bill, não faltaram reverências a Quentin Tarantino, que levou para casa da Palma de Ouro ao Oscar por filmes como Pulp Fiction e Django Livre. Seu último longa, Era Uma Vez… Em Hollywood rendeu a Brad Pitt todos os prêmios de melhor ator coadjuvante em 2020. Não acho que sua fase mais recente seja das mais interessantes. Pelo contrário: o que não me falta é desinteresse por um Tarantino cujo cinema se tornou consciente demais de si próprio, resultando em trabalhos tão interessantes quanto verborrágicos, como Os Oito Odiados, e cuja persona tem proferido um punhado de bobagens, a exemplo de seu depoimento depreciando, aleatoriamente, o grande desempenho de Paul Dano em Sangue Negro. Nada, contudo, afeta minha admiração por Kill Bill, que considero seu auge como contador de histórias. Em nenhum outro trabalho Tarantino amalgamou ocidente e oriente, samurais e caubóis, sangue e lágrimas ou amor e vingança com tanta disciplina e criatividade, sem fazer de The Whole Bloody Affair uma homenagem genérica a diversos gêneros e cineastas. É trabalho fino e de muitas constelações alinhadas no momento certo.

Todo esse universo não seria possível sem a presença de outra figura fundamental no processo de concepção de Kill Bill: a atriz Uma Thurman. Mais do que a protagonista, Thurman imaginou a personagem da Noiva junto a Tarantino antes mesmo da concepção do roteiro. E não é só com distância que a imensidão da atriz como a estrela do longa se faz notar: mesmo no lançamento do primeiro volume, a performance de Thurman já se estabelecia como um parâmetro para a posteridade tamanha a sua entrega física, dramática e versátil. O tempo só tornou ainda mais icônica uma performance sempre lembrada em Hollywood, como constatado em uma entrevista recente de Charlize Theron. Estrela do também memorável Mad Max: Estrada da Fúria, Theron falou que Uma Thurman em Kill Bill sempre foi a sua “sensei”, o que faz todo sentido comparado tudo o que as duas fizeram de marcante como protagonistas de suas duas obras. Se o Oscar vem quebrando preconceitos com o gênero de terror ao indicar com mais frequência nomes como Demi Moore (A Substância) e Amy Madigan (A Hora do Mal), o próximo passo é rever a relação com o gênero de ação, para que as próximas Uma Thurman e Charlize Theron não sejam mais uma vez também absurdamente ignoradas.

E, não menos importante, ao voltar a Kill Bill, me peguei pensando sobre o quanto a saga também é sobre… Amor! Dos mais tortos, cruéis e mortais, é verdade, mas, ainda assim, amor. Permito-me aqui abraçar o spoiler. Na reta final, a Noiva encontra um antigo conhecido de Bill que, enfim, lhe dará informações sobre onde está aquele que é último alvo da sua lista de vingança. Ao receber a localização com facilidade suspeita, ela questiona a veracidade dos fatos, ao que o personagem responde: “Ele gostaria que eu a ajudasse. Afinal, como a reencontraria novamente?”.  Já é o indício de que o último encontro do filme se dará não com violência, mas sim como o acerto de contas envolvendo uma série de ressentimentos, mágoas e respostas desproporcionais aos rumos tomados por um relacionamento outrora romântico. Não deixa de ser a inversão definitiva de expectativas que Tarantino guarda para uma saga recheada de surpresas por si só e que, entre cenas de ação muitíssimo bem coreografadas e o extremo bom gosto para a seleção de uma coletânea de canções na trilha sonora, acaba sendo, ao fim e ao cabo, sobre como o amor pode ser, ironicamente, um sentimento destrutivo e com muito mais sangue do que um certo coração que explode após ser atingido por uma técnica milenar.

Spirit Awards 2026 tem poucas intersecções com o Oscar — e, por isso mesmo, traz frescor para a temporada de premiações

É raro acontecer, mas, em 2026, o Independent Spirit Awards praticamente não tem intersecção com o Oscar. Se, em anos anteriores, o prêmio mais importante do cinema independente realizado nos Estados Unidos fez dobradinha com a Academia ao consagrar títulos como Anora, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Nomadland e Moonlight na categoria principal, hoje temos um cenário bastante atípico, onde nenhum dos cinco concorrentes ao Spirit Awards de melhor filme aparece no Oscar em qualquer categoria. No mais, apenas cinco títulos são compartilhados pelas duas premiações nas demais categorias técnicas e de interpretação: Sonhos de Trem, O Agente Secreto, Sirāt, A Vizinha Perfeita e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E isso é demérito? Muito pelo contrário: a seleção, na verdade, traz frescor para uma temporada de premiações cada vez mais abarrotada de associações que, na prática, apesar da pluralidade de origens e vocações, acabam premiando sempre os mesmos concorrentes.

O Dia de Peter Hujar é o filme mais indicado do Spirit Awards 2026.

O líder de indicações deste ano no Spirit Awards é O Dia de Peter Hujar, tradução cinematográfica do diretor Ira Sachs (Passagens, O Amor é Estranho, Deixe a Luz Acesa) para uma conversa gravada em 1974 entre o fotógrafo Peter Hujar (Ben Whishaw, sempre excelente) e a escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall). Trata-se de um diálogo sobre 24 horas aparentemente banais na vida de Hujar, artista que se tornou uma das figuras centrais da lendária cena cultural nova-iorquina das décadas de 1970 e 80. A banalidade é aparente porque o relato acaba documentando as movimentações artísticas de uma Nova York em plena efervescência, o que pode ser muito interessante para quem se interessa pelo recorte ou perfeitamente tedioso frente à estrutura adotada. Tudo ocorre em um mesmo espaço, somente com dois atores conversando e gravando diálogos que foram encontrados em fitas na vida real. Há poucas engrenagens cinematográficas em O Dia de Peter Hujar, daí a minha incredulidade com tamanho amor do Spirit Awards pelo resultado final.

Kathleen Chalfant brilha em Toque Familiar.

Pelo menos quatro outros títulos mereciam mais reconhecimento. Começo com Toque Familiar, indicado somente a melhor performance protagonista e ao prêmio John Cassavetes, limitado a obras com orçamento de até um milhão de dólares. A belíssima e delicada performance de Kathleen Chalfant é, por óbvio, o grande destaque, mas como um todo, a diretora Sarah Friedland se sai admiravelmente bem ao não cair nas armadilhas tão tradicionais envolvendo relatos de personagens que se confrontam com a perda da memória e o Mal de Alzheimer na velhice. Tudo é elegante, silencioso e meticulosamente bordado em intimismo. Por falar em discrição, Depois do Fogo, o mais novo trabalho do diretor Max Walker-Silverman, também se ampara na lógica de que menos é mais para abordar uma circunstância familiar aos Estados Unidos em sua história recente: a do cowboy Dusty (Josh O’Connor), que, após ver incêndios florestais tomarem conta de seu rancho, chega a um acampamento tendo que reconstruir sua vida e seus laços. Assim como em Uma Noite no Lago, Walker-Silverman filma a solidão e os recomeços com melancolia e humanidade. A única indicação foi para a coadjuvante Kali Reis, o que em nada reflete a beleza cotidiana do longa.

Ainda na conta dos subestimados, coloco Hedda, adaptação da diretora Nia DaCosta para a famosa peça de 1891 do aclamado dramaturgo Henrik Ibsen. A promessa de que a nova leitura seria cativante e de grande escala, a meu ver, é cumprida: à parte as merecidas indicações para Tessa Thompson e Nina Hoss em performance protagonista e coadjuvante, respectivamente, a obra em si é ambiciosa do ponto de vista técnico e de ideias. Nia DaCosta tem ótimo tino para lidar com a malícia, a insegurança e a ardilosidade das personagens centrais, todas femininas e emolduradas por uma atmosfera instigante que traz, por exemplo, mais um ótimo trabalho da Oscarizada compositora islandesa Hildur Guðnadóttir (Coringa, Chernobyl). E o que dizer sobre O Testamento de Ann Lee, um dos casos mais emblemáticos de campanha mal conduzida nos últimos anos? Um musical de época que poderia ter emplacado múltiplas indicações em todos os prêmios acabou relegado exclusivamente a uma indicação de melhor montagem no Spirit Awards. Ainda que nem sempre o filme de Mona Fastvold convença na mitologia criada em torno da personagem de Amanda Seyfried, é inegável que os outros vários méritos do filme, como a fabulosa trilha de Daniel Blumberg, mereciam muito mais atenção.

Lurker investiga os caminhos tortuosos da obsessão e da falta de identidade.

Tematicamente, percebo aproximação entre vários indicados, caso de Lurker, Twinless e The Plague, que, cada um à sua maneira, versam sobre os caminhos tortos traçados por protagonistas que buscam algum senso de pertencimento, nem que, para tanto, precisem abrir mão de suas histórias verdadeiras para assumir outros papeis. O primeiro adota o tom de suspense e tensão, extraindo excelentes interpretações de Théodore Pellerin e Archie Madekwe, que fazem um duelo não tão velado de pessoas cujas carências e egocentrismos se retroalimentam. Já Twinless é bem sucedido e envolvente ao lidar com as camadas complicadas do luto, aqui visto sob a ótica de um personagem que se aproveita da dor do próximo para, secretamente, conseguir o que precisa para administrar suas próprias feridas emocionais. E, por fim, The Plague pisa no terreno da adolescência – e nos lembra de levantar as mãos do céu para agradecer que só passamos por essa fase uma vez na vida. Jovens podem ser muito cruéis, especialmente diante do diferente, e o diretor Charlie Polinger cria um incômodo palpável ao explorar as possibilidades das crueldades sociais às quais os adolescentes se submetem para encontrar alguma construção de personalidade.

Blue Sun Palace e Lucky Lu também rendem uma sessão conjunta, mas ficam estacionados em um certo lugar-comum. Ambos se debruçam sobre a chegada de personagens asiáticos em Nova York e a extenuante rotina adotada por eles para tentar sobreviver em uma Big Apple pouco amigável aos que vêm de fora. Se os estilos são distintos – Blue Sun Palace tem olhar feminino e subjetivo para o desenvolvimento íntimo de cada figura em cena, enquanto Lucky Lu se agarra à jornada individual de um homem em meio a uma série de adversidades que testam sua resiliência –, os resultados são semelhantes até demais em discursos. Esperava que os dois tivessem mais a dizer sobre a dureza com que os Estados Unidos tratam imigrantes. Ao fim e ao cabo, valem sobretudo pela ótica oriental dada a um viés que é predominantemente encenado a partir da vivência de personagens latinos.

Nick Offerman e Jacob Tremblay são pai e filho no potente Sovereign.

Enquanto isso, Sovereign e A Little Prayer questionam a reverberação paterna na criação dos filhos. O retrato de Sovereign é desolador, no caso, o de Jerry (Nick Offerman), que, declaradamente antigoverno, vê conspiração em tudo o que os Estados Unidos colocam como regra ou lei para a sociedade. Da carteira de habilitação que ele se nega a tirar para poder dirigir às aulas que dá ao próprio filho para não o colocar em uma escola, Jerry cria Joe (Jacob Tremblay) em uma redoma de alienação e negacionismo que, claro, só poderia resultar em tragédia. É um dos meus favoritos entre os indicados ao Spirit Awards 2026 – e, por ser baseado em uma história real, torna-se ainda mais impactante no estudo de uma paternidade falida. Em contraste, A Little Prayer é sensível na busca de um pai para entender como seu filho, um homem que ele criou com retidão e carinho em uma pequena cidade do interior, vem traindo a esposa. Afinal, quais valores são realmente absorvidos de uma geração para outra? Há alguma culpa paterna na traição reiterada do filho? A condução é simples, quase artesanal, característica de um cinema pequeno e independente bastante raro nos dias de hoje.

Para fechar o balanço de títulos assistidos, há Sorry, Baby, do qual gosto muito e já falei aqui; A Longa Marcha: Caminha ou Morra, ótima adaptação da obra homônima de Stephen King cujo elenco recebe o prêmio Robert Altman; a comédia-pastelão Um Dia Daqueles, que coloca duas mulheres negras (Keke Palmer e SZA) no centro de uma divertida história sobre a busca quase impossível pelo dinheiro devido do aluguel até o fim do dia; e O Bom Bandido, sobre a história verídica de um ladrão profissional (Channing Tatum) que encontra um esconderijo numa loja de brinquedos, sobrevivendo por meses sem ser detectado enquanto planeja seu próximo passo. Esses dois últimos talvez sejam mais convencionais se tratando de forma e desenvolvimento, mas, nem por isso deixam de ter brilho próprio, em especial Um Dia Daqueles no que se refere às presenças cativantes de suas duas protagonistas.

A lista completa de indicados ao Spirit Awards pode ser conferida aqui.

Os indicados ao BAFTA 2026

Uma Batalha Após a Outra lidera lista do BAFTA com 14 indicações.

O BAFTA 2026 gravita entre os favoritismos de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, assim como repete o volume de indicações já dado a títulos como Hamnet e Valor Sentimental em outras premiações. Isso quer dizer que os britânicos pouco mexem no tabuleiro geral da corrida pelo Oscar, que, aliás, revelou seus indicados antes do BAFTA. Mesmo as indicações mais bairristas, como todas recebidas por I Swear, ou a de Carey Mulligan em melhor atriz coadjuvante por The Ballad of Wallis Island, são casos isolados e sem chances de levar estatuetas para casa. Como mais do mesmo, o BAFTA desempenhará apenas o papel de confirmar muito do que já sabemos e, eventualmente, o de iluminar favoritos em categorias técnicas ausentes em outros termômetros importantes da temporada. A cerimônia acontece no dia 22 de fevereiro.

Confira abaixo os indicados:

MELHOR FILME
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME BRITÂNICO
The Ballad of Wallis Island
Bridget Jones: Louca pelo Garoto
Extermínio: A Evolução
H is for Hawk
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
I Swear
Morra, Amor
Mr. Burton
Pillion
Steve

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)

Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)
Yorgos Lanthimos (Bugonia)

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Robert Aramayo (I Swear)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Carey Mulligan (The Ballad of Wallis Island)
Emily Watson (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Peter Mullan (I Swear)

Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Agente Secreto
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Ballad of Wallis Island
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pillion

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente
(França)

Valor Sentimental (Noruega)
Sirāt (Espanha)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A 2000 Metros de Andriivka
Apocalipse nos Trópicos
Cover-Up
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Elio
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA
Arco
Boong
Lilo & Stitch
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
Casa de Dinamite
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Tempo de Guerra

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
Como Treinar o Seu Dragão
F1: O Filme
Frankenstein
O Ônibus Perdido

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO
The Ceremony
My Father’s Shadow
Pillion
A Want In Her
Wasteman

MELHOR CURTA BRITÂNICO
Magid / Zafar
Nostalgie
Terence
This Is Endometriosis
Welcome Home Freckles

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Cardboard
Solstice
Two Black Boys in Paradise

EE RISING STAR
Archie Madekwe
Chase Infiniti
Miles Caton
Posy Sterling
Robert Aramayo

Os indicados ao Oscar 2026

Lembrado em 16 categorias, Pecadores é o novo recordista de indicações ao Oscar.

Não são poucos os filmes do Oscar 2026 que concorrem em várias categorias, a começar por Pecadores, agora detentor do recorde absoluto de indicações ao prêmio da Academia em seus quase 100 anos de existência. O longa de Ryan Coogler disputa nada menos do que 16 estatuetas, ultrapassando as estatísticas de títulos como Titanic, A Malvada e La La Land: Cantando Estações. Ele é seguido de perto por Uma Batalha Após a Outra, indicado a 13. Já Marty Supreme, Frankenstein e Valor Sentimental aparecem com nove. Os números refletem um ano forte e, acima de tudo, diverso em gêneros e nacionalidades. Resta saber qual será a lógica do Oscar na hora de mapear seus vencedores diante dessa gama.

Para o Brasil, em termos de indicações, as notícias são excelentes. Pelo segundo ano consecutivo, estamos disputando a categoria principal de melhor filme, dessa vez, com O Agente Secreto, lembrado ainda em melhor ator para Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor escalação de elenco, a mais nova categoria criada pela Academia. O paulista Adolpho Veloso também nos representa com a indicação de melhor fotografia para Sonhos de Trem. A disputa é árdua — afinal, Valor Sentimental, que parecia ter perdido o fôlego com os resultados do Critics’ Choice e do Globo de Ouro, recobrou forças com expressivas nove indicações —, mas, tratando-se de Oscar, tudo pode acontecer até o último minuto antes da cerimônia, a ser realizada no dia 16 de março.

Abaixo, algumas outras considerações sobre a lista de indicados:

Valor Sentimental emplaca, merecidamente, quatro indicações individuais para seus atores, mas fica de fora da categoria de melhor escalação de elenco. Difícil entender como um filme com interpretações tão celebradas não se configura automaticamente como um indicado da categoria estreante;

– Entre os reconhecimentos dados ao filme de Joachim Trier, fico feliz, em especial, pela lembrança à Elle Fanning em atriz coadjuvante, que já era praticamente dada como carta fora do baralho. Não deveria ser sua estreia no Oscar: no ano passado, em meio ao exagero de indicações para Um Completo Desconhecido, Fanning deveria ter concorrido ao lado de Monica Barbaro;

– É de se chatear que Paul Mescal tenha ficado de fora por sua performance em Hamnet, que concorre em oito categorias. Ao mesmo tempo, a entrada de Delroy Lindo (Pecadores) traz surpresa e frescor à categoria, além de ser justo o reconhecimento a um ótimo ator;

 – De dez indicações pelo primeiro filme a zero pelo segundo, Wicked teve o pior desempenho entre todos os candidatos em potencial dessa temporada. Chega a ser até chocante que o Oscar tenha garimpado uma canção do documentário Viva Verdi! para não indicar qualquer uma das duas canções originais do musical de John M. Chu;

– Ainda fico surpreso com tanto amor depositado em Bugonia, finalista em melhor filme, atriz (Emma Stone), roteiro adaptado e trilha sonora. É um trabalho pueril, com discursos óbvios e que, assim como aconteceu em Tipos de Gentileza, mostra que, talvez, Yorgos Lanthimos esteja fazendo coisas demais em pouco tempo;

– Qual a razão de indicar mais uma vez Diane Warren a melhor canção? Azarada nata da categoria, concorreu 17 vezes ao longo da carreira e perdeu de todos os jeitos possíveis. Não à toa, a Academia já lhe outorgou um prêmio honorário. Precisa mesmo concorrer mais uma vez por uma canção esquecível?

– A vaga ocupada por F1: O Filme na categoria principal causou certo espanto, mas me parece coerente: com o declínio de Wicked e Avatar: Fogo e Cinzas na temporada, Hollywood tinha de encontrar algum blockbuster para representar o cinema comercial na seleção principal. Só é uma pena que isso tenha acontecido às custas do reconhecimento ao ótimo Foi Apenas Um Acidente;

– Kate Hudson entrou praticamente de última hora na categoria de melhor atriz pelo fraquíssimo Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, escanteando Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra). Não é só injustiça com Chase: outras interpretações reconhecidas na temporada mereciam muito mais, como as de Jennifer Lawrence (Morra, Amor), Julia Roberts (Depois da Caçada) e Tessa Thompson (Hedda).

Confira a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
F1: O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
Valor Sentimental

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Delroy Lindo (Pecadores)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Moon
Foi Apenas um Acidente
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sonhos de Trem

MELHOR FILME INTERNACIONAL
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente (França)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Alabama: Presos do Sistema
Cutting Through Rocks
Embaixo da Luz Neon
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Elio
Guerreiras do K-Pop
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Avatar: Fogo e Cinzas
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
“Golden” (Guerreiras do K-Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Sirāt

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Jurassic World: Recomeço
O Ônibus Perdido
Pecadores

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
Coração de Lutador: The Smashing Machine
Frankenstein
Kokuho
A Meia-Irmã Feia
Pecadores

MELHOR CURTA-METRAGEM
Butcher’s Stain
A Friend of Dorothy
Jane Austen’s Period Drama
The Singers
Two People Exchanging Saliva

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Butterfly
Forevergreen
The Girl Who Cried Pearls
Retirement Plan
The Three Sisters

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
All the Empty Rooms
Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Children No More: Were and Are Gone
The Devil Is Busy
Perfectly a Strangeness