Na coleção… Cantando na Chuva

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são dois dos astros mais famosos da época do cinema mudo em Hollywood. Mas, uma novidade no mundo do cinema chega para mudar totalmente a situação de ambos no mundo da fama: o cinema falado, que logo se torna a nova moda entre os espectadores. Decidido a produzir um filme falado com o casal mais famoso do momento, Don e Lina precisam entretanto superar as dificuldades do novo método de se fazer cinema, para conseguir manter a fama conquistada.
Ainda que não seja um dos meus grandes musicais ou aquele tipo de filme que me deixa com as canções na cabeça, posso dizer, com a maior certeza, que Cantando na Chuva é um dos musicais mais bem executados que o cinema já teve o prazer de ver. Não só pela maravilhosa cena clássica que ilustra esse post, mas como também por tantos outros aspectos que o tornam um filme cheio de ótimos aspectos. O longa, na época, teve duas míseras indicações ao Oscar.
Coreografado de forma brilhante, Cantando na Chuva possui um lado musical admirável. Tanto as encenações de cada número como a inserção deles na narrativa da história é trabalhada de forma exemplar. Sem falar, claro, que o impecável elenco sempre ajuda cada uma dessas cenas. Portanto, esse longa-metragem de Stanley Donen e Gene Kelly (que também atua aqui) pode até não ser um dos filmes da minha vida – mas, certamente, tem grande valor cinematográfico. Isso, por si só, já o torna obrigatório.
FILME: 8.5

Na coleção… Um Beijo a Mais

Para quem não sabe, Um Beijo a Mais é refilmagem de um longa-metragem italiano chamado O Último Beijo, de 2001. Como muito acontece em Hollywood, não havia necessidade de um remake. Mas, já que ele existe, devemos tentar encontrar nele algumas possíveis qualidades. E, por mais que Um Beijo a Mais não seja nada espetacular ou digno de maiores aplausos, possui alguns aspectos bem interessantes. É uma história que se sai bem não só na hora de discutir relacionamentos, mas também nas interpretações.
Michael (Zach Braff) está de casamento marcado com Jenna (Jacinda Barrett), com quem namora há três anos. Ele está prestes a chegar em seu trigésimo aniversário e acredita ter uma vida completa. Contudo, ele conhece Kim (Rachel Bilson, da série The O.C.), que faz com que ele repense tudo o que já conseguiu em sua vida e reavalia sua visão sobre relacionamentos. O filme também acompanha outras histórias, como a vida amorosa dos amigos de Michael e o casamento abalados dos sogros do protagonista.
Um Beijo a Mais ganha superficialidades por ser um produto comercial norte-americano. Algumas densidades mais dramáticas do filme italiano não estão presentes aqui. O caráter de apelo popular tira o aprofundamento de alguns conflitos (a história de Tom Wilkinson e Blythe Danner, por exemplo, merecia muito mais espaço). Entretanto, isso não chega a tirar a sensação de dever cumprido. Tudo bem que o resultado não está isento de falhas, mas a produção alcança bom desempenho no seu tipo de formato.
Se Blythe Danner e Tom Wilkinson possuem a storyline mais interessante, Zach Braff e Jacinda Barrett não desapontam com seus momentos de protagonista. Sem falar de um bom Casey Affleck como coadjuvante. O elenco é um dos principais acertos de Um Beijo a Mais, uma produção que versa sobre relações de forma satisfatória, ainda que com um desenvolvimento preso demais aos moldes norte-americanos e com um final meio abrupto. Destaque para a ótima trilha sonora.
FILME: 8.0

Na coleção… Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Não gosto quando dizem que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é um filme romântico. Devo concordar, claro, que acompanhamos a trajetória de um casal. Mas, ao meu ver, o filme de Michel Gondry é mais sobre as dores trazidas por um relacionamento do que sobre os momentos de paixão de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Além de não ser uma produção do típico romance idealizado pelo cinema, conta a história com uma abordagem inovadora e diferente – o que é algo que pode despertar a idolatria em certo público e o afastamento em outro.
Quando Joel descobre que sua ex-namorada Clementine resolveu apagá-lo da memória através de um programa criado pelo dr. Howard Mierzwiack (Tom Wilkinson), ele também resolve fazer o mesmo. Mas, no meio do procedimento (que consiste em fazer o paciente reviver as memórias), Joel se arrepende de ver os momentos que passou com Clementine sendo apagados de sua memória e começa a fazer de tudo, dentro da própria mente e do corpo “anestesiado”, para impedir esse acontecimento.
Não é fácil gostar de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Não fui um grande fã do filme logo na primeira vez que o assisti. No entanto, algo é fundamental: rever o longa-metragem em diferentes momentos da vida. Não é somente uma história que vai fazer você perceber coisas novas a cada revisão, mas também vai mostrar o quanto você aprendeu com a vida (mais especificamente com os relacionamentos) desde a última vez que você o assistiu. Temos, portanto, algo raro: o tempo e a vida fazem, com o passar dos anos, que o filme se torne cada vez mais admirável. É uma produção que entende o espectador. E, acima de tudo, que consegue transmitir isso para quem o assiste.
Falando um pouco mais do resultado em si, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças também tem outros aspectos notáveis além do enredo. A fotografia gélida (que, inclusive, pode passar a sensação de que o filme é, de fato, frio), a montagem bem arquitetada ou os próprios efeitos chamam muito a atenção… Mas, sem dúvida, o destaque maior é do casal principal. Kate Winslet, em mais um momento inspirado, cria uma personagem maravilhosa. Agora, quem mais merecia créditos pelo filme era Jim Carrey. Não só está no seu melhor momento, como também apresenta uma das interpretações mais interessantes dos últimos anos. Brilho Eterno, no final, causa estranhamento e uma sensação de que vimos um filme completamente diferente… e cheio de qualidades.
FILME: 9.0

Na coleção… Bobby

Qual foi o último filme que tinha milhares de nomes famosos no elenco e que deu completamente certo? Nine e A Grande Ilusão é que não foram. Bobby também não. Mas, ao contrário do vazio musical de Rob Marshall e da mal realizada refilmagem estrelada por Sean Penn, o filme de Emilio Estevez tem um resultado satisfatório. O destaque, sem dúvida, é o elenco. Contudo, é injusto resumir esse filme a um produto apenas de atores.
Bobby narra a história de 22 pessoas que estiveram no hotel Ambassador no dia em que Robert F. Kennedy foi assassinado no local. 22 pessoas. Um número exagerado de personagens, não? É isso que não deixa Bobby ser um filme melhor. Não conhecemos nenhuma figura a fundo e sempre fica aquela sensação de que um ou outro personagem que nos causou mais simpatia merecia um destaque maior. Só que, infelizmente, Emilio Estevez não é nenhum Paul Thomas Anderson para contar várias histórias sem se perder.
Apesar desse problema, certos atores conseguem chamar mais atenção. Sharon Stone como a cabeleireira traída pelo marido, Demi Moore como a alcóolatra cantora, Freddy Rodriguez como o mexicano fã de baseball e Helen Hunt como a esposa riquinha são exemplos de personagens que nos passam bons momentos. Por um outro lado, os dois estudantes que procuram drogas e as telefonistas do hotel já não desperam interessante. Portanto, dentro do possível, os atores se saem muito bem.
Excetuando o elenco, Bobby também tem outros atrativos. As cenas que trazem filmagens reais de Kennedy são um achado. Não só são bem intercaladas com as filmagens de atores, como também trazem ótimas reflexões. Os momentos finais, com a narração de Kennedy sobre a ameaça irracional da violência são exemplares. Ou, também, a cena em que acompanhamos a admiração do público por Kennedy ao som de The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel.
Esse é um filme que decepciona por ser apenas satisfatório. Infelizmente, a grande quantidade de atores famosos não foi o suficiente para que Bobby conseguisse ir além. É um retrato interessante, mas que é prejudicado por uma foco narrativo descentralizado demais. Com isso, acompanhamos uma história de qualidades, mas que nunca chega a ser notável como poderia ter sido. A boa notícia é que, apesar da decepção, Bobby é um bom filme.
FILME: 7.5

Na coleção… Boogie Nights – Prazer Sem Limites

São poucos os diretores que, a cada trabalho, conseguem mostrar superação e também despertar no público a sensação de que estamos diante de um “mestre”. Paul Thomas Anderson pode se considerar um desses caras. Tem, pelo menos, três filmes no seu currículo que são definidos como “obra-prima”. Se Magnólia e Sangue Negro (esse não chega a despertar minha admiração) são os exemplares mais recentes, foi Boogie Nights – Prazer Sem Limites que abriu os olhos do mundo para Anderson – e o filme justifica muito bem o porquê.
Não é só em função da temática no mínimo curiosa (os bastidores da indústria pornográfica) que o filme obteve sucesso. A produção, em um conjunto geral, tem aspectos extremamente interessantes. Anderson já demonstra absurda segurança em um de seus primeiros trabalhos. O talento dele está nas tomadas bem trabalhadas ou, então, no lado pop da história (a trilha sonora maravilhosa tem papel fundamental no desenrolar dos fatos). Sem falar, claro, na própria direção de atores.
Lançado em 1997, Boogie Nights lançou Mark Wahlberg ao estrelato (e ainda o ator tem aqui o melhor desempenho de sua carreira) e também já contava com nomes que estavam prestes a serem reconhecidos nos próximos anos, como Julianne Moore (no auge de sua beleza e em uma interpretação indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e Philip Seymour Hoffman. Burt Reynolds, como o diretor de filmes pornográficos, também tem excelente destaque.
A princípio, é um filme que pode parecer demasiado longo. Mas, se formos levar em conta o número de personagens e como cada história tem satisfatórios desenvolvimentos, isso não é um problema. Boogie Nights, portanto, marcou uma década e é um dos filmes que melhor definem o jeito de fazer cinema nos anos 90. Difícil escolher entre esse trabalho ou Magnólia. Mas, independente disso, afirmo, sem pestanejar, que Paul Thomas Anderson é um sujeito que não se encontra em qualquer canto.
FILME: 9.0
