Terminada a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, percebo uma estatística interessante: dos seis longas de ficção, três têm linguagem mais arrojada e um novo olhar sobre questões importantes da nossa atualidade, enquanto os outros três apresentam narrativas lineares e que não correm riscos. Seria, talvez, uma tentativa curatorial de contemplar tanto a crítica quanto o público? Já tendo abordado um representante de cada caso — Feito Pipa, o belíssimo longa-metragem de Allan Deberton que lança um olhar delicado e até inédito no cinema brasileiro para a infância queer, e Pele de Rinoceronte, produção mais discursiva/expositiva sobre as reverberações do feminicídio — agora me debruço um pouco nos demais, que seguem revelando essa alternância da seleção.

Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte
Começo com aqueles que, a meu ver, têm pouquíssimas novidades ou não fazem questão alguma de serem minimamente sofisticados. Não à toa, duas cinebiografias. Hoje um habitué do Festival de Cinema de Gramado, o diretor José Eduardo Belmonte volta ao evento após O Pastor e o Guerrilheiro e Uma Família Feliz, ambos títulos que saíram da Serra Gaúcha de mãos abanando na cerimônia de entrega dos Kikitos. Dessa vez, ele chega com Justino – Nos Bastidores do Reino, que adapta a história real de um pastor que fez parte da popularização de uma poderosa instituição religiosa e viu sua vida ruir pelas mãos da própria comunidade que lhe alçou ao reconhecimento. O filme toma como base o livro “Nos Bastidores do Reino”, de Mário Justino, navegando entre as décadas de 1960 e 1990, entre Brasil, os Estados Unidos e a Europa.
É excelente a ideia de finalmente termos um longa de ficção que se proponha a descortinar as hipocrisias e até mesmo os crimes cometidos por instituições religiosas que se aproveitam da fé alheia, especialmente no Brasil, país em que elas detêm imenso poder, inclusive na política. E Belmonte se sai bem na reconstituição de época, na extensa seleção de temas a serem abordados e na condução do próprio elenco, conduzido com bastante solidez pelo protagonista vivido por Christian Malheiros. Por outro lado, a narrativa clássica demais acaba encaretando um relato que, dada a sua natureza, poderia também ser transgressor na forma. Isso prejudica o ritmo, que já enfrenta seus problemas por, em determinado ponto, acumular muitos fatos e reviravoltas, banalizando o impacto que uma narrativa criativa poderia criar.
Se Justino não surpreende na forma, o mesmo, de certa forma, pode ser dito sobre a tônica de seu discurso. Primeiro porque, em grande parte, o protagonista é construído com certa inocência, como se, aqui ou ali, ele fosse surpreendido pelas canalhices ou injustiças de um sistema claramente corrupto desde o primeiro momento. Há poucas nuances na maneira como ele tem sua percepção modificada diante dos acontecimentos. E segundo porque, justamente, nós próprios, como espectadores, já sabemos – ou, pelo menos, imaginamos –, a sujeira envolvendo os bastidores de um eixo de poder tão influente no Brasil. Creio que Justino possa ser um filme bacana e correto, às vezes até corajoso, mas pouco informativo.

Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Thiago Novaes
Outra cinebiografia do 54º Festival de Cinema de Gramado, Chorão: Só os Loucos Sabem é o novo trabalho do diretor Hugo Prata (Elis, Ângela), que agora assina a direção ao lado de Thiago Novaes. Ambos fizeram, em 2009, Chorão: Marginal Alado, que conta a vida do vocalista da banda Charlie Brown Jr. em formato de documentário. Tenho imensa dificuldade com o cinema de Prata porque sua especialidade é o que hoje mais me causa exaustão: as cinebiografias de músicos. Esclareço que o problema não é o “gênero” exatamente em si, mas sim os cacoetes narrativos trabalhados sempre da mesma forma.
Chorão contempla tudo o que já podemos esperar de uma cinebiografia de caráter comercial: um punhado de músicas, o maior número de fatos possíveis acumulados na tela, o arco de ascensão e queda, as alegrias e agruras do anonimato ao sucesso, e por aí vai… Tomo a liberdade de não os comentar em detalhes para não me repetir. Até porque o problema maior do longa reside em elipses e saltos temporais muito mal trabalhados, o que contribui para a sensação de que o longa avança na cronologia com certa displicência, ainda que amparado pelo ajuste dos fatos para fins dramáticos.
Enquanto José Loreto dá o sangue em um papel com o qual está visivelmente comprometido (e pelo qual lutou para conquistar), o roteiro avança na vida do protagonista com buracos inexplicáveis. Há um momento, por exemplo, em que Chorão surge com um bebê no colo quando sequer sabíamos que ele tinha um relacionamento (até se casou!) e que a criança havia nascido. Também descobrimos que ele tem uma banda somente quando o grupo já está em estúdio. De onde veio essa vocação musical? Quem são essas pessoas que tocam com ele? Como seus caminhos se cruzaram? Omissões incompreensíveis para uma produção que, até para os padrões atuais das cinebiografias, fica aquém em construção dramática.

Leite em Pó, de Carlos Segundo
Os dois filmes que trilham caminhos completamente opostos aos de Justino e Chorão são Leite em Pó, de Carlos Segundo, e Nosso Segredo, de Grace Passô. Trata-se de uma dobradinha que conversa muito entre si porque seus respectivos cineastas apostam em narrativas cifradas, além de confiarem na capacidade de leitura de cada espectador. Não é coincidência, portanto, que os dois trabalhos tenham causado tanto debate em Gramado, provando que o estímulo ao improvável e ao inusitado só engrandece a reflexão cinematográfica.
Em Leite em Pó, temos Vinicius de Oliveira – o eterno Josué de Central do Brasil – na pele de Vicente, músico sem talento que, enfrentando uma perda pessoal, se vê obrigado a sair da sombra de quem partiu para tentar descobrir sua própria identidade. Sal, cocaína e cinzas frequentemente aparecem no filme, isso sem falar no leite em pó do título, simbolizando a dissolução de um personagem sem identidade e cuja busca por si talvez não tenha resultados concretos. Como uma colagem – e não como um quebra-cabeça –, o diretor Carlos Segundo, em seu longa de estreia, desenha um protagonista transeunte em todos os sentidos, emoldurando-o a partir de um luto que, na verdade, revela uma ausência mais potente do que a presença.
A seu próprio modo, Leite em Pó é um road movie, pois, na busca por entender quem é, Vicente encontra pelo caminho pessoas com algum tipo de significado para sua história. É o caso da personagem de Rejane Faria (Marte Um, A Melhor Mãe do Mundo), com quem ele se identifica na solidão e estabelece uma conexão olho no olho de amizade. Entre uma e outra apresentação musical desafinada, o protagonista conhece pessoas com sua outra profissão inusitada: a de vender álbuns de fotografias. Não deixa de ser simbólico para o próprio filme, que, com o protagonista ou com as pessoas que ele encontra cotidianamente, junta peças de uma vida, mesmo que, por vezes, incompletas ou borradas.

Nosso Segredo, de Grace Passô
Encerrando a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, Nosso Segredo também provocou Gramado com uma narrativa ainda mais metafórica e elaborada. Aliás, é impressionante o trabalho de Grace Passô como diretora em seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras. Ela, que vem do teatro e construiu prolífica carreira no cinema como atriz (Temporada, O Dia que te Conheci, No Coração do Mundo), apresenta raro domínio estético e cênico como cineasta, em uma das primeiras incursões mais interessantes do cinema brasileiro recente.
Passô escreve e dirige uma adaptação de Amores Surdos, sua premiada peça teatral, apresentada pela primeira vez no ano de 2012. Em cena, dentro das quatro paredes de casa, uma família tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de fazê-los enfrentar a dor e, juntos, descobrir um novo caminho. Acertadamente, a sinopse aponta para uma trama clássica, mas o que encontramos é algo atípico.
Ainda que, em uma perspectiva emocional, a identificação varie de espectador para espectador – eu admiro o resultado, mas não exatamente sou apaixonado por ele –, Nosso Segredo não deixa de impactar com seu refinamento técnico (destaque para o desenho de som e a trilha sonora original, ambos excepcionais), inclusive porque a casa habitada pela família é incorporada à história como elemento essencial para entendermos medos, dinâmicas e afetos. Trata-se de um exemplo impecável de como o teatro pode ser transposto para o cinema com outra linguagem e sem perder a essência.
Quando questionada no Festival de Gramado sobre o significado de um certo animal em cena, Passô respondeu que jamais responderia àquela pergunta. Admirei-a ainda mais, uma vez que ela endossa aquilo que Nosso Segredo defende na tela por meio de imagens: cinema é algo que só se completa com o olhar de quem está vendo, e não há respostas certas ou erradas para histórias que assumidamente passam a bola para o espectador. Em tempos de afirmações empacotadas por inteligências artificiais e o total desincentivo ao pensamento crítico inclusive no cinema, obras como Nosso Segredo reafirmam o poder proposital da alegoria e do indefinível.
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