Apostas para o Oscar 2021 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Naquele que é, possivelmente, o ano mais atípico em toda a trajetória do Oscar, não faltaram filmes para todos os gostos. A pandemia pode ter afetado o calendário da temporada, mas não a qualidade geral dos filmes selecionados, considerando as devidas proporções, claro. Há pelo menos três longas indicados na categoria principal que já moram no meu coração, algo realmente muito raro de acontecer: Nomadland, Meu Pai e O Som do Silêncio. Muito diferentes entre si, Minari e Judas e o Messias Negro são dois ótimos relatos que, da técnica à emoção, transitam entre a delicadeza e energia, respectivamente. No mais, ainda que eu não seja fã de Bela Vingança e muito menos menos de Mank e Os 7 de Chicago, fica nítido que os três filmes reúnem torcidas e entusiastas, especialmente o primeiro. Hoje à noite, a partir das 21h, saberemos qual deles leva a melhor. Tudo leva a crer que o jogo está ganho para Nomadland, assim como já esteve para Boyhood, La La Land, Três Anúncios Para Um Crime e 1917, todos derrotados de última hora no Oscar. Ou seja, é prudente não descartar uma possível surpresa na categoria principal, inclusive porque o sistema de votação do Oscar para melhor filme se distingue do processo das demais premiações.

Nomadland é o favorito absoluto da categoria de melhor filme. Entretanto, vale sempre considerar a capacidade da Academia de surpreender.

Como forma de aquecimento para a cerimônia, faço aqui o meu ligeiro balanço das categorias principais e técnicas, começando, claro, com melhor filme, uma categoria bastante harmônica, talvez uma das mais equilibradas dos últimos anos. O favorito, repito, é Nomadland, que não perdeu um prêmio sequer nesta temporada, seja em sindicados ou em premiações televisionadas. E é difícil discordar: o que Chloé Zhao faz nesse filme é de uma delicadeza imensa. Lindo de ver e de sentir, Nomadland constrói uma ficção de contornos documentais para refletir sobre o íntimo e o coletivo de pessoas que resolveram largar tudo para viver na estrada, refletindo a realidade de diversas questões políticas e sociais dos Estados Unidos que são perfeitamente identificáveis em todos os cantos do mundo. De sofisticação equivalente, Meu Pai de Florian Zeller foi a grande surpresa da lista por fazer algo raro de se ver: a transposição de uma peça de teatro para o cinema sem qualquer vício ou linguagem dos palcos. Seria justo — e não necessariamente surpreendente — se esse filme performasse melhor do que o esperado na cerimônia. No entanto, meu sinal de alerta é para Os 7 de Chicago, dirigido pelo adorado Aaron Sorkin e que atende todos os pré-requisitos do público que adora um filme mais acadêmico e comportado.

Se a categoria de melhor filme tem um favorito claro seguido de outras possibilidades, o mesmo não acontece em melhor direção, onde o jogo já está ganho para Chloé Zhao. É para apostar de olhos fechados: ela será, sim, a segunda mulher a vencer o Oscar de direção em quase 100 anos de Oscar, fazendo par com Kathryn Bigelow, vencedora em 2010 por Guerra ao Terror. Essa categoria nos reservou uma das mais gratas surpresas da lista — a indicação de melhor direção para Thomas Vinterberg (Druk: Mais Uma Rodada) —, mas, em uma realidade paralela, a minha seleção teria dois ajustes: a substituição de David Fincher (Mank) por Florian Zeller (Meu Pai) e a de Emerald Fennell (Bela Vingança) por Regina King (Uma Noite em Miami…). Já entrando nas categorias de atuação, temos outra barbada: Daniel Kaluuya como melhor ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro. Contesto radicalmente: Kaluuya está mais uma vez excelente, o que não justifica o redimensionamento de seu posto de protagonista a coadjuvante pelos prêmios, assim como acontece com o seu colega Lakeith Stanfield, também indicado. É preciso refutar esse tipo de fraude, o que me leva a torcer por Paul Raci com sua delicada performance em O Som do Silêncio. Situação semelhante de favoritismo vive Yuh-Jung Youn em melhor atriz coadjuvante com Minari. Além de ser uma coadjuvante — coisa que Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) e Olivia Colman (Meu Pai) não são —, ela dá um baile em Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho) e Amanda Seyfried (Mank).

Extraordinário em Meu Pai, Anthony Hopkins concorre a melhor ator. Caso aconteça, sua vitória seria uma das mais merecidas do Oscar 2021 (e das últimas décadas categoria).

Entre os protagonistas, a situação é mais embaralhada, quando não deliciosamente caótica, como é o caso de melhor atriz. Para quem chegou de última hora, a matemática explica: Andra Day (Estados Unidos vs. Billie Holiday) venceu o Globo de Ouro, Carey Mulligan (Bela Vingança) levou a melhor no Critics Choice, Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) se consagrou no Screen Actors Guild Awards, Frances McDormand (Nomadland) faturou o BAFTA e Vanessa Kirby traz na bagagem o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, que já antecipou prêmios como os de Olivia Colman (A Favorita) e Emma Stone (La La Land). É muito simples: faça unidunitê para fazer a sua aposta, pois todas têm narrativa para vencer nessa seleção bastante equilibrada. A versão que eu abraço é a de Frances McDormand, por ela estar maravilhosa em Nomadland, por ser o rosto absoluto do filme de Chloé Zhao e por protagonizar o grande favorito da temporada. Em melhor ator, o jogo parecia ganho até pouco tempo atrás para Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues), em um prêmio mais de homenagem do que de merecimento, mas as duas derrotas consecutivas que ele sofreu nas últimas premiações (BAFTA e Independent Spirit Awards) parecem abrir caminho para o vencedor moral da categoria: Anthony Hopkins, em desempenho extraordinário. Particularmente, antes de Boseman e como segundo na fila, ainda prefiro Riz Ahmed, que tem, em O Som do Silêncio, uma virada de jogo na carreira.

Inclinado pela minha afeição a Meu Pai, acredito que a vitória de Anthony é possível porque também me parece que o filme de Florian Zeller tem chances em outras categorias, como melhor roteiro adaptado, uma vez que a adaptação é mesmo fantástica e que talvez os votantes entendam que o roteiro de Nomadland seja mais fruto do acaso e das histórias de pessoas reais que aparecem no filme do que de uma escrita de Chloé Zhao. Enquanto isso, em melhor roteiro original, Emerald Fennell deve receber a estatueta por Bela Vingança, garantindo a cota do filme na tendência distributivista adotada pelo Oscar nos últimos anos. Entretanto, vale sempre a pena ficar de olho em Aaron Sorkin (Os Sete de Chicago), autor de um roteiro que cai como uma luva para o gosto dos votantes mais conservadores da Academia. Por falar em tendência distributivista, outras categorias já parecem definidas, como melhor figurino e melhor cabelo e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, melhor trilha e melhor animação para Soul, melhor filme internacional para Druk: Mais Uma Rodada, melhor fotografia para Nomadland e melhor som para O Som do Silêncio. Nas demais, jogo dividido entre candidatos específicos, o que exige nossa intuição na hora de apostar. Enfim, era isso! Nos vemos logo mais para comentar os vencedores? Não esqueçam de me seguir no Twitter (@mathpann) onde comentarei a cerimônia ao vivo. Espero vocês!

APOSTAS

MELHOR FILME: Nomadland / alt: Os 7 de Chicago
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland) / alt: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland) / alt: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai) / alt: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari) / alt: Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro) / alt: Paul Raci (O Som do Silêncio)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança) / alt: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai) / alt: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca) / alt: Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo / alt: Crip Camp: Revolução Pela Inclusão
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul / alt: Wolfwalkers
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul) / alt: Emile Mosseri (Minari)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo) / alt: Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth, por “Speak Now” (Uma Noite em Miami…
MELHOR MONTAGEM: Alan Baumgarten (Os 7 de Chicago) / alt: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank) / alt: Peter Francis (Meu Pai)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland) / alt: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues) / alt: Trish Summerville (Mank)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio) / alt: Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues) / alt: Dalia Colli, Francesco Pegoretti e Mark Coulier (Pinóquio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet) / alt: Chris Lawrence, David Watkins, Matt Kasmir e Max Solomon (O Céu da Meia-Noite)

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