“Pieces of a Woman”: do início ao fim, um drama realista e doloroso sobre o luto materno

I lifted my head. That’s what I’m asking you to do now.

Direção: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Steven McCarthy, Tyrone Benskin, Frank Schorpion, Harry Standjofski

EUA/Canadá/Hungria, 2020, Drama, 126 minutos

Sinopse: Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo. (Adoro Cinema)

Como espectadores, fomos acostumados a esperar que o grande ato de um filme se situe, por razões óbvias, no recorte final da trama, quando respostas finalmente são dadas ou quando o desfecho, mesmo que inconclusivo, é capaz de fazer conexões simbólicas ou emocionais para que tudo o que vimos até ali encontre o seu propósito. Vou além ao instintivamente teorizar que o grande ato de um filme também pode ser um momento poderoso, um pico inesperado ou uma sequência de fatos envolventes e fascinantes estejam onde eles estiverem na linha temporal da trama. E aí me pego pensando: o que acontece quando esse grande ato está, por exemplo, no início de um filme, como acontece em Pieces of a Woman? A resposta é tão simples quanto injusta: tudo o que vem depois acaba subvalorizado pelo público. Aceitamos que um longa-metragem compense todos os seus defeitos prévios com um final capaz de superar expectativas, mas, quando um relato começa no seu ápice para depois trilhar caminhos menos poderosos, o nosso veredito de que o filme falha em preservar as expectativas criadas é imediato, como se ele tivesse a obrigação de alcançar o seu máximo do início ao fim, uma tarefa basicamente impossível. Trata-se de uma reação naturalmente instintiva e que, entretanto, deveria nos exigir um trabalho maior de reflexão, pois, no caso de Pieces of a Woman, ela desvaloriza outros aspectos bastante interessantes de um relato que analisa o luto materno com franqueza e pungência.

Adquirido pela Netflix após exibição no último Festival de Veneza, onde a protagonista Vanessa Kirby se saiu vitoriosa com a Volpi Cup de melhor atriz, Pieces of a Woman começa indiscutivelmente majestoso, com uma longa sequência de mais de 30 minutos que retrata o momento em que Martha (Kirby) entra em trabalho de parto na própria casa, local escolhido por ela para que a filha nascesse. Contudo, o tão sonhado momento vira pesadelo quando — e isso já está explícito na própria sinopse — a filha não sobrevive e Martha se vê obrigada a enfrentar um luto materno antes de sequer ter aprendido o que é ser mãe. A abertura é marcante por mostrar todo o processo de um parto natural com imensa verossimilhança. Não há espaço para glamourização aqui: em tempo real, o diretor húngaro Kornél Mundruczó, a partir de um roteiro de sua esposa Kata Wéber, retrata o parto como um momento difícil e exaustivo, onde a mulher se vê vulnerável e indefesa, amparada por uma figura masculina que, apesar das boas intenções, é quase inútil nesse momento. Funciona como uma imediata imersão no universo emocional da personagem que acompanharemos por todo o filme e como um excelente exemplo da direção equilibrada entre economia e emoção de Mundruczó, inclusive no que se refere à condução dos atores, uma vez que é particularmente formidável o trabalho de Molly Parker como a parteira de Martha. Entre a delicadeza e a angústia de uma mulher responsável por aquele parto, é através de todas as inflexões e expressões da atriz que entendemos cada movimento em cena.

Após esse prólogo, Pieces of a Woman avança para o dia em que a protagonista começa a retomar algum tipo de rotina. Sua via crucis, no entanto, continua: da discussão em torno do que será feito com o corpo do bebê até os sufocantes abraços de compaixão que recebe de conhecidos, Martha se blinda de tudo e de todos para tentar manter o mínimo de equilíbrio interno diante de um momento tão inimaginável. Para ela, essa parece ser a única saída diante de seus próprios fantasmas, enquanto todos a sua volta acham que, por evitar lágrimas e sofrimentos públicos, Martha não está sofrendo o suficiente pela filha perdida. A patrulha em cima do sofrimento alheio é uma das discussões centrais de Pieces of a Woman, já que não são apenas os olhares estranhos no trabalho e na rua que a protagonista precisa administrar, mas também o temperamento controlador de uma mãe decidida a assinar até mesmo os cheques de trâmites funerários e a desestabilização emocional de um marido que, através de discussões cotidianas e da tentativa de relações sexuais estranhas e forçadas, tenta extrair da esposa os estímulos esperados. Ao mostrar a figura masculina fragilizada e a feminina impenetrável, Mundruczó traz uma importante e atualíssima provocação sobre o peso que a sociedade coloca nos ombros das mulheres e das mães, sempre julgadas pela maneira com que externalizam um tipo de sofrimento que, em circunstância alguma, deveria ser alvo de questionamentos.

As reflexões propostas por Pieces of a Woman passam pela própria história de vida do diretor e da roteirista. Casados há vários, Mundruczó e Kata Wéber perderam um bebê enquanto ela ainda estava grávida, e a escrita do roteiro se deu para ela como um processo de cura e terapia após o trauma. Há, portanto, o chamado de lugar de fala porque Wéber transpõe para o roteiro questões que ela viveu na pele. Afinal, o quanto falamos sobre o luto e sobre os dolorosos espectros da maternidade? Ou de onde vem a nossa obsessão em tentar encontrar algum tipo de compensação – judicial, financeira, midiática – para vivências tão acidentais e aleatórias quanto a morte? O longa é certeiro e equilibrado no tocante a essas discussões centradas no universo feminino, o que já não pode ser dito quando o roteiro se volta para Sean, o marido interpretado por Shia LaBeouf. Por si só, o personagem já é consideravelmente menos interessante do que a protagonista vivida por Vanessa Kirby, e a sua subtrama com a personagem de Sarah Snooke (a Siobhan do ótimo seriado Succession) não colabora para a unidade do drama, tanto por soar descartável quanto por não ter maiores conclusões. Nesse sentido, a atenção dada à mãe de Martha surte melhor efeito. Não é o caso de uma personagem notável — inclusive porque suas aparições são pequenas e, por vezes, cíclicas —, mas a escalação da grande Ellen Burstyn eleva a presença da personagem, colocando-a como uma peça bastante interessante na composição da história.

Sem ter vivido a experiência materna na vida real, Vanessa Kirby assistiu a diversos documentários e a partos em hospitais de Londres para entender a dimensão do episódio que dá origem aos conflitos de sua personagem. E ela se sai maravilhosamente bem. Não é porque sua Martha toma distância de tudo e de todos (inclusive dela própria) que nada acontece internamente, o que Vanessa compreende com perfeição. Esse complexo contraste entre o interno e o externo é trabalho dos mais difíceis e se resolve com excelência na interpretação da atriz, cuja beleza e juventude contribuem para o retrato dessa mulher tão precocemente calejada e despedaçada pela vida. O estado enclausurado com que ela incorpora os choros represados e a inabilidade em retomar qualquer normalidade do cotidiano é verossímil e alinhado com o melhor de Pieces of a Woman, um filme que vai na contramão dos retratos clássicos sobre o luto e que nunca se entrega ao mero voyeurismo do sofrimento alheio. Afinal, a perda de uma filha já carrega elementos trágicos por si só. Inexplicavelmente lançado no Brasil sem título em português, o trabalho de Mundruczó tem seus tropeços, como os personagens e as subtramas que, na tentativa de ampliar o espectro dramático, soam como tentativas incompletas. E há, sem dúvida, para muitas pessoas, os 30 minutos iniciais tão comentados por darem uma tração que o restante do longa não consegue manter. Entretanto, comparados ao que Pieces of a Woman tem de melhor, como a performance de Vanessa Kirby e a reflexão sobre o luto materno, são aspectos menores e que não deveriam abalar o valor deste filme bonito e doloroso.

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