“Blackbird”: entre prós e contras, discrição do cinema dinamarquês é preservada em remake estrelado por Susan Sarandon

Can we all behave as normally as possible?

Direção: Roger Michell

Roteiro: Christian Torpe, baseado no longa-metragem “Coração Mudo”, de Bille August

Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Rainn Wilson, Lindsay Duncan, Anson Boon, Bex Taylor-Klaus

EUA/Reino Unido, 2019, Drama, 97 minutos

Sinopse: Três gerações de uma família se encontram na casa da matriarca para um fim de semana. Doente terminal, ela está decidida a acabar com sua vida naquele domingo e, por isso, deseja dar o adeus final a seus entes mais queridos. Enquanto o fim de semana progride, antigos conflitos voltam a atormentá-los.

Não há escapatória: lançado qualquer remake estadunidense de uma obra de língua não-inglesa, público e crítica sempre tecerão comparações sobre o quanto se perdeu ou o quanto se preservou na transposição de um idioma a outro e, principalmente, de um mercado a outro. É um movimento muito orgânico, visto que, em quase todos os casos, as culturas e as cinematografias são tão opostas que o sentido de uma história pode ser reinterpretado. Mais do que isso, há casos em que, à parte o resultado do remake como um trabalho isolado, essa discussão comparativa é central, como foi para mim neste Blackbird, que adapta o drama dinamarquês Coração Mudo e que, apesar de ter estreado no Festival de Toronto, ganhou distribuição limitadíssima nos cinemas norte-americanos, também amargando repercussão quase nula junto à crítica especializada.

Protagonista do filme, Susan Sarandon chegou a alegar que parte dos problemas envolvendo a repercussão do projeto veio da constatação de que o público têm pouco interesse em filmes estrelados por atrizes de idade avançada (no último mês de outubro, ela completou 74 anos de idade). Susan não deixa de ter razão. Contudo, é inegável o problema de que que determinados estilos de narrativas são mais efetivos em algumas cinematografias do que outras. Talvez com receio de não descaracterizar o material original, Blackbird tenta preservar o espírito econômico e sóbrio de Coração Mudo, inclusive trazendo o mesmo roteirista para a refilmagem. Se há algo que o diretor Roger Michell claramente não quis fazer foi dar uma roupagem norte-americana à trama dinamarquesa.

A escolha de Michell revela uma respeitosa e bem-vinda reverência ao longa de 2014, mas, quando não se abre algum espaço para reinterpretações, o resultado é apenas uma repetida encenação e não uma verdadeira adaptação. Claro que o sucesso ou o fracasso comercial de um filme não deve servir como parâmetro de sua qualidade isolada. Ainda assim, diz muito um filme como Blackbird passar em branco mesmo com um público mais específico e até com a própria crítica. E o que imagino é isso: por reproduzir o estilo discreto do cinema dinamarquês para tema tão difíceis, o longa pouco se conecta com as plateias norte-americanas, que, ao lerem a sinopse, devem ter imaginado um lacrimoso melodrama sobre doenças terminais e o fim da vida, como no novelesco Duas Semanas estrelado por Sally Field, citando um título de premissa semelhante.

Ao preservar características do material original, Blackbird acerta em não tornar novelesca a condição de sua protagonista. Afinal, são infinitos os dramas protagonizados por mães que descobrem uma doença terminal e que, ao se depararem com a finitude da vida, reavaliam toda sua existência junto a entes queridos perto do inevitável fim. Blackbird recusa tudo isso logo nas linhas gerais: o espectador já começa a sessão sabendo sobre o quadro irreversível de Lily (Sarandon), sem passar pelos clássicos rituais de diagnósticos e exames, e também sobre a decisão de que ela, convencida a fazer o que for preciso para não se tornar uma inválida, dará um fim à própria vida por meio de um suicídio assistido já informado para toda a família. Direto ao ponto. E sem desespero.

É excelente Blackbird nos poupar de todas as discussões filosóficas, éticas e morais sobre morte e eutanásia, pois, ao fugir do óbvio, o filme se propõe a trazer novos olhares para temas recorrentes e até a entregar um papel mais interessante para uma atriz como Susan Sarandon, que já deu vida a todo tipo de sofrimento com os toques dramáticos de Hollywood (morte do filho em Vida Que Segue e Em Busca de Uma Nova Chance, corredor da morte em Os Últimos Passos de Um Homem, câncer em Lado a Lado, a busca pela cura de uma doença em O ÓIeo de Lorenzo…). Com o que recebe neste remake, ela trabalha a melancólica serenidade de uma mulher que tem poder de decisão sobre a sua própria existência e que está em paz com os seus últimos dias de vida. Sem uma cena de choro sequer, Sarandon, que assumiu o papel previsto para Diane Keaton, segue à risca a sobriedade do texto, engrandecida por seus olhos marcantes e que, por serem tão expressivos e darem a impressão de que guardam todo um universo, servem com perfeição a uma personagem interiorizada em sentimentos.

Do início ao fim, o diretor Roger Michell compreende a necessidade de tentar fugir minimamente da cartilha do gênero, mesmo que sua vocação como realizador o faça cair em algumas armadilhas aqui e ali: tendo conquistado o coração de incontáveis plateias nos anos 1990 com a comédia romântica Um Lugar Chamado Notting Hill e realizado comédias de viés comercial como Uma Manhã Gloriosa, Michell parece não fazer muita questão de resistir quando o roteiro lhe permite explorar emoções de forma expositiva. É o caso dos tons dados a uma descoberta feita pela personagem de Kate Winslet sobre o seu pai, assim como a insistência em colocar duas irmãs de personalidades tão opostas em confronto. Claro que são plots presentes no roteiro de Christian Torpe, mas a encenação folhetinesca de Michell em ambos os casos traz um significativo descompasso para um filme que, no geral, tenta não se render ao excesso.

Sublinhando eventuais irregularidades de tons está a escalação equivocada de pelo menos duas atrizes em um elenco repleto de bons atores. A primeira é a de Kate Winslet, que poucas vezes esteve tão insípida como aqui. Como a primogênita certinha e responsável, falta a Kate algum tipo de química entre ela e outros colegas, como o próprio Rainn Wilson, seu deslocado par romântico. Já a segunda é um pouco mais problemática: a de Mia Wasikowska como a irmã caçula da família (e a única verdadeiramente incomodada com o suicídio assistido da mãe). Mia novamente vez investe na repetição do tipo choroso, difícil e por vezes antipático que passou a dominar sua carreira. Ela é excelente atriz (como esquecer dos episódios arrasadores de In Treatment?), e por isso é frustrante constatar como isso não vem sendo refletido nos últimos anos.

Apesar das irregularidades, a inspiração na sobriedade dinamarquesa não deixa de dar musculatura ao balanço final de Blackbird. E repito que todos os momentos interessantes recaem sobre Susan Sarandon, uma atriz que, inclusive por seus posicionamentos políticos, não costuma receber papeis estimulantes como esse com a devida frequência. Não é o tipo de personagem que marca uma filmografia, mas que com certeza simboliza o avesso ao óbvio em tempos em que tudo passou a ser tão expositivo e mastigado para o espectador. Sem data prevista para chegar ao Brasil, seja nas salas de cinema ou em plataformas de streaming, Blackbird também deve ser varrido para debaixo do tapete por aqui. É um destino no mínimo decepcionante para um longa que, mesmo com seus altos e baixos como adaptação, não merecia passar completamente em branco.

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