Leontina

La primera vez que vi a mi abuela llorar fue cuando mis tios, primos y yo comenzamos a irnos. Observe su cara y encontré mi vejez.

Direção: Boris Peters

Roteiro: Boris Peters e Roberto Aschieri

Chile, Documentário, 2011, 70 minutos

Sinopse: Um documentário sobre Leontina Miranda Sandoval, uma mulher que viveu isolada no sul do Chile durante 82 anos. Separada da sua família e sem conexão com a modernidade, ela viveu sozinha em seu próprio mundo. O filme revela suas memórias, intimidades e sua visão do mundo. Uma homenagem do neto de Leontina, que resolveu contar a história de sua vó.

Leontina é um dos mais belos documentários dos últimos anos. Dirigido por Boris Peters com devida formalidade e afetividade, o longa chileno é um relato muito pessoal de seu autor: durante pouco mais de uma hora, acompanhamos o retrato feito por ele do cotidiano de sua solitária avó. Ao despi-la – literalmente – de qualquer vaidade, Peters fala também sobre as dores do envelhecimento, os repetitivos ciclos de uma rotina isolada e a triste possibilidade de uma vida sem sonhos. Só que nada em Leontina é encenado demais ou enfadonho. Durante cada minuto do documentário, percebemos que o resultado é genuíno e, acima de tudo, humano.

Logo nos primeiros minutos, é possível perceber que o documentário não tem qualquer amarra com os convencionais formatos do gênero: nada de entrevistados dando depoimentos frente às câmeras ou narrações em off, por exemplo. Leontina fala através de imagens e, a exemplo de Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, tem a trilha sonora como fator essencial para definir sua cadência. É dessa forma que os planos detalhes nas envelhecidas mãos de Leontina dizem muito mais do que qualquer outro documentário conseguiria dizer através de entrevistas. As cenas em que coloca sua avó pequena diante da grandiosa paisagem chilena também são um dos pontos altos da direção de Boris Peters.

É muito fácil conferir Leontina e lembrar do excepcional Direito de Amar, pois ambos utilizam uma ótima combinação de trilha e imagem para expressar a solidão de um protagonista. Aqui no longa chileno, portanto, o compositor Jorge Aliaga merece todos os aplausos do mundo por criar uma trilha que beira a perfeição e que, em muitos momentos, é a responsável por boa parcela das emoções do longa. Tudo isso resulta em um documentário que joga com os limites do gênero, que convida o espectador a uma experiência que foge do convencional e que já se diferencia pela proposta mais afetuosa do que formal. Antes de tudo, nós sentimos a solidão e a desesperança da personagem.

O que pode ser um pouco frustrante em Leontina é a forma como o filme tem vários finais, deixando a sensação de que poderia ter acabado em diversos momentos – algo que termina por quebrar o ritmo do longa e a beleza das cenas que o encerrariam com perfeição. No entanto, é apenas um pequeno detalhe dessa experiência cheia de lirismo contada com uma dose de afetividade poucas vezes vista no gênero. É de se admirar a coragem do diretor Boris Peters ao retratar alguém de sua família de forma tão intensa e sincera. Com isso, qualquer um que assistir ao filme conseguirá sair da sessão no mínimo tocado por essa homenagem de Peters à sua vó. Afinal, mais do que um filme, Leontina é uma declaração de amor.

FILME: 9.0

Exibido no 40° Festival de Cinema de Gramado

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